Missas eletrônicas e a mensagem cristã

A – Questões quanto à Igreja:

Desde o Decreto Inter Mirifica do Concílio Ecumênico Vaticano II até a recente mensagem do Santo Padre, o Papa João Paulo II, para a celebração do 38o dia mundial das Comunicações Sociais, a preocupação com a transmissão da mensagem cristã pelos Mass Média é uma constante. Essa preocupação contempla, também, a liturgia da celebração dos sacramentos, especialmente da Eucaristia, transmitida pela TV ou Rádio. Pontos comuns emergem, com insistência, dos vários documentos, como por exemplo:

1. Os Mass Média são o Novo areópago, importantes e necessários para a Evangelização e para o pastoreio dos fiéis. A Igreja não pode prescindir deles (Puebla 1064), pois “se sentiria culpada diante de seu Senhor se não adotasse esses potentes meios que a inteligência humana torna cada dia mais perfeitos” (Aetatis Novae 11). Ao mesmo tempo, porém, seu uso pode ser ambíguo (Int. Mirifica 1-2). A ambiguidade advém do fato de, muitas vezes, a mensagem, que atinge primeiramente os níveis sensorial e emocional, incide subliminarmente no sujeito que a recebe. Muitas vezes os MCS são colocados a serviço da desinformação, da propaganda enganosa, dos interesses escusos, dos preconceitos nacionais, étnicos, raciais e religiosos, da avidez material, das falsas ideologias… (Papa João Paulo II. Mensagem para o 37o dia mundial das Comunicações Sociais, 2003). Por isso, ao pregar a mensagem da Salvação pelos Mass Média, deve-se, igualmente, ensinar seu reto uso (Int. Mirifica 3).

2. A Ordem Moral: No correto uso dos Mass Média é necessário ter presente a Ordem Moral (os princípios éticos, humanos e evangélicos, garantidores da dignidade humana). Nesse ponto sobressai a natureza da mensagem, a natureza dos meios, os objetivos, as pessoas concretamente situadas (Int. Mirifica 4). Para a Igreja, em sua missão evangelizadora e em tudo o que faz, a Ordem Moral possui a primazia (Int. Mirifica 6). De fato, toda comunicação tem uma dimensão moral (Papa João Paulo II. Mensagem para o 38o dia mundial das Comunicações Sociais, 2004).

3. A Verdade: A ordem moral deve garantir que a mensagem cristã transmita sempre a Verdade (Catecismo 1886, 2489, 2495, 2512). “A comunicação da verdade tem um poder redentor que emana da pessoa de Cristo” (Aetatis Novae 6). O fiel tem, por isso, o direito de receber a mensagem fundada sobre a Verdade (Catecismo 2488, 2494), pois “o requisito moral fundamental de toda a comunicação é o respeito pela verdade e o seu serviço” (Papa João Paulo II. Mensagem para o 37o dia mundial das Comunicações Sociais, 2003). Ainda mais, “os Mass Média devem inspirar-se sempre no critério ético do respeito pela verdade e pela dignidade da pessoa humana” (Papa João Paulo II. Mensagem para o 38o dia mundial das Comunicações Sociais, 2004). De outro lado, está em jogo a imagem da Igreja: “a aceitação e reconhecimento da imagem pública da Igreja por parte dos vários segmentos da sociedade dependem da forma como se apresenta e da credibilidade que alcança junto ao público” (CNBB doc. 59, 18). A comunicação, portanto, seja honesta: observe as leis morais, o direito e a dignidade das pessoas (Catecismo 2494; vide também CNBB doc. 59, 8).

4. Com respeito à Liturgia: Os MC Católicos levam o povo a participar da vida da Igreja, primam pela perfeição e eficácia, imbuídos que são das verdades religiosas (Int. Mirifica 14). É desejável fomentar essa participação também através do MCS, especialmente daqueles que estão privados da possibilidade de participar de uma comunidade por doença ou por outro impedimento justificado (Dies Domini 54), respeitando sempre a natureza da Liturgia (Puebla 949).

5. Formação específica para um serviço específico: Da parte do emissor haja autoridade competente nessa matéria e, da parte do receptor, haja reta consciência. De fato, à evangelização – também aquela feita através do MCS – compete formar a consciência crítica (Puebla 1088-89; idem Catecismo 2496). Por isso, quem exerce esse apostolado (sacerdotes e leigos) deve ser instruído na doutrina e imbuído de princípios éticos (Int. Mirifica 15; vide também CNBB doc. 59, 36). Deve-se, pois, formar agentes comunicadores/evangelizado-res: formar para uma autêntica Espiritualidade capaz de nutrir a fé dos comunicadores (Aetatis Novae 29, vide também CNBB doc. 59, 2). Essa formação deve começar com os aspirantes ao sacerdócio e à vida religiosa, cujo conteúdo deve estar inserido nos currículos de estudo e de formação pastoral (Puebla 1085; vide também CNBB doc. 59, 43).

6. O Bispo é o primeiro responsável: Sendo um serviço ou múnus da Igreja, cabe ao Bispo Diocesano promover, tomar iniciativa e organizar esse apostolado, não excluindo as atividades dos religiosos e das religiosas pois eles, enquanto atuam numa diocese, são diocesanos à serviço da Igreja local (Int. Mirifica 20, vide também Congregação para a Doutrina da Fé Instrução sobre alguns aspectos do uso dos instrumentos de Comunicação Social na promoção da Doutrina da Fé; idem CNBB doc. 59, 7).

B – Questões quanto à Sociedade Civil:

Lemuel Dourado Guerra, professor da UFPB, respaldado por ampla bibliografia, analisa em artigo publicado na web, a questão aqui apresentada sob a ótica da lógica do mercado[1]. Sua colaboração é importante para a intelecção do nosso tema, já que amplia a discussão, dando um enfoque extra-eclesia. Eis alguns pontos de seu trabalho:

2. Competição: O cenário religioso nacional é desafiante, marcado que está pela competição entre organizações religiosas pela preferência dos fiéis.

3. Consumo: A religião tem se transformado num item de consumo oferecido aos indivíduos no mercado do mesmo modo que os outros bens simbólicos.

4. Lógica do Mercado: instalou-se na religião a lógica do mercado, onde a competição é a força principal que determina os discursos e práticas religiosas[2].

5. Tradição: a lógica da concorrência anula a força da tradição sobre a opção religiosa dos indivíduos num ambiente macro-social, onde estão vigentes as categorias da oferta e da procura de bens religiosos.

6. Práticas mercadológicas: a concorrência entre organizações religiosas faz com que adotem práticas semelhantes às utilizadas por empresas seculares, disponibilizando seus produtos para atender à demanda dos consumidores.

7. Religião secularizada: Isso coloca a religião num processo de secularização crescente: a religião, seus cultos, seus símbolos, sua linguagem… se tornam categorias de consumo, busca de bens imediatos, descartáveis, etc. Não há mais a firmeza da Tradição, de uma Teologia Perene, de uma Salvação eterna, de um comunitarismo eclesial… Tudo flui como flui o mercado: teologia da prosperidade, melhora de vida aqui e agora, individualismo exacerbado, riquezas, etc…

8. Pluralismo Religioso: há uma associação da situação de mercado com o pluralismo religioso. Isso se manifesta pela diminuição do peso da tradição católica sobre a escolha religiosa dos indivíduos, abrindo espaço para outras propostas de religiosidade, elaboradas em moldes de liberalismo econômico, como por exemplo, as IURD.

9. A “fatia” do mercado: A lógica de mercado foi assumida na prática da Igreja quando a CNBB legitimou, segundo Negrão[3] a prática de cura e misticismo, elementos da proposta da RCC, no início da década de 90, recusados anteriormente, nos tempos da hegemonia do catolicismo mais politizado. Essas mudanças, tanto do lado Católico quanto Pentecostal, explicam-se pela imposição do princípio de preferência do consumidor, vigente no contexto pluralista e de mercado.

10. Mimetismo: nota-se, ainda, nesse contexto, a prática da estratégia de mercado que é a “imitação” de aspectos de produtos de sucesso e de suas estratégias de marketing (daí a semelhança entre pastores e padres, de carismáticos e pentecostais, de curas católicas e sessões evangélicas de descarrego, etc…).

11. Novo paradigma: o mimetismo dilui a identidade, tanto católica quanto evangélica. O paradigma agora é outro: atender ao consumidor com o instrumental oferecido pelo mercado (mega-shows, Rock evangélico, concentrações de cura, etc…), exigir pouco em termos morais e oferecer o máximo em termos de assemelhação entre os diversos modelos de religiosidade (se o povo recebe água benta com um asperge, eu lhe darei com um balde…, se 318 pastores expulsam um demônio, eu expulsarei 318 demônios…, a Igreja Católica tem os sacramentos, a IURD tem a fogueira santa de Israel, o óleo de Davi, o sal grosso e a arruda, etc…).

12. Negação da racionalidade: outra característica importante é a da negação da racionalidade enquanto procedimento intelectual de exame e construção de juízos gerais de valor a respeito do mundo, chamado também de vazio moral. O individuo passivo diante da tela da TV, constitui-se numa metáfora hegemônica em termos sociais. Em conseqüência, surgem duas atitudes: diminuição da disposição para atividades que exijam o intelecto e aumento do interesse pelos fatos emocionais. Hoje, podemos afirmar, há uma fruição das imagens e uma recusa do pensar, refletir, criticar, analisar…

C – Indicações de Caminhos:

Além do que trata o documento 59 da CNBB: Igreja e Comunicação rumo ao Novo Milênio, em seus nos. 97-101, sobre o assunto, Dom Geraldo Lyrio Rocha, Arcebispo de Vitória da Conquista, em artigo comemorativo do 40o aniversário da SC Desafios atuais da reforma litúrgica no Brasil[4], relembra o Encontro com os produtores de Missas na TV, acontecido em setembro de 1998. Surgiram aí muitas indicações, eis algumas:

1. As transmissões televisivas de Liturgias, especialmente da Missa, devem ajudar o telespectador a associar-se à Páscoa de Cristo. O mistério pascal de Cristo é, pois, o conteúdo, a natureza e a verdade da mensagem.

2. Haja respeito e fidelidade ao que está estabelecido pelo Magistério da Igreja. Observem-se as normas e evitem-se os abusos.

3. Na celebração/transmissão apareça a dimensão de sacralidade do mistério celebrado. Evitem-se, portanto, postura teatral, artificial, fria, rígida ou aquelas no sentido contrário: exageradas, populistas, etc.

4. Os que presidem essas celebrações, bem como os que estão envolvidos na produção e realização do evento, tenham recebido formação litúrgica e da arte de comunicar (vide também CNBB doc. 59, 31).

5. Valorizar a linguagem, os símbolos, as vestes e o tempo litúrgico. A verdade da mensagem passa através da linguagem litúrgica: sinais e símbolos autênticos (vide também CNBB doc. 59, 30).

6. As transmissões de caráter nacional expressem a variedade e a riqueza cultural e religiosa do nosso país.

D – As Missas Eletrônicas

1. As missas ditas eletrônicas (televisadas/radiadas) se inserem – ao meu ver – na Teoria Geral da Comunicação, isto é, o tema pode ser tratado desde esse ponto de vista e, a partir daí, encontrar pistas de solução para as diversas questões que se apresentam.

2. O sacerdote (emissor/comunicador) tem, eticamente, a obrigação e o compromisso de transmitir a VERDADE. O conteúdo da mensagem evangélica deve ser sempre verdadeiro e fiel à natureza dessa mesma mensagem. Deve ter firmeza e clareza de doutrina!

3. Os meios (sinais, símbolos, linguagem, etc.) devem se prestar à transmissão da mensagem em sua inteireza e realidade mais profunda, respeitando o que está determinado pelo Magistério Eclesiástico e respeitando, também, a realidade vivida pelo receptor.

4. A mensagem cristã tem um objetivo claro e definido: levar a verdade divina, revelada, até o coração do homem, para além das limitações culturais. Sua natureza universal, no entanto, não anula os valores das diversas culturas nem se torna hegemônica diante da liberdade humana. Ao contrário, ela se identifica e se reconhece nessas culturas como semina verba.

5. Sabemos que o público alvo da evangelização, hoje, é a geração teledependente urbana[5]. No entanto, há uma diferença substancial em se tratando de mensagem cristã e consumo de bens imediatos: a TV comercial busca audiência mesmo sem conteúdo ético; a mensagem evangelizadora veiculada pela TV espera atingir os “próximos” e os “distanciados”, conscientizando-os e fazendo deles igreja-comunidade.

6. As coisas ou fatos esdrúxulos que subvertem ou imprimem um caráter de ambigüidade à verdade, devem ser melhor conhecidos e trabalhados, evitados ou até coibidos, se for o caso. Os padres saibam que são responsáveis pela consciência crítica de suas ovelhas ou pela sua alienação e essa responsabilidade lhes será cobrada pela história.

7. Os padres das Missas Eletrônicas (telemáticos) não podem – e de fato não possuem a autoridade moral – para alienar ou enganar os fiéis, incutindo dúvidas, ambigüidades, e outros atentados à sua fé…Pressinto que aqui estão em jogo três questões importantes: a originalidade da mensagem, a fidelidade à Igreja à qual servem e o bem comum dos fiéis.

8. O celebrante/comunicador será fiel à identidade da mensagem que transmite: missa como memorial do Senhor (a verdadeira Tradição que não pode se diluir nos Mecanismos de mercado) e não confundirá essa identidade com a projeção de si mesmo: fama, populismo, etc[6].

9. Nossos padres telemáticos são colhidos – sem o saber ou com pouca consciência pela estrutura e pelos mecanismos da economia de mercado, fazendo o jogo do concorrente, desejando ter mais adeptos. Com isso incorrem no perigo de deixarem de ser fiéis à verdade, ao conteúdo e à natureza da mensagem evangélica à qual deveriam servir.

10. Diante disso, é imprescindível a formação do celebrante/evangelizador/comunicador Ele deve saber que não representa uma empresa que apenas coloca no mercado bens simbólicos, imediatos ou descartáveis. Ele age in persona Ecclesiae da qual é membro revestido de papel preponderante e da qual deve dar testemunho.

11. Dessa formação, organização e apostolado, o Bispo é o primeiro responsável e com ele toda a Igreja se responsabiliza e interage.

Notas:

1] A lógica do mercado na esfera da religião: competição, demanda e a dinâmica dos discursos e práticas religiosas no Brasil. Lemuel Dourado Guerra é professor do Departamento de Sociologia e Antropologia da UFPB – Campus II, Doutor em Sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco/Universidade de Cambridge, Inglaterra. http://yesod.sites.uol.com.br/cadernos/ edicao1/logica.htm (acesso em 05/2/2004).

2] BRANDÃO, Carlos R. A crise da instituições tradicionais produtoras de sentido, in Moreira, A. e Zicman, R. (org.) Misticismo e novas religiões. Petrópolis: Vozes, 1994, afirma que “é patente o trânsito da situação de hegemonia religiosa da igreja católica para uma situação de campo religioso regida pela lógica e retórica do mercado de bens simbólicos”.

3] NEGRÃO, Lisias. Intervenção sobre a palestra: As falácias do mercado, in Misticismo e Novas Religiões. Petrópolis: Vozes, 1994.

4] http://www.cnbb.org.br (acesso em 05/2/2004)

5] Prof. Lourenço Mika. Pastoral da Comunicação – PASCOM. http://www.maikol.com.br (acesso em 5/2/2004).

6] Entre tantos, cito o exemplo do padre que no mês de janeiro promoveu benção de animais em missa televisada e pergunto: Deseja romper a tradição da festa de São Francisco de Assis (4 de outubro)? Deseja com ela competir? Deseja criar uma “tradição” própria, só para si? … O Mesmo padre que pergunta, dentro da missa, quem está com dor do lado direito? Quem está com dor do lado esquerdo? Quem já melhorou? Deseja ser um milagreiro instantâneo…

Côn. Dr. José Adriano

Publicado in: Revista de Cultura Teológica nº 46 (jan/mar/2004) 119-127; ISSN 0104-0529

Sobre conegoadriano

Doutor em Teologia Moral, professor, Sacerdote
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