Antropologia e Testemunho

ELEMENTOS ANTROPOLÓGICOS DO TESTEMUNHO

O testemunho como cerne da missão evangelizadora da Igreja deve, no momento presente, cristianizar a sociedade dos ho­mens, aproximando-os de Deus. Para isso, esse testemunho deve também se encarnar nas estruturas sociais, humanizando-as e humanizando os homens em vista da “civilização do amor”, prognosticada por Paulo VI1.

A partir da consciência de sua missão e da consciência crítica adquirida com sua ação na história, a Igreja pro­cura dar, hoje, um testemunho relevante face aos problemas da sociedade contemporânea. Aceitando os desafios do tempo e do contexto social conflitivo, ela mostra sua eclesialidade precisamente na solidariedade para com os excluídos. A solidariedade, enquanto forma efetiva de testemunho, se traduz no desenvolvimento de projetos positivos e criativos, em favor do desenvolvimento integral do homem e da humanização da sociedade.

O testemunho tem sido comparado a um caminho que a Igreja percorre com sua missão evangelizadora, sua denúncia profé­tica e seu serviço na justiça2. Ela vai recriando a novidade do Evangelho “peregrinando entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus”3. Assim, desejo (resgatando a memó­ria) ressaltar alguns elementos de antropologia natural contidos na Encíclica Pacem in Terris e na Constituição Pastoral Gaudium et Spes e, da mesma forma, alguns elementos de antropologia cristológica no pensamento do Papa João Paulo II, procurando com isso, colocar parâmetros para a compreen­são do testemunho da Igreja.

O tema vem tratado dentro da perspectiva do testemunho como resposta aos desafios da história e resposta à desvaloriza­ção do homem e da consequente negação de Deus4. Dessa forma, há que se considerar o testemunho concreto de uma Igreja verdadeiramente consciente e comprometida porque “sem o testemunho de uma Igreja consciente, vãs seriam as palavras de seus pastores”5; um testemunho, portanto, que não provém de suas próprias forças, mas da força e do conteúdo de sua na­tureza e missão, isto é, da pessoa de Cristo6. Assim, o tes­temunho da Igreja, em suas obras concretas como resposta aos desafios sociais, se distingue de qualquer outra instituição, porque ele é dado em favor dos homens, mas por causa de Cristo e pela causa do Reino.

1. Visões contemporâneas do homem

No processo de desenvolvimento integral do homem e restabe­lecimento de sua dignidade de pessoa humana, é necessária a correção da visão distorcida vigente sobre o homem. Puebla reafirmou os critérios da fé como fundamentais para se obter uma visão integral do homem. Na visão cristã qualquer viola­ção da dignidade humana é vista como injúria ao próprio Deus, daí a necessidade de iluminar o sentido da vida humana com a visão cristã da pessoa humana.

Dos números 308 a 315, Puebla fez a distinção da verdadeira visão cristã do homem de uma visão determinista que consi­dera as pessoas como prisioneiras das formas mágicas de ver o mundo e de atuar sobre ele. Essa visão fatalista se apóia na idéia de que os homens não são fundamentalmente iguais, advindo daí marginalização e discriminações incompatíveis com a dignidade do homem. Distinguiu também uma visão psicologista para a qual a pessoa é reduzida ao seu psiquismo, fechada para Deus e para os homens, justificando o pansexualismo e o machismo. Fez distinção ainda de uma visão econo­micista que considera o homem apenas enquanto consumidor. O ter, o poder e o prazer colocam em segundo plano o ser pes­soa com dignidade e direitos. O liberalismo impôs uma visão individualista do ser humano contrariando sua índole social e comunitária. O marxismo clássico fez da pessoa uma essência social, sem consciência e sem liberdade. Por fim, lembrou-nos da visão técnico-científica, que só reconhece como verdade o que se pode comprovar cientificamente. O homem foi reduzido a uma definição científica e a sua dignidade foi muitas vezes sacrificada em vistas da manipulação da vida humana.

Essas várias visões apresentadas por Puebla não são únicas nem isoladas. Elas se complementam e convergem para um des­valor da pessoa humana. Por isso, a Igreja reafirma que “é obrigação proclamar a dignidade que é própria de todos, sem nenhuma distinção”7.

2. Alguns elementos de antropologia natural na Encíclica Pacem in Terris e na Constituição Gaudium et Spes

Para uma justa visão do homem a favor de quem a Igreja deve dar o seu testemunho, desejo relembrar alguns elementos principais de antropologia natural contidos na Encíclica Pa­cem in Terris, bem como na Constituição Apostólica Gaudium et Spes sobre a Igreja no mundo contemporâneo. Depois da primeira sessão do Concílio Ecumênico Vaticano II, o Papa João XXIII publicou em 11 de abril de 1963 a Encíclica Pacem in Terris dirigida aos homens de boa vontade, no ensejo de construir a paz a partir do homem e de sua natureza humana. Anunciou seus direitos inalienáveis e seus de­veres para com a família humana aberta aos valores espirituais da verdade, da justiça, do amor e da liberdade. São valores que sorpassam a simples comunidade política, porque pertencem à comunidade humana, mais ampla, e emergem da fonte mesma que é o homem, e “devem ser buscados onde os inscreve o Criador de todas as coisas, a saber, na natureza humana”8.

Assim, o ser humano – homem e mulher – possui uma dignidade humana pelo fato de ser pessoa, portanto, não apenas moral mas primeiramente existencial, que existe sempre, em todo lugar e igual para todos9. As raças, as culturas, o status econômico não faz o homem superior ou inferior a outro homem. As relações de igualdade e dignidade entre os homens “são vividos como um fato de consciência que se exprime historicamente pela enucleação dos direitos humanos”10. Ser pessoa é ser responsável pelo próprio futuro, o que faz prever a necessidade de verdadeira autonomia e liberdade em to­dos os níveis da vida social para poder humanizar-se11.

A pessoa humana, segundo a PT nº 9, é sujeito de direitos e deveres que são “universais, invioláveis e inalienáveis”. Esses direitos podem ser divididos em três grupos estreita­mente coligados: 1) direitos atinentes aos valores do espírito10; 2) direitos de conteúdo econômico-social11; 3) direito de participação proveniente da natureza social do homem12.

A vigência dos direitos comporta a realização dos deveres por isso, a Encíclica insiste também na exigência da ordem moral cujo fundamento é a verdade, cujo objetivo é a jus­tiça, cujo dinamismo é o amor e cujo método no agir é a liberdade. A verdade, fundamento da ordem moral, é aquela traduzida em termos do conhecimento objetivo da realidade de cada pessoa, isto é, sua própria consistência existencial: realidade vivente, dotada de razão e de livre vontade; social por natureza e impulsionada a mover-se na direção de Deus que é a Verdade subsistente, sumo bem e plenitude de vida.

A Justiça como objetivo é entendida como a primeira exigência do ser humano em ser tratado sempre e verdadeiramente por aquilo que é: pessoa humana. Entre a verdade e a justiça há uma relação intrínseca, pois, a exigência da justiça é indicada pela luz da verdade.

O dinamismo e força propulsora, conforme a Encíclica, é o amor, elemento tão essencial quanto a verdade. O ser humano é um ser social por natureza, dai que, as suas relações devem ser pautadas pelo amor para que possa mover-se na direção do outro para realizar a justiça e viver em comunhão.

Em tudo isso é essencial, também, a liberdade como método do agir humano. Ela é a fonte de criatividade que permite ao homem ser ele mesmo, manifestar suas qualidades e colaborar com o bem comum da inteira sociedade humana. Dessa forma, verdade, justiça, amor, liberdade são valores espirituais dos quais promanam os direitos humanos. São também os valores que constituem e exprimem o conteúdo da dignidade da pessoa humana.

Colaboram, portanto, para a compreensão da exigência do testemunho em favor do homem desfigurado enunciado em Puebla (nºs 31 a 39), a afirmação da pessoa como fonte de direitos humanos, enquanto pessoa, ser existencial, dotada de vontade livre, intrinsecamente social, igual a todas as outras pessoas em direitos e dignidade, levadas a colaborar umas com as outras em espírito de solidariedade e a agir com responsabilidade e criatividade. Colabora ainda o elenco desses direitos naturais que envolvem o homem todo, naquilo que ele mais tem de humano: sua vida e dignidade. Primeiramente os direitos básicos que asseguram a existência física; vida social condigna com direito de plena participação social, política e econômica, direito de mobilidade social como a imigração e estabelecimento noutras comunidades políticas ou culturais diferentes, entendendo sempre que os direitos que provém do fato de ser humano são primeiros e prioritários porque derivam da comum humanidade e da dignidade de ser pessoa, em relação aos outros direitos derivados da formação histórica das nações e dos grupos étnicos. Nesse sentido a Família Humana faz do homem um cidadão da comunidade mundial.

Em segundo lugar é importante a afirmação de que o ser humano é social por natureza e, em sociedade ele deve realizar-se, atendendo tanto as necessidades básicas para sua sobrevivência e bem-estar, como satisfazendo as exigências de sua vida espiritual. Assim, o bem-comum social está na realização plena do homem, e não apenas de uma das suas dimensões, como por exemplo a dimensão econômica. Não está nem mesmo, no bem estar de um grupo de homens ou nações, mas de todos os homens enquanto família humana. No ordenamento social, o Estado e suas au­toridades legitimamente constituídas tem o dever de reconhecer, respeitar, tutelar e promover os direitos e deveres dos cidadãos. Ao cidadão singular constitui dever e exigência a participação ativa e responsável na vida pública da qual é membro. Ele tanto tem o direito de participar dos bens, como também o dever de cooperar para que outros participem igualmente.

Numa sociedade, ou entre as sociedades, Estados e Nações, como comunidades humanas que são, as relações, especialmente os problemas e dificuldades, devem ser tratados em base à solidariedade traduzida em formas de colaboração econômica, social, política, cultural, sanitária, esportiva, etc. Especialmente, deve-se olhar para as minorias, em geral mar­ginalizadas e vítimas de injustiça. O respeito pelos direitos humanos inclui o esforço pelo seu desenvolvimento humano e o respeito pela cultura, língua, costumes e iniciativas econômicas. Da mesma maneira, deve-se acolher os exilados e refugiados políticos. Dessa forma, a solidariedade é componente essencial da convivência humana e se origina da natureza social do mesmo homem.

A Constituição Pastoral Gaudium et Spes sobre a Igreja no mundo de hoje, de 7 de dezembro de 1965, da mesma forma fala da originalidade do homem, da sua vocação e dignidade13. O ponto de convergência das preocupações universais é o homem concreto. Criado a imagem do seu Criador, ele possui infinitas capacidades: de conhecer, amar, dominar as coisas e delas se servir. Criado homem e mulher para viver em comunhão é, por sua condição humano-corporal, um resumo do uni­verso material e a ele se sobrepõe pela sua realidade inte­rior. Sendo imagem e semelhança, ele é um ser criativo usando de sua própria inteligência para o progresso das ciências, da técnica, das artes e conquista do mundo material. Com sua sabedoria, pode humanizar o progresso que ele mesmo vai construindo.

Ele possui dignidade desde o mais íntimo de sua consciência até o bom uso de sua liberdade. Como o reconhecimento de Deus não contraria a dignidade do homem (estabelecido em sociedade, inteligente e livre), já que está de acordo com os desejos mais profundos do coração humano quando defende a dignidade da vocação do homem, a Igreja propõe Cristo, o Homem Novo, que trabalhou e agiu com vontade humana e amou com um coração humano, como aquele que esclarece o mistério do homem.

Essa dignidade e vocação o homem a realiza na família humana onde a mútua dependência requer a vigência do mandamento do amor como lei suprema do relacionamento humano-social14. A vida social não é incidental para o homem mas necessária, já que pelo convívio com os outros, pela reciprocidade dos serviços e pelo diálogo o homem exercita suas capacidades res­pondendo, ao mesmo tempo, à sua vocação. Ele, de fato, vale por si mesmo, pois sendo a “única criatura sobre a terra que Deus quis por si mesma, não se pode encontrar plenamente se­não pelo dom sincero de si próprio”15 e, nessa sua dignidade é capaz de promover o bem comum entendido pela GS como a proteção e promoção dos direitos invioláveis, onde a ordem social está absolutamente subordinada ao bem da pessoa hu­mana16.

Dessa forma, a pessoa humana enquanto tal, é merecedora de respeito traduzido em ações concretas de entre-ajuda, espe­cialmente ao próximo necessitado17, no combate a tudo que ameaça a vida18 e no respeito àqueles que pensam e agem de modo diverso em matéria social, política ou religiosa. Esse respeito provém ainda da essencial igualdade entre os seres humanos, todos da mesma natureza e da mesma origem, todos resgatados por Cristo e participantes da mesma vocação di­vina. Também aqui, a GS propõe promover essa igualdade superando os preconceitos e discriminações da ética individualista e buscando vida justa e humana para todos. Finalmente, a solidariedade é também aqui ressaltada como um dever do homem contemporâneo que, movido por valores morais e sociais, é capaz de vivenciá-los responsavelmente, com o auxílio da graça divina para que surja uma humanidade nova. Essa humanidade nova é constituída de homens concretos vividos nesta terra, por isso, conta também a atividade temporal que deve ter seu termo no Reino. Isso constitui para o cristão uma razão a mais de empenho e de esperança.

3. Alguns elementos de antropologia cristológica no pensamento do Beato Papa João Paulo II

Em Puebla, o Papa reafirmou a verdade sobre Jesus Cristo, sobre a Igreja e sobre o homem. A verdade sobre o homem é manifesta por uma antropologia informada pela revelação porque “o mistério do homem só se esclarece no mistério do verbo encarnado”19. O anúncio dessa verdade, revelada “por aquele mesmo que conhece o que há no interior do homem”, é direito e dever da Igreja, já que, o anúncio dessa verdade “é o melhor serviço prestado ao ser humano”20.

A afirmação primordial dessa antropologia é a do homem como imagem de Deus a qual é irredutível a uma simples parcela da natureza ou elemento ânimo da sociedade humana. Na origem dessa verdade encontram-se os seguintes pressupostos: O homem é criatura, ser vivo pelo alento de Deus, por isso não encontra em si mesmo a explicação para o seu mistério. No amor a Deus está a fonte de sua grandeza e dignidade. O homem é imagem e vocação21, isto é, deve a cada dia tornar-se imagem dinâmica, assemelhando-se ao seu autor e fonte de seu ser22. Na revelação neotestamentária, ele é imagem de Deus em Cristo, como filho de Deus, isto é‚ imagem porque é filho de Deus, portanto irmão dos outros homens. A pessoa humana tem um caráter transcendente pelo que está chamada a uma eminente dignidade. Nisso se radica o primado da pessoa sobre as estruturas, a dimensão pessoal do pecado e da conversão, sua responsabilidade pessoal e social23.

A primeira Carta Encíclica do Papa João Paulo II, Redemptor Hominis, é dedicada à defesa da dignidade do homem24. Com a encarnação, Jesus, o Filho de Deus, se uniu a cada homem (GS 22), por isso ele é o caminho da Igreja e também de cada ho­mem (RH 13). O homem possui uma sacralidade e é sujeito de direitos e deveres e irmão dos outros homens. Na Dives in Misericordia demonstra-se o equilíbrio entre a redutibilidade do homem e do cosmo a Deus e a absolutização do homem pela antropologia moderna25. Diante das tensões atuais: egoísmo, mentira, violação dos direitos humanos, ameaça atômica e ecológica, violência social, nacional e internacional, afirma o núcleo da antropologia evangélica, isto é, a cons­trução do homem como pessoa humana, da sociedade como comunidade, da comunidade como comunhão e misericórdia. Como “imagem de Deus” deve projetar a misericórdia para os outros. A Laborem Exercens demonstra a necessidade de superar o economicismo e o coletivismo materialista à luz dos valores personalistas, comunitários, pluralistas e democráticos a partir da centralidade do homem trabalhador na sua significação pessoal, social, civil, eclesiástica e política. Diante de uma economia desumanizante o Papa propõe uma nova economia do homem, derivante da solidariedade de todos os homens.

A antropologia de João Paulo II se define como a antropolo­gia da imagem onde homem e mulher são ícones teomorfes26. A imagem de Deus no homem, e o próprio homem como imagem do humano se encontra deformada por muitos modos de injustiça. O Cristo, redentor do homem, revela, por‚m, a verdadeira imagem do homem, na sua originária dignidade de filho de Deus.

4. Cristo, Redentor do Homem

A Encíclica Redemptor Hominis é fundamental para a fixação dos elementos antropológicos subjacentes ao testemunho. Seu conteúdo é uma profissão de fé no Cristo, Redentor do homem na Igreja. Há uma ligação vital entre o Cristo, sua Igreja e o homem27.

Dessa forma se pode analisar a encíclica na prospectiva das exigências do homem de hoje, ou a partir da redenção ou ainda na perspectiva eclesial. Sob qualquer um dos ângulos possíveis, o homem, o Cristo e sua Igreja estão presentes. É uma realidade antropológica fundada em Cristo e que se de­senvolve na Igreja28. A Igreja, por sua vez, se identifica pelo serviço prestado ao homem. Esse serviço não se justifica por si mesmo, mas pelo mistério da Redenção, princípio da vida e da missão da Igreja. A Redenção renova a criação e é a plenitude da justiça no coração humano de Cristo, tornando-se também justiça para todos os homens. Toda a obra de Deus, na Criação e Redenção, tem como finalidade que todo homem participe da vida do Fi­lho eterno e verbo encarnado, independente da situação his­tórica, raça, sexo, ou classe social29. Ele revela plenamente o homem ao homem, mostrando-lhe sua vocação. Como imagem do Deus invisível ele é, ao mesmo tempo, imagem do homem perfeito. Assim o homem, para encontrar-se a si mesmo, deve assimilar toda a realidade da Encarnação e Redenção.

A Igreja, por sua vez, consciente de que Cristo é o redentor do homem, em sua missão evangelizadora deve unir todo homem com o verbo criador e redentor. Ela não tem outra vida e outra missão senão aquela do seu Senhor que se volta para o homem, para seus problemas, esperanças e sofrimento. A Igreja, em sua ação testemunhal, procura cada vez mais conhecer todos os aspectos da vida humana, ajudando a individuar a causa dos males e a colocar-se diante da realidade da redenção. Estando em contacto com uma humanidade com fome de justiça, de paz, de amor, de bondade, de fortaleza, de responsabili­dade, de dignidade humana, a Igreja deve fixar-se no mistério da redenção, encontrando aí a luz e a força para a sua missão.

A cristologia da RH e a sua conseqüente eclesiologia não perdem de vista a pessoa divina do Verbo que se exprime na humanidade de Cristo, humanidade que é típica para todo ho­mem e à qual todo homem deve unir-se para ser salvo; uma Igreja que anima um autêntico humanismo, que fornece uma orientação ao pensamento e que pode constituir uma “força social”30, que não se reduz unicamente ao humano, mas que quer levar o humano a viver a dimensão de filhos de Deus.

Por causa da Redenção realizada por Cristo, o homem deve ser visto como o valor supremo e absoluto enquanto pessoa hu­mana. Onde está o homem, aí está, também, a dignidade da pessoa humana31. Com a encarnação de Jesus a humanidade inteira, na natureza humana de Jesus, se torna participante da natureza divina. Redimido pela morte de Cristo e vivificado pelo Es­pírito, torna-se filho de Deus, é inserido na vida de Deus e destinado a participar de sua glória.

Assim, o homem imagem de Deus pela criação, se torna também filho de Deus e herdeiro da vida eterna em virtude da en­carnação, morte e ressurreição de Jesus. Essa divinização do homem é o fundamento mais profundo e o sinal mais alto do incomparável valor da pessoa humana que o conserva enquanto em relação a Deus. O mistério do homem se explica, portanto, no mistério da Redenção: Cristo morreu pelo homem para que o homem pudesse se tornar filho de Deus.

5. Um projeto humano para o homem

A RH afirma que a dignidade da pessoa humana torna-se conteúdo do testemunho. Por isso ela procura despertar a cons­ciência e os sentimentos mais profundos do homem para Jesus Cristo, via da Igreja e via para cada homem, onde todos en­contram sentido para a vida e se reconhecem como “imagem e semelhança” (Gn 1,27) e como “filhos de Deus” (Jo 1,12). A via da Igreja, que é a mesma de Cristo, é uma estrada humana onde o homem recebe dignidade e respeito por si mesmo (GS 24). Portanto, o homem é o primeiro e mais fundamental caminho da Igreja neste mundo, traçado por Cristo e que conduz ao mistério da Encarnação e Redenção.

Um projeto de humanização, portanto, deve levar o homem a “ser mais” e não somente a “ter mais”32; a não ser escravo das coisas e das estruturas, mas a ser senhor do mundo criado; a estabelecer os direitos invioláveis contra a violência, as torturas, o terrorismo e as múltiplas discriminações. Um projeto de mais humanidade deve ainda levar em conta que “Cristo se uniu de certo modo a cada homem” (GS 22), indicando o caminho para sua Igreja que, ao promover a dignidade do homem, se envolve também com seus problemas concretos, esperanças e sofrimentos. “A Igreja não tem outra vida fora daquela que lhe dá o seu esposo e Senhor” (RH 18), por isso, como Cristo se uniu a ela na redenção, ela se une a cada um dos homens em seu testemunho. A Igreja, ao procurar ver o homem com os olhos do próprio Cristo torna-se cada vez mais cônscia de ser a guarda de um grande tesouro, que não lhe é lícito dissipar, mas que deve continuamente aumentar. Embora a mesma sociedade dos homens ofereça projetos ao homem33, um verdadeiro projeto de humanização na perspectiva cristã, está eqüidistante da maioria deles. No centro de um verdadeiro projeto deve estar o homem como pessoa, visto em sua integridade e não apenas nos aspectos de consumo, desejo e necessidade34. Criado à “imagem e semelhança” é livre, senhor de seus atos e possui o primado absoluto sobre toda a criação, por isso não pode ser reduzido a um meio, mas é sempre fim. É um ser em relação: relação com Deus, que é o seu fim último, com os outros homens, seus irmãos e com o mundo, sua casa. É ainda um ser de comunicação que se realiza na comunicação com Deus, através de sua fé e de sua religião; na comunicação com os outros, na sociedade; e na comunicação com o mundo através do trabalho transformador.

Um projeto que coloque no centro a pessoa humana, respeite sua dignidade e promova o seu desenvolvimento deve, em pri­meiro lugar, assegurar a todos a vida, que é o ser mesmo da pessoa e a condição para o seu desenvolvimento. Da concepção cristã, da vida humana emergem os princípios para a humanização da sociedade35.

Todas as formas de morte e atentados contra a vida humana, portanto contra o homem e sua dignidade, devem ser rejeita­das a priori. Toda situação de subdesenvolvimento e pobreza que configura uma menos-vida deve ser transformada por atitudes concretas da Igreja e das instituições sociais compostas de homens de boa-vontade (Cf. PP 5).

Da mesma forma, um projeto humano deve se mover também na linha do crescimento do espírito, isto é, reconhecer o pri­mado do espiritual, na promoção da cultura, na busca da verdade e da liberdade, na conquista dos valores morais e hu­manos, no desenvolvimento pleno e integral da pessoa. As condições materiais devem permitir ao homem o seu progresso espiritual, portanto integral e não ao contrário, quando o homem se escraviza às coisas e, apesar de todo esforço e trabalho, não consegue viver com dignidade. “O homem não deve ser escravo, mas senhor do mundo material”36.

O desenvolvimento das condições humanas deve, ainda, levar em conta a sociabilidade e a comunhão nas relações entre os ho­mens e as instituições, a saber: participação com espírito solidá­rio37 contra o individualismo, construção da paz social pelo caminho do entendimento e da justiça contra os diversos tipos de radicalismos e ideologias, esforço pela participação democrática no respeito à liberdade de opinião e no incentivo à criatividade de cada pessoa e dos grupos sociais. Em todos esses aspectos, a Igreja tem um testemunho concreto a realizar: construir o “homem novo e uma humanidade nova”38.

NOTAS

1 Cf. Puebla, Mensagem 8

2 Cf. N. COTUGNO, El testemonio en el Concílio Vaticano II, Montevideo: 1974

3 LG 8

4 Cf. D.WIEDERKENR, Igreja como lugar de múltipla existência cristã, in Mysterium Salutis, IV, Petrópolis: 977, 31

5 EN 41; Puebla 964, 1121,

6 Puebla, 970, 967, 968,

7 Puebla 169, 316; “A Igreja possui, graças ao Evangelho, a verdade sobre o homem tendo o dever de proclamá-la diante de tantos outros humanismos, em geral fechados numa visão do homem estreitamente econômica, biológica e psíquica, anunciando a vontade de Deus no corpo da justiça, da defesa e promoção da dignidade humana e dos direitos humanos”, Papa João Paulo II: Mensageiro do Evangelho na América Latina, in La Civiltà Cattolica, anno 130, v.I, Roma: 1979, 319-321

8 PAPA JOÃO XXIII, Litterae Encyclicae Pacem in Terris, AAS L (204-1963) 257-299 (doravante citada como PT)

9 Comento de Card. P. PAVAN, in L’Enciclica Pacem in Terris a venticinque anni dalla publicazione, Roma: 1988, 109; vide também: I. GIORDANI, (editor) Pensiero sociale della Chiesa oggi, Roma 1974, 63-96, 529-608; P. HAUBTMANN, El testamento social de Juan XXIII, Barcelona 1969

10 PT 12-14: “liberdade, pesquisa científica, pensamento filosófico, criação artística, concepção política, convicções morais, crença religiosa, escolha da profissão, manifestação e difusão do próprio pensamento, tutela jurídica dos próprios direitos”

11 PT 11-19: “existência, integridade física, alimentação, vestuário, habitação, repouso e recreação, saúde, serviços sociais necessários: segurança social, invalidez, viuvez, velhice, desemprego; direitos de participar dos bens da cultura, à instrução de base e formação técnico-profissional, condições de trabalho salubres, remuneração segundo critérios de justiça e eqüidade que permita vida digna para a família”

12 PT 23: “participação responsável na comunidade política da qual é cidadão, nos movimentos, nas associações e nas instituições nas quais estão inseridos qualquer que seja sua finalidade”

13 V. FUSCO, É bíblico l’ottimismo della Gaudium et Spes? in Il Concilio venti anni dopo. Roma: 1986, 77-85 comenta que o fundamento dos valores antropológicos que partem da Criação, segundo a GS, não são separados dos valores cristológicos, pois, mostra a criação sujeita ao pecado, isto é, a antropologia da GS mostra o homem criado que precisa de Cristo como Redentor. Sobre os lineamenta da nova antropologia ver: L. SARTORI, La Chiesa e la vocazione dell’uomo: la dignità della persona umana in La Chiesa nel mondo contemporâneo. Torino: 1966, 63-78.

14 Cf. Rm 13,10; 1Jn 4,20

15 GS 24,3; Cf. Lc 17,33

16 “alimentação, vestuário, habitação, livre escolha do estado de vida, de fundar uma família, educação, trabalho, reputação, respeito, informação, atuar segundo a pró­pria consciência, proteção da vida privada, justa liberdade inclusive religiosa”

17 GS 27: “especialmente o ancião abandonado, o trabalhador estrangeiro desprezado, o exilado, ou a criança nascida de uma união ilegítima que suporta injustamente o peso de uma falta que não cometeu ou do faminto que interpela a nossa consciência (Cf. Mt 25,40)”

18 GS 27,3: “homicídio, genocídio, aborto, eutanásia, mutilações, tortura física ou moral, coação psicológica, condições de vida infra-humanas, prisões arbitrárias, deporta­ções, escravidões, prostituição, comércio de mulheres e de jovens, trabalho degradante… corrompem a civilização humana e insultam a honra do Criador”

19 Discurso inaugural I, 2; Cf. também GS; CNBB, Diretrizes gerais (1987-1990) n. 38, São Paulo 1987

20 Discurso inaugural I, 9; também Puebla 170, 339

21 Cf. PP 5

22 “Outro elemento da imagem de Deus em nós é o fato que ela não é impressa de forma definitiva mas perfectiva. Assim, o homem se torna artífice de si mesmo: do seu tornar-se pessoa, da sua beleza como imagem, da sua grandeza como construtor do próprio destino e dignidade, como colaborador de Deus. O aperfeiçoamento da imagem é a conseqüência da fidelidade do homem à sua vocação natural e sobrenatural”, Cf. editorial de La Civiltà Cattolica, anno 137 (1986) v.I, 213; também Puebla n. 184, “o homem, eternamente idealizado e eternamente eleito em Jesus Cristo, devia realizar-se como imagem criada de Deus, refletindo em si mesmo e na convivência com seus irmãos o mistério divino da comunhão através de uma atuação que chegue a transformar o mundo” (Apud PAPA JOÃO PAULO II, Discurso inaugural, I,9)

23 Em sua viagem ao Brasil, por várias vezes, o Papa reafir­mou a dignidade do homem: “Cristo colocou-se ao lado da dignidade humana. Na família humana, os marginalizados de­vem encontrar um lugar à mesa. O homem não é mero instrumento de produção”, Homilia Aos agricultores, Recife, (7/7/1980); “Feito à imagem de Deus, ele recebeu a missão de administrar o universo para desenvolver as suas riquezas e garantir-lhes uma destinação universal, para unir os homens no serviço mútuo e na criação comum de um sistema de vida digno e belo… o homem sem Deus e sem Cristo constrói sobre a areia”, Discurso aos operários, São Paulo (3/7/1980); “Negar essa transcendência é reduzir o homem a instrumento de domínio, cuja sorte está sujeita ao egoísmo e a ambição de outros homens”, Homilia aos Jovens, Belo Horizonte (1/7/1980)

24 de 4/3/1979, in AAS LXXI (15/3/1979), 257-324

25 de 29/11/1980 in AAS LXXII (29/12/1980), 1177-1232

26 O humanismo do PAPA JOÃO PAULO II se apresenta como uma antropologia da imagem cujo versante são o amor e a dynamis, a ação transformadora do mundo e da sociedade pelo serviço e pela promoção do homem e da mulher. Cf. E. KACZYNSKI & B. MAZUR, Studia in honorem Karol Wojtyla. Roma: 1979.

27 J. J.. de SANTO TOMAS, L’Encyclique Redemptor Hominis, in Revue Thomiste, 180, Paris 1980, 498-505

28 Cf. S. MOSCHETTI, Cristo redentore dell’uomo e la sua Chiesa: rileggendo la Redemptor Hominis, in La Civiltà Cattolica, ano 132, v. 3, 464

29 Gal 3,28: Não há judeu nem gentio, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher: vós todos sois um só em Cristo Jesus.

30 PAPA JOÃO PAULO II, Alocução aos Bispos do Brasil, (2/7/1980) AAS LXXII (30/9/1980) 825-961

31 “A pessoa humana em ação não só manifesta a sua condição pessoal, mas ao mesmo tempo a realiza. É a causa de seu ato, porque é causa da transformação do mundo. Possui transcen­dência e coopera com outras pessoas na atividade humana. A participação na comunidade humana exige que seja considerada pessoa aberta a outras pessoas” in K. WOJTYLA, Acting Person. Cracovia: 1969.

32 Cf. GS 35; PP 14; ver também: P. POUPARD, Cultura e Redenção, in Antropologia e práxis no pensamento de João Paulo II. Rio: 1985, 34; J. G. PIEPKE, A Igreja voltada para o homem. São Paulo: 1989

33 Por exemplo: Projeto cibernético sujeito à racionalidade científica; Projeto consumístico que vê o homem como um ser de necessidades; Projeto libertário que vê o homem como um ser de desejos prescindo da moral e do próprio Deus.

34 “O ser humano é sempre um valor em si e por si e exige ser considerado e tratado como tal, e nunca ser considerado e tratado como um objeto que se usa, um instrumento ou coisa”, in PAPA JOÃO PAULO II, Adhortatio Apostolica postsy­nodalis Christifidelis Laici, (30/12/1988) 37, AAS LXXXI (14/4/1989) 393-521.

35 Cf. PAPA JOÃO XXIII, Letterae Encyclicae Mater et Magistra (15/5/1961) 222, AAS LIII (15/7/1961).

36 PAPA JOÃO PAULO II, Message aux Nations Unies pour le 302e anniversaire de la Déclaration des droits de l’homme, (2/10/1979), AAS LXXI (15/10/1979) 1143-1174.

37 A solidariedade é uma opção para a vida e para a justiça, Cf. PAPA JOÃO PAULO II, Discurso à Conferência Episcopal Chilena, Santiago (3/4/1987) AAS LXXX (15/12/88) 147-156; também: CNBB, Exigências éticas da ordem democrática, 42

 38 Cf. a DM 14 “o mundo dos homens pode se tornar sempre mais humano, somente se introduzirmos no multiforme âmbito das relações interumanas e sociais, junto com a justiça, aquele amor misericordioso que constitui a mensagem do Evangelho. O mundo dos homens pode se tornar sempre mais humano somente quando em todas as relações recíprocas, que plasmam a sua face moral, introduzirmos o momento do perdão, essencial para o Evangelho”; Cf. também 2Cor 17; Cl 3,10; GS 22; EN 18; Medellin, Justiça II; Puebla 197, 333, 350, 1296, 1308

Côn. Dr. José Adriano

Publicado in: Revista de Cultura Teológica nº 12 (jul/set/1995) 7-20, ISSN 0104-0529

Sobre conegoadriano

Doutor em Teologia Moral, professor, Sacerdote
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