Notas sobre os Sacramentos em alguns teólogos da TdL

1. Gustavo Gutierrez:[1]

G.Gutierrez cunhou o termo TdL. Foi um dos pioneiros. Ele coloca como premissa, ao falar de sacramentos, que a Igreja é o sacramento da história. Ela está em defasagem com a his­tória presente; por isso mesmo, como sacramento-sinal para o mundo de hoje, redefine o modo de conceber sua missão. “Ela se identifica e encontra seu sentido na missão diante (ou dentro) do mundo de hoje”.

A finalidade da Igreja sacramento continua sendo a salvação dos homens, entendida, porém, agora como uma realidade atuante na história. Ela pode hoje dar um sentido novo a salvação e Libertação na AL. Para demonstrar isso, Gutierrez discorre sobre a presença-sinal da Igreja desde os tempos apostólicos (a Igreja das catacumbas), da cristandade e da época moderna[2]. As mudanças históricas levaram a Igreja, se­gundo esse autor, a reinterpretar a salvação e sua própria missão junto aos homens.

O autor valoriza a eclesiologia do Concílio Ecumênico Vati­cano II. A Igreja-sacramento-sinal é pensada no horizonte da obra salvífica de Deus neste mundo concreto. Difere de con­ceitos anteriores eclesiocentristas. Neste, a Igreja é serva. Presta serviço ao homem. A Igreja deve revelar o “mis­tério escondido desde séculos e gerações e, agora, manifes­tado”[3]. Esse mistério é o amor do Pai que “amou tanto o mundo que deu seu Filho único”[4]. O sacramento maior, portanto, é o próprio Filho e todos seus gestos são sacramentais, sinais que realizam a salvação que o próprio Cristo realiza. O Cristo-sacramento convoca os homens em co­munidade para participar da vida da comunidade trinitária.

Pelos sacramentos o homem encontra Deus na história. Não é Deus que vem da história mas a história vem de Deus. Deus é anterior a história humana e não produto histórico dos ho­mens. Diante desse fundamento teológico, o autor convida a ver a relação Igreja-mundo não em termos espaciais mas dinâ­micos e temporais[5]. A Igreja se define aí como comu­nidade sacramental. Sacramento da salvação deste mundo con­creto, de homens histórica e socialmente situados. Nesse contexto, cada sacramento é dom da ação salvífica de Deus à humani­dade. Essa ação se realiza pela morte e ressurreição de Cristo. Deve-se celebrar na Igreja, na liturgia e em cada sacramento, aquilo que se realiza fora do edifício da igreja, na história humana[6].

Para o autor, a vitalidade dos sacramentos está na koinonia: união dos fiéis com Cristo (1Cor 10,16), com o Pai (1Jo 1,16), com o Espírito (2Cor 13,13; Fp 2,1) por meio da Eucaristia.

Podemos notar algumas linhas mestras na teologia sacra­mentaria de G.Gutierrez: a) os sacramentos são gestos ecle­siais, pois ela própria é um sacramento; b) são dons de Deus e constituem a comunidade; c) atualizam-se na koinonia de Deus com os homens na história; d) são históricos, mas numa história que procede de Deus, e não o contrário.

O Batismo celebrado, recebido como dom pelos homens de fé engendram comunidades históricas; comunidades-comunhão de Deus com os homens para serem sinal de salvação do mundo.

2. Alfonso Garcia Rubio[7]

Este autor inicia por afirmar da existência da utilização ideológica dos sacramentos quando são vistos numa perspectiva a-histórica. Propõe, por isso mesmo, distinguir os sacramentos recebidos num contexto alienante e desencarnado daquele comunitário-libertador. Ele se serve dos níveis de consciência elaborados pela pedagogia de Paulo Freire: a) consciência submersa que é a fase da magia e da submissão; b) consciência emergente que é a fase do despertar; c) consciência fanática que é a fase irracional e da deturpação da consciência. Na AL há uma forte consciência oprimida. O homem se liberta ao libertar a sua consciência.

O autor sugere que a prática sacramental mais comum na AL está no nível mágico, portanto, de pouca consciência. Não é que os sacramentos sejam a-históricos, é que não se tem consciência aguda e crítica de sua historicidade. É preciso, pois, uma educação que não seja domesticadora e “bancária” mas libertadora.

A solução dada pelo autor é que os sacramentos sejam enten­didos como sinais a serviço da responsabilidade consciente da comunidade eclesial em relação à história. Os sacramentos, segundo ele, não podem contribuir para a desuma­nização/alienação do homem, mas devem ser uma celebração motivadora da liberdade do homem na história. Não devem coisificar mas tornar pessoa.

Os sacramentos devem ser, antes de tudo, práxis: reflexão e ação em vistas da Libertação do homem na história presente. Naturalmente é preciso demonstrar que essa posição Não nega a transcendência. Deus age nos sacramentos e o faz através da práxis do homem. Essa práxis não prescinde da celebração sacramental. Ali o homem intensifica a consciência do sentido e da força libertadora de sua ação.

Garcia Rubio atribui a eficácia sacramental ao nível de conscientização de cada comunidade. Uma tem mais consciência e, portanto, maior responsabilidade diante dos desafios; outras, menor grau de consciência e, portanto, não é capaz de enxergar os desafios, não os sente e não se importa. Essa afirmação é profundamente problemática. O autor fala de uma eficácia po­lítica na libertação das injustiças sociais. Podemos concordar que os sacramentos cristãos, ao fazer crescer na fé, dêem também consciência crítica, mas não se pode, em contrário, atribuir a eficácia, validade, ou razão de ser dos sacramentos apenas ao contexto das lutas sociais. Além de reducionista, parece-nos, também, elitista: somente os iluminados por uma consciência crítica se salvam. A eficácia é antes de tudo teológica: dom e graça.

3. Leonardo Boff[8]

Boff critica o dualismo na concepção de Igreja-sacramento. Diz ele que a Igreja é diferente do mundo e está frente a ele. Sua missão é levá-lo à esfera sobrenatural para salvá-lo. Isso no passado. Hoje ela se reinterpreta e sente-se dentro do mundo e respeita a autonomia das realidades terrestres. Ainda assim Boff a critica afirmando que esse tipo de igreja é anêmica. É um pensar ideológico legitimador de certo tipo de presença política na sociedade. Essa presença, segundo ele, a Igreja não assumiu historicamente. O autor propõe, portanto, a unicidade da história. A história humana é uma história da salvação única e universal. A Igreja é um sacramento e instrumento ao lado de outras forças sociais.

Essa conceituação praxística da igreja evidencia, naturalmente, um conceito praxístico de sacramento. O Batismo em si mesmo não é relevante, mas sim a pessoa do batizado enquanto faz comunidade que atua como sinal profético e instrumento de Libertação. O sacramento tem de ser, para esse autor, mediação histórica para a Libertação. A fé que dá suporte ao sacramento fornece um “novo horizonte de compreensão aos homens e aos povos, a partir do qual lhes é possível assumir, julgar, discernir e purificar o éthos de uma cultura, sua compreensão de vida, de morte, de natureza, do homem e de Deus”[9].

Na teologia de L.Boff tudo está em função da práxis. Também os sacramentos encontram sua razão primeira em mudar as si­tuações históricas concretas. Não nega a transcendência (dom, graça, gratuidade) mas é difícil visualizá-la. É verdade, no entanto, que cada cristão batizado tem um compromisso ético com a causa do homem que é também a causa de Deus. A fé do Batizado se expressa nos gestos concretos em favor do outro, injustiçado, pobre, dominado. O “culto espiritual se realiza ao mesmo tempo que o compromisso ético”[10].

4. Hugo Assmann[11]

Hugo Assmann discute o eminentemente cristão na América Latina, isto é, o papel daquele que, pelo Batismo, se tornou membro de uma comunidade de fé e testemunho.

Ele afirma que até agora “o ser cristão” no sentido de seu papel político é um fenômeno oculto porque foi ocultado, in­consciente porque foi alienado, sepultado sob aparências de discurso ideológico.

É preciso ver o “ser cristão” como realidade inegável, diz ele. Destaca nesse sentido dois níveis: a) nível aparente e b) nível histórico. O primeiro nível se refere à cotidiani­dade das coisas normais (rótulo de cristão católico). Bons cristãos, tementes a Deus e obedientes ao Estado. O segundo nível é profundo e visceral. Trata-se de “ser cristão” na realidade conflitiva Latino Americana neste momento histórico preciso. O “ser cristão” foi imposto na América Latina como violência “normal” (primeiro nível). Hoje tem uma plus­valia, isto é, um novo valor de consciência política e ação libertadora. O autor afirma que “o ser cristão” tem uma funcionalidade histórica.

Está subjacente no pensamento do autor a questão da religião super-estrutural e da religião infra-estrutural. A superestrutura (cristandade) já teve o seu papel na conquista e domínio do Continente. A infra-estrutura acolhe a religião popular, os movimentos libertadores, o cristianismo profético. O sacramento é recebido, portanto, por pessoas que constituem modelos diferentes de igreja por se encontrarem num ou noutro contexto. Evidentemente, para o autor, o “ser cristão” autêntico está na infra-estrutura. Daí o cristão encontrar-se na dialética da conflitividade. O combate contra a superestrutura é um combate escatológico.

H. Assmann trabalha conceitos a partir dos quais “a fé é entendida somente como práxis”[12] e onde nem sempre há lugar para uma reflexão teológica sobre os sacramen­tos.

Côn. Dr. José Adriano
Publicado in: Revista de Cultura Teológica nº 10 (jan/mar/1995) 101-105; ISSN 0104-0529
Notas:
[1] Teologia da Libertação. Petrópolis: Vozes, 1975, 209-220
[2] pp. 210-211
[3] Rm 16, 25-26
[4] Jo 3,16
[5] Cf. A.LIÉGÉ. Église de Jésus-Christ, 164
[6] Cf. SCHILLEBEECKX. Processo alla religione. Roma: 1968, 151
[7] Teologia da Libertação: política ou profetismo?, São Paulo: Loyola, 1983, 150-160
[8] Teologia do cativeiro e da Libertação. Lisboa: 1976, 201-219
[9] Cf. L. BOFF. A graça libertadora no mundo, Petrópolis: Vozes, 21977, 176
[10] Cf. idem. Igreja, carisma e poder. Petrópolis: 21981, 168-169
[11] Teologia desde la praxis de la libera­ción. Salamanca: 1976, 175-202
[12] H.ASSMANN, o.c., 70

Sobre conegoadriano

Doutor em Teologia Moral, professor, Sacerdote
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