Sacramentos e Missão

Introdução

1. O Homem

O homem é o sinal mais perfeito da Criação. Ele é um ser sacramental[1] porque foi criado à imagem e semelhança do próprio Deus. Todos os outros sinais, para serem entendidos, supõem um relacionamento em profundidade entre o homem, o mundo e Deus. O homem (homem e mulher) é o destinatário da missão da Igreja. Evangelizado se torna, ele próprio, sinal de Jesus Cristo em meio ao mundo. Ser evangelizado é, desse modo, um direito que cada ser humano possui por sua própria natureza[2]. Cristo, por sua encarnação, tornou-se plenamente homem e, assim, pode ser chamado de Sacramento do Pai.

2. Jesus Cristo

Enviado ao mundo, Jesus é o missionário do Pai. Ele veio estabelecer uma Nova Aliança em que a humanidade é definiti­vamente unida a Deus. Sua missão é remir e salvar “todo ho­mem que vem a este mundo”[3]. Batizado por João no rio Jordão, ele nos é apresentado como o Filho bem amado de Deus, o Messias Salvador, indicando-nos também de que modo podemos nos tornar participantes do seu Reino. Jesus Cristo é, por isso mesmo, o Sacramento Primordial da Salvação, o sacramento por excelência, mais perfeito que qualquer outro sinal e, enquanto tal, ele está vivo e presente em nossa história. Quem o vê, vê o próprio Pai, pois, ele e o Pai são um só[4]. Ele é a imagem visível, palpável, concreta do Deus invisível[5]. Je­sus é a fonte e origem de todos os sa­cramentos. Suas palavras, gestos e ações realizam o mistério da salvação na Igreja. Os sete sacramentos são, em verdade, gestos salvíficos de Cristo na Igreja. A Igreja deve, em sua missão evangelizadora, propor e repropor ao homem de hoje os sacramentos como meios de salvação, pois, é através deles que “Cristo une, indelevelmente, a criatura ao seu Criador” e “revela o homem ao próprio homem”[6].

3. A Igreja

Corpo do Senhor, a Igreja possui muito membros. São todos aqueles que, evangelizados e batizados, formam um só corpo, uma raça eleita e um sacerdócio santo[7]. A marca mais pro­funda desse Povo Santo é a de ser missionária[8] porque ela é uma comunidade de testemunhas, um povo todo missionário. Ela é o Sa­cramento Universal da Salvação[9] e, como tal, o Sacra­mento de Cristo. Ela é o prolongamento de Cristo e sua face visível porque realiza sua presença no mundo. Os gestos sa­cramentais da Igreja realizam a missão de Jesus, sendo que a Missão de batizar é inseparável da missão de ensinar e fazer discípulos do Senhor[10]. O Povo de Deus é reu­nido sobretudo por meio da Palavra de Deus, assim, a predicação da Palavra é necessária para o mesmo ministério dos sacramentos. Eles, como sacramentos da fé, nascem e se alimentam da Palavra. A missão de evangelizar, ensinar e bati­zar é, portanto, uma obrigação do cristão. Hoje, especialmente na América Latina, essa missão supõe esforço e compro­misso por uma autêntica inculturação da fé, já que a missão implica em discernimento das sementes do Verbo presentes nas culturas[11]. Com seu caráter missionário, “a Igreja revela o homem ao ho­mem, dá-lhe a conhecer o sentido de sua existên­cia, abre-lhe toda a verdade sobre ele e seu destino. Dessa perspectiva, a Igreja é chamada, por causa de sua missão evangelizadora, a servir ao homem”[12].

4. Os sete gestos salvíficos

Na experiência comunitária da fé, a Igreja reconhece sete gestos salvíficos que nascem da vontade mesma de Cristo e nos quais o próprio Cristo age e, através dos quais, o Cristo participa da vida e da história humana. Eles não são excludentes, mas são originais e próprios. São dom e graça. Uns dão origem à Igreja, outros a sustentam e fazem crescer, outros enviam em missão, outros, ainda, reconduzem à fé e ao convívio dos irmãos. São gestos humanos de solidariedade e, ao mesmo tempo, gestos divinos de comunhão e participação na vida de Deus. São gestos comunicativos, através dos quais Deus e o homem, usando a linguagem dos sinais sagrados, se amam e realizam o amor para o mundo. São sacramentos que realizam a missão da Igreja, convidam ao convívio no corpo de Cristo, fazem crescer na fé e enviam em missão.

4.1 O Batismo

É o primeiro dos sacramentos, é o primeiro e grande passo para ingressar na comunidade do Povo de Deus. Ele dá origem à Igreja, pois, cada batizado, tendo recebido a vida nova de Cristo, se torna filho de Deus e irmão uni­versal dos outros batizados; constitui, de fato, uma famí­lia única, cuja alma é o Espírito de Amor[13]. A comunhão dos batizados se consti­tui num Povo Santo[14]. Nesse povo, os cristãos são “pedras vivas”[15] e devem produzir os “frutos do Espírito”[16]. Chamado ao discipulado, na Igreja, o batizado será evangeli­zador de seus irmãos. Na água do Batismo, a exemplo de Jesus[17], cada um recebe o Espírito Santo para ser autên­tico missionário e agente transformador na sociedade de hoje. É o sacramento da fé que nos autoriza a falar e a realizar tudo o que o Cristo falou e realizou. Ungido pelo Espí­rito como um Povo Messiânico, ele manifesta a sua santidade num compromisso moral e social[18]. A base ética desse compro­misso é a dignidade da pessoa humana, inviolável e templo de Deus[19]. Configurado a Cristo no Ba­tismo, cada cristão ad­quire a identidade de “homem de Igreja no coração do mundo e de homem do mundo no coração da Igreja”[20].

4.2 A Confirmação

Aquele que nasceu pelo Batismo para a Igreja é enviado, pelo Sacramento da Confirmação, a dar tes­temunho na sociedade. É ungido para se tornar, a exemplo do próprio Cristo, um verdadeiro missionário. É o sacramento do apostolado que faz do jovem crismado não só um agente pastoral dentro da comunidade, mas, sobretudo, um enviado pela Igreja, em nome de Cristo, para transformar a sociedade na qual vive com seus irmãos. Para realizar tudo isso é preciso estar maduro na fé, por isso se diz que a Confirmação é o sacramento da Maturidade Cristã. A Confirmação é o sacramento que confere o dom dos tempos messiânicos, infundindo coragem para testemu­nhar a fé[21]. A unção e a imposição das mãos realizadas pelo Bispo, na liturgia desse sacramento, ga­rante a apostolici­dade missionária que o confirmado recebe.

4.3 A Eucaristia

Os que nasceram pelo Batismo e maturaram na fé são alimenta­dos pela Eucaristia. A Eucaristia é o cen­tro da sacramenta­lidade da Igreja[22] porque realiza a unidade e a comunhão de todo o Corpo do Senhor. É o sinal por excelência da comunhão eclesial e da unidade visível da Igreja[23]. Alimento de vida eterna dá, também, ânimo para o testemunho da fé na vida diária. Cada Eucaristia celebrada realiza o mistério da morte e ressur­reição do Senhor, fazendo do coração humano um lugar de festa e alegria. Cada um que se alimenta do Corpo e do San­gue do Senhor se compromete com a missão de evangelizar e libertar seus irmãos. Todo envio missionário autêntico tem como ponto de partida o sacra­mento da Eucaristia.

4.4 Matrimônio

Chamada de Pequena Igreja ou Igreja Doméstica[24] a família tem origem no sacramento do Matrimonio. Nada simboliza com mais propriedade a vivência cristã no corpo de Cristo do que a comunhão de amor realizada no matrimônio, por isso ele pode ser chamado de Sacramento do Amor. Estabelecido desde as origens da Criação, é o mais humano dos sacramentos pois realiza e testemunha o amor de Deus na Igreja e no mundo. Gerando novas vidas o matrimônio é imagem perfeita da Trindade. A vivência do amor não pode se fe­char no egoísmo, por isso, toda família constituída pelo sacramento do Matrimônio deve ser uma comunidade testemunhal, portanto, missionária e evangelizadora.

4.5 Reconciliação

Os sacramentos trazem a vida de Deus para dentro da nossa vida e da nossa história, porém, eles não nos isentam de co­meter pecados. O coração humano, redento por Cristo, tende sempre ao bem, mas, para isso, exige empenho pessoal e comunitário na vivência da fé, nos valores humanos e cristãos, na busca da verdade e da justiça para não cair na tentação do egoísmo, fonte de todos os males. O Sacramento da Reconciliação reanima a missão, concede o perdão e devolve a co­munhão. É essencial à missão da Igreja perdoar e reconciliar os homens entre si e com Deus. Cristo, mesmo, veio reconci­liar o mundo com o Pai.

4.6 Ordem

Todo batizado participa do sacerdócio de Cristo e assume desde cedo a sua missão evangelizadora. O Sacramento da Or­dem (nos seus três graus), porém, qualifica aqueles que são chamados a ser servidores do Evangelho, de modo exclusivo e único, para a missão de Cristo na Igreja. São servidores da comunidade e, esse serviço que realizam em nome de Cristo, consiste no pastoreio da comunidade, no ensino das verdades da fé (catequese), na celebração dos sacramentos, no minis­tério dos doentes, dos pobres e das crianças, na presidência da mesa e na pregação da Palavra (evangelização). Aquele que recebe este sacramento, ungido com o óleo santo, pode dizer com o Cristo: Este é o meu Corpo… Este é o meu Sangue…; pode dizer também: Teus pecados te são perdoados… Em tudo que fala e faz, o ministro ordenado está obrigado, pelo Sacramento da Ordem, a agir na pessoa de Cristo (in persona Christi) e, portanto, dar o mais genuíno testemunho de fé, o que ele faz com seus irmãos do presbitério em estreita união com o Bispo[25].

4.7 Unção dos Enfermos

Os sacramentos dizem respeito à totalidade da vida humana. Também na velhice e na doença. Assim, o gesto da Unção e da oração da comunidade[26] denota so­lidariedade, acolhida e garante a comunhão. É um gesto do poder salvífico do Cristo e de reconhecimento do valor da vida como dom de Deus. Os idosos, os doentes, as crianças, os pobres e excluídos são os primeiros destinatários da missão da Igreja. Ungir, perdoar e acolher é dever de caridade da comunidade cristã e de seus ministros.

Considerações finais

A concepção teológica dos sacramentos, hoje, não pode prescindir do Mistério Pascal[27]. Cada gesto, cada sinal sagrado, para ser sacramento, deve manifestar sua íntima ligação com o Senhor Ressuscitado que vive em sua Igreja. Por isso, cada um dos sete gestos sacramentais da Igreja exige, pela sua própria índole, um compromisso sagrado. Exige con­versão e novas atitudes. Exige, ainda, comprometi­mento com a causa da justiça, da promoção integral do homem e de sua salvação.

Os sacramentos fazem de nós testemunhas do plano original de Deus. A lição vem dos primeiros cristãos: tinham consciência de que eram a alma do mundo, se indispunham com a ordem social vigente, comprometendo-se, por outro lado, com o martírio (testemunho). Os sacramentos, para eles, não eram celebrados numa comunidade ritual apenas, mas expressavam toda a vida da comu­nidade de fé, culto e serviço. Em cada sacramento celebrado é toda a Igreja que está presente, ou por outra, todo sacra­mento é um acontecimento eclesial.

Cristo mesmo, Sacramento Primordial, do qual emana todo sa­cramento e no qual cada sacramento encontra sua eficácia, inaugura o tempo novo da salvação (Kairós) entregando plena­mente e concretamente a sua vida para a salvação de todos.

Hoje, os sacramentos devem engajar a pessoa na comunidade local e na Igreja Universal. A Igreja é sinal e instrumento profético e, toda ação sua, é ação libertadora.

A vida da Igreja, que é essencialmente sacramental, deve iniciar um processo de libertação pessoal e comunitário-social. Deve levar à liberdade para a qual Cristo nos libertou. Lembrava o Papa Paulo VI que o papel da evangelização é, precisamente, o de educar de tal modo para a fé, que esta leve cada um dos cristãos a viver os sacramentos como realmente eles são: verdadeiros sacramentos da fé[28].

Quem recebe um sacramento é consagrado, ungido com Cristo para libertar o pobre, o cativo, e instituir o ano da graça do Senhor[29] e se torna participante da santidade de Deus, configurando-se a Jesus Cristo. Desse modo, a graça conferida nos sacramentos – que salva e redime o homem – é dom do único Pai e do único Redentor, Jesus Cristo, no Espí­rito Santo.

NOTAS:
1. Puebla 920
2. Pode-se falar em “Direito Natural”
3. Jo 1,9
4. Cf. Jo 14,9
5. Cf. Cl 1,15
 6. RH 10
 7. 1Pd 2,9
 8. Puebla 1304
 9. AD 5
10. Cf. Mt 28,19. Também como diz o Novo Catecismo: “A missão de batizar, portanto, a missão sacramental, está implícita na missão de evangelizar, pois o sacramento é preparado pela Palavra de Deus e pela fé, que é assentimento a essa Palavra (Secção I, Cap. I, Art. 2, III. Os sacramentos da fé).
11. Lembrando, porém, com Paulo VI na EN 22, que não há evangelização verdadeira se não se anunciarem o nome, a doutrina, a vida, as promessas, o Reino, o mistério de Jesus de Nazaré, Filho de Deus. João Paulo II com a Nova Evangelização firmou um programa para realizar a Civilização do Amor ou a Novíssima Civilização Cristã (Aos Bispos do CELAM, Santo Domingo, 12/10/1984). Assim, a missão dos Batizados, portanto da Igreja, na construção desse projeto, há de levar em conta a evangelização “da cultura plural” do nosso tempo (Cf. Elementos para uma reflexão Pastoral em preparação à IV Confe­rência Geral do Episcopado Latino-Americano, Loyola, 1992)
12. Cf. Christifideles Laici, 36
13. Cf. Gl 3,25.4.7
14. Puebla 250
15. Cf. 1Pd 2,5
16. Gl 5,22
17. Mt 3,13s
18. Puebla 250
19. Cf. Ef 4,30
20. Puebla 786
21. DCN
22. SC 10
23. Cf. 1Cor 10,17
24. LG 11
25. S. Tiago de Antioquia, Carta à Igreja de Smirna, 8,1-2
Cf. também LG 28
26. Cf. Tg 5,14
27. Vide Novo Catecismo, Economia Sacramental, Cap. I, Art. 2: O Mistério Pascal nos sacramentos da Igreja.
28. EN 47
29. Cf. Is 61
 Côn. Dr. José Adriano
Publicado in: Revista de Cultura Teológica n. 16 (jul./set.) 1996, 79-85; ISSN 0104-0529

Sobre conegoadriano

Doutor em Teologia Moral, professor, Sacerdote
Esse post foi publicado em Missão, Sacramentos. Bookmark o link permanente.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s