Notas sobre a Esperança

Introdução

O tema da Esperança surgiu com força no projeto do jubileu do ano 2000. A esperança é uma virtude que está no fundamento da existência humana. Além de teológica, é uma realidade antropológica. Cada ser, também o ser humano, vive o presente projetado para o futuro. O amanhã é, na esperança, um pleno existir.

1. Esperança humana

A esperança[1] é uma experiência originária, comum a todos os homens. É um fenômeno psíquico que os antigos chamavam de pathos, isto é, uma paixão ou uma emoção suscitada por um bem ainda não presente que se tem a confiança de possuir no futuro. A confiança, desse modo, dá sustento à esperança. A esperança é vista como realizável pela confiança. Confiança e esperança se completam e se supõem. É verdade que, no horizonte da esperança, há incertezas e temores, mas é verdade também que no horizonte da esperança há o ousar, a aventura.

O pressuposto psicológico da esperança funda a convicção da possibilidade real de atingir o bem desejado, seja com as próprias forças, seja com a ajuda de outras forças, tais como: ajuda de pessoas, da sorte, de Deus. O esperançoso é um crente, alguém que deseja e crê no real ainda não presente mas que, na fé, é perfeitamente possível. A esperança possui também uma dimensão social. Um povo cativo e sob opressão, esperando um Goel libertador, vive, reza, trabalha, se organiza em torno da esperança de ver o sonho realizado. A experiência psicossocial demonstra que o fato de ter uma esperança comum cria unidade entre os que sonham o mesmo sonho, e essa unidade reforça, por sua vez, a esperança. Renovar sempre mais as forças da esperança é imprescindível para a superação das atitudes estóicas de resignação e imobilismo. Gabriel Marcel afirmava que quem vive a vida como uma rotina é “um desesperado que nem mesmo sabe que é desesperado”[2].

A esperança precisa ser vista no contexto da vida humana total. Onde há vida, há esperança, diz o adágio popular! Ela está na raiz da existência, como afirmava Platão no Philebo: somos plenos de esperança por toda a nossa vida; ou Alex Pope in Essay on man: a esperança brota sempre do coração humano; ou com André Malraux: Um mundo sem esperança é irrespirável; e mesmo com Emmanuel Mounier: um homem sem esperança reinventa sempre qualquer esperança. Na crença da ressurreição, a esperança vai além da vida física, porém, na condenação da alma, tudo está perdido, como escreve Dante na Divina Comédia: Vós que entrais (no inferno) deixai toda esperança!

A esperança, por ser essência do humano, é mistério. Não pode ser demonstrada e nem mesmo a razão de esperar pode ser perfeitamente compreendida, afirma Gabriel Marcel. Há sempre mais na esperança sobre o que é previsível, isto é, há um caráter de imprevisibilidade, de futuro, de expectativa. Moltmann chega a afirmar, nesse sentido, que a esperança contém uma inadequatio rei ad intelectus. Daí que outras virtudes devem estar presentes, como instrumentos, na compreensão da esperança: a paciência, a constância, a oração por constituírem a fortaleza de ânimo.

A contra partida da esperança é a desesperança, comum em nossas sociedades angustiadas. Sören Kierkegaard considerava a angústia como um aspecto constante e necessário da existência humana. Angustiado, o homem não tem como sair do seu desespero. Somente a conversão à fé o pode salvar. Martin Heidegger via no homem um ser para a morte, abandonado na incerteza e na solidão. Em Jean-Paul Sartre é excluída toda esperança, a existência humana está suspensa no vazio, no nada. O homem deve viver no absurdo e no desespero com coragem, deve bastar-se a si mesmo como um super-homem. Nesses vários pensadores, parecem estar presente três causas fundamentais para a rejeição da esperança: a solidão, que exige o sustento do amor de outras pessoas, de ser aceito como pessoa; a incredulidade que é a perda do sentido último da vida e que exige a responsabilidade pelo mundo e pelo futuro da humanidade; e a culpa, cuja impossibilidade de reparação causa desespero e exige, por isso mesmo, perdão e esperança de mudança de rumo.

A esperança é, porém, para outros autores, o agir humano mais nobre. Ela é a força fundamental e primária que estimula e impulsiona toda atividade humana. Para Ernest Bloch, por exemplo, o homem é trabalhador, produtor e transformador que ultrapassa, em si mesmo, o trabalho, o produto e o meio transformado. A esperança, nesse caso, é ativa, operante, a mais humana das virtudes e que só os seres humanos possuem. Ela projeta, escolhe, decide, trabalha. Ela transforma a utopia em projeto e depois em realidade. Erich Fromm compara a esperança ao salto do tigre em direção ao seu objetivo. Esperar, pois, é um estado do ser, uma capacidade inata de sonhar e realizar o sonho. Autores como Karl Ranner e C. Caffarra pensam a vocação do homem inserida no conceito da esperança cristã, portanto, como auto realização humana. Paul Tillich traduz esperança por coragem, capaz de enfrentar a ameaça do não-ser. Paul Ricoeur coloca na base de toda filosofia uma afirmação originária, isto é, uma coragem de dizer sim à realidade utópica e um não à estagnação e imobilidade. A Esperança, dessa forma, supera a própria possibilidade. Espera e crê num progresso humano ilimitado.

O objeto da esperança humana já foi tema de Aristóteles e Santo Tomás de Aquino, cuja ética apontava como último fim do agir humano a eudaimonia, a felicidade. Toda atividade do homem provém da sua tendência ao bem e, essa tendência, não termina se não no encontro do bem. A esperança de ser feliz é a tendência fundamental do agir humano que o faz ser mais, abrir-se ao próximo, superar o egoísmo e a avidez. A história da humanidade mostra que sempre se esperou um bem maior para a comunidade humana. O próprio sentido da história requer um ordenamento mais feliz para a raça humana. Hoje, em consciência, não aceitamos a violência, a desonestidade, os atos injustos que causam tanto mal. O paradigma da rejeição do mal é a certeza do bem, perfeitamente realizável na esperança. Assim, a esperança de um é a esperança de todos, uma co-esperança.

2. A Esperança Cristã

A esperança cristã é vivida na oração, na virtude da paciência e na prática da caridade. O agir cristão é todo esperança, pois busca o fim último do homem em Deus. Esperar, para o cristão, nunca foi um acomodar-se. A esperança cristã possui um caráter de confiança em Deus que inclui um desejo e uma tendência em direção ao futuro. A experiência momentânea não pode ser o único fundamento de uma teologia cristã da esperança. Devemos, pois, nos voltar às fontes, especialmente aquelas da Sagrada Escritura:

No Antigo Testamento, a palavra hebraica que exprime a esperança religiosa, batach (sentir-se seguro, confiar), possui um sentido de expectativa do bem da salvação; a palavra qawah e jachal significam esperar; a palavra chasah (procurar refúgio). São expressões traduzidas pela LXX como elpizein (esperança). Com o Antigo Testamento, pois, a esperança é espera, paciência, constância e confiança, todas próximas de pistis (fé, confiança). A esperança veterotestamentária está presente em toda a vida do Povo de Deus e sempre em relação a Deus. O Antigo Testamento rejeita as falsas esperanças humanas, baseadas no homem, na sua riqueza, no seu poder político (Cf. Sl 37, 5-7; Is 30,15). A esperança no Antigo Testamento não é, primeiramente, uma tensão em direção ao futuro, mas é abandono e confiança nas mãos de Deus. Não está embasada na capacidade do homem, mas na promessa de Deus.

O aspecto ativo também está presente na esperança veterotestamentária. A confiança nas promessas é, ao mesmo tempo, um impulso para o agir. Foi assim com Abraão que ouviu a voz de Deus que o chamava para emigrar com sua família e seu rebanho. Foi assim com Moisés que, obediente à voz de Deus, liberta o povo da escravidão, confiante na promessa da Terra Prometida. Foi assim, também, com os profetas que, vendo a situação de injustiça e de exploração dos pobres, se empenharam confiantes na promessa divina de paz e justiça.

O objeto da esperança do Antigo Testamento é sempre o cumprimento das promessas de Iahweh: a terra prometida ao povo, a libertação do cativeiro, o reino do filho de Davi, a reconstrução da nação, a salvação do resto de Israel.

Os profetas alargam o objeto da esperança de Israel ao proclamarem a realização futura da Nova Aliança, um novo Israel, que terá pleno conhecimento de Deus, um coração renovado, um templo e um culto mais perfeito. A felicidade coletiva do povo repousa na realização da promessa, desejada e ansiosamente esperada. Nos últimos séculos, a fé numa retribuição pessoal, numa ressurreição, se soma à esperança do povo. Chegada a plenitude dos tempos, uma salvação pessoal junto de Deus passa a fazer parte da esperança de Israel.

No Novo Testamento, as palavras elpis e elpizein não são encontradas – quanto ao seu sentido religioso – nos Evangelhos Sinóticos. A essência da esperança é expressa nas palavras grègorein (vigiar) e hypomonein (persistir com paciência). Todo o anúncio de Jesus suscita esperança, porque é Boa Nova, pregação do Reino de Deus que virá e que, em Jesus Cristo, já está presente.

Nos escritos de João, elpis é nomeada uma vez (1Jo 3,3), referindo-se, especialmente, à promessa da ressurreição, a esperar aquilo que seremos, à semelhança com Deus, a vê-lo como ele é (1Jo 3,2). No Apocalipse, a constância e a paciência são as expressões mais acentuadas da esperança cristã.

A doutrina da esperança é mais desenvolvida no corpo Paulino. A postura cristã fundamental é descrita com três termos: pistìs (fé), elpìs (esperança) e agapè (caridade), conforme 1Ts 1,3; 5,8. A relação entre esses três aspectos são formulados em Gl 5, 5-6; 1Cor 13,7; Rm 5, 4-5.

A esperança é o aspecto do comportamento cristão total, que espera com confiança e paciência as coisas prometidas por Deus e que ainda não vemos (Cf. Rm 8,24-25) porque são futuro e porque superam os sentidos (2Cor 4,18).

A esperança cristã já está realizada na redenção trazida por Cristo. Os bens da salvação esperada e já realizada são: a libertação do pecado, a filiação divina, a justificação, o Espírito que gera a vida eterna e a ressurreição. Apesar disso, permanece, enquanto vivemos na carne, a tensão entre o já e o ainda não. Podemos, com Paulo, afirmar que o cristão já está salvo em esperança (Rm 8,23).

O objeto da esperança cristã não é somente a própria salvação, mas também o cumprimento das promessas divinas para todos os crentes: o Reino de Deus, a Parusia de Jesus, a Ressurreição dos mortos, a participação de toda a Criação na glória de Cristo, o alcance dos bens celestes anunciados no Evangelho.

O fundamento da esperança cristã, por sua vez, é a fidelidade de Deus às suas promessas (Rm 15,13; 1Tm 4,10; 1Pd 1,21) já realizada em Cristo. Cristo, portanto, é a esperança do cristão (1Tm 1,1; Cl 1,27. Em Cristo, Deus nos fez seus filhos e herdeiros da promessa. É necessário crer, afirmava o Concílio de Trento, no que nos foi revelado e prometido (Sess. 6, cap. 6, DS 1526, D. 798).

O aspecto ativo da esperança não é muito acentuado em São Paulo. A esperança é, para ele, fonte de coragem no falar (2Cor 3,12), de zelo no seu múnus apostólico, de empenho desinteressado pelo bem do outro, de constância e de paciência (Cf. Fl 13,3s; 2Tm 4,7s; 1Ts 2,19; Cl 2,24-29). O aspecto ativo do ser cristão (fé, esperança e caridade) é, principalmente, conexo com a caridade (Gl 5,5-6; 1Cor 13; 1Ts 2,8; 2Cor 11,2). Para Paulo, a esperança é fonte de alegria e é a glória do crente. A esperança é o que distingue o crente do não-crente (Rm 12,12; 1Ts 4,13; Ef 2,12).

3. A Esperança Cristã e o cumprimento das promessas

Toda esperança se apóia na convicção de que é possível alcançar o objeto esperado. Na esperança humana, o fundamento de tal convicção são as forças humanas e a crença na bondade fundamental dos seres. No homem religioso, isso se transforma na crença numa providência divina, em um Deus que se revelou como Pai e quer o bem de seus filhos.

A esperança cristã é fundada sobre a Promessa. A Promessa, por sua vez, está intimamente ligada à Aliança (Ex 23,20; Dt 27,28,2930; Js 24). A Aliança é eleição e vocação da parte de Deus que inclui a promessa de salvação. Não é um pacto entre parceiros iguais. A fidelidade de Deus não depende da fidelidade do povo. Deus é fiel por si mesmo e sua promessa é fundamento da esperança não somente para o israelita, mas para toda a humanidade (Gn 2,15).

O Novo Testamento é, de um lado, em Jesus, cumprimento da Promessa divina de salvação; de outro, Jesus mesmo é o portador de novas e grandes promessas: O reino de Deus está próximo (Mt 4,17.23); as bem-aventuranças são todas promessas de salvação (Mt 5,3-12). Promete aos Apóstolos o cêntuplo e a vida eterna (Mt 19,29) e a sua ajuda no juízo diante do Pai (Mt 10,32). Promete trazer todos para si (Jo 12,32). Promete o Espírito Santo (Jo 15,26; 16, 5-15; Lc 12,49; At 1,8). Jesus funda em si a esperança dos discípulos e de todos os que crêem.

Os Atos dos Apóstolos é o livro que mostra o cumprimento das promessas divinas na vida, morte e ressurreição de Jesus. A pregação de Pedro, no dia de Pentecostes (At 2,39) e o discurso de Paulo (At 13,32-33) bem o demonstram. O centro da pregação apostólica é a Ressurreição de Jesus Cristo. Nesse evento, Deus cumpre as suas promessas à humanidade; se manifesta como o vivificador, revelando, com isso, que é um Deus que quer o bem dos homens. É um Deus fiel e onipotente. Permanecendo fiel a Jesus, além da morte, Deus realizou, de modo pleno, sua promessa de salvação que culminará na ressurreição do homem. A Ressurreição de Cristo não é termo final, pois contém uma nova promessa: o início de uma nova era da humanidade que se completará na Parusia.

O Novo Testamento insiste, de modo especial, na promessa da efusão do Espírito Santo (At 2,38; 10,45) a qual contém toda a promessa feita a Abraão (Gl 3,14). O Espírito Santo, porém, é o penhor da nossa herança, da plena redenção da glória futura (Ef 1,13-14; 2Cor 1,22; 5,5), da redenção do nosso corpo (Rm 8,23). Portanto, possuir o Espírito Santo é também promessa que, por sua vez, é fundamento da esperança cristã (Rm 8,24).

O fundamento ativo da esperança cristã, isto é, o empenho pelo próximo, encontra seu motivo na promessa de Deus e, principalmente, na Ressurreição de Cristo. Esse é o início de uma nova era, durante a qual Cristo reina e elimina as forças do mal, vence os inimigos do Reino, ressuscita os mortos e estabelece sua senhoria sobre todas as coisas (1Cor 15,24-28). A Igreja, comunidade de Cristo, haverá de suportar o sofrimento, colaborando com Deus na salvação do próximo (Hb 13,13). Isso supõe um empenho contra a injustiça e contra todas as formas de morte, pois almejar pela salvação é a mais genuína das esperanças.

Enquanto o Antigo Testamento coloca a esperança na promessa da Terra Prometida, da prosperidade, da paz do povo, duma vida longa com muitos filhos, na glória da nação, na vitória sobre o inimigo e na vinda do Messias e seu Reino, o Novo Testamento, espera pela glória de Deus, isto é, a manifestação potente, luminosa e fecunda de Deus Pai. Por Deus, esperamos que seja santificado o seu nome e venha o seu Reino. A glória de Deus é, ao mesmo tempo, a glória dos filhos de Deus (Cl 1,17; Rm 5,2), a sua salvação (1Ts 5,8), a vida eterna prometida (Ti 1,2; 2,13; 3,7), a entrada no santuário por meio do sangue de Cristo (Hb 10,19), a herança reservada no céu (1Pd 1,3-4), a semelhança com Deus, vê-lo como Ele é (1Jo 3,2-3).

Na oração do Pai Nosso, encontramos vários objetos particulares da esperança: cumprimento da vontade de Deus, perdão dos pecados, proteção contra a tentação, a libertação do mal, o pão cotidiano. No Sermão da Montanha, o objeto da esperança é mais geral: o Reino dos Céus, a consolação, a herança da terra, a justiça, a visão de Deus, a filiação divina, a recompensa nos céus.

No Corpo Paulino, reencontramos o perdão dos pecados, a libertação da escravidão (Rm 8,25), a filiação de Deus e o direito de herança (Rm 8,14,14-17); Gl 4,6-7), a justificação (Rm 5,9.17s; 8,30; 2Cor 3,18), a vida eterna (Rm 8,17). Esses dons já estão, de algum modo, presentes. Os dons já recebidos esperam a sua completude: somos salvos em esperança (Rm 8,24) e aguardamos a plena revelação da glória de Deus (Rm 5,2; 8,18s; Gl 5,5; 2Cor 4,17; Jo 1Jo 3,2); esperamos a Parusia de Cristo (1Ts 1,10; 1Cor 1,7; Fl 3,20), a nossa ressurreição (1Ts 4,13s), a transformação do corpo (Fl 3,17-21), a participação da glória de Cristo (Rm 8,17; 2Cor 3,18; Fl 3,20), o Reino de Deus Pai (Gl 5,21; 1Cor 6,9; 15,20).

4. A Esperança Cristã e as Virtudes

A esperança cristã, de um lado é confiança de receber e, de outro, a força para o homem agir no mundo, cumprindo sua vocação de cooperador da salvação humana em todas as suas dimensões. Assim, fazem parte da atitude cristã fundamental, desde o Novo Testamento, as virtudes da fé, da esperança e da caridade[3].

4.1 A Esperança e a Fé

A esperança supõe a fé nas promessas de Deus e na sua bondade que deseja a salvação de todos. A fé, entendida como conhecimento e aceitação da revelação de Deus, precede a esperança e lhe dá continuação (Cl 1,23). O objeto da esperança não é outro que o objeto da fé. Cremos no amor de Deus por nós, que se manifesta na obra de salvação por meio de Jesus Cristo, no Espírito e, por isso, acreditamos. A fé na cruz, que conduz à ressurreição, permanece o fundamento de toda esperança, já que a revelação de Deus é essencialmente promessa. A esperança sustenta a fé, pois onde não há mais esperança também a fé desvanece. Do mesmo modo, onde se reforça o desejo e a confiança nos bens da salvação, mais se adquire o sentido do valor desses bens e se reforça a aceitação da inteligência por meio da fé. A esperança faz com que a fé se torne uma força movente da existência cristã (Cl 1,4-5). Esperança e fé se ajudam e se completam. A esperança inquieta o crente, o obriga a dirigir a sua fé sobre a realidade da própria vida e da vida do mundo.

4.2 Esperança e Caridade

A esperança conduz à caridade. À primeira, vista parece que fé e esperança bastam para a vida do homem justificado. No entanto, na Sagrada Escritura, a caridade possui lugar privilegiado. A caridade aperfeiçoa e transforma a esperança. Partindo da caridade, entendemos que o amor de amizade, de pessoa a pessoa, entre Deus e o homem justificado, fornece um motivo mais forte para esperar. A esperança sob a forma da caridade, se apóia na confidência do amigo que é Deus.

A esperança nos faz admitir a possibilidade de salvação do próximo. O próximo é o companheiro na estrada da salvação. A caridade para com o próximo não se funda nas suas qualidades pessoais, mas na bondade, fidelidade e amor de Deus que pode fazê-lo seu filho. Da esperança, feita caridade, nasce um respeito maior do puramente humano, da personalidade e da liberdade do próximo. O empenho por um mundo melhor como exercício da caridade se funda na esperança, isto é, no Reino de Deus que deve começar neste mundo. A caridade efetiva requer esperança e confiança num futuro melhor, prometido por Deus.

5. Conclusão

O mandato de Cristo e a missão dada à Igreja, podem ser vistos como um encargo impossível de realizar. A predicação da promessa do Cristo ressuscitado é escândalo para os judeus e loucura para os gregos (1Cor 1,23). Construir um mundo melhor, onde reinam a justiça, a paz, a fraternidade e o amor parece coisa inatingível. A maldade e o egoísmo são muito fortes. Somente esperando na força de Deus é que podemos nos colocar em caminho.

A missão de Jesus Cristo, que é também a nossa missão, é essencialmente testemunho diante do mundo. É ato de fé nas promessas de Deus já realizadas na esperança. A índole da esperança cristã dá o testemunho de que somos cooperadores de Deus na obra da salvação. Não que Deus dependa de nós para salvar a humanidade mas, na verdade, Ele nos fez seus cooperadores por vocação. Chamou-nos ao seu serviço, com liberdade e com responsabilidade.

A multiformidade da salvação comporta uma multiplicidade de atividades a serem desenvolvidas pelos cristãos. À comunidade cristã compete humanizar o mundo, discernir os sinais do tempo à luz dos novos céus e da nova terra. Isso se faz com o anúncio realizado no testemunho eloqüente da confiança nas promessas. Iluminar corações e mentes com a Boa Notícia da Salvação para que todos possam compreender que a esperança humana – os anseio mais profundos do homem – se realiza, de modo definitivo, na esperança cristã.

A comunidade cristã é, por sua natureza, missionária (AD 2). Nela, cada cristão possui o dever do apostolado (LG 33). O testemunho da fé na morte e na ressurreição de Cristo é o principal anúncio da esperança. Admitindo que a ressurreição não teve ainda o seu pleno cumprimento – pois também nós ressuscitaremos[4] – o anúncio (o kérigma) é esperança, recordação e realização, ao mesmo tempo. Assim, é dever da comunidade cristã tornar credível a fé nas promessas de Deus, em Jesus, no Espírito Santo. A credibilidade do anúncio da fé e da esperança requer, também, a unidade dos cristãos, conforme as palavras de Cristo: a fim de que todos sejam um…para que o mundo creia (Jo 17,21).

A pregação e a confissão da fé, não podem ser entendidas somente como anúncio verbal. Devem, na verdade, tornar visível a esperança. Assim, ao lado da função kerigmática há, também, uma função de koinonia e uma função diaconal, de serviço. A função de koinonia compreende a demonstração visível daquilo que é anunciado no kérigma. As comunidades cristãs que vivem na justiça, na paz, na compreensão e no perdão mútuo, tornam-se modelos e testemunhos exemplares. Essa deve ser a natureza de toda a Igreja, isto é, ser sinal de esperança para toda a humanidade (GS 92). O lugar da pregação, do testemunho e do serviço dos cristãos é o mundo. É nele que os cristãos, pela força da esperança e da fé em Deus, colaboram com todos os homens de boa vontade em cada setor da vida da sociedade. A comunidade cristã pode, finalmente, dar sentido às cruzes e aos sofrimentos do homem contemporâneo, pois ela própria sabe que sua esperança repousa na cruz e na ressurreição do seu Senhor.

Côn. Dr. José Adriano

Publicado in: Revista de Cultura Teológica nº 25 (out/dez/1998) 75-85; ISSN 0104-0529

 Notas:

[1] Do Latim spes, relacionado com a raiz spa, spatium, indicando possibilidade de mover-se na direção de outro; das línguas românicas: speranza, espoir, espérance, speranza, indicando espectativa; das línguas germânicas e escandinavas: hope, oland, hoop, hoffnung, significando saltar, esperar para a frente; do grego elpis, conexo com a palavra latina velle, voluptas, indicando desejo; na LVII, elpis traduz qawah, que significa esperar; batah, que significa: estar em segurança; hasah que indica esperar alguma coisa boa, especialmente de Iahweh. Etimologicamente, portanto, esperança significa: abertura, tendência, expectativa do bem, buscar segurança, desejar.

2] Esquisse d’une phénoménologie et d’une métaphtsique de l’espérance, in: Homo Viator, 1944.

3] Pode-se incluir nesse trabalho a reflexão sobre a paciência e sobre a obediência como notas relevantes da esperança. De fato, J. Montmann afirma que a esperança cristã inclui sempre o horizonte da cruz, fazendo da paciência uma virtude essencialmente cristã. G. Marcel entende a paciência como um aspecto da esperança. A palavra neotestamentária para paciência (hipomonè) é quase sinônimo de esperança. Entendida como simples força humana, a paciência pode ser vista como uma fraqueza, um vício. Para a esperança cristã, porém, baseada na confiança em Deus, a paciência é o saber esperar e suportar, incorporando situações penosas no crescimento da personalidade para superação das dificuldades. Na esperança ativa, a paciência se torna perseverança e constância no empenho pelo próximo porque tem certeza da vinda e da presença de Cristo ressuscitado na humanidade. Da mesma forma, para Moltmann, a esperança cristã pode ser vista como um ato moral de obediência a Deus. Observar a lei de Deus, aderir a Jesus Cristo, segui-lo e imitá-lo, é colocar-se sob sua guia, enfim, um ato de obediência. A esperança se apóia na promessa divina que se realiza na vida humana concreta. Esse caminho não permite um agir arbitrário, mas é orientado pela promessa. Escutar a Palavra de Deus, seguir seus mandamentos é obedecer a Deus que deseja o bem e a salvação de seus filhos. Em Cristo, foi estabelecida a Nova Aliança de amor, portanto, ser fiel à Aliança é ter a atitude abraâmica da confiança e da obediência (Gn 12,1-4; 22,1-18), esperando a realização das promessas. Na obediência, o cristão é livre, pois, seguir livremente a consciência é, para o cristão, um colocar-se à disposição de Deus, escutar o seu chamado, abrindo-se docilmente à ação do Espírito Santo. Nessa reflexão, evidentemente, é preciso entender que o cumprimento das promessas diz respeito à fidelidade do Deus da Aliança e não da obediência do homem. Por isso, é necessário ver a obediência como cumprimento dos mandamentos da Aliança, isto é, evitando destacar os mandamentos do contexto da Aliança e fazendo deles condição do cumprimento das promessas. Deus não está sujeito à obediência do homem. Ao homem convém obedecer, na esperança e na confiança. Tal questão é bem colocada por Paulo (Gl 3), quando mostra que a salvação não provém da obediência da lei, mas das promessas divinas. Na Nova Aliança, de fato, a obediência é comportamento ético fundamental (Mt 7,24). A obediência, para Paulo, é também fé (Rm 10,17; 16,26), entendida sempre na perspectiva da esperança (Rm 6; 7,4-7) pois Deus é fiel e não abandona nunca a sua obra (Fl 1,6), esperando o mesmo do homem.

[4] Com Fr. Suarez pode-se afirmar que a Ressurreição é um dom de Deus, que permanece no futuro, e que, portanto, pode ser esperado. Com Galot nota-se, ainda, que a esperança, enquanto contém o desejo de Deus como fim último, beatificante, permanece como posse de Deus mesmo. É uma posse dinâmica que nos faz aprofundar sempre mais em Deus com conhecimento e com amor, com a razão e com a fé, havendo uma perspectiva de futuro a alcançar.

Sobre conegoadriano

Doutor em Teologia Moral, professor, Sacerdote
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