Não-violência como força de libertação

Introdução

Esta reflexão parte do fato da atual situação de violência e a da consequente resposta cristã não-violenta como uma nova e antagônica força moral inspirada no Evangelho.

Puebla havia constatado que a violência hoje é instituciona­lizada e estrutural. Ela possui uma razão que marca forte­mente a história e a vida do povo conforme constatou a Populorum Progressio nº 9: “o escândalo da estridente disparidade, não só no uso dos bens porém mais ainda, no exercício do poder”.

A violência é uma ação lesionante do outro[1], como instrumento de coerção do mais forte sobre o mais fraco para impor pela força[2] uma situação insustentável que não se pode evitar. Mt 11,12 a contrapõe ao Reino inaugurado por Cristo ao afirmar: desde os dias de João Batista até agora, o Reino dos Céus sofre violência e os violentos o arrebatam, por isso, a violência é um problema capital da ética.

Hoje constatamos a existência da violência no plano econômico que pesa sobre os pobres os quais pagam o elevado custo social; existe a violência no plano político que nega a cidadania; existe a violação dos direitos humanos como sinal da decadência dos valores espirituais e culturais[3].

Existe, também, a violência feita por quadrilhas fortemente armadas, agindo nos centros urbanos, e por latrocínios que não podem ser tratados apenas como casos isolados. A solução para esse satanismo social parece estar na mobilização popu­lar que, numa pressão moral libertadora, é capaz de evitar que sucumba a esperança num futuro melhor.

É preciso assinalar, com clareza, a violência que se faz ao próprio Evangelho, quando usado como uma apologia que a legitima. Jesus não ignorou que a estrutura e os sistemas oprimem o homem: “não é o homem que é feito para o sábado, mas o sábado para o homem” (Mc 2,27). Não se pode sacrificar as pessoas em nome de observações legais. Jesus preferiu, para realizar seu projeto de salvação, sacrificar-se a si mesmo. Jesus, da mesma forma, decretou a não-violência quando desarmou o discípulo, afirmando que “todos os que fa­zem uso da espada, pela espada perecerão” (Mt 26,52). Assim, somente a morte e a ressurreição são o fulcro de qualquer libertação possível[4].

1. O cristão e a violência

Diante do realismo hodierno, somos constrangidos a afirmar a impossibilidade de superação plena da violência, do mesmo modo que é moralmente impossível para o homem superar a ex­periência do mal. O mal ainda não foi extirpado da condição humana. Para a utopia cristã, porém, a esperança garante o banimento do mal e a realização plena do bem.

O cristão crê na fecundidade da ação inspirada pelo amor já que a força do Evangelho é a encarnação da verdade de Deus e, nessa verdade, está o seu poder: verdade que liberta e que é capaz de transformar a história. Os verdadeiros sinais de esperança residem na crescente tomada de consciência do povo, na solidariedade fraterna, na ajuda recíproca e na busca de uma sociedade mais justa e, portanto, mais humana.

Assim, devemos afirmar que os valores, tanto humanos quanto cristãos, conflitam com o assassínio, a tortura e a repres­são. Esses valores são vividos, plenamente, através da conversão do coração, acolhendo os dons de Deus em espírito de pobreza.

2. Ação não-violenta

A violência atinge plenamente seu objetivo quando se encontra numa sociedade massificada, privada de sentido crítico, sem solidariedade humana e sujeita inteiramente ao consumo. A situação de violência, portanto, constitui um desafio à não-violência. A ação não-violenta é, hoje, uma oportunidade excelente oferecida aos cristãos e a todos os homens e mulheres de boa vontade, para que ajam em favor da superação de todo tipo de dominação[5]. A violência se nutre de mais violência, por isso, deve ser rejeitada de modo radical. A não violência, deve ser aceita, integralmente, como princípio vivificador da verdadeira natureza do homem[6].

A ação não-violenta é um espírito e um método. Conhecemos tantos exemplos da sua eficácia em diversas situações de in­justiça: Gandhi é conhecido como o apóstolo da não-violência na África do Sul e na Índia; Martin Luther King é tido como um mártir da defesa do negros, discriminados pelo ódio racial do recente passado americano; Helder Câmara foi o pioneiro de tal ação na América Latina e, como ele, tantos outros.

3. O espírito da não-violência:

A não-violência parte da convicção que os homens não se confrontam, irremediavelmente, uns aos outros como inimigos, mas que, numa situação de conflito, provam o desafio de superação no diálogo e na tolerância. Quando tal conflito provém de uma evidente situação de injustiça caracterizada pelo domínio de uns sobre os outros, cabe aos mais fracos empreender uma pressão moral extremamente ativa e eficaz, mas não violenta, que faça ver ao opressor a sua injustiça e o conduza à corrigi-la. Dessa forma, ambos se libertam: o prepotente se liberta de ser opressor e o fraco de sua situação de oprimido. Essa situação encarna um modo especial de viver o Evangelho: opor-se ao violento de modo não-violento.

A não-violência se inicia com a transformação radical da própria vida pessoal. É necessário, pois, fazer violência a si mesmo, superando os instintos egoístas que separam o EU do OUTRO, vencendo a tentação do acomodamento e da passividade e superando o medo que se refugia no coração humano. Os ativistas da não-violência fizeram dos dez mandamentos seguintes, a regra de ouro da própria vida:

1. Meditar todos os dias na predicação e na vida de Cristo.

2. Saber que a ação não violenta tem por fim a reconciliação e a justiça, não a vitória.

3. Conservar no comportamento e nas palavras uma ati­tude de amor, porque Deus é amor.

4. Orar todos os dias e pedir a Deus a graça de ser seu instrumento.

5. Sacrificar os interesses pessoais para que todos os homens possam ser livres.

6. Observar para com os inimigos, como também para com os amigos, as regras da cortesia.

7. Habituar-se ao serviço dos demais e do mundo.

8. Evitar a violência, tanto das mãos como a violência da língua e do coração.

9. Observar a higiene espiritual e física.

10. Respeitar as ordens da ação não-violenta e de seus líderes durante as manifestações[7].

A não-violência é uma resposta à violência e à opressão, mas não é o resultado nascido de mecanismos instituídos para reagir do mesmo modo. Essa é uma resposta que vem do mais profundo da nossa liberdade interior e que nos torna capazes de pautar as relações humanas por valores evangélicos.

O exemplo mais claro do espírito da não-violência se encontra no diálogo. Dialogar não é juntar dois monólogos ou de­fender só a própria verdade, denunciando os erros do adversário. A postura dialogal supõe que se comece por reconhecer a verdade do outro, o bem que há nele e ter a honestidade de dizê-lo.

Seguir o caminho da não-violência é fazer a distinção no opressor entre o mal feito por ele e a pessoa que ele é. Trata-se de amar a pessoa e detestar o mal. O não-violento se esforça por viver a espiritualidade do servo sofredor (Is 53); esforça-se, também, para evitar todo espírito de domi­nação ou de superioridade; procura a serenidade num treina­mento para vencer o medo; vive da verdade, diz a verdade, defende a verdade; tem coerência e firmeza de pensamento; enfim, está convencido que é o amor e não o ódio a dar a última palavra na história.

4. O método da não-violência

A não-violência existe na ação concreta. Como ação, opõe-se a injustiça social com toda a sua carga de violência insti­tucionalizada. A não-violência não se confunde com a passividade nem com o imobilismo ou a tolerância com a injustiça. É, em primeiro lugar, atitude de fé: unir-se a Deus na oração é unir-se aos homens na ação. Como toda ação humana, a não violência deve ser perseverante, clara nos seus objetivos e metódica em suas etapas. Não dispensa a mediação da análise social, ao contrário, precisa dela como instrumento indispensável para poder colher os problemas reais, a injustiça concreta com suas causas e sua ligações mais profundas.

A ação não-violenta pretende provocar mudanças no comporta­mento social humano. A sua visão do homem e da sociedade faz surgir métodos e ações não-cooperantes com os sistemas injustos em todos os níveis. As ações da pressão moral coletiva tendem a retirar, sistematicamente, o apoio aos sistemas injustos, impondo a procura e a realização de soluções alternativas[8].

A aspiração a um mundo fraterno e justo não pode ser negada na sua essência pela ação mesma que quer a transformação da sociedade. A não-violência, enquanto ação perseverante, se nutre da convicção do valor absoluto da pessoa humana. A esta convicção, a fé cristã dá um importante contributo: a crença na pessoa e na obra de Jesus. Ele é o não violento ativo por excelência quando cura os enfermos, multiplica pães, chama a atenção contra as riquezas, evangeliza os pobres, ressuscita mortos. Cada um, de fato, será julgado pelo modo de tratar o faminto, o enfermo, o prisioneiro, o estrangeiro. A fé cristã torna possível “aceitar nobremente o que não pode ser mudado: afrontar as desilusões e as dores com equilíbrio interior, e assumir a mais intensa pena sem abandonar o sentido da esperança”[9].

A não-violência deve ser não só relembrada, mas reatualizada como sinal de uma humanidade madura. A reconciliação em vista de uma justiça sem ódio deve ser a tônica do homem de hoje. A moral cristã insistir sempre em que a mansidão e a paz é que pertencem à natureza do homem, não o ódio e a violência.

NOTAS:

1. Cf. J. G. DAVIES. Christian politics and violent revolution. Mariknoll: 1976, 128

2. Cf. M. A. FERRANDO. El mensage de Jesus a una sociedad violenta in: Teologia y vida, v. XXV, Chile: 1984, 24

3. Cf. CARMELO FAILLA. Violenza o non violenza, in: Ekklesia, ano III, n§ 4, Citt… Nuova Editrice, 1969: a violência do sistema econômico ocidental é coisa certa. Prova disso é a situação de miséria do Terceiro Mundo, explorado em suas reservas naturais e valores morais, para o sustento de estruturas alheias.

4. Cf. J.S. HOYLAND. Gandhi in defense. Assis: Devret, 1968, 48: A cruz é o acontecimento eterno na história da humanidade. Deus é amor, dizia Gandhi, e o amor se identifica àquele que é morto na cruz.

5. Cf. B. SORGE. Il cristiano, la rivoluzione e la violenza. In: La Civiltà Cattolica (2835/36), 446: os cristãos são chamados a uma revolução estrutural, reconhecendo nesse empenho seu preciso dever moral de solidariedade humana e de testemunho evangélico.

6. A não violência exclui de modo absoluto a violência por­que é animada de uma força interior pela qual a “conquista do adversário se alcança através do próprio sofrimento” (Da Giovane India, (5/11/1919) Torino: 1969). A não violência não é uma virtude estóica. A essência da não violência está, para Gandhi, no significado que Jesus dava as palavras das Bem Aventuranças as quais requerem humildade e mansidão, porque somente isso introduz no Reino de Deus e cria uma verdadeira fraternidade entre os homens.

7. Cf. BLAZQUES F. Ideário de Helder Câmara. Salamanca: Sígueme, 1974, nº 200, 5.

 8. Cf. o método de Gandhi: a. desobediência civil às leis injustas; b. não-cooperação com um Estado injusto; c. Jejum, que deve nascer do profundo da alma e da relação da pessoa com Deus, portanto de um ato de fé (não é simples greve de fome)

9. Sobre Martin Luther King, in: Osservatore Romano (04/4/78), 5

Côn. Dr. José Adriano

Publicado in: Revista de Cultura Teológica nº 9 (out/nov/1994) 121-125; ISSN 0104-0529

Sobre conegoadriano

Doutor em Teologia Moral, professor, Sacerdote
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