Apresentação

Página do Professor Dr. Cônego José Adriano, professor no Centro Universitário Assunção, emérito da cadeira de Teologia Moral na Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, da Arquidiocese de São Paulo.

Nela você encontrará: artigos, pesquisas, cursos e reflexões produzidos ao longo da estadia na academia.

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Igreja

A.     SAGRADA ESCRITURA

Em grego, Igreja é EKKLÈSIA que vem do verbo Ek-kalen e significa CONVOCAÇÃO

O capítulo 19 do livro do Êxodo mostra como o povo é convocado numa ASSEMBLÉIA, no monte Sinai, para receber a Lei de Deus.

Assim, Igreja é, primeiramente, convocação do povo para, reunido em assembléia, ser instruído pela Palavra de Deus. Não é, portanto, qualquer povo, mas o Povo da Aliança, o Povo de Deus.

Em grego essa assembléia é chamada também de KIRIAKÈ que significa “a que pertence ao Senhor”, isto é, o povo reunido que tem um Senhor! O Povo do Novo Testamento – a Igreja – se reúne em torno do Senhor Ressuscitado.

Assim, as principais características que definem a Igreja são:

a)      Assembléia Litúrgica: “Na Assembléia prefiro dizer cinco palavras com a minha inteligência, para instruir também outros, a dizer dez mil palavras em línguas” (1Cor 14,19).

b)      Comunidade Local: “Paulo, chamado a ser Apóstolo de Cristo por vontade de Deus, e Sóstenes, o irmão, à Igreja de Deus que está em Corinto…” (1Cor 1,2)

c)      Comunidade Universal: “Vós sois a raça eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo de sua particular propriedade” (1Pd 2,9)

B.     IMAGENS DA IGREJA

Vida Agraria

a)      Campo, Lavoura de Deus: “Vós sois a seara de Deus, o edifício de Deus” (1Cor 3,9)

b)      Vinha: “Havia um proprietário que plantou uma vinha, cercou-a com uma sebe, abriu nela um lagar e construiu uma torre” (Mt 21,33)

Vida Pastoril

a)      Redil: “Em verdade, em verdade, vos digo: quem não entra pela porta do redil das ovelhas, mas sobe por outro lugar, é ladrão e assaltante; o que entra pela porta é o pastor das ovelhas” (Jo 10,1-2).

b)      Rebanho: “Como um pastor apascenta ele o seu rebanho, com o seu braço reúne os cordeiros, carrega-os no seu regaço, conduz carinhosamente as ovelhas que amamentam” (Is 40,11);  “Eu sou o Bom Pastor: o bom pastor dá sua vida por suas ovelhas” (Jo 10,11); “Apascentai o rebanho de Deus que vos foi confiado, cuidando dele ….como modelos do rebanho” (1Pd 5,2-3).

Construção/Edificação

a)      Edificação: “Vós sois a seara de Deus, o edifício de Deus” (1Cor 3,9).

b)      Pedras Vivas: “também vós, como pedras vivas, constituí-vos em um edifício espiritual” (1Pd 2,5)

c)      O alicerce é Jesus: “A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular…” (Mt 21,42); “Quanto ao fundamento, ninguém pode colocar outro diverso do que foi posto: Jesus Cristo” (1Cor 3,11)

d)      Casa de Deus/Família: “Já não sois estrangeiros, mas concidadãos dos santos e membros da família de Deus. Estais edificados sobre o fundamento dos Apóstolos e dos profetas, do qual é Cristo Jesus a pedra angular. Nele bem articulado, todo o edifício se ergue em santuário sagrado, no Senhor, e vós, também, nele sois co-edificadores para serdes uma habitação de Deus, no Espírito.

e)      Tenda de Deus: “Eis a tenda de Deus entre os homens. Ele habitará com eles; eles serão o seu povo, e ele, Deus-com-eles, será o seu Deus” (Ap 21,3)

f)        Cidade Santa: “…monstrou-me a Cidade Santa, Jerusalém, que descia do céu, de junto de Deus, com a glória de Deus” (Ap 12,10); “Vi descer do céu, de junto de Deus, a Cidade Santa, uma Jerusalém nova… (Ap 21,2)

Família

a)      Nossa Mãe: “A Jerusalém do alto é livre e é nossa mãe” (Gl 4,26)

b)      Esposa: “Alegremo-nos e exultemos, demos glória a Deus, porque chegou o tempo das núpcias do Cordeiro, e sua Esposa já está pronta” (Ap 19,7); “Vi descer do céu, de junto de Deus, a Cidade Santa, uma Jerusalém nova, pronta como uma esposa que se enfeitou para o seu marido” (Ap 21,2); “Vem, vou mostrar-te a Esposa do Cordeiro…” (Ap 21,9).

Assim, fundada por Jesus na Cruz[1], a IGREJA é continuada e edificada pelos APÓSTOLOS. Os DOZE Apóstolos são a prefiguração das doze tribos de Israel e, ao mesmo tempo, os fundamentos da NOVA JERUSALEM: “…A muralha da cidade tem doze alicerces, sobre os quais estão os nomes dos doze Apóstolos do Cordeiro” (Ap 21, 14). Sustentada pelo Espírito Santo (Cf. LG 4) a Igreja é a Nova Jerusalém, morada de Deus entre os homens!

C. TEOLOGIA DA IGREJA (ECLESIOLOGIA)

A relação entre Cristo e a Igreja é Mistério (Cf. Ef 5,32) oculto desde os séculos em Deus, criador de todas as coisas (Cf. Ef 3,9). Cristo, ao revelar seu segredo mais íntimo, revela também a Igreja como seu povo, seu corpo e sua esposa querida. Mistério diz respeito à Trindade: Deus é comunhão de Pessoas (Pai, Filho e Espírito). Assim deve ser também na Igreja: comunhão de fé, amor e vida.

A Igreja é Povo de Deus

a)      Em Cristo, Deus adquiriu para si um Povo. Esse Povo é “raça eleita, sacerdócio régio, nação santa” (1Pd 2,9). É o Povo da Nova Aliança.

b)      Esse povo possui características próprias:

Ø  Nele se entra pelo Batismo

Ø  Os membros desse povo possuem dignidade de Filhos de Deus

Ø  Esse povo é conduzido pela Lei do Amor  (Cf. Jo 13, 34-35)

Ø  Sua missão é ser Sal da Terra e Luz do Mundo  (Cf. 5,13-16)

Ø  Sua meta é o Reino de Deus

Ø  É um povo crente: crê e confia unicamente em Deus, por Jesus, no Espírito.

A Igreja é Corpo de Cristo

a)      Características desse Corpo:

Ø  Possui unidade. O corpo para viver deve estar unido à cabeça. Assim, o primeiro modo de falar da unidade é considerar Cristo unido intimamente a sua Igreja. A Unidade do corpo obriga, também, a unidade dos membros entre si. Embora sejam diversos e diferentes, os membros do corpo obedecem a uma mesma cabeça. Assim somos nós: membros do corpo místico de Cristo, no qual não há divergência: “Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher; pois todos vós sois um só em Cristo Jesus.

Ø  Cristo é a cabeça do Corpo: O Apóstolo Paulo, escrevendo aos Colossenses, afirma: “Cristo é a cabeça do Corpo que é a Igreja” (Cl 1,18). Assim, não Igreja sem Cristo, como não há corpo vivo sem cabeça.

Ø  A Igreja é a Esposa de Cristo: Na Bíblia, a relação íntima entre Cristo e a Igreja é retratada sob a forma de um casamento. A Igreja é a esposa imaculada do Cordeiro (Cf. Ap 22,17). Jesus é o seu Esposo fiel (Cf. Mc 2,19). É preciso que a Igreja testemunhe na sua ação pastoral e na sua liturgia que a vida em Cristo, na Igreja, é uma verdadeira festa: “Alegremo-nos e exultemos, demos glória a Deus, porque chegou o tempo das núpcias do Cordeiro, e sua esposa já está pronta…” (Ap 19,7).

Ø  O Espírito Santo é a alma da Igreja: Todo corpo vivo tem uma alma, por isso, podemos dizer que o Espírito Santo é a alma da Igreja, seu dinamismo e sua força. Ele conduz a Igreja, em Cristo, pelos caminhos do mundo rumo ao Pai.

D. NOTAS DA IGREJA

Chamamos de “Notas” as quatro principais características da Igreja: Una, Santa, Católica e Apostólica.

1. A Igreja é UNA

A unidade brota do coração de Cristo. É desejo de Deus, já realizado na esperança: Um só batismo, um só corpo, um só Espírito, um só povo…

a)      A unidade com Cristo e com o Pai:  “…que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim e eu em ti; que eles estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17,21)

b)      Unidade entre todos os seres humanos: “Tenho outras ovelhas que não são deste aprisco: devo conduzi-las também e ouvirão a minha voz e haverá um só rebanho e um só pastor” (Jo 10,16)

2.      A Igreja é SANTA

a)      Cristo, pelo Espírito Santo, santifica a Igreja: “… Cristo amou a Igreja e se entregou por ela, a fim de purificá-la com o banho da água e santificá-la pela Palavra” (Ef 5,26). Santificada por Cristo, ela tem a missão de santificar o mundo.

b)      Os membros da Igreja são chamados “santos”: “… ouvi de muitos, a respeito desse homem, quanto mal fez a teus santos em Jerusalém” (At 9,13); “Então não sabeis que os santos julgarão o mundo?” (1Cor 6,3); “Quanto à coleta em favor dos santos, segui também vós as normas que estabeleci para as igrejas da Galácia” (1Cor 16,1).

Sabemos que a santidade da Igreja é imperfeita. Ela é “santa e pecadora”. O pecado, porém, deve ser vencido pela conversão do coração e pela prática da caridade. Caridade e Santidade são, por assim dizer, faces da mesma moeda. O Catecismo da Igreja Católica afirma que a santidade é a fonte secreta do testemunho e da missão da Igreja.

3.      A Igreja é CATÓLICA

a)      a Igreja é Católica porque foi enviada à universalidade do gênero humano: “Ide, portanto, e fazei que todas as nações se tornem discípulos, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e ensinando-as a observar tudo quanto vos ordenei. E eis que eu estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos!”  (Mt 28,19). Assim, por meio da Igreja, a salvação é destinada a todos.

b)      a Igreja é Católica porque Cristo está totalmente nela: “Tudo Ele pôs debaixo dos seus pés, e o pôs, acima de tudo, como Cabeça da Igreja, que é o seu Corpo: a plenitude daquele que plenifica tudo em todos” (Ef 1,22-23). Assim, Cristo é o único mediador da salvação e a Igreja é o seu Corpo Místico.

4.      A Igreja é APOSTÓLICA

a)      a Igreja é Apostólica porque foi fundada por Cristo sobre o fundamento dos Apóstolos: “Estais edificados sobre o fundamentos dos Apóstolos e dos Profetas, do qual o Cristo Jesus é a Pedra angular” (Ef 2,20).

b)      a Igreja é Apostólica porque transmite com fidelidade a mesma mensagem de Jesus que os Apóstolos transmitiram.

c)      A Igreja é Apostólica porque continua sendo dirigida e ensinada pelos sucessores dos Apóstolos em comunhão com o Bispo de Roma, que é o Papa.

Bibliografia: Novo Catecismo, nº  748 a nº  870

Côn. Dr. José Adriano

 


[1] “Do lado aberto de Cristo, nasce a sacramentalidade da Igreja” (LG 3)

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Momentos de Reflexão

Momento primeiro:

Estamos no caminho, somos viajantes do tempo. Nesse caminho nos encontramos, nos personalizamos, crescemos: encontramos-nos com Cristo, crescemos até sua estatura, tornamo-nos ícones seus. Padre Teilhard chamava isso de “subida da consciência”.

De fato, dizia ele, somos como “flechas” atiradas rumo ao futuro, rumo ao “ponto ômega” que é Jesus Ressuscitado. Não há como retroceder. Nossa felicidade está em ir “sempre para frente”. Mas nesse projetar-se para frente que é também uma ascensão, não podemos errar o caminho: o caminho que nos leva ao processo da unificação (ou seja, da personalização). Devemos respeitar, pelo menos, três fases desse processo:

 1.      Centrar-se sobre si mesmo (auto-conhecimento para uma auto-doação)

2.       Ex-centrar-se sobre o outro (unir os outros no amor, colocar o centro fora de si)

3.      Super-centrar-se sobre alguém maior que ele (Jesus Cristo, adoração, louvor)

Quanto ao Centrar-se: organizar seu centro pessoal, sua vida interior, sua espiritualidade, seu Eu mais íntimo. Organizar seu mundo material, social, moral, espiritual; organizar as idéias, os sentimentos, a conduta. Em tudo buscar os bens mais elevados, isto é, organizar-se em torno de uma hierarquia de valores (muitos vivem, doentiamente, querendo organizar a vida dos outros, da comunidade, do seminário, da diocese e até do bispo…) . Guardar essa verdade: “Ser é antes de tudo se encontrar”.

Quanto à Ex-centração: saber como um átomo capaz de abrir-se e unir-se aos outros átomos, seus semelhantes. Não podemos progredir até o fim de nós mesmos sem sairmos de nós mesmos e sem unirmo-nos aos outros. Daí a exigência e o sentido profundo do amor que, sob todas as suas formas, nos leva a associar nosso centro pessoal com outros centros escolhidos e privilegiados. Guardar essa verdade: “O amor se realiza em relação ao outro; quando seu centro é o outro”.

Quanto a Super-centração: atraídos por um pequeno número de afeições privilegiadas, o movimento de expansão e de ascensão não pára mais, ao contrário, nos absorve e nos impulsiona para uma Totalidade Organizada nela mesma, Absoluta e Eterna. Um Centro de ordem superior nos espera além e acima de nossos centros pessoais. Guardar essa verdade: “O centro fora de mim e fora do meu irmão, totalmente outro, é Deus”.

Daí se depreende três degraus encadeados em nosso caminho:

·        Ser, antes de tudo.

·        Depois, amar;

·        Finalmente, adorar

São, ao mesmo tempo, três degraus superpostos de felicidade:

·        Felicidade de crescer pela descoberta e unificação de nós mesmos.

·        Felicidade de amar pela união de nosso ser com os outros seres, iguais, semelhantes.

·        Felicidade de adorar pela subordinação alegre de nossa vida a Alguém maior que nós!

Três regras gerais para ser feliz, hoje, na realidade em que Deus me colocou:

·        Reagir contra a tendência para o menor esforço que nos faz ficar no mesmo lugar. A renovação da nossa vida não é possível numa agitação meramente exterior. É no afã de nossa perfeição interior, intelectual, artística, moral, social, espiritual, que a felicidade nos espera. Nansen, explorador do Pólo Norte, afirmou que “a coisa mais importante da vida é encontrar-se a si mesmo”, isto é, o espírito laboriosamente construído através e além da matéria.

·        Reagir contra o egoísmo. Há um modo de amar, estéril e degradante, pelo qual procuramos possuir, em vez de nos doar. O único amor verdadeiro é aquele que se realiza no progresso em comum (a exemplo da pericorese trinitária).

·        Transportar o interesse final de nossa vida para a marcha e o êxito do mundo: é preciso colocar o pólo da vida naquele que é maior do que nós: Deus. É preciso que, conscientes, façamos com perfeição e com alegria a menor das coisas. Ousar fazer sempre o melhor, dar de si sempre o melhor, buscar a excelência em tudo: ser claro na doutrina, honesto no testemunho, abnegado no serviço, campeão na fé, justo, misericordioso…

Momento segundo

A) EU, presente à minha história

Para além da “periferia” em que vivo a todo o momento, interiorizar minha existência:

Meu passado: o que marcou: sofrimentos e alegrias fortes, minhas limitações, minhas capacidades, minha família, minha formação, minhas atividades.

Saldo negativo: Impressão de miséria e pobreza existencial.

Meu presente: o tempo vai passando e não sou o que desejo ser. Ignorância, improdutividade. Impressão de vazio e frustração, apesar de algumas realizações, mas que, afinal, são bem pequenas.

Meu futuro: esperanças, sonhos e temores. Como será o dia de amanhã? Não sei. No fundo, grande mistério e forte desejo de ser feliz.

ORAÇÃO: “Sou um homem fraco, cuja existência é breve” (Sb. 9,5)

B) OS OUTROS, presentes em mim.

* Os que estão agora mais perto de mim: meus companheiros;

* Os que estão mais profundos no meu ser: família, amigos;

* Os mais recentes em minha lembrança: ministérios, encontros, estudo, pastoral.

Todos pertencem à minha vida. O que estou fazendo terá alguma influência sobre eles? Posso interceder por eles, mas posso também deixar-me interpelar por Deus para descobrir como fazer maior bem a eles. Sentir-me em comunhão com os outros, numa riqueza de interdependências.

C) DEUS presente em mim.

* Deus está em mim. Está em toda a parte. Estou  nEle (Sl 138). Sou como a terra seca e sem água. Busco a Deus (Sl 62).

* Recordar, na presença de Deus, como cheguei ao seu conhecimento. As primeiras noções e experiências, o encontro progressivo com Deus Vivo.  Gratidão a Deus por tê-lo conhecido tão cedo.  Anseio por conhecê-lo mais e melhor. “Agora vemos a Deus veladamente, um dia eu vos verei, Senhor, como sois” (1Cor 13,12; 1Jo 3,2).

* Aceitar a riqueza do momento atual: Deus me trouxe até aqui. Ele quer entrar em maior comunhão comigo. Deus tem providência do cego e do faminto (Sl 145). Tenho a disponibilidade suficiente?  (1Sm 3,1-21).

REFLEXÃO

* Sinto-me realizado e feliz?

* Estou preocupado, amargurado, apreensivo?

* Expor, com confiança, minha situação a Deus (Sl 141,142)

Sou um ser aberto à comunhão com Deus. Ele quer se comunicar comigo.

ORAÇÃO: “Mostrai-me, Senhor, a vossa face”.

Momento terceiro

Colocar-me na presença de Deus, pedindo-lhe que me revele melhor o mistério da vida humana. Nasci das mãos de Deus num imenso gesto de criação amorosa. No entanto, experimento o sofrimento e vou passar pela morte. A vida é para mim um TEMPO a serviço da minha liberdade. Como desejo dispor da minha vida agora que conheço bem o amor do meu Criador?

A) Primeira condição: a vida do homem no tempo.

Os dias do homem são semelhantes ao feno” (Sl 102,15). Na primeira condição há morte, luto e dor (Ap 21,4).

1. No ciclo da vida humana, encontro:

·        Fragilidade, doença, acidente, coisas imprevisíveis

·        Pequenez em relação a natureza

·        Brevidade da existência, velhice, morte

·        Mistério diante do que virá: ninguém sabe como é

ORAÇÃO: Salmos 38 e 89

2. No relacionamento humano eu encontro:

·        Amizade, amor e dedicação de uns aos outros

·        Há também ódio, inimizades, falta de transparência, profundas divisões

·        A vida do homem é dura e complexa. Vivemos “num corpo de pecado” (Rm 6,6), “geme e sofre como em  dores  de parto

·        Estamos divididos entre o desejo  de  viver  e  a realidade de um mundo em que não nos encontramos à vontade.

B) A verdade de minha vida: Deus me ama.

1. A certeza de que Deus me ama

* contemplando Jesus Cristo na Cruz e na Glória: o dom da sua vida por mim é a prova de que Deus me  ama (Jo  3,16)

* Quem nos dá seu filho, têm providência  de  nós  (Rm 8,32)

* Deus me ama primeiro e gratuitamente porque  ele  é bom (1Jo 4). Jesus me  revela o amor do seu Pai para com Ele e para comigo.  Seu Pai é nosso Pai (Jo 20,18)

* O importante  é   experimentar    isso  pessoalmente: Deus é bom! Quem não sabe o que é amar, nem conhece a gratuidade do amor, ainda não conhece a Deus: Deus  é amor-ágape (1Jo 4,8)

2.      A consciência de uma presença amorosa em minha vida

* O homem supera definitivamente sua solidão terrível. Está presente a Alguém que o ama. Isto me dá paz.

* meu passado, meu presente, meu futuro são assumidos por Deus. Ele me ama como sou e quer me fazer melhor, porque “Ele é bom”.

* a experiência de ser amado e possuído por Deus e  envolvido por sua providência é que me dá a coragem e a alegria de viver.

ORAÇÃO: “Tudo coopera para o bem para aqueles que amam a Deus” (Rm 8,28).

3. A abertura a todos os homens:

* descubro que todos os homens são amados por Deus. Deus me ama a mim que sou um pobre homem, então  Ele ama todos os homens. A experiência do amor  de  Deus para comigo estabelece comunhão profunda entre todos os homens.

* Todos somos envolvidos pelo amor primeiro do Pai (1Jo 1,7; 4,11)

* Na tribulação, na perseguição, na morte, continua o amor de Deus para comigo (Rm 8,35-39).  Na  oração dizer isso a Deus, dispor-me a  todo  acontecimento imprevisível:

ORAÇÃO: “Pai, nas  tuas  mãos  entrego  minha vida” (Lc 23,46)

C) A sede de ver a face do Deus vivo

1. Deus foi se revelando a mim

* ainda criança, falaram-me de Deus. Disseram-me que Ele era bom e me amava.

* um dia rezei sozinho pela primeira vez. Fui perdendo o medo da solidão, sabendo que Deus  estava  comigo. Perdi o medo diante da vida e dos perigos.

* percebi o universo nascendo do gesto amoroso de Deus, contido pelo amor de Deus. Fui crescendo na certeza de que Deus ama os homens e vela pela sorte de todos: sustenta a vida e nunca a retira.

2. essa revelação veio por Jesus Cristo

* Deus me chamou à fé na Palavra de seu Filho.   Muito cedo fiquei sabendo que Deus é Pai.

* Perceber o quanto esta revelação marca a minha vida. Toda minha visão do mundo depende da certeza de que Deus é bom e me ama de verdade.

* Ter sabido disso tão cedo foi uma graça. Como comunicar isso aos outros que ainda não conhecem a bondade de Deus?

ORAÇÃO: “Bendito seja Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo” (Ef 1,1s)

3. sede de Deus (Sl 41, 1-6)

* A sede aumenta na medida em que a vida vai passando. Como o salmista, eu também desejo “ver a Deus'(Sl 62). No entanto, Deus é misteriosamente maior  do que  tudo que consigo conhecer dEle. Meus conceitos são  pobres, minhas palavras inadequadas. É Ele mesmo que me infunde certeza de sua presença amorosa.

* É meu EU mais profundo  que anseia  por  Deus.  Deus habita no centro do meu ser. É fonte de tudo o  que eu faço. Encontro-me com Ele, para além do EU superficial que entra em contacto com as coisas pelos sentidos, para além da imaginação, dos símbolos e  das  palavras, da sensibilidade, dos pensamentos que penetram  a experiência. Deus é anterior à consciência que tenho de mim mesmo. Deus está presente no  ato  mesmo pelo  qual  me volto para ele. Deus é mais íntimo do que o meu próprio íntimo.

* É uma sede de ser amado e de amar. Deus é amor (1Jo 1,8). Ele ama primeiro. A sede que temos de ser amados pelos outros nesta vida é apenas um reflexo da sede que temos de ser amados pelo próprio Deus, de entrarmos em comunhão com Ele.

* É uma sede de conhecermos, cada vez mais, o mistério da vida de Deus. Quando penetrarei no mistério do Criador, do Redentor e do Santificador?  Embora de modo velado, já estou vivendo este mistério: O Pai me salva pelo Filho que me dá seu Espírito para que também eu tenha a coragem e a alegria de chamar a Deus de Pai (Rm 8,15; 1Jo 1,3).

* No termo desta vida, um encontro sem fim. Verei a Deus como Ele é (1Jo 3,2) Verei a Deus face a face (1Cor 13,12). Quem me libertará desse corpo de pecado para que possa se manifestar a vida de Deus em mim? (Rm 7,24)

ORAÇÃO: “Minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo. Quando irei contemplar a FACE DE DEUS? (Sl 41)

4. A comunhão com Deus nessa vida

* Há uma experiência, cada vez maior, da presença de Deus em minha vida. Vou me percebendo amado e guiado por Ele durante o dia, aprendendo a ler sua vontade nos acontecimentos e a descobri-lo, agindo em mim e nos outros.

* Facilidade, cada vez maior, de encontrar-me unido a Deus em tudo que vou fazendo, dando ocasião a uma conversa sem fim com Ele que atravessa os acontecimentos do dia, que ora assume a forma de um silêncio, ora se traduz por palavras simples de confiança e amor. É preciso pedir a graça da oração:

ORAÇÃO: Creio, Senhor, no vosso amor!

Momento quarto

Toda a nossa vida hoje depende do ato de fé na pessoa de Jesus Cristo. É Ele que dá sentido a toda realidade, tornando-a envolvida pelo amor do Pai. Sem Ele, não conhecemos o Pai. Sem Ele, não nos abrimos aos outros, não vencemos a morte.

A) Jesus Cristo revela o seu mistério

É homem verdadeiro e admirável em suas qualidades humanas. É preciso deixar-me possuir pela bondade de Cristo (Naim, o leproso, a mulher encurvada, Lc 13,12). Perceber a extrema sensibilidade de Cristo aos valores humanos e estéticos (lírios, pássaros, Lc 12); valores morais (admira a viúva que dá o óbolo, Lc 21,4); a delicadeza de trato com as pessoas, respeitando-as no que tem de mais íntimo (adúltera, Jo 8). Compreender a reação de admiração do povo: “É o profeta” (Jo 7).

É mais do que um homem admirável: é o Filho de Deus, igual ao Pai. Maior do que Moisés, Abraão, Davi, Salomão, maior do que o Batista ou outro profeta. Tem autoridade sobre a Lei (Mt 5,23-33). Opera no sábado (Mc 2,28). Aplica a si os atributos de Deus sem medo de escandalizar: perdoa pecados (Mt 9,1-8); julga os homens (Jo 5,22); faz as obras do Pai (Jo 10,38); afirma que é UM com o PAI (Jo 10,30.38)

Renovar minha fé na divindade de Jesus Cristo é aceitar o amor de Deus para comigo. Quem me ama a ponto de dar sua vida por mim, é o próprio Deus: Meu Senhor e meu Deus, diz Tomé!

ORAÇÃO: “Tú és o Cristo, Filho do Deus Vivo”  (Mt 16,16)

                     “Vivo na fé do Filho de Deus que me ama”    (Gl 2,20)

B) Como me situo diante de Jesus Cristo?

Jesus me apresenta o maior ideal pelo qual posso sacrificar minha vida. Isto inclui aceitar na fé:

* que o mundo está em salvação. Devo libertar-me da concepção patriarcal da vida. Não importa uma vida longa sobre a terra, nem rebanhos, nem tendas. Importa que os homens se amem e cheguem ao Pai.

* que os homens formam um só corpo, e que minha vida é para o bem dos outros. Estamos em comunhão de méritos. Depois de Cristo, ninguém se aproxima de Deus sozinho. Nossas vidas estão ligadas. Todo homem é levado a oferecer sua vida como sacrifício espiritual pelos outros (Rm 12.1)

* que Ele é a luz que ilumina minha vida. Oferecer-me a Cristo para que Ele se sirva de minha vida, para continuar em mim seu amor ao Pai e aos homens. “A quem iremos, Senhor, tendes palavras de vida eterna” (Jo 6,68). A tal ponto o amor de Cristo pode me possuir, que coloque toda minha vida a seu serviço para que Ele aja no mundo.

C) Jesus Cristo me envia a pregar

1. Ele é o primeiro Enviado

* Parte de Nazaré para o Jordão (Mt 4,12-17). Contemplo a plenitude com que Ele se entrega ao ministério. Deixa sua mãe e seu trabalho, sua cidade e seus amigos e parte. Vai pregar aos homens o amor infinito de Deus e ensinar aos homens a se amarem como Deus os ama. Ele deu a vida por isso!

2. Envia os seus amigos para continuarem a sua Missão.

* Chama os que quer (Mc 3,13) para estar com Ele (Mc 3,14).

* Envia-os a pregar o Reino de Deus (Lc 9,2)

* Pede-lhes que deixem tudo (Lc 5,11) e eles deixam TUDO! (Mc 1,18). Casa, família, posição, profissão.

REFLEXÃO: Como os amigos de Jesus responderam?

Deram a vida por Cristo!

Para esses homens que nos precederam na fé, a salvação do mundo identificou-se com a própria vida.

ORAÇÃO: Ler rezando Rm 8,35; Fl 1,21

3. Como amigos de Jesus, somos segregados para o serviço

* Deus quer que todos se salvem (1Tm 2,4). Para isso instituiu a Igreja como Sacramento Universal de Salvação (Lg 1). Nessa “con-vocação santa” cada um coopera a seu modo e segundo sua condição. Aceitam a vida e a oferecem ao Pai pelos outros (Rm 12,1). Sei que não serei padre sozinho, mas num presbitério e em comunhão de obediência e fé com o Bispo.

* esse gesto continua a ação dos Apóstolos: apascentar a Igreja pela Palavra e pelos Sacramentos. Os que assim fazem, são a imagem da solicitude de Cristo pelo seu povo. Eternizam o “Bom Pastor” se tornando para seus irmãos um SINAL da importância da Salvação a que entregaram suas vidas e da prioridade absoluta do amor de Jesus Cristo.

REFLEXÃO – 1: chamado e enviado.

* Também EU sou chamado e enviado por Jesus Cristo (Esta é a minha verdade!)

* Recordar como um dia percebi o chamado de Deus.

* Também eu deixei tudo. Jesus não se esquece disso.

* Não sou melhor do que os outros, mas alegro-me em poder servir a Deus com toda a minha vida, deixando que, através das minhas palavras, gestos e atitudes, Ele possa fazer bem ao mundo de hoje.

* Perguntar a Nosso Senhor se Ele está contente com meu serviço. Perguntar-me com sinceridade diante de Deus em que posso melhorar esse serviço.

* Os outros que vivem comigo, o que pensam da minha felicidade? Acham-me um homem frustrado, triste, voltado para si mesmo? Ou percebem que sou um homem feliz porque minha vida está entregue a Jesus Cristo? Quem me vê, percebe que creio em Jesus Cristo?

* Examinando minha vida diante de Cristo, verificar até que ponto consigo manifestar aos homens a bondade de Deus. Quem se aproxima de mim, percebe que Deus o ama? De que adiantaria toda minha ciência, prestígio, força, criatividade, se os meus irmãos não encontrassem a bondade de Deus em mim?

ORAÇÃO: “Sei em quem coloquei a minha esperança” (Ler rezando 2Tm 1,3-13)

REFLEXÃO – 2: Minha confiança está em Jesus Cristo

* Tantos melhores do que eu cederam diante das dificuldades. Também sou fraco e pobre. Tenho experiência disso. É bom sentir-me igual a todos. É bom passar por provações e perceber a própria fraqueza diante de Deus e dos outros. Mas, Deus escolheu os pobres e fracos para confundir os fortes!

* Deus não me abandona (1Cor 10,13). Creio em Jesus e na sua oração por mim (Jo 14, 1.17). Ele me preserva de todo o mal (Jo 17,15).

* As dificuldades se superam por meio de um amor maior e não por compensações que não podem nos satisfazer. Se o que nos faz felizes é o amor, só poderemos recuperar a felicidade, voltando a amar de verdade, tornando-nos solidários com os que mais precisam do nosso amor: os pobres, os desamparados, os esquecidos, os doentes, as crianças. Quem já experimentou a alegria de dar gratuitamente, nunca mais se satisfará plenamente com outro valor. Tudo se relativiza diante da felicidade de quem dá com gratuidade.

ORAÇÃO: Eis-me aquí, Senhor! Envia-me…

Momento quinto

A) Jesus nos ensina a felicidade do amor oblativo

1) O verdadeiro amor!

* O amor do amante ao amado é primeiro. Precede a retribuição. Visa o bem do amado. A mãe ama assim. Deus ama assim.

* Jesus lava os pés dos seus discípulos. Tem gosto em servir aqueles a quem ama (Jo 13,17). Ele vive a grande parábola do amor oblativo (Lc 14,12s).

2) Temos que repetir o gesto do lava-pés para sermos felizes. Jesus veio nos ensinar este amor forte e novo. Amar é sentir-se feliz fazendo o outro feliz. Isto só é possível quando amamos de verdade o outro. Somos todos chamados à alegria do amor oblativo. O ágape é o cerne da mensagem de Jesus, seu único mandamento (Jo 15,12). Deus é amor oblativo puro. É esta a alegria que Jesus veio nos comunicar (1Jo 1,4)

B) A Nova e Eterna Aliança

1. A dicção do amor

* Jesus toma o pão e o vinho. A Palavra de Jesus é verdade e vida. O pão é Corpo entregue. O vinho é Sangue derramado. Creio, Senhor!

* a significação do gesto: Jesus significa a verdade de sua morte. Entregando seu Corpo e derramando seu Sangue, DIZ sua morte. É o Cordeiro Imolado. Jesus instituindo a Nova e Eterna Aliança a confirma com seu Sangue.

* Eis minha vida, Senhor: meu corpo e meu sangue à ser derramado por ti!

* a significação da morte: A morte é a prova do seu amor maior (Jo 15,13). Pela verdade da sua morte DIZ-NOS que de fato dá sua vida, que nos ama. É o Bom Pastor que dá a vida pelos homens (Jo 10,11) É o grão de trigo que morre para dar fruto (Jo 12,24)

* Pela sua morte, Jesus nos diz a verdade do amor de Deus para conosco. O meu corpo e sangue oferecidos ao Pai, são distribuídos aos homens. Na morte de Cristo, dá-se a reconciliação plena com todo o gênero humano.

2. O Mistério da união

* Cristo se oferece como Alimento: “Tomai e comei”. Tomai e bebei”. Dá-se aos homens como fonte de vida: “Quem come a minha carne fica em mim e eu nele; viverá por mim”(Jo 6,56.57). É a vinha (Jo 15).

* Quando me alimento do seu corpo e do seu sangue eu me identifico com Ele, aceito sua vida e seu amor. Nele aceito todos os meus irmãos. Na Eucaristia o gesto do lava-pés se torna norma absoluta para a minha vida (Jo 15,15).

ORAÇÃO: perdoai, Senhor, sou um pobre homem!

No altar, a hóstia é o meu sol. O sol de justiça que brilha neste mundo.

Eu me ofereço!

No Altar o meu sangue se mistura com o teu. Que o meu corpo seja também sacrificado para a salvação daqueles que amais!

“Formamos um só corpo, todos que comungamos de um só Pão” (1Cor 10,17)

·        Foi no “caminho” de Emaús que o encontramos, suas palavras abrasou nossos corações e, depois, nós o reconhecemos quando partiu o pão e tomamos juntos a refeição…

·        Foi na Ceia que, cingindo a toalha, ele nos lavou os pés e nos mandou servir os irmãos…

·        É na Missa que o celebramos e adoramos, com ele comungamos e dele nos alimentamos…

·        É diante do tabernáculo, de joelhos dobrados, que podemos exclamar: “meu Senhor e meu Deus…”

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Maria e seu Filho

Maria sente como  ninguém a identificação com Cristo

Deus: por puro amor, num ardente desejo, quis salvar a humanidade, vindo a este mundo e participando da história dos homens (Economia da Salvação).

Nascimento de Jesus: Isaias já profetizara: o sol nascente (Anatolê: astro luminoso) vem nos visitar para iluminar os que estão nas trevas e na sombra da morte guiar nossos passos… Jeremias também anunciou: um rebento surgirá do tronco de Davi para salvar Israel.

Sob a Lei, na pobreza: Nasceu numa estrebaria, envolto em faixas, reclinado numa manjedoura, já que não havia lugar para ele na hospedagem. Deus se submete às nossas fraquezas e pecados para nos salvar. Sendo rico, tornou-se pobre, sendo Senhor, tornou-se servo (Kênosis: despojamento).

Entranhas de Misericórdia – para realizar o seu plano amoroso, a Trindade se manifesta: O Pai envia o Espírito à uma Jovem, escolhida desde todo o sempre (Gn3,15), que concebe e dá à luz o Filho. A Jovem chamava Maria (doravante um nome bendito, são as entranhas de misericórdia).

Mãe: Maria, como verdadeira Arca da Aliança, contém em seu seio Jesus, o autor da vida e com ele se identifica totalmente. O Filho de Deus é carne de sua carne e sangue de seu sangue! Deus, finalmente, feito homem, pelo SIM da Mãe! Não deve haver, pois, neste mundo, amor maior do que o da mãe pelo filho no ventre. Maria está indelevelmente ligada a encarnação de Jesus. Por ela sabemos que Jesus é verdadeiramente um ser humano, e não meramente uma aparência. Doravante ela é a nova Eva, a mãe dos que vivem para sempre…

Mediadora: Deus a escolheu para ser a mediadora da Salvação. O Filho dela nascido é o “Santo de Deus”,  a “Luz que ilumina as nações”, o “Autor da Vida”, o “Redentor do gênero Humano”, o “Cordeiro Imaculado”… O anjo anunciou: Ave cheia de graça… O Espírito Santo virá sobre ti… De fato, essa missão só é possível para quem está cheia da graça de Deus e possui o dom e a força do Espírito Santo…

Virgem da Glória: Maria está presente da primeira a última página da Escritura Sagrada. Ela tem a ver com a Criação e com a Redenção. Concebida na mente de Deus, ela é a virgem que esmaga a cabeça da serpente no Gênesis (3,15), a Senhora vestida de sol que pisa sobre a lua e que traz na cabeça uma coroa de doze estrelas no Apocalipse (12,1). Do princípio ao fim a glória de Deus se manifesta na Jovem de Nazaré com uma força extraordinária!

Amor em ato (identificação) – A Virgem Maria é o amor em ato de Deus: Imaginemos a Virgem Santa embalando sua criança sagrada… alimentando, educando. Imaginemos, com José, a sagrada família no Tempo, na oração a favor do Menino (a virgem orante)… Depois, acompanhando seu filho em suas andanças pela Galiléia. Imaginemos a aflição da Mãe quando da perseguição e prisão de Jesus. Não podemos imaginar a dor de ver o filho agonizar na cruz (ao pé da cruz, antes de receber o corpo inerte do Filho nos braços, ela nos é entregue como mãe. A dor da cruz é como um novo parto: somos gerados, como filhos, na cruz. A mãe do crucificado é, agora, nossa mãe ). Podemos, isso sim, imaginar a alegria dessa doce Mãe, quando tem, de novo, seu Filho redivivo, ressuscitado… quando, reunida com os Apóstolos no Cenáculo, recebe outra vez o Espírito Santo! É, agora, a rainha dos Apóstolos, a primeira Apóstola do próprio Filho!

Igreja: A Senhora da Glória, a Mediadora da Salvação, a Porta do Céu e Arca da Aliança, a morada de Deus entre os homens é, hoje, a imagem da Igreja. A exemplo de Maria, ela contém em si mesma e dá ao mundo a luz da Salvação. Levada ao céu, em corpo e alma, essa sublime mãe continua, hoje, mais que nunca, a ser nossa intercessora e protetora, a abençoar a Igreja, a ser Mãe e Mestra. É impossível separar Maria da Igreja, Povo de Deus. Como a Igreja ela é santa, concebida sem pecado, como a Igreja ela é virgem e preservada da morte já possuindo a vida eterna e já vivendo em seu corpo a ressurreição. Como a Igreja ela anuncia e distribui os dons de Deus para seus filhos. Nossa Senhora representa o lado santo e puro da Igreja… Ela é a primeira pedra viva da construção do Reino de Deus no coração dos homens.

Os filhos: Somos filhos da Igreja porque, somos antes, filhos de Maria. Em Jesus, o primogênito, somos filhos do Pai do Céu. Maria nos dá a consciência da filiação divina e, também, a consciência de irmãos. Depois de Jesus ter nascido de Maria, ninguém mais é órfão, ninguém mais está abandonado, ninguém mais precisa ficar triste.. Igreja é isso: irmãos, filhos de uma mesma doce e carinhosa mãe. O cuidado e o zelo dispensados a Jesus, agora, a Mãe do Céu dispensa também a todos nós… com ela nos identificamos, para ela todo o nosso amor filial, todo o nosso carinho e veneração.

O Eterno Feminino: Ninguém vai a Deus senão por Jesus, ninguém vai a Jesus senão por Maria. Ela é o eterno feminino, aquela que Deus quis desde todo o sempre como Mãe (Teotókos), como Mãe da Segunda pessoa da Trindade, Jesus Cristo (Cristotókos).

Homilia

Côn. Dr. José Adriano

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A consolação de Maria

FELIZES OS QUE CHORAM, PORQUE DEUS OS CONSOLARÁ

Nossa Senhora é Bem Aventurada! Mãe amorosa, consoladora dos aflitos e de todos os que sofrem. Ela tem um coração capaz de Deus e de imenso amor por todos nós.  Reflitamos o nosso tema em dois momentos:

MARIA:

Deus, por puro amor, num ardente desejo, quis salvar a humanidade, vindo a este mundo e participando da história dos homens. Para realizar o seu plano amoroso, a Trindade se manifesta: O Pai envia o Espírito à uma Jovem, escolhida desde todo  sempre (Gn3,15). Ela concebe e dá à luz o Filho. A Jovem chamava Maria (doravante um nome bendito, são as entranhas de misericórdia).

Como verdadeira Arca da Aliança, ela é Mãe, contém em seu seio Jesus, o autor da vida e com ele se identifica totalmente. O Filho de Deus é carne de sua carne e sangue de seu sangue! Deus, finalmente, feito homem, pelo SIM da Mãe! Maria está indelevelmente ligada a encarnação de Jesus. Por ela sabemos que Jesus é verdadeiramente um ser humano, e não meramente uma aparência. Doravante ela é a nova Eva, por definição a mãe dos viventes, e por desígnio de Deus, a mãe dos que vivem para sempre em Cristo.

Escolhida para ser a mediadora da Salvação. O Filho dela nascido é o “Santo de Deus”, a “Luz que ilumina as nações”, o “Autor da Vida”, o “Redentor do gênero Humano”, o “Cordeiro Imaculado”… O anjo anunciou: Ave cheia de graça… O Espírito Santo virá sobre ti… De fato, essa missão só é possível para quem está cheia da graça de Deus e possui o dom e a força do Espírito Santo…

Maria está presente da primeira a última página da Escritura Sagrada. Ela tem a ver com a Criação e com a Redenção. Concebida na mente de Deus, ela é a virgem que esmaga a cabeça da serpente no Gênesis (3,15), a Senhora vestida de sol que pisa sobre a lua e que traz na cabeça uma coroa de doze estrelas no Apocalipse (12,1). Do princípio ao fim a glória de Deus se manifesta na Jovem de Nazaré com uma força extraordinária!

A Virgem Maria é o amor em ato de Deus: Imaginemos a Virgem Santa embalando sua criança sagrada… alimentando, educando. Imaginemos, com José, a sagrada família no Templo, na oração a favor do Menino… Depois, acompanhando seu filho em suas andanças pela Galiléia. Imaginemos a aflição da Mãe quando da perseguição e prisão de Jesus. Não podemos imaginar a dor de ver o filho agonizar na cruz (ao pé da cruz, antes de receber o corpo inerte do Filho nos braços, ela nos é entregue como mãe. A dor da cruz é como um novo parto: somos gerados, como filhos, na cruz. A mãe do crucificado é, agora, nossa mãe). Podemos isso sim, imaginar a alegria dessa doce Mãe, quando tem, de novo, seu Filho redivivo, ressuscitado… quando, reunida com os Apóstolos no Cenáculo, recebe outra vez o Espírito Santo! É, agora, a rainha dos Apóstolos, a primeira Apóstola do próprio Filho!

A Senhora da Glória, a Mediadora da Salvação, a Porta do Céu e Arca da Aliança, a morada de Deus entre os homens é, hoje, a imagem da Igreja. A exemplo de Maria, ela contém em si mesma e dá ao mundo a luz da Salvação. Levada ao céu, em corpo e alma, essa sublime mãe continua, hoje, mais que nunca, a ser nossa intercessora e protetora, a abençoar a Igreja, a ser Mãe e Mestra. É impossível separar Maria da Igreja, Povo de Deus. Como a Igreja ela é santa, concebida sem pecado, como a Igreja ela é virgem e preservada da morte já possuindo a vida eterna e já vivendo em seu corpo a ressurreição. Como a Igreja ela anuncia e distribui os dons de Deus para seus filhos. Nossa Senhora representa o lado santo e puro da Igreja… Ela é a primeira pedra viva da construção do Reino de Deus no coração dos homens.

OS DESEJOS DAS BEM AVENTURANÇAS

Somos os “degredados filhos de Eva”, como rezamos na “Salve Rainha”. Vivemos num mundo de violência desmesurada, de injustiças, desonestidades, crimes, roubos, pobreza, miséria moral e social, enfim, num mundo de pecados e brutais formas de morte. Gostaríamos de ser os mansos, humildes e pacíficos das bem aventuranças, mas assalta-nos o medo, a incerteza a descrença no futuro. E, no entanto, somos Filhos de Deus e filhos da Igreja pelo Batismo. A nossa fé suportará? Alcançaremos a consolação?

De fato, somos filhos da Igreja porque, somos antes, filhos de Maria. Em Jesus, o primogênito, somos filhos do Pai do Céu. Maria nos dá a consciência da filiação divina e, também, a consciência de irmãos. Depois de Jesus ter nascido de Maria, ninguém mais é órfão, ninguém mais está abandonado, ninguém mais precisa ficar triste.. Igreja é isso: irmãos, filhos de uma mesma doce e carinhosa mãe. O cuidado e o zelo dispensados a Jesus, agora, a Mãe do Céu dispensa também a todos nós… com ela nos identificamos, para ela todo o nosso amor filial, todo o nosso carinho e veneração.

Os Bispos reunidos na Quinta Conferência em Aparecida lembravam que nós nos identificamos com o Cristo sofredor reconhecendo que “este é o que me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20). Afirmavam também que, apesar de golpeados, ignorados e despojados não abaixam os braços, mas se agarram a Deus e a Nossa Senhora. Nossa Senhora, disseram os Bispos, faz sentir aos seus filhos menores que eles estão nas dobras de seu manto.

Ela é, afinal, a esperança dos pobres, diz a quinta Conferência, pois o Cristo mesmo, na sua hora pascal, na sua morte na cruz, deu-nos Maria como Mãe na pessoa do Apóstolo João, e ele a recebeu em sua casa (Jo 19,27).

Eis a resposta que buscamos: seremos consolados, nossa tristeza se transformará em alegria ao recebermos Nossa Senhora em nossa casa, isto é, na casa do nosso coração e convivermos com ela, pois ela dará alma e ternura à nossa vida. Aprenderemos de Maria a contemplar a beleza do rosto de Cristo e a experimentar a profundidade de seu amor.

O Papa Bento XVI disse em Aparecida quando da sua visita: “Permaneçam na escola de Maria. Inspirem-se em seus ensinamentos. Procurem acolher e guardar dentro do coração as luzes que ela, por mandato divino, envia a vocês a partir do alto”.

Homilia

Côn. Dr. José Adriano

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Sacramentos, uma introdução

Introdução

A Constituição Apostólica Sacrossanctum Concilium, em seu número 59, dá uma definição descritiva dos sacramentos, destacando a sua finalidade (santificação), sua dimensão originante de comunhão (edificação do Corpo), sua dimensão celebrativa (culto) e sua condição de sinal pedagógico (instrução). São sinais da fé. De uma fé recebida, alimentada e testemunhada de modo concreto (caridade). Diz textualmente: “Os sacramentos destinam-se à santificação das pessoas, à edificação do Corpo de Cristo e ao culto a ser prestado a Deus. Sendo sinais, destinam-se também à instrução. Não só supõem a fé, mas por palavras e coisas também a alimentam, a fortalecem e a exprimem. Por esta razão são chamados sacramentos da fé. Conferem certamente a graça, mas sua celebração também prepara os fiéis do melhor modo possível para receberem frutuosamente a graça, cultuarem devidamente a Deus e praticarem a caridade”.

Se tomarmos um dicionário antigo (L. Quicherat Dicionário Latino-português, Paris: Guarnier, 1924, p. 1053) teremos a definição etimológica: Sacramento traduz sacramentum. Literalmente significa um juramento ou coisa sagrada (sacrum). afirma que sacramentum é o “depósito que os litigantes colocavam nas mãos do pontífice (Quum poena se sacramenti peterent = quando os pleiteantes se arriscavam a perder o depósito. Non posse sacramentum nostrum justum judicari = que o nosso litígio não podia ser admitido em juízo. Justo sacramento contendere cum aliquo = pôr a alguem um pleito regular. Sacramento adigere = fazer jurar bandeira ou assentar praça. Aetate fessos solvere = dar baixa do serviço militar aos velhos. Dicatata jurant sacramenta diis = repetir a fórmula do juramento aos deuses…)”. A palavra sacramentum surge, portanto, em primeiro lugar de um vocabulário popular-militar-religioso como juramento, contrato, pacto ou caução.

Certamente, hoje nos convém muito mais uma definição/descrição por ressaltar a teologia subjacente à própria definição, por coloca-la no amplo contexto eclesiológico pós-conciliar e, especialmente, pelo grau de engajamento a que o sinal obriga àqueles que, recebendo o sacramento, se tornam sinais vivos para o nosso tempo.

Sacramentos e Tradição

Tantos autores repetem a citação do escritor Plínio, o moço, sobre a existência de um culto cristão chamado de sacramentum com o sentido de juramento sagrado. A insistência se deve ao fato do texto mostrar, com certa clareza, a liturgia eucarística já configurada como um sacramento e suas conseqüências éticas e políticas quanto à nova religião nascente. Trajano, imperador, recebeu de Plínio a seguinte notícia (ano 80 dC): “Reúnem-se em dias fixos, antes do amanhecer, cantam solenemente hinos a Cristo, como a um deus; comprometem-se mutuamente com um sacramento; não para alguma coisa perversa ou má em qualquer sentido, mas para não cometer banditismo, roubo ou adultério, e para cumprirem a palavra dada e devolverem o dinheiro emprestado quando lhes seja exigido pelo credor” (citado por LACERDA P. Os sete sinais do amor, S. Paulo: 1976, p. 43.)

Encontramos, também, nos Padres latinos dos II e III séculos traduziram musthrion com a palavra latina mysterium ou a equivalente sacramentum. Já a mais antiga tradução da Bíblia a havia empregado. Em Tertuliano, por exemplo, sacramentum significa juramento de consagração. Para ele, sacramentum, definido como engajamento, tinha sentido também místico, pois, a Militia Christi possuía um aspecto místico. Afirmava: “Nós fomos chamados ao serviço militar do Deus vivo, desde o momento em que respondemos as palavras do engajamento sagrado”. Assim, sacramentum diz respeito ao grego mystérion com toda a plenitude que a palavra implica (Ad Martyres, 3). No contexto cristão, sacramentum é a versão do termo grego musthrion que evoca o que já foi revelado, mas ainda não totalmente captado. Cipriano, por sua vez, toma o termo sacramentum para designar o Batismo, a Confirmação e a Eucaristia. O Batismo não é só lavacrum carnale mas também baptismi sacramentum (Cf. Firmiliano Ep. 75,13 Ad Ciprianum) porque é um rito de mistério, uma ação santa de iniciação, uma consagração que confere a semelhança da realidade divina e que traz a salvação (Cf. Ad Quirinum praef.).

Assim, Mystérion e Sacramentum não significam que haja um dependência casual entre os mistérios pagãos e os ritos cristãos. Pode-se dizer, porém, que o sacramento é chamado musthrion pelos gregos do século III e sacramentum pelos latinos. Tanto um contexto quanto o outro diz respeito a um rito com valor de consagração e, nesse sentido, é uma imagem plena da realidade da salvação. É através do sacramento que participamos dessa ação salvífica na sua forma mais elevada (Para o aprofundamento dos conceitos de Mystérion e Sacramentum e sua consequente evolução histórico-teológica, recomendo a leitura do artigo de Raphael SCHULTE. Os sacramentos individuais. In: Mysterium Salutis, n. 4 (1977) pp. 53-72).

Dois grandes doutores da Igreja, baluartes da teologia e da doutrina, foram Santo Agostinho (séc. IV) e Santo Tomás de Aquino (séc. XIII). Agostinho chamava “sacramento” a toda realidade criada, à medida que, vivida como indício ou sinal, levasse até o invisível e à manifestação do mistério de Deus. Para ele sacramento é de fato um sinal sagrado (sacrum signum) ou ainda a “palavra visibilizada” – visibile verbum (Sacramentum est sacrae rei signum, Ep. 138, PL 13, 527). Santo Tomás, por sua vez, afirmava serem os sacramentos sinais sagrados necessários à santificação. Esses sinais são sinais pascais, pois têm fundamento na Paixão de Cristo. Os sacramentos, dessa forma, são sinais sensíveis (res sensibilis) das coisas criadas, de Deus, do Reino, requerendo a Palavra para sua eficácia. Daí que o sinal sensível é a matéria e a Palavra é a forma (Summa Theologica, III q.60 a.1). Na esteira de Santo Tomás, o Concílio de Trento definiu o sacramento como a “forma visível da graça invisível dotada com o poder de santificar”. O sinal (forma visível) atualiza a graça de Deus (invisível) pela Palavra. O poder de santificar é a finalidade precípua de todo sacramento. Os sacramentos surgem como sinais em momentos privilegiados de uma realidade multiforme e permanente (DS 1639).

Atrás dessas formas incisivas se esconde toda uma estrutura de pensar, um modo específico de ver a realidade. É um pensar em sinais, símbolos e sacramentos, portanto, é um pensar sacramental.

A Teologia do Sacramento entre nós

Um bom esquema para a tratativa dos sacramentos é aquele fornecido pelos nºs 920 a 923 do documento de Puebla. Puebla parte da constatação de que o homem é um ser sacramental pois se expressa por sinais e símbolos. Esses sinais e esses símbolos são usados tanto por Deus como pelo homem. Eles estabelecem uma mediação: a comunicação entre o divino e o humano, que se faz através e por meio dos sinais sacramentais. Nessa sacramentalidade criacional, toda a criação se torna sacramento de Deus, porque mediação entre Criador e criatura (Cf. Rm 1,19) [DEUS> <SINAIS> HOMEM].

Jesus Cristo é considerado o Sacramento Primordial, enquanto “imagem visível do Deus invisível” (Cl 1,15; Jo 14,9). Cristo ocupa, por isso mesmo, o lugar do sinal-símbolo. Ele é, doravante, o grande sinal que realiza plenamente aquilo que significa e de que é portador: a salvação universal para os homens [PAI > <CRISTO> HOMEM]. “O encontro do homem com Deus invisível opera-se sob as espécies do sacramento primordial que é Cristo, presença salvífica de Deus entre os homens e pela mediação dos sacramentos que são os prolongamentos terrestres do Cristo glorificado” (R. LATOURELLE. Teologia, Ciência da Salvação. S. Paulo: 1971, p. 294).

Para Puebla, enfim, a Igreja é o sacramento de Cristo (Cf. LG 1) porque é seu corpo e sua presença entre os homens. Os sete sacramentos são gestos de Cristo na Igreja, e através da Igreja para toda a humanidade [CRISTO> <IGREJA> HUMANIDADE.

Dos gestos atualizados na e pela Igreja, segundo Puebla, tem proeminência a Eucaristia que é o centro da sacramentalidade da Igreja (Cf. SC 10).

A Criação de Deus, um só Sacramento

A criação não é um caos, desorganizado e sem sentido. As coisas do mundo constituem um sistema de signos que transmitem mensagens. O sentido das realidades terrestres e de todo o universo criado pode ser apreendido pelo homem, ele próprio um ser da criação. “O homem é o único ser capaz de ler e decifrar a mensagem do mundo: no efêmero pode ler o permanente; no temporal o eterno; no mundo, Deus” (L. BOFF. O Sacramento da Vida e a vida dos Sacramentos. S. Paulo: 1979, p. 9).

De fato, todo o real, palpável, visível, se torna sinal de uma outra realidade misteriosa que é revelada, e que funda todas as coisas, isto é, a criação se torna sinal do Criador. Teilhard de Chardin dizia, a esse respeito, que “tudo é sagrado” (In: A Missa sobre o Mundo).

Uma visão sacramental da criação se encontra já no Antigo Testamento. Os salmos, por exemplo, falam do céu, do firmamento e de todas as coisas que cantam a glória de Deus. A análise do Salmo 104 (Poema da Criação), por exemplo, revela a automanifestação de Deus na criação e na história. O salmista usa uma linguagem simbólico-sacramental para falar dos atributos de Deus: “vestido” de esplendor, envolto em luz “como num manto”, estendendo os céus “como tendas”, tomando as nuvens como “carro”, caminhando sobre as “asas do vento”.

Para o Novo Testamento, o universo criado transcende a mera categoria de causalidade e utilidade. O crente vê a criação e a história na perspectiva da manifestação contínua do desígnio amoroso de Deus para com o homem. Não é o homem que estabelece a existência de Deus. A iniciativa de revelar-se é de Deus mesmo. Ele fala através de cada obra sua e dá ao homem o discernimento necessário para que o conheça através dessas mesmas obras, como afirma Paulo: “O que de Deus se pode conhecer é para eles (os pagãos) manifestado, tendo-lho Deus manifestado. Desde a criação do mundo, com efeito, os atributos invisíveis de Deus, tanto seu poder eterno como a sua divindade, tornam-se reconhecíveis com a consideração da mente humana acerca das coisas criadas” (Rm 1, 19-29).

No mesmo sentido o Pe. Bernard Häring comentava: Toda a criação é uma palavra visibilizada, uma revelação dinâmica, uma mensagem, um dom e um apelo dirigido ao homem. O homem pode captar, sentir e viver. No centro de tudo está a presença daquele que fala, que doa e conserva in fieri (numa criação continua) todas as coisas. Quando, na verdade, o homem capta o sentido mais profundo, se estabelece então a comunicação e a intelecção da grandiosidade de Deus” (Morale e sacramenti. Roma: 1976, p. 31.

À luz da Palavra do Pai, pois, a criação, mediante essa Palavra, se torna uma grande realidade sacramental. As primeiras páginas da Bíblia atestam que Deus fala e tudo é criado. O prólogo do Evangelho de João também testemunha que Deus fala e seu Verbo Eterno se torna homem (Jô 1, 1-4).

Assim, pode-se concluir que a criação é sacramento de Deus porque manifesta o próprio Deus. É sacramento porque foi insuflada pelo seu Espírito e santificada pela sua Palavra. Se a criatura (homem) esquece seu criador (Deus) cai na alienação. Toda alienação, frustração, exploração, futilidade e perversão deriva do fato de que o homem não adora e não compreende que Deus está presente em toda a criação, e cada coisa e acontecimento são mensagens que convidam o homem a escutar e responder ao Criador. O homem moderno, por causa de uma estrutura de falsos símbolos e antivalores, tem dificuldade em ver e reconhecer na Criação o Criador.

No centro da criação, o homem é um ser sacramental

L. Boff, em sua Mínima Sacramentaria, reeditada recentemente, nos fornece um esquema prático para entendermos os diversos graus de relacionamento do homem com o mundo criado, num processo progressivo do mítico ao místico, isto é, do simbólico ao sacramental: a) diante do mundo, ao contemplar a natureza e as coisas que o cercam, sente estranheza e temor. É a fase mítica. Aos poucos – com o evoluir da compreensão dos fenômenos – substitui a surpresa pela certeza; b) chega, depois, à domesticação onde consegue dominar as coisas captando-lhes o sentido e utilidade. É o nível da ciência que enquadra os fenômenos dentro de um sistema coerente. É a fase do crescimento, portanto, científico-prática; c) por fim, ele se habitua. As coisas passam a fazer parte da paisagem humana e adquirem significado novo. Tornam-se sinais e símbolos do encontro, do esforço, da conquista e da interioridade humana. Os objetos transfiguram-se em sacramentos. É a fase mística da maturidade. A partir dessa fase, o homem pode fazer de um objeto um símbolo e de uma ação um rito. É na maturidade (fase mística) que o objeto se transfigura em sacramento. O homem, capacitado por critérios de compreensão e maturidade, pode apreender na água batismal a vida nova de Cristo, no pão consagrado o próprio Corpo do Senhor.

Na pastoral, muitas vezes, se pretende que o fiel compreenda e aceite verdades expostas no nível três, quando ele está ainda no um ou no dois. Eis uma tarefa para a pastoral sacramentária: levar o fiel, na vivência comunitária do Evangelho, a perceber o que é verdadeiramente um sacramento e para que serve.

A verdade do Sacramento é ulterior à compreensão do símbolo

As coisas não tem o mesmo sentido para todas as pessoas. O Apóstolo Paulo já percebera isso, notando que alguns vinham a Ceia Eucarística para matar a fome e saciar a sede (1Cor 11,20-22). E nisso Paulo não podia louvar os Coríntios, pois estavam eqüidistantes do verdadeiro sentido do sacramento. De fato, se celebra não para matar a fome física, mas para presencializar a Ceia do Senhor. A ação de comer para matar a fome e a de celebrar a Ceia é a mesma, mas o sentido é diferente. A ação de participar da Ceia é portadora de uma significação simbólica. Essa ação é constitutiva do sacramento. “Sacramento significa essa realidade do mundo humano das vivências profundas, dos valores e do sentido plenificador da vida”, como diz L. Boff na obra citada.

A transparência do Sacramento entre a Transcendência do Criador e a Imanência da criação

L. Boff (o. c.), servindo-se do contributo da filosofia, torna didática a compreensão que já possuíamos da Sagrada Escritura (Ef 4,6) quanto à onipresença de Deus em tudo (também no Sacramento). O autor ressalta as categorias ôntica (imanência), ontológica (transcendência) e o sacramento como elemento mediador, unificador e possibilitador do encontro Deus-homem, chamando-o de transparência. De fato, a relação das coisas criadas, visíveis, imanentes, com o Criador, Deus, transcendência infinita, se descobre numa terceira categoria: a transparência. Pode-se tomar o pão: tem peso, opacidade, consistência. É uma realidade imanente. Na celebração, porém, torna-se o Corpo do Senhor, que é uma realidade transcendente. O pão eucarístico recorda e presentifica por si (imanência), através de si (transparência), algo que está além de si mesmo (transcendência). O pão sacramental é agora diáfano para a realidade do alimento, da fome, do esforço, do suor e da alegria de repartir o pão. Por isso, o sacramento insere dentro de si uma experiência total e plena. O mundo não é dividido só em imanência e transcendência (céu e terra), existe uma categoria que acolhe dentro de si a imanência e a transcendência, que é a transparência.

A transparência quer dizer, portanto, que o transcendente, Deus, se torna presente no imanente (criação), fazendo com que este se torne presente para a realidade daquele. O sacramento é, pois, essa transparência. Participa da realidade de Deus e dos homens. Se o sacramento for tratado apenas como imanência, ele não será um verdadeiro sacramento. Da mesma forma, se for tratado apenas como transcendência. Imanência e transcendência não se excluem mas se tornam uma única e mesma realidade na transparência.

Aos “olhos de Deus”, tudo é sacramento

Para quem possui uma profunda experiência de Deus, Deus lhe parece como mistério absoluto e radical. Anuncia-se em tudo e tudo penetra. Tudo que existe é revelação dele. Para quem vive Deus dessa maneira, o mundo imanente se torna transparente para a realidade divina. Exemplo disso são os místicos. Um Francisco de Assis pode chamar a natureza de irmã, filha do mesmo Pai! A esse respeito dizia Santo Irineu: “Diante de Deus nada é vazio, tudo é dele um sinal” (Adversus Haer. 4,21). Tudo fala de Deus, de sua bondade, de seu mistério. A montanha não é só montanha, está à serviço da grandeza que ela encarna e evoca. O sol é mais do que o sol, ele é sacramento da luz divina que ilumina e aquece a todos (justos e pecadores). O homem não é apenas a mais inteligente das criaturas, é o maior sacramento de Deus, de sua sabedoria, de seu amor e de seu mistério. Jesus de Nazaré é mais do que o homem da Galiléia, é o Cristo, sacramento do Pai para todos os homens. A Igreja é mais do que a sociedade dos batizados, é o sacramento do Cristo ressuscitado presente na história.

Para quem tudo vê a partir de Deus, o mundo todo é um grande sacramento. Cada coisa, cada evento histórico, surge como sacramentos de Deus e de sua divina vontade. Na medida em que o homem se deixa amar por Deus, na mesma medida é premiado com a transcendência divina de todas as coisas. Assim dizia Paulo: “só há um Deus e Pai de tudo, que está acima de tudo (transcendência), por tudo (transparência) e em tudo (transcendência) (Ef 4,6).

Na ordem criacional, portanto, sacramento é tudo quanto visto à partir e à luz de Deus: o mundo, o homem, cada coisa, sinal, símbolo ou transparência do transcendente absoluto: Deus.

Jesus, verdadeiro Sacramento do Pai

Jesus é o sacramento universal da salvação. E, enquanto tal, ele está vivo e presente na história dos homens. Essa história produz sacramentos e anti-sacramentos. Na história recente da humanidade, um Hitler, é um anti-sinal ou um sinal de morte. No entanto, nessa mesma história, muitas vezes, o sentido dos fatos sinalizam a presença daquele que salva. Da mesma forma, muitos são os personagens que encarnam o sentido histórico da libertação, da graça, da bondade, ou da justiça. Os Padres chamavam essas figuras históricas de sacramentos. Por exemplo: Abraão (a fé), Daví (promessas messiânicas), Maria (realização das promessas). Hoje, pode-se incluir, a partir do contexto latino-americano: Oscar Romero, Santo Dias, João Bosco Burnier, Josimo e tantos outros. O martirológio latino-americano é uma realidade (Vide meu trabalho: Testemunho e Martírio na Igreja do Brasil, dimensão teológico-moral. Universidade Lateranense, Accademia Alfonsiana, Roma: 1990).

Jesus de Nazaré, Deus e Homem perfeito

Em Jesus, a história da salvação encontrou sua culminância. Por isso, ele é o sacramento por excelência. Não só sinaliza uma dimensão da salvação na história, mas capitaliza em sí mesmo toda a história e realiza a salvação para todos os homens. Ele é o Senhor da História (o) ku)rioj). Ele chegou por primeiro ao processo de hominização, como diria Teilhard, venceu a morte e irrompeu para dentro do mistério de Deus. Jesus, Deus-Filho, é o sacramento porque tornou-se homem, sinal visível e concreto do Pai.

Jesus, Sacramento Fontal

Jesus é a fonte de todos os sacramentos. Suas palavras, gestos e ações são sacramentos concretizadores do mistério de Deus. Cristo é a origem de todos os sacramentos. É o proto-sacramento, o exegésato, a exegese do Pai, o que explica e dá a conhecer o Pai (Cf. F. TABORDA. Sacramentos, práxis e festa. Petrópolis: 1987, p. 122).

Os Padres falavam de mysteria et sacramenta carnis Christi. De fato, “é dele que nos vem graça sobre graça” (Jo 1,16), “nele estava a vida” (Jo 1,4), “era a própria vida” (Jo 11,25). “Com Jesus de Nazaré apareceu a benignidade e o amor humanitário de Deus nosso Salvador” (Cf. 1Tm 3,2; 2Tm 1,10), ele é “a irrupção epifânica da divindade na diafania da carne visível, palpável” (Cf. Cl 2,9; 1Jo 1,2). É certo que Deus falou através dos sinais visíveis da criação e da história. Em Cristo, Palavra encarnada, ele disse sua palavra definitiva a todos os homens. Cristo é a transparência mediadora da visibilidade de Deus. “Ele é a imagem visível do Deus invisível; é o primogênito de toda criatura, nele tudo foi criado nos céus e sobre a terra, o visível e o invisível, tudo foi criado nele e em vista dele” (Cl 1,15-17).

Pe. Häring dizia, com muita propriedade, que “só podemos colher a finalidade e a mensagem do mundo visível pela Palavra vinda na carne” (o. c.). Uma tal visibilidade encontra maior ênfase na teologia de João: “quem é com o Pai nos é manifesto” (1,2). Cristo mesmo descreve o caráter de sua vinda na carne: “quem me vê, vê o Pai… não crês que eu estou no Pai e o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo, não as digo de mim mesmo, mas o Pai que está em mim, é ele quem faz as obras” (14,9-10).

Assim, o homem e o mundo circunstante não são somente coisas, mas uma mensagem que testemunha a presença criativa de Deus. Tudo tem o seu sitz in leben, o seu modo de ser, no contexto da história da salvação que, por sua vez, culmina na encarnação, morte e ressurreição de Cristo. Ele é a aliança visível na união hipostática de divindade e de humanidade e na solidariedade com todo o gênero humano. Graça de Deus presente e percebível, como diz S. João (1Jo 1,13).

Jesus, o Lógos de Deus é a Palavra Encarnada

Para compreender o sentido pleno religioso da criação e da história, deve-se partir do Cristo, Palavra encarnada. À luz do Cristo-sacramento é que se pode entender o que significa a história, a pessoa humana e a comunidade de pessoas e a inteira criação. Por outro lado, não se pode chegar ao conhecimento pleno e vital de Cristo se não se vê em toda parte a manifestação da presença amorosa de Deus.

A chave da visão sacramental da vida é Cristo encarnado, na sua plena humanidade, como afirma S. João: “Aquele que era desde o princípio, aquele que temos escutado, aquele que temos visto com os nossos olhos, aquele que temos contemplado e as nossas mãos têm tocado, do Verbo da vida – sim, a vida se manifestou e nós vimos e damos testemunho e anunciamos a vós a vida eterna, aquela que estava junto do Pai e nos foi manifestada – aquele que temos visto e ouvido, o anunciamos também a vós, afim de que vós entreis em comunhão conosco. E a nossa comunhão é com o Pai e com o Filho, Jesus Cristo” (Jo 1,1-3).

No conjunto dos sinais do amor de Cristo se incluem os sete sacramentos da Igreja. São momentos privilegiados, não exclusivos, de sua obra redentora. Eles nos ajudam a ver Cristo na sua plena humildade e na sua grandeza, em cada manifestação da sua vontade na nossa existência e na nossa experiência vital. Os sete sacramentos devem ser momentos privilegiados e continuados da redenção e libertação.

Jesus, Sacramento do encontro

Deus marcou encontro com o homem em todas as coisas. Cristo é o lugar do encontro por excelência. Nele Deus está de forma humana e o homem de forma divina. Em Jesus de Nazaré, morto e ressuscitado, Deus e o homem se encontram na mais profunda intimidade. Pelo Homem-Jesus se vai a Deus, pelo Deus-Jesus se chega ao homem. Ele é o caminho e termo final do caminho. É o caminho para o Pai, e o Pai está nEle. Por isso mesmo, de um lado Ele é a expressão palpável do amor de Deus, por outro é a forma definitiva do amor do homem. Cristo é o Emmanuel, o Deus conosco. É o Deus que traz a mensagem salvífica, ao mesmo tempo Ele é o Homem que responde ao Pai, abraçando o gênero humano inteiro

Cristo é o sacramento da aproximação de Deus a todos os homens. Quando Iahweh falou sobre o monte Sinai, Moisés sentiu tanto a sua presença que ousou pedir: “Senhor, mostra-me teu rosto” (Ex 33). Moisés fez uma experiência tremenda da santidade (mysterium tremendum) e da graça de Deus (mysterium fascinosum). Aos israelitas, porém, não era permitido aproximar-se nem mesmo aos pés da montanha. Com Jesus é diferente. Sobre o monte das bem-aventuranças, Jesus, vendo a multidão, sentou-se e seus discípulos se aproximaram dele (Cf. Mt 5,1). “Depois, desceu com eles e parou num lugar onde tinha muitos de seus discípulos e uma multidão vinda de toda a Judéia, de Jerusalém, de Tiro e de Sídon, para ouvi-lo e para serem curados de suas enfermidades… e toda gente procurava tocá-lo porque dele saia uma força que curava a todos” (Lc 6,17-19).

Jesus, Sacramento da união do homem com Deus

Cristo une, indelevelmente, a criatura ao seu criador, o homem a Deus. Conforme a Redemptoris Hominis nº 10, ele também “revela o homem ao próprio homem”. Ele é um com o Pai e com os homens. Cristo, que ressurge da morte, é o sacramento da justiça salvífica, da esperança e da misericórdia de Deus para conosco e nos impulsiona com seu amor para uma conversão plena. Ele é a cabeça de seu Corpo que é a Igreja. É também o primogênito dentre os mortos, a fim de que seja o primeiro em todas as coisas. “… Porque o Pai se compraz de fazer habitar nele a plenitude da sua divindade, por meio dele estabeleceu a paz com o sangue na cruz, e quer reconciliar consigo tudo o que existe sobre a terra e nos céus. E também vós, que uma vez éreis para ele estrangeiros e inimigos, por causa dos vossos pensamentos e das vossas obras más, vos tem agora reconciliado, com o corpo, na própria carne, com sua morte, para tornar-vos santos, imaculados e irrepreensíveis diante de si mesmo” (Cl 1,18-22).

O Apóstolo Paulo incentra a sacramentalidade de Cristo na sua morte e ressurreição, isto é, no mistério pascal. Para todos os homens e para cada época ele é o sinal visível da paz e da reconciliação: “O Pai nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e confirmou a nós o ministério da reconciliação” (2Cor 5,18). Cristo é, portanto, o “sinal eficaz e visível da reconciliação com Deus e da reunificação fraterna num único corpo” (E. SCHILLEBEECKX. Cristo, Sacramento dell’incontro com Dio. Roma: 1970). Ele é também, e acima de tudo, o sacramento da esperança para os pobres e doentes; é o sacramento da justiça para os oprimidos; é o sacramento da misericórdia de Deus para todos os homens. De fato, veio evangelizar os pobres, libertar os cativos, dar vista aos cegos, anunciar o ano da graça do Senhor (Cf. Lc 4, 13-10).

Jesus, Sacramento da Nova Lei e da Nova Aliança

Cristo, o sacerdote-profeta dá cumprimento a antiga Lei, também essa, sinal privilegiado da presença salvífica de Deus. Ele nos faz descobrir o valor das virtudes, dos dons e dos carismas encarnados na estrutura da vida humana. Ele veio para tornar plenamente visível e experimentável a cada homem a vida de Deus, e para convidar todos os homens a serem nele luz do mundo, isto é, sacramento de Deus para a sociedade e para o mundo. Assim, a participação no amor e na Lei de Cristo é, essencialmente, sacramental.

Na sua completa união com o Pai e na sua perfeita solidariedade com a humanidade, Cristo é a Aliança final e decisiva. Os Padres da Igreja, fiéis à Escritura, mostram quanto é cristocêntrica a mensagem da Nova Aliança: “Nós não colocamos nossa esperança nem em Moisés nem na Lei. As coisas agora são diferentes; temos uma Aliança e uma Lei definitivas, mais estável que qualquer outra, e que Deus manda observar à todos aqueles que querem tomar parte na sua herança. Nos foi dado Cristo, como Lei eterna e definitiva e como guia fiel. Fora dele não tem lei, nem preceito, nem mandamento válido. Pelas suas obras e pelos seus milagres que as acompanham, cada um pode reconhecer que ele é a Nova Lei e a Nova Aliança” (Justino, Diálogo com Trifon, 11 PG 6, 497/99. Vide também: Irineu, Adv. Haereses III, c. 16,3 PG 7, 923: “Ele estabeleceu um pacto em Jacó, pôs uma Lei em Israel, ordenando aos nossos pais de torná-la conhecida aos seus filhos”; Clemente de Alexandria, Stromata, 1,7 c.3, PG 9, 421: “Cristo é verdadeiramente a Lei, o mandamento e a Palavra Eterna”; Pastor de Hermas, Similitudines, 83,2: “A grande árvore que cobre a montanha e o vale e toda a terra, é a Lei de Deus que foi dada ao mundo inteiro. Essa Lei, porém, é o Filho de Deus, que é pregado até o confim do mundo”).

Dessa maneira, ninguém mais vive sob a lei, mas está sempre na Lei que é Cristo (Nomoi Kryston). Como a lei veterotestamentária foi proclamada Lei da Aliança, assim a Lei do Novo Testamento recebe significa e valor da Nova Aliança. De modo especial, Cristo mesmo é a Nova Aliança. “Essa aliança é a síntese absoluta e perfeita do vertical e do horizontal. Quem está unido a Cristo e vive nele transcende toda forma de alienação e encontra a síntese perfeita entre fé e vida” (B. HÄRING. Preghiera, integrazione tra fede e vita. Roma: 1974).

Jesus é a Palavra e a Resposta

Os sacramentos da fé exprimem a nossa alegre, humilde e grata acolhida da Palavra de Deus e, ao mesmo tempo, traduzem a resposta dinâmica de uma vida inteira. Cristo, o grande sacramento, como afirma L. Boff, é a síntese divino-humana da Palavra-mensagem e da vida-resposta.

Ele é a aliança definitiva e perfeita, pois é a Palavra na qual o Pai se expressa plenamente da eternidade e na qual, na revelação final, manifesta o seu amor e o seu plano de salvação. No mistério da encarnação, morte e ressurreição, foi dita a palavra definitiva de Deus para os homens. Cristo é, portanto, essa palavra viva e atuante, plenamente visível e compreensível para os pequenos e humildes, uma palavra que convida a uma resposta ativa. Na união sacramental com ele, é que o homem responde ao Pai. O homem responde pela história que constrói, pela vida em Igreja, em cada sacramento. Cristo mesmo é a resposta dada em nome da humanidade redimida, portanto, ele é palavra mas também é resposta.

Somente Cristo, Palavra do Pai, dá à criação o significado de palavra e de apelo e, ao homem, a capacidade de compreender o desígnio de Deus na história humana. “Tudo é reassumido nele para a resposta definitiva do amor adorante e do amor fraterno” (GS 22). Cristo responde desde o seu primeiro ato consciente até a efusão de seu sangue na cruz: “então eu digo: eis-me eu venho, para fazer, ó Deus, a tua vontade” (Hb 10,7). Ele não responde com um sacrifício ritual, mas faz de si mesmo a resposta perfeita oferecendo a própria vida para os irmãos: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46). Tudo isso tem um caráter sacramental, pois é acolhida e resposta em nome da humanidade, para salvar a todos. Cristo dá uma resposta vicária, responde por ele e por todos os homens. A resposta do homem ao Pai, é dada em união ao Cristo e por Cristo: “permanecei em mim e eu em vós. Como o ramo por si mesmo não pode produzir fruto se não estiver unido à videira, assim nem mesmo vós, se não permanecerdes em mim” (Jo 15,14).

A resposta do homem a essa palavra vinda na carne é dada em Igreja. A Igreja é a resposta do amor unificado em Cristo.

Igreja, corpo sacramental de Cristo

A Igreja como sacramento é a noção chave do Concílio Ecumênico Vaticano II. Ela é o Sacramento Universal de Salvação. “O Cristo constituiu seu Corpo que é a Igreja como um sacramento universal de salvação …o Senhor que havia recebido todo o poder no céu e na terra, fundou sua Igreja como Sacramento de Salvação” (AG 5). “Por meio da união com Cristo, a Igreja é como um sacramento ou sinal da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano” (LG1).

Esse conceito de Igreja-sacramento renova a própria imagem da Igreja. Contrapõe-se, de fato, a uma mentalidade que considerava a Igreja ensimesmada, tratada negativamente como sacramentalista.

O Concílio desvelou sua verdadeira face. É uma Igreja que está no mundo como fermento na massa, “não interessada em aumentar seu poder, mas em preparar seus filhos para o Reino” (Juan Luis SEGUNDO. Massas e minorias, p. 48). Uma Igreja que não é tudo mas existe para o bem de todos. Uma Igreja, enfim, de comunhão e participação, conforme reafirmado em Puebla.

A Igreja é, portanto, sinal-sacramento da união de Deus com a humanidade e da humanidade consigo mesma. É sinal e instrumento de salvação. Ela é o Sacramento de Cristo porque contém e manifesta Jesus Cristo, do qual é o próprio corpo (pléroma). Participa e atualiza a presença sacramental de Cristo. Cristo continua nela e através dela a manifestar sua presença no mundo. A Igreja, nesse sentido, é o prolongamento de Cristo e sua face visível. “A Igreja-sacramento se define em relação ao desígnio salvador cujo cumprimento na história ela revela e significa aos homens” (Gustavo GUTIERREZ. Teologia da Libertação. Petrópolis: 1975, p. 260).

Somente à luz de Cristo e através dele a Igreja pode ser sinal eficaz de salvação. Não se pode entender a Igreja sem Cristo. É Cristo quem participa sua sacramentalidade à Igreja. Através da ação da Igreja é Cristo mesmo que vai ao encontro do pobre, do doente, daquele que sofre. É por causa de Cristo que a Igreja condivide com o povo sua mensagem, vivendo plenamente a vida do povo na alegria e na dor. Sua ação libertadora emana do Cristo e é motivada pela fé. É a fé que faz descobrir a presença do Cristo Ressuscitado. Por isso a Igreja foi chamada pelos Santos Padres como Mirabile et ineffabile sacramentum.

Assim, vista sob o prisma sacramental, a Igreja – mais do que uma organização social – é um organismo vivo, mais do que instituição é comunidade de salvação. Se auto define como o Corpo de Cristo (Cf. Cl 1,24). A Igreja se auto-compreende como sacramento de salvação quando tudo nela está ordenado a tornar visível Jesus Cristo, que é o Sacramento Primordial (a liturgia com seus ritos, os elementos materiais, as pessoas, o ministério pastoral, a legislação canônica, a legislação financeira, etc.). Ela tem a obrigação de deixar transparecer em suas estruturas visíveis a mensagem de que é portadora. “Deve ser, em outras palavras, tanto o sinal como o lugar de libertação do homem e da história” (Modesto de OLIVEIRA. Teologia e Ideologia. Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, S. Paulo: 1980, p. 3 (Tese doutoral).

Igreja, Sacramento originante

A realidade histórica e visível da Igreja na sua totalidade é sinal e instrumento de salvação para o mundo. Cristo e, partindo dele, a Igreja recebe o nome de sacramento originário. Ela é o lugar primordial da graça que o Espírito comunica em cada sacramento. Os sete sacramentos, nesse sentido, chegam até o homem por intermédio da Igreja, o grande sacramento. São gestos de Cristo na Igreja e são recebidos em comunhão com ela. Os sacramentos todos vem de Jesus Cristo quanto a sua essência e o seu significado mais profundo. A Igreja, porém, tem a liberdade e a autoridade para celebrar e ministrar os sacramentos. “Ela é assim a matriz e a guardiã desse tesouro que o divino Mestre lhe confiou para o bem dos homens” (CNBB. Diretório dos Sacramentos. S. Paulo: 1982, p. 29). Por isso, para celebrar os sacramentos é indispensável a união com ela. A Igreja é, pois, essa fonte sacramental da qual seu Mestre e Senhor faz brotar os seus gestos salvíficos.

Igreja, Sacramento promotor da Unidade no Espírito

A missão de Cristo é chamar todos à unidade, à glória do único Deus, criador e Pai, no Espírito Santo. Cristo Pastor é o que convoca e serve. Assimilada e configurada a Cristo, a Igreja é nele também sacramento da unidade. Ela é eleita entre o não-povo para se tornar povo-eleito.

Cristo é o sacramento perfeito. Todos os outros sinais são válidos nele e em vista dele. Ele é a síntese perfeita entre o amor de Deus e o amor do próximo. O amor de Deus e do próximo é o cumprimento da Lei (Cf. Rm 13,10). Ele é a síntese entre o amor do Pai e o amor redentor da humanidade, entre justiça e atenção para com todos os homens. De modo análogo, o mesmo vale para a Igreja. Ela se manifesta autenticamente cristã enquanto, na vida e na estrutura, se torna um sinal visível e atraente do amor. Ela deve ser um sacramento que indica o mistério do amor, porque o amor possui o primado. É a força que plasma e vivifica toda a vida cristã.

É o Espírito quem dá unidade à Igreja. Cristo infunde sobre sua Igreja o Espírito Santo como sinal e penhor do seu infinito amor. É pelo Espírito que a Igreja participa, com cada um de seus membros, da resposta vital que Cristo oferece ao Pai como sacrifício por todos os homens. Cristo é, pois, o grande sacramento da presença do Espírito. É o Espírito quem cria a koinonia. É a graça do Espírito que reúne o povo de Deus na unidade (Ef 2,19-22). Pio XII dizia que “se Cristo é a cabeça da Igreja, o Espírito Santo é a alma” (Encíclica Mystici Corporis. ASS 1943, 220). Ele não somente habita, mas é o seu sopro vital. Nesse sentido, tudo o que tem valor na Igreja – ministérios, carismas, funções – só pode ser obra do Espírito Santo. “…na variedade todos dão testemunho da admirável unidade do Corpo de Cristo, pois a mesma diversidade de ministérios e de obras, reconhecem em um só corpo os filhos de Deus, dado que, todas essas coisas são obra de um único e mesmo Espírito” (ibidem; cf. também 1Cor 12,11). O Espírito cria a unidade na multiplicidade, por isso, deve-se reconhecer e aceitar a diversidade como proveniente do mesmo e único Espírito. A koinonia exige de nós, portanto, respeito pelos dons tanto dentro como fora da Igreja. Desta forma, a Igreja pode ser assim definida: comunidade reunida no Espírito que contém e testemunha Cristo ao mundo.

Igreja peregrina, Sacramento da história

A Igreja está em marcha, em construção. Atenta aos sinais dos tempos, ela própria é sinal sacramental para os homens desse nosso tempo. Cristo se inseriu no peregrinar da humanidade fazendo da história dos homens uma história de salvação. A Igreja o faz presente em cada evento.

A Igreja do Verbo Encarnado é uma Igreja peregrina. Já prefigurada por Abraão, pelas doze tribos vagantes no deserto e eleitas como Povo da Aliança. É uma Igreja sempre em viagem. Participa da caminhada dos homens respondendo aos reclamos do tempo presente.

Ela esteve e está presente no mundo de várias formas: nos primeiros séculos não possuía grandes construções e instituições. Estava presente por meio dos cristãos organizados em comunidades vitais. Era fermento na massa como atesta a Epístola a Diogneto: “aquilo que era a alma para o corpo, eram os cristãos para o mundo”. A história da Igreja tem acompanhado, par e passo, a história do mundo. É a mesma história.

Hoje, a Igreja do Concílio Vaticano II se define como o Povo de Deus presente em toda a vida humana, como sal, fermento e luz. É o conceito de Igreja Serva. Hoje, na América Latina, se faz uma opção preferencial pelos pobres (Cf. Puebla), porque, como diz o Diretório dos Sacramentos da Arquidiocese de São Paulo: “o pobre é o sacramento de Deus”. A Igreja sacramento está no coração do pobre, pois, “o Verbo Encarnado, que anulou a si mesmo tomando a forma de escravo, apareceu em aspecto de homem e se humilhou” (Fl 2,7-8).

A sacramentalidade da Igreja depende de cada um de seus membros engajados no esforço de reconciliação, de paz, de liberdade, de não-violência, de fraternidade e de progresso. A Lumem Gentium é clara a esse respeito: “Cada leigo deve ser diante do mundo uma testemunha da ressurreição e da vida do Senhor Jesus e um sinal do Deus vivo. Todos juntos, e cada um por sua vez, deve alimentar o mundo com os frutos espirituais (Cf. Gl 5,22) e nele difundir o Espírito, do qual, são animados aqueles pobres, humildes e pacíficos, que o Senhor no Evangelho proclamou bem aventurados” (LG 38).

Igreja, Sacramento escatológico

Com a vinda e a inserção de Cristo em nossa carne e na nossa história, começou a plenitude dos tempos. Em Mt 1,15, Cristo proclama no mistério pascal, que o tempo favorável é chegado e o Reino de Deus está perto. A encarnação, morte e ressurreição inauguram o Kairós, o tempo de salvação, tempo da Igreja, período intermédio entre a primeira e a segunda vinda de Cristo, entre a sua encarnação e o seu retorno. O Kairós é o tempo da alegre expectativa, mas também tempo de empenho e martírio.

Em tudo o que faz através da Igreja, Cristo continua a ser um sacramento que faz a todos “esperar que se realize a bendita esperança da manifestação da manifestação gloriosa do grande Deus e salvador nosso, Jesus Cristo” (Tt 2,13). “Nesse intervalo a Igreja é o sacramento de Cristo enquanto celebra no reconhecimento a esperança maior de maneira experimentável por todos os homens” (LG 48). É sacramento enquanto usa bem o Kairós, o momento presente. Para que a Igreja, Jerusalém terrestre, possa preparar bem a vida dos homens na Jerusalém celeste, é preciso: desligar-se das atitudes superficiais, do pecado, de todo desejo de prestígio terreno, porque, “os aparentes bens deste mundo passam” (1Cor 7,31). A própria vida cristã tem valor sacramental enquanto testemunha a dimensão escatológica da Igreja e o mistério de Cristo.

No tempo intermédio cada cristão tira toda a energia da tensão existente entre o já e o ainda não (H. KUNG. A Igreja. Lisboa: 1969, p.88). Os sacramentos da Igreja e a Igreja como sacramento devem ser um desafio a lutar constantemente contra o egoísmo e a viver na lei do amor. Uma apresentação da Igreja como sacramento coloca em relevo as virtudes escatológicas da esperança, vigilância, gratidão, pobreza e serenidade, e toda a vida dos fiéis ordenada aquele momento em que “Cristo ser tudo em todos” (1Cor 15,28).

Os sete sacramentos falam da vida do homem e da totalidade da ação de Cristo

A definição do Concílio de Trento de que “Os sacramentos da Nova Lei são sete, nem mais nem menos, a saber: Batismo, Confirmação, Eucaristia, Penitência, Extrema Unção, Ordem e Matrimônio” (Sessão VII, c. 1), já comporta um significado que ultrapassa o mero valor quantitativo dos sacramentos. O sete é um número clausus. É o símbolo da totalidade de uma pluralidade ordenada, ou o símbolo qualitativo da perfeição. É a soma de 4 + 3. Quatro é o símbolo do Cosmos: terra, água, fogo, ar, que são realidades imanentes. Três é o símbolo do absoluto: Pai, Filho, Espírito, realidade transcendente. A soma das realidades imanentes com a realidade transcendente traz como resultado o sacramento, que é uma realidade transparente.

Com Santo Tomás de Aquino (Sum. Th. II Pars, Q. 66, a.1) podemos, também, comparar os sacramentos a momentos importantes da vida humana que L. Boff chama de “eixos existenciais” e F. Taborda chama de kairoi. São momentos onde se manifesta mais a dependência e a relação com Absoluto, ou onde essa relação se torna mais intensa e mais consciente. Essa analogia pode ser percebida em cada um dos sacramentos:

No nascimento a criança é pura gratuidade e é um ser totalmente dependente. No Batismo, que é o novo nascimento, recebe como dom gratuito a vida nova de Cristo. A interdependência se estabelece entre o humano e o divino.

No crescimento, a pessoa livre se decide e se insere na sociedade dos adultos. Na Confirmação, que é o sacramento da maturidade cristã, o jovem assume responsabilidades na comunidade cristã, especialmente a de ser apóstolo e testemunha no mundo.

A vida nascida, crescida e maturada, necessita de alimento sólido. Alimentar-se é depender e participar da vida de outras pessoas. Pela Eucaristia alimenta-se da vida eterna. Comunga da vida de Deus e da vida dos homens.

O amor une vidas e depende da liberdade consciente de dois “sim”. O matrimônio explicita a presença de Deus no amor humano e o assume no amor divino.

Na doença a vida é ameaçada e enfraquecida. Torna-se ainda mais dependente. A Unção dos enfermos expressa o poder salvífico de Deus e estabelece a solidariedade da comunidade.

Na vida humana ocorre, muitas vezes, o pecado: ruptura e divisão com próprio homem, com os outros e com a divindade. A Reconciliação leva a fazer a experiência do perdão e voltar ao seio da comunidade.

O homem é chamado a servir: construir a comunidade humana, tornar a sociedade mais justa, descobrir o sentido da vida, reconciliar as pessoas entre si e com a divindade. Pelo sacramento da Ordem, pessoas são ungidas e consagradas ao serviço de Deus na construção do Reino.

Os sete sacramentos, portanto, não são momentos estanques, mas se entrelaçam. Com o número sete se expressa que a plenitude da salvação se comunica a totalidade da vida humana e se manifesta de forma significativamente palpável nos eixos fontais da existência.

Alguns sacramentos são caracterizantes

Os sacramentos irrepetíveis, Batismo, Confirmação e Ordem, imprimem caráter. Desde Agostinho, a Igreja ensina que o caráter é uma marca indelével que assinala a existência cristã como exigência de pertença a Cristo (S. Agostinho recorre a metáfora do caráter, marca a ferro e fogo feita nos soldados do Imperador, e a aplica na causa do não rebatismo dos hereges. É, portanto, um teologúmenon, para explicar os sacramentos irrepetíveis). Para a Escolástica, o caráter é um sinal impresso na alma. O Concílio de Trento descreve o caráter como um “sinal espiritual e indelével” (DS 1609).

Na verdade, existem acontecimentos que marcam a pessoa, não de maneira visível, mas no mais profundo de si mesmo. Os fatos decisivos são também marcantes para o ser humano. Assim, os sacramentos dão à pessoa uma posição determinada na constituição da Igreja e a marcam para uma função na comunidade. Essa marca é invisível, porque se dá em nível existencial e intersubjetivo. Conforme F. Taborda, é “uma realidade existencial e relacional é tão real como a ação de Deus, a memória do sujeito e a memória da comunidade”. O fato histórico, visível, social de receber os sacramentos caracterizantes é, enquanto fato histórico, irreversível. Mesmo que a pessoa se arrependa, pode voltar atrás, apostatar, mas será sempre a pessoa que recebeu o sacramento em questão, foi marcada, e essa marca é irremovível, porque é um sinal espiritual.

Os sacramentos caracterizantes são constitutivos da Igreja. O caráter sacramental exige, pois, um compromisso pessoal de seguimento a Cristo e um relacionamento visível e permanente com a Igreja, vale dizer, “o caráter sacramental é essencialmente salvífico, diz respeito à salvação ou perdição da pessoa na comunidade. O caráter sacramental exige que se viva o acontecimento que nos marcou” (ibidem).

Não obstante, não se pode ver o caráter como uma marca fatal ou fatalista da qual a pessoa não pode se livrar. Esse sinal espiritual, ou essa marca na alma, é o selo e a garantia da aceitação na fé para o próprio homem. Acolher os sacramentos na fé, é aceitar a aliança com o Deus da vida que sela sua amizade com esse sinal indelével chamado caráter. Os sacramentos irrepetíveis caracterizam a pessoa como filhos de Deus e membros da Igreja.

Jesus é o autor de todos os sacramentos

Se formos procurar o sentido sintático (não semântico) a autoria de Cristo com respeito aos sacramentos, apenas encontraremos a instituição de três sacramentos: Batismo (Mt 28,19); Eucaristia (Mt 26,26); Penitência (Mt 16,18-19). Para esses sacramentos, Cristo estabeleceu uma referência específica e explícita a si mesmo. Eles estão na raiz da própria vida. O Batismo corporifica o nascer novo em Jesus Cristo; a Eucaristia, a alimentação da vida nova em Jesus Cristo, a Penitência, o renascimento da vida ameaçada. Nesse ponto situa-se também a problemática ecumênica a respeito dos sacramentos, pois, segundo os reformadores, “é sacramento somente aquela ação eclesiástica portadora da graça de Cristo que, comprovadamente, foi instituída por Jesus Cristo em pessoa” (AA. VV. O novo livro da fé. Petrópolis: 1976, p. 366). O Concílio de Trento, porém, definiu que “os sacramentos cristãos foram instituídos por Jesus Cristo Nosso Senhor” (DS 1601, c.c. 1804, 2536). Para entender a definição de Trento, não se pode considerar os sacramentos como átomos isolados. Eles são a densificação e a corporificação da “vontade do Pai” (Cf. Ef 1,9), portanto, da economia da Salvação.

Os Santos Padres falavam do único mistério-sacramento que tem o Verbo Eterno como autor. Todos os sacramentos, pois, em última análise, vem do Verbo Eterno, isto é, de Jesus Cristo. A fé cristã descobriu a relação dos sacramentos com o Deus encarnado. Descobriu que a dimensão vertical divina se cruzou com a dimensão horizontal humana, e insere os sacramentos na história de Cristo, de tal forma que Cristo assume uma autoria específica. Pode-se então afirmar, num sentido lato, que Cristo é o autor dos sacramentos enquanto dá eficácia a todos os sacramentos. A partir disso, batizar não significa apenas participar da vida da divindade, mas mergulhar na vida de Jesus Cristo. Celebrar a Eucaristia é comer o Corpo do Senhor. Casar é simbolizar a união de Cristo com a Igreja. Tudo passa, portanto, a ter referência a Jesus Cristo. É ele quem confere eficácia ao rito celebrado. A força salvífica do rito não provém de qualquer qualidade do fiel ou da comunidade, mas de Jesus Cristo presente. Por outro lado, querendo a Igreja como sacramento universal de salvação, ele quis também os sacramentos, pois, os sacramentos são gestos seus na Igreja e, através da Igreja, para o mundo.

Ecumenismo: sacramentos, universalidade à ser conquistada

Os sacramentos cristãos são sinais da Nova Aliança e sinais do Reino. Eles são gerados na Igreja para todos os homens. Assim, o diálogo com as outras Igrejas deve contemplar a realidade sacramental. De fato, para o Guia Ecumênico da CNBB (Doc. 21 de 1979) os sacramentos, principalmente a Eucaristia, constituem o núcleo central da liturgia católica. Na compreensão teológica católica, eles “destinam-se à santificação dos homens, à edificação do Corpo de Cristo e ainda ao culto a ser prestado a Deus. Sendo sinais, destinam-se também à instrução… Conferem certamente a graça, mas a sua celebração também prepara os fiéis do melhor modo possível para receberem frutuosamente a graça, cultuarem devidamente a Deus e praticarem a caridade” (SC 59). Desse modo, a compreensão dos sacramentos é um dos pontos onde mais se percebem as diferenças tradicionais entre as diversas confissões cristãs e as convergências alcançadas pelo diálogo ecumênico.

A praxe ecumênica tem procurado a concordância quanto à matéria e à forma do sacramento e quanto à fé e à intenção de fazer o que a Igreja de Cristo faz. Tome-se, por exemplo, o batismo: pode ser por imersão, infusão ou aspersão e com a fórmula trinitária é, de per si, válido. Deve-se também presumir o contexto de fé da comunidade cristã e o objeto da fé que é o próprio Cristo e ainda, a séria determinação de querer fazer o que fazem os cristãos. Uma confissão não católica que assim proceder, batiza validamente. A Igreja católica só rebatiza alguém se há dúvida sobre o fato ou sobre a validade do batismo já conferido. Diz o Guia Ecumênico que Batizam validamente: Igrejas Orientais Separadas, Véteros Católicos, Anglicana, Luterana, Metodista. Igrejas que acreditam que o Batismo não justifica e por isso não é necessário, mas que, quando feitos, segundo a fórmula própria, podem ser aceitos pela Igreja Católica: Presbiteriana, Batista, Adventista, Congregacionalista, Assembléia de Deus. Igrejas cujo Batismo é duvidosamente válido e, por isso, deve-se rebatizar: Pentecostal unida do Brasil, Mórmons, Igrejas Brasileiras. Com certeza o Batismo é inválido nas Testemunhas de Jeová. Não tem Batismo: Ciência Cristã e Exército da Salvação.

As Igrejas Orientais

As Igrejas Orientais, embora separadas, têm verdadeiros sacramentos, principalmente – em virtude da sucessão apostólica – o Sacerdócio e a Eucaristia. Entre a Igreja Católica e as Igrejas Orientais separadas existe íntima união na fé. Há, portanto, um fundamento eclesiológico e sacramental para que “alguma comunicação nas coisas sagradas com essas igrejas, sem excluir o sacramento da Eucaristia, dadas as oportunas circunstâncias e com aprovação da autoridade eclesiástica não apenas seja permitida, mas algumas vezes até recomendada” (Ad Totam Ecclesiam, 55). Dessa forma, podem ser conferidos aos Orientais os sacramentos da Reconciliação, Eucaristia e Unção dos enfermos. Os católicos também podem receber esses sacramentos dos ministros orientais.

As Igrejas da Reforma

A eclesiologia da Idade Média se nutre principalmente em duas fontes patrísticas: em Cipriano de Cartago, para quem a integração do indivíduo na Igreja institucional, hierárquica, é condição indispensável para a salvação, e em Agostinho, que entende a Igreja como comunhão dos fiéis, ligados na caridade entre si e com Cristo. Estas duas concepções não se contradizem.

A Igreja, segundo Agostinho, é invisível no sentido de abranger vivos e mortos, militantes e triunfantes; mas ela é visível como manifestação da Cidade de Deus na ordem temporal, e nesta qualidade ela tem estrutura institucional, exerce autoridade e é – como também Cipriano admite – um corpus permixtum. Nos séculos posteriores se observava a tendência de acentuar a unidade da Igreja terrena e da celestial, culminando na bula Unam Sanctam (1302), que afirma a total coincidência da Igreja invisível com a instituição sacramental e salvífica na terra. Esta tendência é reforçada na polêmica contra as interpretações místicas e espiritualistas da Idade Média tardia.

Lutero, cujas primeiras reflexões eclesiológicas datam do tempo quando ainda não pretendiam criticar a Igreja Católica, afirma com Agostinho que a Palavra e a fé são muito mais constitutivas para a Igreja do que a administração dos sacramentos ou a hierarquia. Herege é aquele que desobedece à Palavra, não aquele que é excomungado pelas autoridades eclesiásticas. A Igreja verdadeira é a comunhão dos santos, convocados pela Palavra e unidos em fé e amor. Esta comunhão é necessariamente invisível, porque só Deus conhece os corações; mas ela pode se tornar uma experiência real, sobre tudo pelo poder da intercessão, que Lutero estima muito. A pregação pura da Palavra e o uso correto dos sacramentos são indícios infalíveis de que, lá onde acontecem, há Igreja verdadeira. A Igreja é a esfera do regimento espiritual de Deus. Segue-se disso que ali não há outra autoridade senão a Palavra. Os ministros da Igreja não exercem seu cargo para mandar, mas para servir. O uso da força coercitiva corresponde ao regimento temporal, ao Estado que, como Estado cristão, tem também o dever de estabelecer uma ordem externa, na qual a Palavra pode circular livremente.

Calvino, para quem a santificação da vida cristã pesa mais do que o protesto contra o institucionalismo sacramental, não se empenha tanto como Lutero em manter a distância entre Igreja visível e invisível. Observamos uma crescente valorização da primeira nas sucessivas edições da Instituição.

Calvino chegou a dizer que se trata de duas definições da mesma realidade: com respeito à comunhão interna com Cristo a Igreja é invisível, com respeito ao testemunho externo ela é visível. A Igreja visível é o instrumento de Deus para se chegar à verdadeira Igreja, ela é propriamente a “guardiã da verdade” e a “mãe dos fiéis” – expressões estas em que se revela a influência de Cipriano. Muito importante é para Calvino o exercício da disciplina cristã, que consiste na correção do pecador mediante a Palavra, e que em caso de necessidade deve recorrer à ajuda do Estado.

No tocante aos sacramentos existe na Igreja ocidental, desde Agostinho, uma interpretação espiritualista que distingue nitidamente entre o signum, ou ato externo, e a res, ou comunicação da graça divina. Ambos estão vinculados pela palavra que acompanha o sacramento, e que deve ser aceita na fé para tornar o sacramento efetivo. A outra interpretação, que na Idade Média ganhou cada vez mais terreno, entende a graça como uma realidade substancial, da qual os sacramentos são portadores.

Consolidou-se a noção da Eucaristia como um sacrifício oferecido a Deus, assim como a compreensão dos sacramentos como necessários para a salvação e como efetivos ex opere operato, ou seja, independentes da qualidade moral de quem os administra. O número de atos qualificados como sacramentos é variável, mas desde o século XIII se fixa em sete (batismo, crisma, eucaristia, penitência, matrimônio, ordenação sacerdotal e extrema unção). O Concílio de Trento estabiliza toda esta evolução, perpetuando o caráter da Igreja como dispensadora dos sacramentos, e neste sentido, instituição salvífica.

Lutero renova a concepção agostiniana de que o sacramento é “Palavra visível”, eficaz para quem o aceita com fé. Deus atua por meio da Palavra tanto como por meio do sacramento, sendo que este apropria e confirma ao crente o que a Palavra lhe promete. Só valem como sacramentos os que foram textualmente instituídos por Cristo, limitando-se portanto o seu número a dois. A polêmica contra os entusiastas levou Lutero a enfatizar cada vez mais o valor objetivo dos sacramentos.

Na opinião de Zuínglio, o sujeito agente nos sacramentos não é Deus, que confirma a fé do crente, mas o próprio crente, ou melhor: a Igreja, que recorda e representa simbolicamente os benefícios de Cristo, dando assim um testemunho público da sua fé. Calvino adota uma posição intermediária. Para ele Deus é o sujeito agente nos sacramentos, mas a transmissão da graça se dá de maneira puramente espiritual. Os sacramentos são o selo e o penhor da promessa dada na pregação.

Com respeito à Santa Ceia todos os reformadores lhe rejeitam o caráter sacrificial, por considerarem-no como negação do sacrifício único de Cristo. Decorre disso a rejeição do sacerdócio, das missas particulares, da adoração isolada da hóstia. No entanto, há divergência de opinião no tocante à presença de Cristo na Santa Ceia. Lutero acredita na presença real: corpo e sangue de Cristo, que graças à comunicatio idiomatum entre as naturezas divina e humana possuem o dom da ubiqüidade, se ligam misteriosamente com os elementos, porém, sem provocar neles uma mudança física (consubstanciação em vez de transubstanciação).

Calvino rejeita tanto a doutrina luterana da presença real como a interpretação simbólica de Zuínglio. Ele ensina que os fiéis que, ao receber os elementos, elevam o espírito para Cristo no céu, serão saturados com o alimento invisível da sua graça, tão certamente como eles comem e bebem os sinais visíveis da mesma. A doutrina sobre a Santa Ceia é considerada, talvez com pouco fundamento, como uma das principais diferenças entre os reformadores.

Os sacramentos exprimem a unidade da Igreja

Por serem os sacramentos expressão da unidade de uma comunidade de fé, no culto e na vida, estabelece-se que, “onde faltar esse unidade de fé, quanto aos sacramentos, é proibida a participação dos irmãos separados com católicos, sobretudo nos sacramentos da Eucaristia, da Reconciliação e da Unção dos enfermos. De outro lado, como os sacramentos constituem não apenas sinais da unidade como também fontes que proporcionam a graça (Cf. De Oecum, 8), a Igreja pode, com razão suficiente, permitir o acesso dum irmão separado a esses sacramentos. Tal fato se explica por algumas situações limites: perigo de morte, perseguição e prisão, impossibilidade de dirigir-se ao ministro de sua própria confissão. Outros motivos podem ser decididos pelo Ordinário ou pela Conferência Episcopal. “O católico, no entanto, só pode receber esses sacramentos das mãos de um ministro que validamente recebeu o sacramento da ordem” (Orientalium Ecclesiarum, 42-43).

O Símbolo e o Rito

Os sacramentos usam uma linguagem simbólica e se expressam através de símbolos (água, pão, vinho, luz, óleo). “A palavra símbolo era usada no sentido de uma senha. Um anel duplo, por exemplo, ou um caco de barro quebrado em dois. A aproximação das duas partes era sinal de reconhecimento, de unidade e amizade entre aliados” (AA. VV. Os Sacramentos, Coleção Iniciação à Teologia, n. 11. S. Paulo: 1980, p. 25). A primeira função do símbolo é criar um vínculo. O sacramento, como símbolo que é, cria um vínculo entre Deus e os homens. “Esse vínculo se manifesta pelo nosso inserimento na comunidade de culto, a Igreja, onde somos convidados a adorar o Pai em Espírito e em verdade” (B. HÄRING. Livres e Fiéis em Cristo, v. I. S. Paulo: 1979, p. 438).

O sacramento enquanto símbolo não só exprime, mas torna presente o significado. Faz compreensível e concreto o vínculo com Deus em seu núcleo central: Cristo e sua ação amorosa. Por isso, podemos dizer que o sacramento é o significante que contém o significado e o torna presente. É Cristo quem age na Igreja, seu sinal-símbolo mais próprio. “Ele age na Igreja através de homens e de homens pecadores” (AA. VV. Une introduction ala foi catholic. Paris: 1968, p. 328). O sacramento, além de ser sinal-significante (o pão significa o desejo de Jesus em nos alimentar), produzem o que significa. Aquilo que nos é significado nos é dado realmente (O Pão, Corpo de Cristo, nos alimenta …e alimenta para a vida eterna).

O símbolo revela o Mistério

O símbolo revela e desvela a mensagem do transcendente. A apreensão dessa mensagem exige do homem uma identificação com a mensagem ou , pelo menos, um desejo de acolhê-la no mais íntimo de seu ser. É preciso, portanto, que haja acolhida do significado mais profundo que só pode ser visto e apreendido por quem possui discernimento.

Foi assim com Jesus: Ele fez o bem, curou, perdoou os pecados, gerou esperanças, ressuscitou mortos, amou a todos, mas, foi também motivo de escândalo, como preanunciava Simeão: “Esse menino ser motivo de escândalo, de salvação e perdição para muitos em Israel” (Lc 2,34). Para uns ele foi Mestre, justo, santo, libertador, enviado de Deus, salvador do mundo, Messias, Rei, o próprio Deus feito homem; para outros foi beberrão e comilão, freqüentador de círculos suspeitos, subversivo, herege, louco, possesso do demônio e blasfemo (Cf. Mt 11,19; Mc 2,7.16; 3,22; Lc 23,2; Jo 8,48). Os que, diante de Jesus, modificaram sua vida, descobriram nele O “Messias, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,17), apesar dele ser o Filho do carpinteiro. Para esses ele diz: “Felizes os que não se escandalizaram de mim” (Mt 11,16; Lc 7,23). Os que estavam agarrados à tradição, aos interesses sociais, à religião estandartizada; os que esperavam um messias político e não tinham coragem de converter-se, viram nele um elemento perigoso que colocava em perigo a religião e o Estado.

Fé e sacramento

O sacramento exige critério de discernimento e, sobretudo, de adesão e engajamento. Por isso supõe a fé e, ao mesmo tempo, expressa a fé. A fé é uma atitude fundamental, desde dentro, de abertura ao Transcendente. O sacramento será plenamente simbólico quando, nos seus ritos, expressar a intimidade com esse mesmo transcende, ou por outra, o diálogo do homem com Deus no sinal-símbolo. Os gestos, as palavras, os ritos, enquanto expressam a vida de toda a Igreja, alimenta e amplia o âmbito da própria fé (SC 19). Da mesma forma, concretizam a fé de toda a Igreja em cada gesto seu.

O sacramento é ainda simbólico quando rememora, trazendo presente a experiência da graça; comemora, através do rito, a presença perene na vida humana daquele que é o Sacramento Primordial e autor de todos os sacramentos; antecipa o futuro, presentificando a Parusia, a vida eterna, a comunhão com Deus e o convívio dos santos. Toda a liturgia sacramental, nesse sentido, antecipa a gloriosa liturgia celeste.

O Rito

Os sacramentos se atualizam sempre dentro de um rito. Assumo neste trabalho a definição de rito proposta por Raymond Didier: “Rito é um agir social específico, programado, repetitivo e simbólico, mediante o qual se opera a identificação do indivíduo em seu grupo social e na sociedade global” (In: Os sacramentos da fé: a Páscoa em seus sinais. S. Paulo: 1977, p. 26). É um agir social porque v rias pessoas são envolvidas e desempenham papéis diversificados e complementares. É uma atividade coletiva em que cada um tem o seu lugar. Exige, portanto, comunicação entre os participantes. No rito tudo é simbólico: personagens, objetos, fórmulas. É programado e repetitivo pois supõe determinações prévias. Não há rito sem rubricas. Ao celebrarmos um rito sabemos o que vai acontecer porque já o fizemos antes e tornaremos a fazer. Opera a identificação no grupo social já que a pessoa descobre e afirma sua identidade através de um certo número de representações.

O sacramento e o rito

Também o sacramento cristão, analogicamente, é um agir social específico, pois é celebrado numa comunidade com personagens possuidores de papéis diversificados. É bem verdade que o rito sacramental ultrapassa o grupo social restrito e faz referência à comunidade mais ampla que é a Igreja. Pela celebração, enquanto mediação da comunidade local, é a Igreja de todo o mundo e de todos os tempos que se acha presente no rito cristão.

O sacramento supõe uma estrutura interna estável e determinada. Supõe um ritual. Possui uma unidade organizada de elementos diferenciados e não pode ser celebrado por qualquer um nem em qualquer situação. É programado e repetitivo porque é sempre memorial do evento da salvação: “Todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciareis a morte do Senhor até que ele venha” (1Cor 11,26).

Rito, tradição e criatividade

O rito pode facilmente degenerar em ritualismo se preocupar-se apenas com o que está escrito ou prescrito. É preciso criatividade, entendida, porém, de maneira adequada. A criatividade não exclui a tradição, mas esta deve ser a raiz que sustenta o crescimento do que é novidade. Por exemplo, por mais que se possa criar no rito do batismo, o fundamental será sempre a água (por ablução, aspersão ou imersão) como matéria, e as palavras “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”, como forma.

Não há sacramento que não dependa da morte e da ressurreição de Jesus. Eis aqui a verdadeira Tradição. Hoje, falamos como o Cristo falou, fazemos como o Cristo fez. O rito sacramental proclama assim que o evento Jesus domina a história e o tempo e é vivido hoje. Ele leva o cristão a reencontrar sua identidade mais profunda que consiste na participação da própria vida do Ressuscitado e na comunhão com todos os membros de seu Corpo.

A Palavra é a força do sacramento

No rito cristão é a Palavra que faz o Sacramento. Torna eficaz o próprio rito. Essa Palavra não é uma palavra morta, é a Palavra-que-fala. É Jesus Cristo, Palavra de garantia que Deus deu ao homem. É a palavra que transfigura o rito da refeição repartida em comunhão do Corpo e do Sangue de Cristo. Assim, no rito do Batismo, por exemplo, não basta derramar água sobre a cabeça da criança, é preciso dizer: “Eu te batizo, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”, cumprindo o que Jesus mandou. O rito seria vazio se não fosse a Palavra. A Palavra está presente em todas as circunstâncias da vida cristã, mais ainda, nos sete gestos sacramentais. Ela estava presente desde o princípio: Deus falou e fez a luz, a terra, os animais, o homem… Assim também o Cristo fala nos sacramentos. Sua Palavra tem o selo de garantia do Pai.

Jesus opera nos sacramentos

Jesus fala nos sacramentos, sua presença é pura dádiva do Pai. É graça. Desde o princípio a Igreja crê que a graça divina está infalivelmente presente na realização do sacramento desde que ele seja realizado na fé e na intenção de comunhão com a Igreja universal. A presença de Jesus Cristo, graça do Pai, não depende, portanto, da santidade do ministro, nem da santidade de quem vai receber o sacramento. Não depende nem dos méritos humanos, mas agem ex opere operato, isto é, uma vez realizado o rito sacramental, colocados os sagrados símbolos, Jesus Cristo se torna presente. Não em virtude dos ritos por eles mesmos (o que seria magia), mas em virtude da promessa de Deus mesmo. A causa da graça não é o homem, nem os símbolos por ele usados, mas unicamente Deus Pai e Jesus Cristo. Ao homem compete abrir-se à graça pela fé. Eis, portanto, a necessidade da fé para receber o sacramento.

Pode-se entender, pois, o ex opere operato: através de um enunciado negativo quando se diz, então, que a graça sacramental não é causada em virtude de alguma ação ou poder do administrante ou do beneficiado. É causada por Deus. É Cristo quem batiza, quem consagra, quem perdoa… O ministro lhe empresta seu ser. A graça acontece no mundo independente da situação dos homens; através de um enunciado positivo quando se diz que, realizado o rito, temos a garantia de que Deus e Jesus Cristo estão presentes pelo seu Espírito. O agir de Deus tem sempre o caráter de Palavra e mensagem. O opus operato fala do Verbo encarnado que se volta à inteligência e ao coração do homem. Foi nesse sentido que Santo Tomás introduziu seu tratado sobre os sacramentos: “Depois do que se refere ao mistério do Verbo encarnado, é necessário estudar os sacramentos da Igreja, cuja eficácia deriva do mesmo Verbo encarnado” (Sum. Th. III Pars, q. 60). Os sacramentos se constituem, enfim, pela proposta de Deus e pela resposta livre e ativa do homem (Cf. ARQUIDIOCESE DE SÃO PAULO. Diretório dos Sacramentos. S. Paulo: 1982, p. 11).

O homem co-opera nos sacramentos

É Deus quem age nos sacramentos apesar dos homens. Sua graça está presente independente dos homens, no entanto, ele quer contar com os homens. Criou-os livres e respeita sua autonomia. Ao homem cabe abrir-se em atitude de fé e não colocar obstáculo à ação de Deus em sua vida.

O Concílio de Trento afirmava que a graça divina jamais se nega, apesar da recusa humana. Lembrava também a necessidade da conversão e da remoção de todos os obstáculos para que o encontro divino-humano possa acontecer, a fim de realizar-se plenamente o sacramento (DS 1606). Em outras palavras, a graça está sempre presente em cada sacramento, no rito realizado, e é conferida àquele que não lhe opõe obstáculos (non ponentibus obicem).

A pastoral sacramentária, portanto, deve levar as pessoas a uma autêntica conversão, isto é, a acolhem na fé e em consciência a gratuidade do dom de Deus presente em cada sacramento.

Concluindo

Cada um dos sete gestos sacramentais da Igreja exige, pela sua própria índole, um compromisso sagrado. Exige conversão e novas atitudes. Exige ainda comprometimento com a causa da liberdade, da promoção integral do homem e de sua salvação.

Não se recebe um sacramento para obtenção de status, por tradição ou superstição, mas sim para se tornar testemunha do plano original de Deus. A lição vem dos primeiros cristãos: tinham consciência de que eram a alma do mundo, se indispunham com a ordem social vigente, comprometendo-se, por outro lado, com o martírio. Os sacramentos para eles não eram celebrados numa comunidade ritual apenas, mas expressavam toda a vida da comunidade de fé, culto e serviço.

Cristo mesmo, Sacramento Primordial, do qual emana todo sacramento e no qual cada sacramento encontra sua eficácia, inaugura o tempo novo da salvação (kairós), entregando plenamente e concretamente a sua vida para a salvação de todos.

Hoje, os sacramentos devem engajar na comunidade local e, mais ainda, na Igreja Universal, pois, ela é o sinal e instrumento profético e, toda ação sua, é ação libertadora. Assim, a vida eclesial, portanto, sacramental, deve iniciar um processo de libertação pessoal e comunitário-social. Deve levar à liberdade para a qual Cristo nos libertou. Lembrava o Papa Paulo VI que o papel da evangelização é precisamente o de educar de tal modo para a fé, que esta leve cada um dos cristãos a viver os sacramentos como realmente eles são: verdadeiros sacramentos da fé (EM 47).

Quem recebe um sacramento é consagrado, ungido com Cristo para libertar o pobre, o cativo, e instituir o ano da graça do Senhor (Cf. Is 61) e se torna participante da santidade de Deus, configurando-se a Jesus Cristo. Desse modo, a graça conferida nos sacramentos – que salva e redime o homem – é dom do único Pai e do único Redentor, Jesus Cristo, no Espírito Santo.

Côn. Dr. José Adriano

Publicado in: Revista de Cultura Teológica nº 33 (out/dez/2000); ISSN 0104-0529

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Considerações sobre Metodologia da Pesquisa Científica

I – ELEMENTOS DE UM PROJETO DE DISSERTAÇÃO OU TESE

 Côn. Dr. José Adriano e Grupo de Pesquisa[1]

RESUMO

O estudo em questão é resultado do trabalho acadêmico dos pós-graduandos participantes do curso de Metodologia da Pesquisa Científica em Teologia. Visa a apresentar uma importante faceta da metodologia, como instrumental adequado para o pesquisador, que trilha o itinerário da busca da verdade e a quer apresentar de modo cientificamente objetivo. Refletindo desde as principais características do projeto, sua estrutura e conteúdo e perpassando as graves questões da comunicação e da linguagem, o estudo propõe a atenção, a agudeza e a meticulosidade do pesquisador quanto às normas vigentes emanadas pela ABNT, adaptadas à realidade acadêmica da Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, para a realização e apresentação do Trabalho Científico, capaz de dar um real contributo à ciência teológica.

ABSTRACT

The presented study, however, it is resulted of the academic work of the universities participants in the course of Methodology of the Scientific Research in Theology. It aims at to present an important aspect of the methodology, as adjusted instrumental for the researcher, that treads the itinerary of the search for the truth and he wants to present this in an objective way, using the science. Reflecting about the main characteristics of the project, its structure, content and to pass by the serious questions of the communication and the language, the study intend to pay attention to the perspicity and the meticulosicity of the researcher in agreement to the effective norms emanated by the ABNT, adapted to the academic reality of the Pontifical Faculty of Theology Nossa Senhora da Assunção, for the accomplishment and presentation of one Scientific Work capable of giving a real contribution to the theological science.

A Metodologia da Pesquisa Científica, sendo um instrumental para a busca da verdade, quer, em conseqüência, demonstrar e transmitir por argumentos lógicos, válidos e fidedignos, essa mesma verdade.

A. O PROJETO DE PESQUISA

O Manual de Metodologia da Pesquisa Científica da Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção informa que “O projeto é uma das etapas componentes do processo de elaboração, execução e apresentação da pesquisa. Essa etapa necessita ser planejada com extremo rigor, caso contrário, o investigador, em determinada altura, encontrar-se-á perdido num emaranhado de dados colhidos, sem saber como dispor dos mesmos ou até desconhecendo seu significado e importância. Em uma pesquisa, nada se faz por acaso ou de improviso. Desde a escolha do tema, fixação dos objetivos, determinação da metodologia, coleta de dados, sua análise e interpretação para a elaboração do relatório final, tudo é previsto no projeto de pesquisa. Este, portanto, deve responder às clássicas questões: o quê? Por quê? Para quê? Para quem? Onde? Como? Com que? Quanto? Quando? Quem? …”[2]

A1. CARACTERÍSTICAS GERAIS DO PROJETO

1. Assunto/tema

a) O assunto deverá ter significado especial tanto para a teoria como para a prática.

b) Ser suficientemente limitado ou concentrado para permitir um tratamento adequado.

c) Caracterizar-se mais pela unicidade e delimitação do tema e pela profundidade do tratamento do que por sua extensão, generalidade ou valor didático.

d) Possuir um significado amplo, transcendendo a situação imediata da Academia ou Universidade como fonte de cultura, inserindo-se dentro da realidade.

2. Conteúdo

a) Indicar um apanhado dos campos relacionados e de outros estudos realizados – localização do estudo dentro do campo geral.

b) Evidenciar conhecimento, consideração e justificativa para as proposições fundamentais.

c) Deverá incluir todos os dados que se relacionem ou que tenham influência no problema e excluir o material menos importante.

d) Buscar e apresentar as conclusões que sejam consistentes e sustentadas pela evidência e pela lógica.

e) Tornar explícito o significado do problema, assim como dos resultados alcançados.

f) Incluir o material histórico significativo disponível.

g) Mostrar o conhecimento que o autor possui sobre os estudos prévios conduzidos e incluir bibliografia específica selecionada.

h) Mostrar-se exato e completo ao longo do trabalho.

3. Procedimento

a) Estar ausente de preconceitos, ser profissionalmente desinteressado ou cientificamente imparcial.

b) Indicar e usar os métodos de obtenção de dados que sejam adequados ao problema.

c) Incluir refinamentos de técnicas aplicáveis, desenvolvidas por outros pesquisadores sobre o assunto.

d) Oferecer dados que se refiram a amostras adequadas e representativas.

e) Fundamentar-se numa lógica segura (O pensamento lógico garante a razoabilidade/credibilidade do argumento).

f) Apresentar exatidão e usar métodos estatísticos corretos.

4. Apresentação

a) Indicar uma organização cuidadosa e clara: a estrutura do trabalho deve aparecer com objetividade e clareza.

b) Usar linguagem correta, estilo conciso e precisão de vocabulário (regionalismos, linguagem coloquial e gírias não respondem às exigências do trabalho científico)[3].

c) Evidenciar relação entre as partes em estudo e uma transição harmoniosa entre uma e outra.

d) Apresentar uma boa organização mecânica (quadros, tabelas, referências, apêndices, índices, notas de rodapé) – todas essas características expressas de acordo com as formas propostas pelos manuais especializados.

e) Ser acompanhada da documentação adequada (documentação bibliográfica ou outro tipo de documentação).

f) Apresentar um nível de dificuldade representado pela complexidade da técnica e (ou) pela coerência de pensamento e (ou) pela finalidade ou amplitude de visão.

5. Princípios gerais

a) Sequência lógica e imparcialidade: Na preparação do estudo final, o primeiro cuidado do investigador deve ser o de apresentar os dados coletados e os resultados encontrados, de modo que o leitor seja capaz de seguir a investigação passo a passo. Os capítulos devem ser arranjados em uma seqüência lógica que deverá conter, apenas, o material relacionado diretamente com o problema em estudo. São intoleráveis em um artigo científico evidências irrelevantes, digressões teóricas, argumentos ingênuos, ataque à evidência apresentada ou à opinião expressa por outros investigadores. O autor deve assumir, durante todo o tempo, um ponto de vista imparcial.

b) Estilo literário: Embora se deva ter em mente que a descoberta da verdade é a finalidade da investigação, uma apresentação inteligente dessa verdade deve ser o objetivo do autor. A apresentação inteligente dos resultados de pesquisa pede que todos os resultados sejam colocados num estilo claro e preciso. O mero relato de dados confusos e uma simples apresentação dos resultados prejudicarão a finalidade a ser atingida pela tese. Um investigador tem obrigações para consigo mesmo e para com seus leitores de apresentar as verdades descobertas de maneira que despertem o interesse e prendam a atenção. O cultivo cuidadoso da clareza, precisão e coerência contribuirão bastante para ressaltar o valor do estudo[4].

c) Comunicação entre o autor e o leitor: Dificilmente se atingirá clareza, a menos que cada pensamento expresso tenha sido formulado na mente do autor, antes de escrito. A falta de precisão por parte do autor produzirá efeito semelhante na mente do leitor. É preciso lembrar que o assunto da tese nem sempre será tão familiar ao leitor quanto o é para o autor; além do mais, a mera alusão a materiais anteriores pode confundir mais do que esclarecer o leitor. Mantendo a consideração pelo leitor sempre em mente, o autor deve se esforçar para tornar seu pensamento tão claro que este se torne imediatamente evidente para o leitor[5].

d) Planejamento do Estudo: O Projeto deve conter uma descrição especifica e cuidadosa do planejamento do estudo. Tratando-se de uma tese científica, qualquer leitor do trabalho deverá obter informações suficientes para poder reproduzir o experimento ou a pesquisa se assim o desejar.

e) O cuidado com a Linguagem: A precisão de expressão é essencial para uma apresentação cuidadosa de resultados encontrados pelo pesquisador. Devem-se evitar termos gerais. Uma busca cuidadosa de palavras e expressões exatas que conduzam às idéias do autor eliminará muitas dificuldades que derivam de um emprego descuidado da linguagem.

f) Tratamento: Como uma tese não é um trabalho de natureza pessoal, as formas pessoais – eu, mim, me, meu, nós, nos, nosso, seu – devem ser evitadas. O uso do pronome pessoal pode ser feito quando o autor do estudo está assumindo responsabilidade direta pelas afirmações feitas, ou quando achar necessário fazer uso dele para se tornar mais específico. Também não se usam títulos e graus no texto, nas notas de rodapé ou na bibliografia (por ex: Dr., Prof., Srta., Sra., Sr., etc.).

6. Orientação do Trabalho

Todo trabalho de pesquisa e elaboração de um tema, no nível acadêmico, supõe um orientador. O papel do orientador é o de ser um educador. O orientador deverá ser capaz de estabelecer com seu orientando uma relação educativa, o que pressupõe um trabalho conjunto em que ambas as partes crescem. É necessário que ocorra uma interação dialética em que esteja ausente qualquer forma de opressão ou de submissão.

B. ESTRUTURA DO PROJETO

1. Introdução/justificativa

a) Introdução geral à área para investigação do problema.

b) Introdução à área especifica do problema a ser investigado.

c) Justificativa do estudo: por que é importante ter a resposta a este problema particular.

2. Problematização

a) Suposições do estudo.

b) colocação clara do problema especifico a ser investigado.

c) apresentação das hipóteses a serem investigadas.

d) apresentação resumida de como irá obter a informação para o estudo e como ela se relaciona com as hipóteses formuladas.

e) colocação precisa do tipo de evidência que está procurando.

f) Delimitações: restrições ao estudo, finalidades, área, etc.

g) Definições: definir apenas termos desusados ou singulares. Não definir termos que são comumente compreendidos dentro da área de interesse.

3. Análise da Bibliografia

a) Bibliografia específica selecionada: Deve ser tornado claro um esquema para a análise da bibliografia. A bibliografia analisada deve se relacionar com o problema especifico sob investigação. Um capítulo preenchido com citações não relacionadas não vai ao encontro do intento da revisão bibliográfica. Devem ser atingidas algumas conclusões depois da análise apresentada. Antes de começar a escrever, o autor deve se munir de uma boa enciclopédia, de dicionário de reconhecido valor, de manuais e textos críticos, enfim, de instrumentos básicos, fundamentais.

B1. NORMAS PARA ELABORAÇÃO DE UM PROJETO SEGUNDO O MANUAL DA PONTIFÍCIA FACULDADE DE TEOLOGIA NOSSA SENHORA DA ASSUNÇÃO (Art. VII, 3, a-j)

a) Título: Enuncia com clareza o objeto do estudo e seu enfoque, ou seja, o objeto material e formal da pesquisa[6].O título deve ser preciso, breve e abranger todos os aspectos do assunto a ser tratado, comunicando imediatamente a mensagem que deseja transmitir. Não deve prometer mais do que aquilo que os dados coletados para estudo indicam. Na formulação do título, as palavras e as frases devem seguir a ordem sugerida pelas investigações já realizadas. “Recomenda-se adotar título objetivo, direto; usar substantivos, estando atento às preposições exatas e ao mínimo de artigos. O título do trabalho não é o seu resumo. Devem-se evitar títulos longos, buscando objetividade e contendo apenas as palavras essenciais, sem prejuízo da clareza e entendimento da natureza do trabalho. Não se usam metáforas, ironias ou outros recursos literários em títulos acadêmicos, exceto com absolutas consciência e intencionalidade no procedimento”[7].

b) Justificativas: Esclarecem e delimitam o objeto da pesquisa; apresentam elementos como o contexto do objeto, sua relevância, tanto científica quanto conjuntural, e as motivações para a pesquisa do tema (Cf. o Manual citado na nota nº 1, este é o item do Projeto que responde à pergunta por quê? Ele deve apresentar em que estágio se encontra a teoria respeitante ao tema, informar quais são as atribuições teóricas que a pesquisa pode fazer. A justificativa difere a revisão bibliográfica e, por esse motivo, não apresenta citações de outros autores. Difere, também, da teoria de base, que vai servir de elemento unificador entre o concreto da pesquisa e o conhecimento teórico da ciência na qual se insere).

c) Hipóteses: Enunciam o que se pretende verificar, comprovar ou demonstrar, podendo, para isso, empregar uma hipótese principal e até duas hipóteses secundárias. Uma vez enunciadas as hipóteses, pode-se esclarecer ou explicar a problemática dentro da qual as hipóteses se inserem (Cf. o Manual citado, o ponto básico do tema, individualizado e especificado na formulação do problema, sendo uma dificuldade sentida, compreendida e definida, necessita de uma resposta provável, suposta e provisória, isto é, de uma hipótese. A principal resposta é denominada hipótese principal ou básica, podendo ser complementada por outras, que recebem a denominação de secundárias).

d) Metodologia: Explica e justifica os passos que se darão na pesquisa ou verificação das hipóteses, tipificando o método que será empregado. A descrição do método conclui com a indicação dos principais núcleos da pesquisa que, eventualmente, se tornarão partes ou capítulos da dissertação ou tese (Cf. o Manual citado, é nesse item que o pesquisador deverá anunciar o tipo de pesquisa que empreenderá e as ferramentas que mobilizará para tal. A pergunta chave que deve ser respondida aqui é como será realizada a pesquisa?).

e) Fundamentação Teórica e Bibliografia: Apresenta as eventuais fontes e documentos da pesquisa; autores e obras que subsidiam os diferentes núcleos da pesquisa e/ou seu conjunto. No caso de pluralismo ou divergências científicas de fundamentação, pode-se indicar e justificar previamente as opções por paradigmas ou autores que se tomam na pesquisa.

f) Currículo Acadêmico: Apresenta histórico acadêmico do(a) pesquisador(a). Não há necessidade de descrever conteúdos de disciplinas cursadas. Pode-se acrescentar experiência profissional relevante para a pesquisa projetada.

h) Cronograma: Estabelece, ao menos de modo aproximado, as datas das principais etapas da pesquisa, redação e apresentação da dissertação ou defesa da tese.

i) Índice provisório da Redação: Descreve elementos de suporte necessários na execução da pesquisa, tais como: bibliotecas especializadas, eventuais requisições de documentação, viagens ao exterior, instrumentos específicos; indicam-se as correspondentes fontes de recursos financeiros (este item é dispensado nos casos em que a pesquisa se desenvolve na tramitação acadêmica de praxe).

j) Braço empírico da Pesquisa: Aplica-se aos projetos que incluem um núcleo empírico de pesquisa, ou pesquisa de campo. Descreve as hipóteses e métodos específicos a serem empregados na pesquisa empírica, bem como o instrumento de coleta de dados.

C. TEORIA GERAL DA COMUNICAÇÃO

1. Linguagem: o que deve ser evitado

À ordenação lógica e planificada das idéias, à argumentação sólida e coerente, à precisão do campo em que se enquadra o tema estudado e do ângulo de análise adotado, deve corresponder o emprego de vocabulário e de recursos expressivos que valorizam a ordem lógica do pensamento, a fim de torná-lo nítido e convincente. Para isso, deve-se evitar:

a) recursos de retórica emaranhados de adjetivos que nada esclarecem, bem como as longas digressões intercaladas no corpo do período que podem obscurecer a essência das idéias expostas;

b) argumentação demasiado abstrata, visto que as idéias devem ser concretizadas para o leitor através de exemplos ou ilustrações;

c) períodos excessivamente herméticos pelo acúmulo de subentendidos ou de repetições desnecessárias de conceitos elementares;

d) palavras de sentido obscuro ou múltiplo, a fim de que não haja ambigüidade na redação;

e) complexidade gratuita da linguagem ou do vocabulário; esses recursos são válidos, apenas, quando exigidos pela complexidade do próprio pensamento que se enuncia;

f) frases que se compõem, artificialmente, na ordem indireta; entretanto, o estilo não deve ser linear ou composto apenas de frases simplesmente coordenadas, porém, realçar a expressão lógica do pensamento. Elas devem brotar, espontaneamente, num conjunto que se equilibra entre coordenadas e subordinadas.

2. Linguagem: o que é recomendado:

a) Conhecer e aplicar as regras gramaticais, especialmente cuidando da concordância, pontuação, tempos verbais, etc. Na grafia, jamais abreviar palavras quando podem ser escritas por extenso (o hábito de abreviar sem necessidade pode configurar certa preguiça intelectual).

b) Escrever com estilo, demonstrando conhecimento de vocabulário adequado e de sua aplicação semântica (cada ciência possui vocabulário específico; também, e com redobrada razão, a Teologia).

c) Conhecer o autor que serve de fonte ou referência. A identificação com o pensamento do autor em seu contexto cultural e lingüístico próprios é fundamental para a credibilidade do trabalho. É preciso tratar o autor com respeito para poder compreender, antes de refutar seu pensamento.

d) Conhecer os princípios da teoria da comunicação: emissor-> código-> receptor. Aprender a decifrar o código lingüístico e a elaborar novos códigos para a transmissão da mensagem, sem falsear a verdade.

e) Conhecer a diferença entre linguagem expressiva (coloquial, emotiva, discursiva), linguagem diretiva (conduta humana, propaganda) e linguagem informativa (técnica, científica, transmissora de conhecimento). Falamos com liberdade; ao escrever, porém, observamos regras gramaticais que, no caso da Língua Portuguesa, são bastante exigentes.

C1 – A MECÂNICA DA COMUNICAÇÃO

Uma Dissertação ou Tese é um texto científico-teórico. Exige, por isso mesmo, raciocínio dedutivo o que, por sua vez, exige que se tenha condições prévias de abordagem. Essas condições podem ser fornecidas pela “Teoria Geral da Comunicação”.

Entendemos Comunicação como a “transmissão de uma mensagem entre um emissor e um receptor”.

O Emissor é a “Consciência que transmite a mensagem” (pensa-> elabora o pensamento-> (codifica)-> transmite).

O Receptor é a “Consciência que recebe a mensagem” (lê/apreende-> assimila-> (decodifica)-> compreende-> re-elabora).

A transmissão da mensagem não se dá diretamente. Precisa ser mediada. O meio é o CÓDIGO (sinais, símbolos, linguagem) que cifra a mensagem.

Código é, portanto, o meio intermediário pelo qual duas consciências se comunicam. Assim, o autor-emissor codifica a mensagem depois de a mesma ser pensada e concebida e o leitor-receptor decodifica a mensagem, assimilando, compreendendo e personalizando (tornando sua) a mensagem recebida.

Problema: Nossa questão é: como decodificar satisfatoriamente a mensagem? Sabemos que nem sempre ela chega “pura”, pois há interferências e variantes, interesses culturais, sociais, pessoais, históricos e ideológicos. Hoje, de modo especial, cria-se dependência para vender; aliena-se para dominar… O código é altamente manipulável. O que, de fato, pode garantir uma decodificação correta, ou a mais próxima possível da verdade?

Caminho de solução:

a) Conhecer a língua na qual a mensagem está sendo transmitida.

b) Conhecer o estilo literário, a biografia do autor, sua personalidade, sua cultura…

c) Conhecer o espaço geográfico, o tempo histórico, as condições sócio-culutural-religiosas…

d) Possuir recursos metodológicos para desideologizar a mensagem: conhecimento (epistême), discernimento (hipomonè), crivo crítico (crinein).

II – ESTRUTURA DA MONOGRAFIA: DISSERTAÇÃO OU TESE

1. Esquema: O pesquisador não se põe a caminhar na estrada, aleatoriamente. Ele deve saber, de antemão, o objetivo de sua jornada, conhecer os graus de dificuldade do caminho, os parâmetros norteadores dos passos a serem dados, a luz com a qual iluminará esses mesmos passos… A primeira providência, portanto, é ter o “mapa da estrada”, isto é, o Esquema do Trabalho a ser elaborado. Quem inicia uma pesquisa deve, sistematicamente, debruçar-se sobre o esquema, criticá-lo, confrontá-lo, aprofundá-lo, até sentir que corresponde ao projeto sonhado. FERRUA, Valério, propõe três momentos distintos na construção do esquema[8]:

a) Ambientação geral: Tanto sob o plano histórico quanto sob o teorético, deve oferecer uma visão panorâmica que coloque o pesquisador no argumento específico. Esse é o papel do Primeiro Capítulo ou, pelo menos, da Apresentação ou Introdução. Em qualquer caso, deve conter o enunciado do que se pretende tratar: é o que podemos chamar de Tese.

b) Impostação: Cada área ou tema fará emergir o itinerário próprio, com seus cânones, meios e referências também próprias. Deve-se, no entanto, estar atento ao princípio universal da lógica: progredir sempre do genérico ao específico, do mais conhecido ao menos conhecido, do confuso ao distinto; nunca aceitando como certo ou verdadeiro o que é apenas provável ou hipotético. É o Corpo do Trabalho onde se desenvolve a idéia enunciada. É a Antítese, ou fase de fundamentação lógica do tema: explica, discute e demonstra racionalmente o assunto. Nesse ponto, é preciso enunciar as Partes, os Capítulos, os Títulos das Partes e dos Capítulos com seus subtítulos, itens e sub-itens, escolhendo para isso um sistema numérico ou alfa-numérico.

c) Conclusão: É o “fechamento” do trabalho. Será válida quando for demonstrativa, isto é, quando evidenciar que, o que foi proposto na Introdução, de fato foi demonstrado ou comprovado. Na conclusão nunca entram elementos novos, mas somente aqueles que foram tratados no correr do trabalho. É a Síntese que, pela sua própria natureza, permite uma boa dose de reflexão pessoal.

2. Esquema quanto à Linguagem: toda monografia científica – dissertação ou tese – se classifica como Texto Dissertativo e, para sua elaboração, é necessário aplicar termos referentes à linguagem de alto nível, isto é: vocabulário preciso, construção de orações em sua forma culta, correção gramatical, coesão de idéias e parágrafos, bem como o emprego correto destes. Tudo isso se justifica por ter a monografia como principal objetivo convencer o leitor da veracidade dos conceitos apresentados pelo escritor, ao longo do texto. Eis um modelo[9]:

Reconhecimento da estrutura

1.1 Introdução

1.1.1 Apresentação do tema

1.1.2 Definição, conceituação, explicação, características

1.1.3 Tópico frasal (idéia central)

1.2 Desenvolvimento/argumentação (corpo do texto)

1.2.1 Origens

1.2.2 Causas e conseqüências

1.2.3 Vantagens e desvantagens

1.2.4 Citações ilustrativas

1.2.5 Fontes de informação

1.2.6 Comparações

1.2.7 Outros

1.3 Conclusão

1.3.1 Retomada da Introdução

1.3.2 Síntese do desenvolvimento

1.3.3 Prospectivas

3. Análise das Fontes: O pesquisador, como um arqueólogo, anseia por aproximar-se, o mais possível, do objeto a ser pesquisado. Anseia pela fonte original. Assim, se compreende porque devemos submeter a base documental a uma crítica textual, a fim de garantir a cientificidade de sua natureza: se é um arquétipo ou se é uma cópia. A crítica textual pode ser externa ou histórica, enquanto capta o valor do texto e o reconstrói na forma mais próxima da original possível. Enquanto externa, olha para o autor, para a datação, para o lugar de procedência, para as circunstâncias e peripécias históricas do documento. Pode, também, ser interna ou literária, enquanto – olhando diretamente sobre o texto – oferece ao pesquisador a mensagem autêntica do documento. É a primeira fase da hermenêutica que deve levar com segurança ao conhecimento objetivo. As fontes escritas ou documentais podem ser:

a) Primárias: Originais, próximas das originais ou fidedignas. Exemplo: MIGNE, J. P. Patrologiae Graecae. Paris; MIGNE, J. P. Patrologiae Latinae. Paris. Publicação feita no século XIX e que contém os escritos dos Padres Gregos e Latinos. É uma fonte fidedigna, usada freqüentemente pelo Magistério da Igreja, inclusive pelo Concílio Ecumênico Vaticano II. Um outro exemplo pode ser obtido junto à fonte primeira dos próprios documentos do Magistério Eclesiástico. Trata-se das Acta Apostolicae Sedis que contém os documentos na íntegra, na língua em que foram redigidos, portanto sem tradução. Cita-se, por exemplo: SACROSSANCTUM CONCILIUM OECUMENICUM VATICANUM II. Constituto Dogmática De Divina Revelatione Dei Verbum (18/11/1965) in: AAS LVIII (5/11/1966) 817-836. Podemos citar ainda SANCTI THOMAE AQUINATIS. Summa Theologiae; CELAM. IV Conferência Geral do Episcopado Latino Americano. Nova Evangelização, Promoção humana e Cultura Cristã, e tantas outras. No caso da pesquisa ser de uma Tese de Autor, o autor estudado e suas obras serão, evidentemente, a fonte primária. No caso da Sagrada Escritura, recomenda-se o uso freqüente da Bíblia de Jerusalém, em razão de ter sido traduzida diretamente dos originais por professores especializados e por possuir riqueza de notas exegéticas.

b) Secundárias: Traduções, Comentários, Obras Temáticas, Revistas Especializadas, Jornais (Hemeroteca). Exemplo: Quem, ao estudar Tomás de Aquino, se depara com JOSAPHAT, Carlos. Tomás de Aquino e a Nova Era do Espírito. São Paulo: Loyola, 1998, tem em mãos um comentário, portanto uma fonte secundária. No estudo de Santo Tomás, somente o próprio Santo Tomás e as fontes por ele indicadas serão fontes primárias. Outro exemplo: ao utilizar a Bíblia vertida e/ou adaptada para a linguagem de hoje, o pesquisador terá em mãos um instrumental útil – talvez – para a as atividades pastorais mas, uma Bíblia em linguagem comum, coloquial ou a-científica estará – como é evidente – muito distante da ciência exegética, de uma correta hermenêutica e, portanto, não poderá ser, em nível científico, um texto confiável.

c) Auxiliares ou Instrumentais: Dicionários, Vocabulários, Glossários, Léxicos, Concordâncias, Enciclopédias, Antologias. Exemplo: KITTEL, G. Grande Lessico del Nuovo Testamento. Brescia: 1970 (original alemão, Stuttgart, 1942); LACUEVA, F. Nuevo Testamento interlineal griego-español. Barcelona: 1985. Outro exemplo: Quem se utilizar da Chave Bíblica, Sociedade Bíblica do Brasil: s/l., 2000, não estará utilizando uma fonte primária e nem mesmo secundária, mas apenas um instrumental de localização de termos ou de temas em cada um dos versículos do Antigo e do Novo Testamentos. Esse mesmo recurso está disponível pela mídia eletrônica, como por exemplo, pelo programa Bible Works.

4. Principais partes do Trabalho:

a) Título: Em geral, o Título do trabalho sintetiza o tema que vai ser tratado. No decorrer de sua elaboração, às vezes, percebe-se que o título deve ser mudado ou aprimorado. Assim, é conveniente trabalhar com um título provisório, dando-lhe uma conformação definitiva quando o trabalho estiver pronto. O título surge depois de delimitada a área, bem como o tema. Exemplo: Área=Moral, Tema=Liberdade, Título=Livre arbítrio e manipulação. Para se chegar a um Título próximo do desejável, pode-se aplicar o método dedutivo, isto é, imaginando um Título Genérico Remoto, um Título Genérico Próximo e um Título Específico. Exemplo: Sacramentalidade Eclesiológica (Título Genérico Remoto) -> O Septenário Sacramental (Título Genérico Próximo) -> Batismo, mergulho na vida nova (Título Específico). O Manual de Metodologia da Pesquisa Científica da Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção informa que o Título Geral pode ser chamado de Título Técnico[10].

b) Subtítulo: O subtítulo explica o título, portanto, o Título contém o subtítulo que o explica. Não é um segundo título aposto ao primeiro, nem pode afirmar ou negar um tema ou assunto alheio ao que o título já sugeriu. Exemplo de um título com subtítulo: “As relações judeu-cristãs do primeiro século: contextualização histórica de Jo 9, 12-42”.

c) Partes: Próprias de Tese doutoral, as Partes dividem o Trabalho Monográfico para melhor compreensão do conteúdo. Cada Parte deve conter Introdução, Capítulos, e Conclusão. Cada Parte trata de uma dimensão relevante da temática geral, possuindo, para isso, um Título que a distingue. As partes não se colocam em conflito mas, como é evidente, estão em harmonia com o todo do trabalho, por isso mesmo, concatenadas entre si. Exemplo: Na Tese doutoral, O Teocentrismo no Barroco Brasileiro: uma análise Literária, Bíblica e Teológica do trinômio pecado-perdão-salvação na poesia de Gregório de Mattos e Guerra, a divisão das Partes ficou assim: Parte Primeira: Literatura, Teologia e História; Parte Segunda: O Corpus Poético de Gregório de Mattos e a relação com as Escrituras Vétero e Neotestamentárias; Parte Terceira: O Corpus Poético de Gregório de Matos num enfoque Sacramental: a questão da Escatologia.

d) Capítulos: Os Capítulos são unidades de leitura. É neles que acontecem o desenvolvimento e o progresso do pensamento, por isso, eles devem possuir princípio, meio e fim, isto é, Introdução, Desenvolvimento e Conclusão. Cada Capítulo recebe um título que o distingue dentro das Partes (no caso de Tese doutoral) ou no corpo do trabalho (no caso de dissertação de mestrado) e está ligado um ao outro por um pensamento linear (“fio condutor”) de tal forma que, o capítulo primeiro remete ao segundo e o segundo contempla o primeiro em seu desenvolvimento, e assim sucessivamente. O Manual da Metodologia de Pesquisa Científica da Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção (já citado), lembra que os Capítulos podem possuir Subtítulos, Itens e Sub-itens.

4.1 Equilíbrio entre as partes do Trabalho Científico: Convém, sem prejuízo do conteúdo e para manter a estética, que a monografia científica ofereça ao leitor certo equilíbrio entre suas partes: Introdução, Desenvolvimento, Conclusão. BECKER et alii sugerem a seguinte proporção quantitativa: 10% para a Introdução, 80% para o Desenvolvimento (distribuídos pelos Capítulos) e 10% para a Conclusão. Segundo os mesmos autores, no caso da proporção da Introdução subir para 20%, restaria, então, 60% para o Desenvolvimento e 20% para a Conclusão[11]. Penso, porém, que a conclusão, por ser o fechamento do Trabalho e o local próprio das propostas de solução da problemática discutida – o local próprio das prospectivas – merece ter uma porcentagem maior que a da Introdução. Seria, então, aceitável: 10%, 75% e 15%. (?)

5. Resumo ou abstract: Um trabalho de término de curso ou de mestrado deve ser acompanhado de um resumo curto, no máximo de 300 palavras. A tese de doutoramento, porém, deve ser acompanhada de um resumo de no máximo 500 palavras. Este resumo contém uma proposição da finalidade do estudo, uma indicação das contribuições particulares e especiais ao campo geral de estudos e um sumário dos resultados específicos encontrados ou das conclusões. O resumo não deve ser uma coleção de partes extraídas da tese. Deve ser digitado no mesmo papel em que o trabalho é apresentado, com os mesmos cuidados e possuir no inicio, na primeira folha, o nome do autor e o titulo do trabalho. Uma cópia do resumo deve ser encadernada juntamente com a dissertação ou tese.

NOTAS

[1] Participaram da preparação desse trabalho os seguintes pós-graduandos: Ariel Alberto Zottola, Claudinei Antonio da Silva, Gideon José de Oliveira, João Francisco Moreno Teixeira, José Bartolomeu dos Santos, José Edivaldo Melo, José Henrique do Carmo, Josué Vieira Santos, Leonildo Pirazo de Oliveira, Maria José Junqueira Guimarães, Odair Eustáquio Ribeiro Gomes, Oldeir José Galdino, Rejanete Roselis Grosz, Welen Lopes da Silva e Xiao Shihui .

[2] FABRI DOS ANJOS, Márcio e SOUZA, Ney (org.) Metodologia da Pesquisa Científica. São Paulo: Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção (julho/2004) 7-8 (mecanografado).

[3] Vide item sobre Teoria Geral da Comunicação.

[4] De fato “a redação acadêmica apresenta problemas peculiares, dada sua natureza formal, linguagem necessariamente precisa e absoluto rigor técnico, lingüístico, morfossintático e semântico requeridos”. In: ATHAYDE, Públio. Manual para redação acadêmica. Belo Horizonte: Keimelion, 2002, p. 1 (mecanografado)

[5] Vide nota anterior.

[6] Segundo QUINTANILLA, Miguel Angel. Breve Dicionário Filosófico, Aparecida: Santuário, 1996, p. 218, a distinção entre objeto formal e objeto material foi herdada da Escolástica e significa: o objeto material é o tipo de realidade da qual se ocupa uma ciência (pergunta o que); o objeto formal é o aspecto sob o qual uma determinada ciência considera o objeto material (pergunta sobre o como).

[7] ATHAYDE, Públio. Manual para redação acadêmica. Belo Horizonte: Keimelion, 2002, p. 46 (mecanografado)

[8] Manuale di Medologia: guida pratica allo Studio allá Ricerca allá Tesi di Láurea. Torino: PIEMME, 1991, p. 25

[9] Citado pela Professora Dra. Geni Bertoni Nimtz do Grupo de Pesquisa Teologia e Literatura do Programa de Pós-Graduação da Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, São Paulo (http://geocities.yahoo.com.br/sonhosebuscas/).

[10] Op. cit. p. 33

[11] BECKER, Fernando, FARINA, Sérgio, SCHEID, Urbano. Apresentação de trabalhos escolares. 13a. ed. Porto Alegre: Multilivro, 1993.

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Teologia Moral Fundamental

O que é Teologia Moral Fundamental?

MORAL: Etimologicamente “Mores” (costume). Estreitamente ligado ao éthos e à ética. É a “prática” ou o “atuar “da ética.

Assim, a Moral se refere aos “Atos Humanos”. É, muitas vezes, entendida como o “julgamento” dos atos humanos. Esses “Atos” podem ser bons e maus. Segundo a Filosofia Clássica, a pessoa humana possui uma tendência natural ao bem e ao belo. Por isso (muitas vezes) a moral é entendida como o juízo da consciência.

Moral Cristã: É a realização do homem e do mundo em Cristo, ou, em outras palavras, “é a assimilação científica da Revelação concernente à vida humano-social”.

Podemos, então, responder a questão anteriormente colocada.

A Moral Fundamental é a ciência do agir humano. Ela trata da realização da pessoa humana. A Moral Cristã trata da realização da pessoa humana em Cristo. Trata-se, portanto, do agir humano em ordem à realização da pessoa humana (Ética). Na visão cristã, trata-se do agir humano em ordem à realização da pessoa humana em Cristo (Teologia Moral).

Ao falar do agir humano em ordem à realização da pessoa humana, mesmo que não se explicite a fé em Cristo, deve-se entender a Pessoa Humana inserida no Plano da Criação e da Redenção.

A pessoa Humana é vocacionada a realizar-se à partir do chamado de Deus, isto é, a realizar-se como pessoa humana num processo contínuo de desenvolvimento e, especialmente, num relacionamento interpessoal com os outros.

Moral, nessa perspectiva, “é o agir humano em resposta à vocação feita pelo Criador: ser pessoa”. Nesse sentido é uma Moral Responsável porque diz respeito à resposta humana que deve ser consciente, livre e responsável. Na perspectiva da fé cristã, entendemos o agir da Pessoa Humana inserida na História da Salvação.

O Concílio Vaticano II ordenou: “consagre-se especial cuidado ao aperfeiçoamento da Teologia Moral, cuja exposição científica, alimentada pela doutrina da Sagrada Escritura, evidencia a sublimidade da vocação dos fiéis em Cristo e sua obrigação de produzir frutos na caridade para a vida do mundo” (OT 17). Podemos afirmar que a Teologia Moral, conforme o Vaticano II, é a ciência dos Atos Humanos em ordem à resposta da Pessoa Humana à sua Vocação em Cristo.

O Agir Humano é, dessa forma, um problema fundamentalmente antropológico (realização da Pessoa Humana) e é também uma questão teológica (realização da Pessoa Humana à luz da fé). Dessa forma, a Moral estará sempre em contato com as outras ciências que tratam da Pessoa Humana (antropologia cultural, sociologia, psicologia, história, etc.)

O sujeito da Moral é o homem, ser uno e Pessoa Humana.

A Pessoa Humana possui uma unidade radical. O seu agir é sempre um agir humano integral. O conceito de corporeidade aqui exclui a dicotomia corpo-alma. Os atos da pessoa são profundamente humanos, também aqueles espirituais. Os atos corporais são, da mesma forma, penetrados pelo espírito.

O Homem é pessoa e isso significa duas coisas: Autonomia e Alteridade. Ele possui direito e liberdade de decisão e, em contrapartida, dever de respeito no relacionamento com o outro.

O Homem se personaliza pelo uso da liberdade num relacionamento interpessoal, reconhecendo o outro como de igual natureza e de iguais direitos com ele.

A força unitiva das diferenças é o amor. É um relacionamento fraterno que personaliza o homem. Para a fé cristã, o amor humano há de ser penetrado pelo ágape como uma participação no amor com que Deus ama os homens.

Sagrada Escritura:

O Concílio, de fato, ensinou que a Sagrada Escritura é o Espírito de toda Teologia, também da Teologia Moral. A S. Escritura não quer ser um código de moralidade, mas a fonte da vida moral.

ANTIGO TESTAMENTO: Encontramos, por exemplo, no AT o Decálogo (Ex 20,2-17; Dt 5,6-21). Os dez Mandamentos tem o seu ápice na regra máxima em defesa da vida: “Não Matar!”.

Toda a LEI no AT se entende na perspectiva da fé, como resposta a Iahweh, o único Senhor, aquele que salva e manifesta a sua vontade. O cumprimento da vontade de Iahweh está na ordem da realização humana de quem lhe obedece.

Deus se revela a Abraão e aos Patriarcas e esta revelação não contém uma Lei Moral, mas, para Abraão, ela é um mandamento concreto e uma promessa: “Sai de tua terra, da tua parentela e da casa de teu Pai e vai para a terra que eu te mostrarei; de ti farei uma grande nação” (Gn 12,1s). O agir humano de Abraão é uma resposta de fé que realiza o plano de Deus a favor do homem.

ALIANÇA: A Aliança está no Centro da Moral de Israel, que é uma moral de Aliança. Iahweh tirou Israel da escravidão do Egito e lhe deu uma Lei para que servisse a Iahweh e alcançasse a terra prometida.

A Moral de Israel se baseia nesta Aliança de Iahweh com seu povo e no reconhecimento por parte de Israel de sua dependência de Iahweh (Cf. Dt 6,20-24).

A Aliança entre Deus e seu Povo é representada por um casamento (Oséias). É moralmente bom para o Povo manter-se fiel a Deus e, em contrapartida, é moralmente mau (adultério) romper a Aliança para servir a outros deuses.

NOVO TESTAMENTO: Cristo não veio abolir a Lei, mas dar cumprimento ao desígnio salvífico de Deus (Mt 5,17). O Reino que Jesus anuncia é iniciativa de Deus para o bem do homem (sua salvação).

NOVA ALIANÇA: Com Jesus tem início a Nova Aliança (Lc 22,10). Toda a vida moral do Novo Povo de Deus será pautada pela utopia do Reino e será sempre uma resposta de fé na Pessoa do Cristo morto e ressuscitado.

O acolhimento do Reino pela Fé (Mt 16,16) tem por exigência uma justiça superior à dos escribas e fariseus (Mt 5,20). Toda a Lei e os Profetas se resumem no amor a Deus e ao próximo (Mc 12,28-34; Mt 22,34-40; Lc 10,25-27).

O agir humano, segundo o NT, é sempre uma resposta a Deus na perspectiva da fé, concretizando a caridade fraterna. O agir moral está na linha do “viver em Cristo” (Fl 1,21). Sendo o cristão o homem novo, vive também uma nova realidade: “não há judeu nem grego, circunciso ou incircunciso, bárbaro, cita, escravo, livre”.

Essa novidade significa a coexistência de duas dimensões inseparáveis: o agir há de ser comunhão com Deus e, ao mesmo tempo, comunhão com o próximo. No NT o agir moral é sempre uma concretização do amor.

Se a Moral do AT era uma moral de Aliança, sendo a LEI o pedagogo que devia fazer conhecer a vontade de Deus para que o homem lhe fosse fiel; no NT a moral é a da Nova Aliança, de comunhão com Deus e com o próximo em Cristo, na liberdade do Espírito (Gl 5,21), sob cujo influxo o homem age, realizando não mais “as obras da carne” mas “o fruto do Espírito” (Gl 5,16-25).

A moral do NT representa a concretização do amor e é preciso ver em tais ensinamentos não um código moral, mas sim maneiras de concretizar o “ser em Cristo”. O “Sermão da Montanha” é o paradigma para a concretização do amor. As “Bem aventuranças” estabelecem um programa de vida para o Cristão face ao mundo. A vivência moral desse programa será sempre uma resposta de fé ao Deus da Vida.

PALAVRA DE DEUS: É preciso, ao fazer teologia moral, entender que a Palavra de Deus é a fonte primeira da verdade. Ele transmite o sentido último e profundo das coisas e das pessoas. Não é apenas um sinal neutro da realidade. Ela julga a realidade humana à partir da realidade (desígnio) de Deus.

A Palavra é luz que orienta, julga, denuncia e condena. Através da Palavra é o próprio Deus que revela ao homem a razão última de sua existência humana. À luz da Palavra, o homem vai tomando consciência de si mesmo, de suas limitações e virtudes, e começa a viver na verdade.

A Palavra é força, pois manifesta o poder de quem fala. Deus fala a sua Palavra e as coisas acontecem como ele diz (Gênesis, Cristo ao fazer milagres e expulsar demônios). Assim, o projeto de humanização plena do homem calcado na justiça e na misericórdia de Deus não é uma idéia abstrata, mas deve realizar-se na vida moral do Povo.

O lugar onde a Palavra atinge o homem com mais força é a consciência humana. É importante para a vida moral cristã, ter uma consciência crítica de ser o Povo muito amado de Deus pelo qual o Cristo deu a vida.

A Palavra de Deus é Promessa, pois, Deus ao pronunciar a sua Palavra, se revela como sendo o futuro do homem. Ela faz entrever um futuro que diz respeito a felicidade total do homem, pois nela se desdobra o sentido último e verdadeiro da vida humana. Revela, também, que Deus é aquele que pode realizar tal desígnio e para isso quer precisar do homem.

Toda a história se orienta para um futuro maior, para uma realização definitiva que forçosamente fica para além do horizonte das possibilidades concretas do homem e que, pouco a pouco, vai se identificando com o próprio Deus.

Por sua própria natureza, a Palavra é essencialmente diálogo. Ela convoca à união íntima entre o que fala (Deus) e o que responde (homem). É o dinamismo desse diálogo que faz todas as realizações históricas da promessa como provisórias e relativas e que desperta no homem o desejo insaciável de Deus, por isso o salmista pode dizer: “o futuro que me espera é o Deus Eterno” (Sl 72,26).

A Palavra é Mistério pois ela não consiste primariamente em normas e leis que obrigam e exigem prestação de contas. A Palavra propõe um novo relacionamento pessoal com Deus para alcançar o verdadeiro e definitivo sentido do agir humano. Pela Palavra Deus deixa entrever o mistério de sua pessoa, colocando-se como futuro à ser descoberto e conquistado pelo homem.

Corporeidade – Ser Pessoa.

A Teologia Moral é a “ciência dos atos humanos em ordem à resposta do homem à sua vocação em Cristo”. O sujeito da Teologia Moral é o homem que age como homem/mulher através de “atos humanos”. Esse homem deve ser estudado hoje na autocompreensão que o homem tem de si mesmo, do mundo, da sociedade e da história.

O homem é o agente de seus atos e, enquanto são atos da pessoa, são atos de liberdade. Em sua liberdade e autonomia o homem de defronta com o desígnio de Deus que lhe abre o sentido da existência e da ação. É à luz desse desígnio que o homem de hoje, vivendo num mundo auto-suficiente, pode compreender o sentido de sua existência, o sentido da história e o sentido de seus próprios atos humanos.

De qual “homem” estamos falando?

1. Concepção grega do homem: dualismo alma-corpo.

Platão admitia a alma como fonte de toda moção. Derivando de Deus, a alma não estaria sujeita à perecer. O corpo, nesse caso, era apenas a prisão da alma. Assim, corpo e alma se antagonizavam e a alma possuía a primazia.

Para Aristóteles todo ser vivente é uma síntese de matéria e forma, de corpo e alma, de Ato e Potência. A psiqué não é independente do corpo, mas seu princípio dinâmico (vida sensitiva). Ele fala ainda do Noûs que é o princípio da vida intelectiva. O Noûs subsiste sem o corpo, por isso é imortal. Em todo caso, o homem é uma unidade de corpo, psiqué (alma) e Noûs (espírito).

2. Antigo Testamento:

No AT o homem é considerado como uma totalidade e inteireza.

BA^SAR: designa carne e corpo. Designa ainda parentesco e família, portanto solidariedade na mesma carne ou do mesmo Povo. “Nossa carne” é “nosso irmão” (Gn 37-27), ou nosso próximo (Is 58,7). “Toda carne” é toda a humanidade como criatura diante de Deus (Gn 6,12; Is 40,5; Jr 25,31).

NEFE^S: significa respiração, sopro vital. Significa a vida ligada à um corpo, isto é, o próprio vivente. Nefe^s significa “vida humana” ou a “sede da personalidade”.

RUAH: respiração, vento, espírito e mente. Exprime a relação dinâmica entre o homem e Deus. É Deus quem sopra e dá vida ao homem (Gn).

3. Novo Testamento:

Apesar das influências gregas nos escritos neotestamentários a antropologia do NT não é dualista.

O NT segue a concepção do AT quanto a unicidade da pessoa humana. Ao ler Mc 8,35-37 verifica que a psiqué não significa “alma” como no contexto grego, mas significa a “existência concreta do homem”.

Paulo fala de SOMA, SARX, PSIQUÉ, PNEUMA.

SOMA (corpo) indica o homem, o “EU” da pessoa. “Eu sou o meu corpo”. Realizo a minha existência no meu corpo (soma) e na minhas obras. Em Paulo significa também a unidade da Igreja como Corpo (soma) de Cristo (1Cor 12,27; Rm 12,5).

SARX (carne) é a esfera do visível, do passageiro, do natural terreno no qual o homem se move. “Viver segundo a carne” (Rm 7,5) é viver segundo a ordem natural (ordem do instinto) e não segundo o Evangelho.

PSIQUÉ traduz nefe^s e demonstra que a vida humana não existe sem um corpo físico. Psiqué (homem animal) se opõe a Pneuma (homem espiritual).

PNEUMA significa “espírito”. Significa o homem novo, espiritual, destinado a um fim sobrenatural. Sarx significa o homem todo como “carne”, fechado no pecado, “homem sem Cristo” e Pneuma significa o homem todo como espírito, aberto á vida divina, “homem com Cristo”.

Assim, para Paulo, e para todo o NT, há uma antropologia unitária. O homem, no entanto, é visto como remido (pneuma) ou perdido (sarx).

3. Consequências para o agir humano:

Tudo o que é real no homem tem um caráter de corporeidade. O espírito humano encontra a complementação de sua espiritualidade justamente em sua união com o corpo. Uma maior espiritualização significa, portanto, uma maior humanização.

“Todo ato humano, seja ele o mais sublime de suas aspirações religiosas ou o mais elevado de seus pensamentos especulativos é, como realização que aperfeiçoa a sua natureza, uma corporificação de seu espírito e uma espiritualização de seu corpo” (J.B.Metz apud K. Ranher, O homem como união de corpo e alma, in: Mysterium Salutis, II/3, p. 61).

Assim, não existe dois caminhos, um espiritual que leva para Deus e outro corpóreo que leva para o mundo. É na corporeidade que Cristo nos salvou e é na totalidade do seu ser que o homem deve responder ao Deus Salvador. Cristo mesmo se tornou corpo (soma) para ser solidário com os homens.

Para se fazer uma boa teologia moral é preciso considerar que não existe uma alma superior e uma matéria inferior. O que se salva e o que perece na mesma pessoa. A materialidade da corporeidade humana é expressão da criaturidade e potencialidade do existir humano. Não é uma deficiência do ser (como queria Platão) mas uma abertura para a história. A experiência da sua corporeidade e mundaneidade faz compreender que o homem e o mundo não são absolutos, ambos estão abertos ao transcendente de Deus.

Quando o homem busca um “bem relativo” e egoísta em detrimento do bem Absoluto, quando ele busca realizar apenas parcialmente a sua pessoalidade, então está presente o pecado.

4. O homem como pessoa:

Diz respeito a Trindade (Pessoas Divinas). Diz respeito, também, a todos os seres providos de espírito (homem especialmente) frente à criação. O que distingue a pessoa é a autonomia e independência singular da criatura dotada de razão.

Para Santo Tomás de Aquino, pessoa é subsistência, isto é, significa o modo imediato e concreto que possui a sua própria essência de modo pleno e total e dela dispõe livremente.

Hoje, entender-se como “pessoa” é saber-se como “ser-no-mundo” com os outros num relacionamento solidário.

A pessoa é um ser em relação com o outro e com Deus. Criados à imagem de Deus, os homens se “personalizam” na resposta vivencial que dão ao apelo de Deus. Hoje, esse apelo é respondido na busca de maior dignidade, de justiça, de igualdade de direitos para todos, de maior humanização. Se personaliza mais quem se torna mais “imagem e semelhança” de Deus.

Na concretude da vida humana, o homem, muitas vezes, é impedido no seu “devir-pessoa” (na sua realização como pessoa).

A situação de pecado retarda ou até impede o desenvolvimento da pessoa. O pecado é uma recusa de con-viver e per-sonalizar-se com o outro e com Deus. Todo pecado é uma des-personalização. A recusa é fechamento e, todo fechamento, diz respeito ao “homem velho”. Toda abertura diz respeito ao “homem pascal”.

A Redenção é o gesto do Deus-Filho que se fez homem para dar a Deus Pai a resposta que os homens negaram, libertando-os do seu fechamento, oferecendo comunhão aos que, pela fé, passam a responder a Deus e, pela caridade, procuram relacionar-se fraternalmente, buscando construir um mundo mais humano e mais justo, numa comunidade de pessoas.

Ser pessoa, na perspectiva cristã, é ser “parceiro” na Nova Aliança e fazer parte do corpo de Cristo e, portanto, poder agir “in persona Christi” (isto é, agir com atos humanos segundo o coração de Cristo).

5. A liberdade como característica da pessoa:

Duas características da pessoa: Alteridade pelo reconhecimento do outro como igual e Liberdade como capacidade de decidir.

A pessoa Humana tem consciência do valor da liberdade e do pecado da escravidão. A liberdade é da essência do ser humano, da sua natureza mais íntima. É um dom do criador restabelecido pelo Redentor. Podemos dizer que o homem é “pessoa” enquanto um ser concreto que se relaciona com o outro (alteridade) e o faz consciente e livremente (liberdade).

A pessoa se distingue de outro ser porque a sua existência não está marcada por um rigoroso e completo determinismo, ao contrário, encontra-se numa abertura ao outro e ao transcendente. Ele tem diante de si diferentes possibilidades históricas que livremente escolhe. Em cada escolha livre ele tem a possibilidade de se humanizar cada vez mais. Assim, a liberdade humana é uma tarefa à ser construída.

6. Vocação à Liberdade:

Um acontecimento básico marcou a origem do Povo Eleito: Iahweh o libertou da escravidão do Egito (Ex 1,15). Iahweh é o Goel, o libertador do povo (Is 43,14; 44,6.24; 47,4). O jejum que agrada a Iahweh é soltar as ligaduras da impiedade, desfazer as ataduras da servidão, libertar os oprimidos e despedaçar todo jugo (Is 58,6).

O Apóstolo Paulo afirma que a vocação cristã é uma vocação à liberdade: “Irmãos, fostes chamados à liberdade, porém, não useis da liberdade para dar ocasião à carne; ponde-vos, antes, ao serviço uns dos outros” (Gl 5,13).

Paulo fala da libertação do pecado, da morte e da lei. O pecado é uma tirania (Rm 5,15). A morte é o salário do pecado, dela só se liberta pela ressurreição de Cristo (1Cor 15,5). A Lei do pecado e da morte ( 8,2) foi vencida pela lei do Espírito. Não estamos mais sob a lei, mas sob a graça (a lei do amor).

A liberdade é para o serviço mútuo (Gl 5,13): “Tudo me é permitido, mas nem tudo edifica” (1Cor 10,23). A consciência pode pedir a renúncia de um direito em favor de um irmão (1Cor 8,10).

7. A opção fundamental:

A auto-realização da liberdade (que pode ser chamada de opção fundamental) historifica a pessoa como ser único e irrepetível. A opção fundamental ou auto-realização da liberdade da pessoa é um ato moral. Livre e consciente, escolhe o caminho de Deus (o Bem Absoluto), escolhe viver o Reino em seu coração em relação com seus irmãos, ou escolhe, também livremente, rejeitar esse caminho (os bens relativos).

Pela opção fundamental cada ser humano, em liberdade, dá sentido à sua existência, duma maneira concreta, pela realização do ser enquanto pessoa na abertura ao Bem Absoluto, ou na des-personalização (nulificação) do ser pelo fechamento egoísta. A opção se dá no agir moral. Alguém pode ter bons sentimentos, mas agir de modo prejudicial ao irmão. O Apóstolo já dizia: “Não faço o bem que quero mas o mal que não quero”.

Hoje, é difícil afirmar com segurança quando alguém faz uma opção consciente e livre. O homem é tremendamente condicionado pela sociedade de consumo. Assim, a opção fundamental, enquanto escolha livre e amadurecida, precisa ser entendida como uma escolha feita no mais íntimo de si mesmo. Optar por Deus, escolher o bem, o belo, o perfeito. Dessa escolha derivam todas as outras escolhas que, embora possam ser feitas com liberdade, são escolhas relativas.

Por isso, é preciso reconhecer que, também na opção fundamental, a iniciativa é de Deus. Ele coloca no coração humano a sua lei do amor, dando ao homem a graça de escolher e optar pelo seu amor de Pai.

Assim, graça e liberdade atuam juntas na realização do desígnio de Deus. Os atos morais (ou imorais) através dos quais os homens constroem a história (ou a contra história) dependem da força atuadora da opção fundamental. Essa força está matizada da graça de Deus, pois, Ele é o “Senhor da História”.

8. A voz de Deus na Consciência Humana.

Sagrada Escritura:

No AT aparece 3 vezes a palavra consciência (Syneidesis): Eclesiástico 10,20; Eclesiástico 42,18; Sabedoria 17,10. A noção contida ai é a de Coração: fonte da vida moral, sede onde se interioriza a Lei Divina e os atos humanos são julgados.

No NT 30 vezes nas cartas e nos Atos. A noção principal é a de Juízo religioso moral, Testemunho insubornável (Rm 2,15; Rm 9,1; 2Cor 1,13), instância última da decisão moral (1Cor 8,10; Rm 14)

Para o Apóstolo Paulo, os cristãos devem formar sua consciência, examinando-se a si mesmos, procurando a vontade de Deus, ponderando em cada ocasião aquilo que lhes convém (1Cor 11,28; Rm 12,2; Ef 5,10; Fl 1,10). E, o mais importante, o sangue de Cristo é capaz de purificar a consciência manchada pelo pecado (Cf. Hb 9,14).

No NT fé e consciência se completam. A fé é condição indispensável para uma consciência moral reta.

O Concílio ensina que Deus fala à consciência humana. A pessoa humana é a sua consciência. A consciência se situa na dimensão subjetiva da moralidade. Na GS 16 diz: “a consciência é o núcleo secretíssimo e o sacrário da pessoa humana onde ela se encontra só com Deus e onde ressoa a sua voz”. É, portanto, a profundidade insubornável da pessoa (o mais íntimo de toda intimidade).

É pela consciência que o homem pode conhecer a existência, os limites e as possibilidades da realidade da qual faz parte. “Na consciência ressoa a voz de Deus” – É um direito inalienável da pessoa!

O fato do homem estar presente a si mesmo em sua consciência e nela ouvindo a voz de Deus, não o torna “egoísta”, ao contrário, a voz de Deus é sempre interpelante a favor do próximo. Isso reclama a responsabilidade como dever de fidelidade ao Deus que fala na intimidade do homem.

O Concílio lembrava que, “na fidelidade à consciência, os cristãos se unem a outros homens para buscar a verdade e para resolver, segundo essa mesma verdade, tantos problemas morais que surgem tanto na vida de cada indivíduo como na vida social. Quanto mais prevalece a reta consciência, tanto mais as pessoas e os grupos sociais afastam-se da arbitrariedade cega (GS 16).

Érich Fromm também afirmou: “Não existe afirmação mais soberba que o homem possa fazer do que dizer: agirei de acordo com a minha consciência. Sem a consciência, a raça humana teria ficado estancada há mais tempo em sua funesta carreira” (Etica y Psicanálise, 1969).

O homem de hoje apela para a consciência quando protesta contra a intolerância, contra o preconceito ou legalismo exagerado: possui consciência do que é justo (reta consciência); conhece a realidade (juízo); age de acordo com sua consciência (ação). Diz Erich Fromm: “através da história, os homens sustentaram os princípios da justiça, do amor e da verdade contra toda a opressão a que se viram submetidos com a finalidade de fazê-los renunciar àquilo que eles sabiam ou acreditavam”.

Assim, toda opressão, manipulação, injustiça esbarra na consciência. Em contrapartida, os homens da inquisição, os sanguinários, os fazedores de guerras, os déspotas, também dizem agir segundo a sua consciência (consciência errônea).

Por isso é preciso distinguir:

a. Consciência reta: Atua com a autenticidade da pessoa. É dinamismo moral que busca a verdade objetiva. É a norma necessária da moralidade dos atos humanos. Cf. Rm 14,14-23 há uma obrigação de agir com reta consciência. Somente a consciência reta deve ser entendida como regra de moralidade

b. Viciosa: não é sincera consigo mesma (enganosa)

c. Verdadeira: que está de acordo com a verdade objetiva

d. Errônea: que não está de acordo com a verdade objetiva. Pode ser vencivelmente errônea (o erro pode ser superado) e pode ser invencivelmente errônea (o erro não pode ser descoberto ou superado). É reta, mas não verdadeira!

e. Duvidosa: Deve-se agir com “certeza”. Essa certeza não precisa ser física ou metafísica, mas sim moral-prática. Em todos os tempos, porém, a consciência se viu atormentada pela dúvida. Como escolher entre dois deveres imperiosos?

Na verdade, uma obrigação objetiva duvidosa não traz nenhuma obrigação subjetiva. Assim, deve-se: seguir o caminho mais seguro (+ provável); escolher o mal menor (em último caso, isto é, o que é menos doloroso para o próximo); presumir o que é melhor, à partir das qualidades.

Desvios da Consciência (Psicopatologia da consciência moral)

a. Maximalismo exagerado: (egocêntricos) tendência exagerada à perfeição.

b. Minimalismo exagerado: (sangüíneos) tendência que procura minimizar as exigências morais, laxismo, comodismo (tudo é possível) – está no nível da emotividade.

c. Tendência ao farisaísmo: (fleumáticos) Multiplica as prescrições legais mas aceita muitas faltas (Mt 25,3-6). Fabrica leis para os outros cumprirem. Incapacidade de associar o bem geral ao particular.

d. Consciência perplexa: nasce de confusão do juízo. Para qualquer decisão precisa pedir conselho.

e. Consciência escrupulosa: Scrupulum é o diminutivo de scrupus (menor medida da antigüidade). É uma forma de neurose. Duvida infinitamente sobre tudo o que se deve fazer. Carrega consigo apreensões que impedem de ter segurança na liceidade de um ato à realizar ou realizado.

Nota: Não se pode imputar como culposo algo provindo de uma enfermidade de consciência.

9. Lei Divina, Lei Natural, Lei Humana

A vida moral humana e cristã se orienta para o bem, especialmente, para o Bem Absoluto que é Deus. A Lei tem essa finalidade: ser orientação segura para o agir moral. Toda lei moral tem como fim orientar o livre-arbítrio da pessoa em direção ao bem. O caráter obrigante da lei repousa no seu conhecimento, por isso, toda lei deve ser promulgada, tornada pública, conscientizada.

1. Lei eterna se refere ao desígnio salvífico de Deus. Deus quer, em Cristo, salvar a humanidade. Fazer a pessoa humana atingir a plenitude em Cristo. Assim, a expressão Lei Eterna indica o inteiro plano criador e salvador de Deus. Deus é sua origem fontal.

A Lei Eterna se identifica com Deus mesmo. Todas as outras leis, enquanto orientam para o Bem Absoluto de Deus, são participação na Lei Eterna. O Concílio, na Dignitatis Humanae, diz: “norma suprema da vida humana é a lei divina, eterna, objetiva e universal, por meio da qual Deus, com sabedoria e amor, ordena, dirige e governa o universo e a sociedade humana” (DH 3).

2. Lei da Graça é a primeira e mais elevada forma de participação na Lei Eterna. É a mais sublime norma moral à qual a pessoa humana está vinculada. Deus quer a comunhão com o homem, por isso dá sua graça para que o homem possa dialogar com Ele. Aquele que move seu agir humano segundo a Lei da Graça, se une a Deus em Cristo, através do Espírito Santo. Podemos dizer que a Lei da Graça determina o agir humano sempre em comunhão com Deus (A pessoa não age só, mas age com Deus).

O exemplo mais claro da Lei da Graça, nós encontramos em Jr 31,33ss: “Eis a Aliança que Eu farei com a Casa de Israel, depois daqueles dias, diz o Senhor. Colocarei a minha lei neles, a escreverei nos seus corações; então eu serei o seu Deus e eles serão o meu Povo. Não deverão mais instruir-se um ao outro dizendo: aprende a conhecer o Senhor! Mas todos, do menor ao maior, me poderão conhecer, disse o Senhor, porque eu perdoarei a sua iniqüidade e não lembrarei mais o seu pecado”.

Também o Profeta Ezequiel 36,26ss: “Darei a vós um coração novo, e porei em vós um Espírito novo; tirarei o coração de pedra do vosso corpo e vos darei um coração de carne. Porei em vós o meu Espírito e farei que vivais segundo os meus estatutos, observando e pondo em prática a minha lei”.

Para o Novo Testamento, a Lei da Graça é a presença e a ação do Espírito Santo no coração humano. Para Paulo, por exemplo, o cristão é guiado pelo Espírito e é o Espírito que traz os frutos da nova conduta moral vivida no amor. Na carta aos Gl 2,20, Paulo afirma que no cristão vive e age o próprio Cristo, não mais o sujeito mesmo. A Lei da Graça permite ao homem passar da antiga à nova Lei. Permite surgir o homem novo (ressuscitado com Cristo).

Para Santo Tomas de Aquino, o Espírito Santo, que habita nas fibras mais íntimas da pessoa, é o guia da vida moral, instruindo-a interiormente na busca do bem. A ação do Espírito, porém, não tolhe a liberdade humana, mas suscita a opção livre para o bem. Assim, a lei da graça pode ser chamada também de Lei da Liberdade.

A Lei da Graça não se basta a si mesma, isto é, ela não é algo mágico. Ela atua especialmente nos carismas e nos dons que cada um possui para realizar sua vocação em Cristo.

3. Lei Positiva divina (S. Escritura) diz respeito as orientações morais do Antigo e do Novo Testamentos, portanto, da própria Revelação. A Lei Divina não se sobrepõe à Lei Natural (na ordem criacional) mas a engloba e respeita. Quando o Decálogo, que é Lei Divina, defende os direitos fundamentais da pessoa humana, como a defesa da família, da vida, da propriedade, está reafirmando, por assim dizer, a Lei Natural inscrita no coração humano pelo Criador.

A Lei Divina, já no AT, tinha por objetivo instruir o povo da Aliança sobre o seu comportamento frente a Iahweh.

No NT a Lei Divina expressa a essência da Revelação: o Reino de Deus veio a nós em Cristo, ou seja, na pessoa mesma de Cristo. Ele é a Lei da Nova Aliança. Assim, a Lei Divina não se restringe a um catálogo de vícios e virtudes (o que se pode ou não fazer) mas é todo o Evangelho que manda obedecer o mandamento do amor, servir o próximo, seguir o Cristo nas ações, pensamentos e palavras, enfim, obedecer antes a Deus que aos homens.

O centro da Lei Divina no NT é o Sermão da Montanha. Ele mostra o que a pessoa humana deveria ser: realizador da ética do estado originário da criação ou, por outro lado, a ética da plena redenção. Nele Cristo se volta para o homem convidando-o ao Reino de amor, paz, perdão, justiça. Dar uma resposta positiva a esse apelo é um imperativo moral. O conhecimento da Lei Divina vem pela escuta da Palavra que, aceita na fé, é transformada em ato na caridade.

4. Lei Natural se funda no ser humano. A Lei Natural é a primeira a ser considerada no nosso estudo, pois diz respeito ao homem enquanto natureza, querido e criado por Deus. Não se distingue da Lei da Graça, mas a pressupõe.

Quem não conhece o Evangelho, mas acolhe na própria consciência a Lei Moral Natural, aceitando-a e traduzindo-a em prática, não vice somente na Lei Natural, mas já está ordenado ao Reino da Graça.

Paulo Apóstolo afirmava que os pagãos podiam conhecer os atributos de Deus (sua beleza, sua bondade, seu amor) porque viviam na Lei Natural (Rm 1,20).

Diz Paulo: “Se os pagãos que não possuem a lei fazem, por natureza, aquilo que prescreve a lei, são leis para si mesmos, por não possuírem a lei. Eles demonstram que os ditames da lei são escritos em seus corações” (Rm 2,14)

Assim, para Paulo, o homem pode deduzir a norma moral em si mesmo, com sua consciência, sem o conhecimento explícito da Palavra de Deus.

Hoje, quando se fala de “Direitos Humanos”, na verdade se está falando dos direitos obrigantes pela Lei Natural. Assim, por exemplo: Direito à vida, ao sustento, ao trabalho, à liberdade, etc. Ao direito natural da pessoa enquanto indivíduo, corresponde ao dever da Lei Natural dos outros em respeitar esse direito.

Nem a Lei Divina, nem a Lei da Graça menosprezam a Lei Natural, ao contrário a confirmam e elevam. Por isso, as leis humanas só podem obrigar, enquanto correspondem também à Lei Natural. Exemplo: o aborto pode se tornar legal (lei humana) mas, em relação à Lei Natural e à Lei Divina jamais será eticamente lícito.

Hoje, o total desprezo do valor da natureza humana, portanto da lei moral natural e de seus valores, tem conduzido a situações extremas de injustiça. A Lei Moral Natural remonta a Deus, isto é, tem sua origem no ato Criador de Deus, por isso, quando Deus é negado no coração humano, também a natureza humana com seus valores e direitos inalienáveis é negada.

A Lei Natural determina o direitos dos povos (Ius Gentium). Assim, nenhum povo pode ser escravizado, pois tem o direito natural à liberdade. Por isso, hoje podemos entender como grave pecado, o genocídio feito aos povos pre-colombianos da América Latina pelos conquistadores espanhóis e portugueses. A Lei Natural foi desrespeitada ao ser negada a humanidade do antigo habitante da terra.

5. Lei Positiva Humana (Civil e Eclesiástica) é relativa, transitória e imperfeita. O legislador humano pode errar ou legislar para fins que não o do bem comum. A tendência voluntarista contemporânea faz da lei humana não um reconhecimento de valores preexistentes, mas criadora de valores. Assim, uma ação é boa não porque sua bondade é expressa pela lei, mas é boa porque obedece a lei. Da mesma forma, algo não é ruim porque é proibido, mas é proibido, por isso é mal.

Obviamente, o voluntarismo não pode ser vinculante, por isso não obriga. A lei humana deve ser sustentada pela ética que direciona ao bem comum. A legitimidade de uma lei está assentada na conformidade com a verdade, portanto, na conformidade com a realidade do tempo presente. Daí que a lei humana (civil ou eclesiástica) deve sempre sofrer alteração, deve progredir, para adequar-se às necessidades do tempo.

A Lei Humana está subordinada à Lei Divina, pois o homem pertence, em primeiro lugar, a Deus. Por Ele foi criado e por ele foi redimido. Uma Lei Humana que esteja em contraste (contraditória) com a Lei Divina, não teria força vinculante e não poderia ser chamada de Lei. Por isso, a Escritura ensina que se deve servir antes a Deus que aos homens e que ninguém pode servir a dois senhores…

A Lei humana, concordante com a Lei Divina e com a Lei Natural, enquanto Lei Civil tem o objetivo a ordem comunitária, o bem do homem singular e o bem comum dos homens em sociedade. Enquanto Lei Eclesiástica tem o dever de ensinar aos homens a observar tudo o que Cristo ensinou (Mt 28,20).

Assim, a Lei Humana é necessária. O bem comum exige normas claras e detalhadas de comportamento moral e social, válida para todos, pois, todos são iguais perante a Lei. Exige também que essas normas sejam sempre revistas e readaptadas ao contexto histórico e social preciso (muitas leis caem em desuso ou descrédito por inadequação ao tempo).

O poder civil tem o dever de vetar, sob sanção penal, as ações que são contrárias à Lei Natural e ao Bem Comum.

A “regra de ouro” da Lei Humana é: “aquilo que queres que façam a ti, não faças tu aos outros”. Assim, a Lei Humana se constitui de direitos e deveres.

EPIKÉIA: é a exceção à regra. A norma moral pode fazer exceção ao espírito da lei quando justificado por um bem maior não previsto na Lei (ou por causar um mal menor). (Exemplo: um carro conduzindo um doente ao pronto socorro desobedece o sinal de trânsito. A desobediência salva o doente…)

Diz também respeito a “equidade”. A Lei é interpretada segundo a equidade, segundo a justiça dum ato concreto, e não somente segundo a “letra da lei”. Nesse caso, se considera que o legislador humano não pode prever todo o alcance e conseqüência da lei que sancionou.

Diz respeito também ao conflito do dever. Diante da impossibilidade de cumprir duas obrigações morais ao mesmo tempo, faz exceção de uma e cumpre a mais provável.

6. Pecado Moral

Hoje, não possuímos um conceito unitário de pecado. Na verdade, há grande dificuldade de admitir o próprio pecado, quiçá proveniente do ateísmo moderno acostumado a negar Deus e, no lugar, absolutizando outros valores ou pseudo-valores.

Para a Teologia Cristã, pecado é, fundamentalmente o distanciamento de Deus e da sua vontade (S. Agostinho). Onde não tem lugar para um Deus pessoal, admitir a existência do pecado seria absurdo. Onde, porém, está Deus, ele será sempre o referencial absoluto do Bem.

Sociologicamente, o pecado poderia ser entendido como uma falha contra a comunidade humana (ou determinada sociedade). Sendo um ser social, o homem tem dever quanto ao bem do seu próximo. Praticar um ato hostil contra o outro na comunidade é, em última análise pecar contra Deus. Há sempre uma conseqüência social do pecado.

Uma outra corrente existencialista vê no pecado como algo pertencente a próprio natureza humana (“errar é humano, perdoar é divino”). Dessa forma, as debilidades não podem ser imputadas como pecado, mas como mera culpa. Uma corrente evolucionista, por sua vez, considera o pecado como necessário à evolução humana.

O homem é um ser em constante evolução, portanto, a uma maior evolução do espírito humano, corresponde menos pecado (se diz: a igreja é santa e pecadora. Logo, deve ser, em sua evolução, mais santa e menos pecadora).

Há ainda uma “mística do pecado” que o considera como necessário para se chegar a Deus. Essa mística contempla o dado bíblico de que os publicanos, os pecadores e as meretrizes entram por primeiro no Reino de Deus. Santo Agostinho também falava da “Felix Culpa”, da culpa feliz que nos trouxe o salvador!

Do ponto de vista psicológico, antes de se falar em pecado, se considera os fatores subjetivos da ação pecaminosa, como por exemplo: o conhecimento de causa e a decisão livre. A pessoa deve ser tomada no seu todo, portanto, na sua condição psíquica, emotiva e complexiva. A moralidade de um ato bom ou mau, como sabemos, depende do juízo da consciência e da respectiva responsabilidade. É preciso cuidar para que não se caia num psicologismo e ver a realidade do pecado só por esse ângulo.

Antigo Testamento: O conhecimento do pecado depende do conhecimento de Deus, da revelação que ele faz de si mesmo. No AT o pecado é uma infidelidade ao Deus da Aliança. Veja o que diz Isaias 1,2-4:

“Escuta, ó céus, presta atenção, ó terra, porque Iahweh está falando. Criei filhos e os fiz crescer, mas eles se rebelaram contra mim. O boi conhece o seu dono, e o jumento a manjedoura do seu senhor, mas Israel é incapaz de conhecer, o meu povo não pode entender. Ai da nação pecadora! Do povo cheio de iniqüidade! Da raça dos malfeitores, dos filhos pervertidos! Eles abandonaram a Iahweh, desprezaram o Santo de Israel e afastaram-se dele”.

Há, em primeiro lugar, um caráter coletivo de pecado. Jeremias (3,20) atesta que o pecado do povo é um adultério contra o Deus da Aliança. Com o pecado o homem desconfia de Deus e de sua providência. Nos profetas, de um modo geral, encontramos um conceito depurado de pecado: ele atinge essencialmente o íntimo da pessoa, portanto, também o homem singular.

Ezequiel, 18 ressalta a responsabilidade do indivíduo quanto ao seu próprio pecado, não do pecado dos outros: “Aquele que peca morrerá; o filho não pagará pela iniqüidade do pai, como o pai não pagará pela iniqüidade do filho. A justiça do justo será dele, e a responsabilidade do iníquo permanecerá com ele”.

Os profetas acentuam, também, o pecado contra o próximo como um pecado direto contra Deus. Vejamos, por exemplo Is 1,13-18:

“Basta de trazer-me oferendas vãs; elas são para mim um incenso abominável… Não posso iniqüidades e solenidades! As vossas Luas Novas e as vossas festas, a minha alma as detesta: elas são para mim um fardo; estou cansado de carregá-lo. Quando estendeis as vossas mãos, desvio de vos os meus olhos; ainda que multipliqueis a oração não vos ouvirei. As vossas mãos estão cheias de sangue; lavai-vos; purificai-vos! Tirai da minha vista as vossas más ações! Cessai de praticar o mal, aprendei a fazer o bem! Buscai o direito, corrigí o opressor! Fazei justiça ao órfão, defendei a causa da viúva… Mesmo que os vossos pecados sejam escarlate, tornar-se-ão alvo como a neve, ainda que sejam vermelho como carmesim, tornar-se-ão como a lã”.

Percebemos que o AT não fala só do pecado (pessoal ou social) mas fala também da misericórdia de Deus e da possibilidade de reconciliação que, por sua vez, depende incondicionalmente da conversão traduzida em ato à favor do outro, próximo, necessitado.

Novo Testamento: No NT a centralidade está em Jesus e no anúncio do Reino Novo: Ele veio tirar o pecado do mundo; santo, morrer pelos pecadores!

Nos Sinóticos, por exemplo, o tema principal é o Reino de Deus que veio em Cristo. Cristo veio anunciar aos homens o Pai e reconduzí-los a ele. Isso, no entanto, só pode acontecer se esses homens forem redimidos de seus pecados. Assim, anúncio do Reino e reclamo à penitência e à conversão estão intimamente unidos; por exemplo: “Convertei-vos, porque o Reino de Deus está próximo” (Mt 4,17).

A libertação do homem do pecado é fundamental na missão de Cristo. Isso é demonstrado, especialmente, nos milagres realizados por Jesus. Se tomarmos, por exemplo, os cap. 8 e 9 de Mateus, vemos que Jesus, primeiro absolve o paralítico dos pecados, depois o cura, afim de que todos saibam que o Filho do homem tem sobre a terra o poder de perdoar.

Em Mt 15,18, Jesus olha para o coração pecaminoso e não somente para a ação exterior. O ato mau, é antecedido por uma intenção má. Diz assim: “O que sai da boca vem do coração, e isso que contamina o homem; porque do coração vem maus pensamentos, homicídios, adultérios, prostituições, furtos, falsos testemunhos, difamações”.

Em outra passagem, Jesus chama os fariseus de “sepulcros caiados”. Bonitos por fora e podres por dentro!

O maior pecado é a Blasfêmia contra o Espírito Santo (Mt 12,31-32): “Todo pecado e blasfêmia serão perdoados aos homens, mas a blasfêmia contra o Espírito Santo não será perdoada. Se alguém disser uma palavra contra o Filho do Homem, ser-lhe-á perdoado, mas se disser contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem neste mundo, nem no vindouro”

O pecado contra o Espírito Santo é o não aceitar a presença salvífica de Deus já conhecida e inescusável. É quando o homem se fecha no seu orgulho e tenta aprisionar a ação de Deus na estreiteza da visão humana. Jesus atribui esse grave pecado aos fariseus. Eles obedecem exteriormente a Lei, mas nos seus corações só tem malícia. Negam o Espírito de Cristo no coração humano (e o coração humano é templo de Deus).

Para o Apóstolo Paulo, o pecado é uma potencia personificada. É um estado em que se encontra o homem e o mundo antes de serem redentos por Cristo. O pecado reina no homem (Rm 6,12.14) e o domina (Rm 6,16), o ilude, o seduz e o mata (Rm 7,11) suscitando no homem os desejos mais perversos (Rm 7,8). Segundo o Apóstolo, o pecado é uma realidade vasta e ramificada, que informa o ser e o agir do homem.

Três coisas são importantes para Paulo, nesse assunto: 1) A Carne: homem sem Cristo, dominado pelo pecado; Lei: faz do homem um contraventor dos mandamentos; Morte: o pecado mata o homem e o faz reinar na morte (Rm 5,21). “O salário do pecado é a morte; o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Jesus Cristo, Senhor Nosso” (Rm 6,23).

Para Paulo, portanto, o pecado é uma afronta a Deus. Ele diz: “As aspirações da carne são inimigas de Deus” (Rm 8,7). Como conseqüência quem vive para o pecado está morto para Deus, quem vive para Deus está morto para o pecado (Rm 6,11).

É sempre oposição a Deus na tentativa de encontrar a felicidade e a salvação, depositando a confiança nos ídolos.

Para Paulo, o pecado tem uma conotação universal (há uma verdadeira solidariedade no mau) quando diz “Não tem nenhum que seja justo, nem mesmo um só…” (Rm 3,9-10). “Todos de fato pecaram, assim todos estão privados da glória de Deus” (Rm 3,23).

Para o perdão do pecado não basta um ato jurídico de anistia. Somente inserindo-se na redenção trazida por Cristo é que alguém pode se tornar “homem novo”. Cristo veio na carne humana, marcada pelo pecado, e, na cruz consumou o perdão.

O Batismo, segundo Paulo, dá um novo status ao homem; se torna nova criatura; morre com Cristo e com Ele ressuscita. É importante verificar que para que isso ocorra, o homem participa de modo livre, aderindo a Cristo pela fé.

Para o São João temos a necessidade de confessar os nossos pecados se queremos estar em Cristo. Na 1Jo 1,8-2,2 diz: “Se dissermos que não temos pecado, enganaremos nós mesmos e a verdade não está em nós… Se dissermos que não temos pecado, chamamos Deus de mentiroso e sua Palavra não está em nós”

Para João, o verdadeiro cristão não peca: “Quem está em Deus não peca; quem peca não o viu nem conheceu… quem pratica a justiça é justo; mas quem peca é do diabo, porque o diabo é pecador desde o princípio. O Filho de Deus veio para destruir a obra do diabo. Quem nasceu de Deus, não comete pecado, porque o germe de Deus permanece nele e não pode pecar, porque é nascido de Deus” (1Jo 3,6-9).

O grande pecado para João é aquele cometido pelos docetas de negar a encarnação do Filho de Deus: “Quem é o mentiroso, senão aquele que diz que Jesus não é o Cristo? É anticristo quem nega o Pai e o Filho. Quem nega o Filho não possui nem mesmo o Pai; quem confessa o Filho, possui também o Pai” (1Jo 2,22).

O Concílio Vaticano II afirma que o pecado existe no mundo como uma realidade de fato desde o início da História (GS 13). Ele subsiste no homem que, no mundo, está inclinado ao mal (GS 13). Existe O Pecado do qual todos os pecados tem origem: distanciamento e oposição a Deus! (hoje se prefere o fetiche do consumo e a idolatria do capital em oposição ao Deus da vida que liberta e salva).

As consequências do pecado são:

2) desumanização. O homem é impedido de realizar-se plenamente como imagem e semelhança;

2) enfraquecimento da razão e da inteligência humana;

3) cegueira da consciência. Já não vê a verdade plena;

4) aprisionamento da liberdade como dom e gratuidade;

5) condicionamento da vontade e, portanto, da autonomia do homem.

Contra o individualismo ético, que vê no pecado apenas um “caso” particular entre Deus e o indivíduo, o Concílio chamou a atenção para as relações humanas, portanto para o pecado social.

As estruturas sociais, os governos, o mundo da economia, da política, das ciências, quando não ordenados segundo a vontade de Deus – que quer o bem do homem – estão contaminados pelo pecado, especialmente pela injustiça.

Diz o Concílio que Cristo veio libertar o homem e dar-lhe força, renovando-o no íntimo e vencendo o “príncipe deste mundo”. Cristo, de fato, reconciliou o mundo consigo mesmo e com os homens. Se há uma solidariedade no pecado, há, com muito mais razão, uma solidariedade no perdão. O movente dessa solidariedade é o próprio Deus feito Homem. Por isso Paulo podia dizer: “onde abundou o pecado, superabundou a graça”.

Julgamento Moral do Pecado:

No ato moral, o homem não opta somente pró ou contra um fim particular, portanto, limitado, nem pró ou contra um valor moral parcial; decide, na verdade, de si mesmo, da própria postura que faz de si mesmo verso o bem ou o mal em relação ao bem Absoluto: Deus.

A tomada de posição diante do fim particular nem tem significado em si mesma, mas é ocasião e sinal que indica como a pessoa humana está dispondo de si mesma diante de Deus (ou contra Deus). Trata-se da opção fundamental consciente e livre. O pecado original é, por assim dizer, a opção para o mal que, por sua vez, se torna origem para outros males.

O estudo moral da questão sugere levar em conta:

1) sensibilidade ao pecado: em determinada cultura ou em certos períodos o pecado é levado a sério e sua superação é um imperativo moral; em outras culturas ou períodos o pecado é minimizado, não havendo sensibilidade ao pecado porque não há sensibilidade para com Deus.

2) consciência do pecado: determinada pela fé em Deus e pela idéia que se faz dEle. Onde está viva a fé num Deus pessoal, o homem é profundamente conhecedor do seu pecado. Tudo isso depende do espírito religioso ou irreligioso do tempo.

3) sentimento de culpa: estreitamente ligada à consciência do pecado. Esse sentimento pode ser genérico, quando se refere ao ser pecador do homem (sua fragilidade); pode se referir a pecados individuais (todo pecado individual tem repercussão social).

À consciência objetiva do pecado, segue geralmente um correspondente sentimento de culpa. O Pecador sente no seu íntimo a desarmonia e a dissociação, o conflito entre Deus e seu EU interior (é preciso cuidar pastoralmente do sentimento patológico de culpa).

Concluindo, podemos afirmar que o pecado é possível, simplesmente porque o homem é livre. Sendo livre é também responsável pelos seus atos. Os atos não são apenas externos mas tem sua origem na vontade humana que, por sua vez, é julgada pela consciência.

O homem foi criado por Deus para aspirar com decisão livre ao bem e ao Bem Absoluto que é o próprio Deus. Todavia por um misterioso jogo de interferência entre intelecto e vontade, o homem, até que se encontre como pelegrino nesta vida terrena e não contempla face a face o Bem Absoluto de Deus, pode desejá-lo somente como um bem parcial ou recusá-lo, colocando em seu lugar, contra a mais íntima voz do intelecto e da vontade (da consciência, em última análise), alguma coisa que é, de fato, somente um bem parcial, elevado à “bem absoluto” por conveniência.

 Côn. Dr. José Adriano

ANEXO 1: Pecado original segundo o Novo Catecismo: (Leia a Secção II, “A profissão de Fé”, Parágrafo 7 “A queda”.

“É a escolha (feita pelos primeiros pais) de sí próprio em detrimento do reconhecimento do Absoluto de Deus. O homem preferiu-se a sí mesmo a Deus, e com isto menosprezou a Deus: optou por si mesmo contra Deus, contrariando as exigências do seu estado de criatura e conseqüentemente de seu próprio bem. Pela sedução do diabo (do mal personificado) quis ser como Deus, mas sem Deus, e antes de Deus, e não segundo Deus (398). O pecado original é a liberdade posta à prova, ou por outra, é o fracasso da liberdade humana que, na sua origem, escolheu o mal. O pecado original não tem caráter de falta pessoal. É a privação da santidade e da justiça originais que lesaram a natureza humana que ficou submetida à ignorância, ao sofrimento, à morte e inclinado ao mal. O Batismo apaga a culpa original porque faz o homem voltar à originalidade humana volta para Deus, embora o homem possa voltar a pecar já que a inclinação permanece na história, nas estruturas sociais, no mundo”.

ANEXO 2: Fontes do Magistério

Compêndio Vaticano II (alguns exemplos)

230 – GS 10 = O problema do mal

239 – GS 13 = Origem do pecado

277 – GS 25 = Origem do mal moral

248 – GS 16 = Dignidade da Consciência Moral

249 – GS 17 = A grandeza da Liberdade

278 – GS 26 = Bem-comum

279 – GS 26 = Dignidade da pessoa humana

289 – GS 29 = Direitos Humanos não admitem discriminação

292 – GS 30 = Condenação da ética individualista

327 – GS 41 = Direitos Humanos são abertamente proclamados pela Igreja

466 – GS 78 = Bem-comum é fundado na Lei Eterna

1469 – Inter Mirifica 6 = Arte e Moral

1470 – Inter Mirifica 7 = Exposição do mal Moral

1533 – Dignitatis Humanae 1 = Direito da pessoa e liberdade religiosa

1536 – Dignitatis Humanae 2 = Liberdade religiosa e consciência

1538 – Dignitatis Humanae 3 = A Lei Divina é Eterna e Universal

1540 – Dignitatis Humanae 3 = A Lei Divina é conhecida mediante a consciência

Catecismo Romano (alguns exemplos)

Agir Moral:

3, 16, 1813, 2031, 2047, 2181 – agir como cristão

302, 323, 1731, 1744, 1745 – Liberdade e ato humano

576, 1575, 2076 – o agir de Jesus

798, 1695, 2000, 2752 – agir segundo Deus

1972 – agir na força do amor

2061 – agir moral e sentido da Aliança

2472 – agir como testemunha do Evangelho

Ato Humano

1709, 1749-56, 1757-61, 1805, 1813, 1853, 1954, 2085, 2157 – moralidade do ato humano

1731, 1744, 1745, 1782, 2008, 2106 – liberdade do ato humano

1751 – objeto do ato humano

1752, 1753, 1756 – intenção do ato humano

1754 – consequências do ato humano

1755, 1760 – ato humano moralmente bom

1761 – ato humano desordenado

Bem

33, 1713, 1954-55 – Lei moral e bem comum

307, 409, 1706, 1713, 2002, 2541 – o homem é chamado à fazer o bem

1707 – luta entre o bem e o mal

1776-77, 1780-81, 1783, 1791, 1798 – consciência moral e bem

1910, 1927, 2239 – Estado e bem-comum

2238, 2242, 2265, 2310, 2321 – defesa legítima do bem-comum

2415 – conservação do mundo e bem comum

Consciência

160, 162, 1802 – Fé e consciência

912 – direitos e deveres da consciência

1700, 1780, 2524 – dignidade humana e consciência moral

1706, 1776, 1778, 1786-87 – Lei Divina e consciência

1749, 1751, 1796 – moralidade dos atos humanos e consciência

1776, 1778, 1795 – significado da consciência

1777, 1800 – juízo da consciência

1782 – liberdade de consciência

1786-89, 1799, 1907, 2106, 2242, 2256 – agir segundo a consciência

1790-94, 1801 – juízo errôneo e consciência

Dignidade Humana

306, 308 – dignidade do homem criado por Deus

364, 1004 – dignidade do corpo humano, imagem de Deus

782, 786 – dignidade do Povo de Deus

1295, 2245 – caráter transcendente da pessoa humana

1700, 1876 – dignidade da pessoa humana

1706 – dignidade manifestada na vida moral

1738 – dignidade inseparável da liberdade

1931 – dignidade, fonte dos Direitos Humanos

2339 – dignidade e opção consciente e livre

2393 – dignidade igual do homem e da mulher

Leis

1849, 1855, 1859 – pecado como ato contrário a Lei Moral

1860 – ignorância da Lei Moral

1740, 2526 – Liberdade e Lei Moral

1904 – Lei Humana e Lei Eterna

1952 – definição de Lei

1953 – Plenitude e unidade da Lei Moral em Cristo

1954-60 – Lei Natural

1965-71 – Lei Nova do Evangelho

2196 – Plenitude da Lei

2222 – observância da Lei moral de Deus

2269, 2271, 2282 – crimes contra a vida e lei moral

Mal

272, 410, 677 – vitória de Deus sobre o mal

311-12 – mal moral

385 – a origem do mal

401 – universalidade do mal na história do homem

403, 407, 1605, 1707 – pecado original como origem do mal

671 – o Reino de Deus é combatido pelo mal

1865 – o mal e suas conseqüências

1954 – discernimento do bem e do mal

1749-56 – mal e moralidade das ações humanas

2303, 2539 – não desejar o mal ao próximo

Moralidade e Valor

1750-54 – fontes da moralidade

1756, 1768 – juízo sobre a moralidade dos atos humanos

1780, 1794 – consciência moral e dignidade da pessoa

1886, 1895, 2244 – valores morais e sociedade

2264 – amor de si, princípio fundamental da moralidade

2286 – afastamento dos valores morais

2293 – ciência, tecnologia e valor moral

2425 – hierarquia dos valores morais e economia

2244 – valores morais e instituições sociais

Carta Encíclica do Papa João Paulo II Veritatis Splendor (06/8/1993)

De 35 a 53 – A Liberdade e a Lei

De 54 a 64 – A consciência e a Verdade

De 65 a 70 – A opção Fundamental

De 71 a 83 – O Ato Moral

De 84 a 117 – O bem moral para a vida da Igreja e do mundo

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