Conselhos Evangélicos

Introdução: os Conselhos Evangélicos são convites, contidos no Evangelho, à deixar os bens terrenos relativos e melhor aproximar de Deus e seu Reino. O cumprimento dos conselhos, pois, encontra seu sentido primeiro no seguimento de Cristo e seu Reino.

Entre as normas de vida deixadas por Jesus, umas são obrigatórias, outras são recomendadas como meios eficazes para atingir uma perfeição mais alta. As primeiras são os mandamentos, as outras são conselhos. Assim, pobreza voluntária, castidade perpétua e obediência perfeita, são conselhos à serem assumidos voluntariamente, na liberdade e com consciência.

O Evangelho: Jesus aconselhou a castidade perpétua, a pobreza voluntária, a obediência perfeita (Mt 19,12; Mc 10,21; Fl 2,8). Os Apóstolos também viveram e recomendaram os conselhos evangélicos (Fl 2,7-8; 2Cor 8,9; Hb 10,5-7; At 4,34-35; 5,29).

Os Santos Padres: nos séculos II e III encontramos muitos Padres (pais da fé, primeiros teólogos) que falam de muitos cristãos que, por amor de Cristo, viviam em perfeita continência. Aos poucos foram surgindo os ascetas que, apartando-se da família, passaram a viver isolados em busca de maior perfeição espiritual. Surgiram, depois, os mosteiros (monaquismo cristão) e os institutos de vida religiosa masculina e feminina. À virgindade consagrada, muitos padres dedicaram extensas obras, elogiando a atitude dos cristãos. Eles não aceitaram, entretanto, atitudes radicais e exageradas que pregavam a virgindade obrigatória para todos os cristãos (enkratistas).

Desde a teologia escolástica se ensina que os conselhos evangélicos conduzem a Cristo de modo mais direto. São Boaventura dizia que é mais fácil o seguimento de Cristo pela observância dos conselhos evangélicos. Dizia: “mediante a mortificação da carne contra a concupiscência da carne; mediante a renúncia dos bens temporais contra a concupiscência dos olhos; mediante a renúncia da própria vontade contra a soberba da vida”. Santo Tomás de Aquino diz que os conselhos não são a santidade, mas um meio de alcançar a santidade. Os conselhos – no pensamento de Santo Tomás – foram dados por Jesus, para que o homem mais livremente possa se ocupar de Deus. Os conselhos, desse modo, são, além de disposição para a perfeição, são também efeito e sinal dessa perfeição.

Na Igreja hoje: a Igreja considera os conselhos evangélicos como o seu tesouro, portanto, objeto de atenção e carinho. Pio XII, na Constituição Sedes Sapientiae (31/5/56), escreveu: “por um favor grandíssimo da providência divina se verificou que continuamente através dos séculos Cristo Redentor às almas pele prediletas, com uma linguagem íntima e quse mística, tenha inspirado aquele convite que já a viva voz tinha feito ao jovem que o interrogava acerca da vida eterna: vem e segue-me (Mt 19,21)”.

A Lumem Gentium diz(43) : “Os conselhos evangélicos da castidade consagrada a Deus, da pobreza e da obediência, sendo fundados nas palavras e nos exemplos do Senhor, e recomendados pelos Apóstolos, pelos Padres da Igreja e pelos doutores e pastores da Igreja, são um dom divino, que a Igreja recebeu do Senhor e com a sua graça sempre conserva. A mesma autoridade da Igreja, sob a guia do Espírito Santo, se encarrega de interpretar-lhes, de regular sua prática e também de estabelecer formas estáveis de vida”

Também no nº 42 afirma: “a santidade da Igreja é de modo especial favorecida pelos múltiplos conselhos que o Senhor no Evangelho propõe à observância dos seus discípulos. Entre esses está o dom precioso da graça divina, dado pelo Pai a alguns (Mt 19,11; 1Cor 7,7) para que mais facilmente com coração indiviso (1Cor 7,32-34) se consagrem somente a Deus na virgindade ou no celibato. Essa perfeita continência para o Reino dos Céus é sempre tida em singular honra da Igreja, qual sinal e estímulo da caridade e especial fonte de espiritual fecundidade no mundo”.

Segundo o ensinamento do Concílio, a Igreja exorta a termos em nós os mesmos sentimentos de Cristo que “anulou a si mesmo, assumindo a natureza de um servo…, fazendo-se obediente até a morte (Fl 2,7-8), e para nós, de rico se fez pobre (2Cor 8,9). Assim, os que abraçam os conselhos evangélicos imitam Cristo, renunciando à própria vontade para abraçar, livremente, a vontade de Cristo.

Na Teologia: a teologia do pós-Concílio é profundamente personalista. Supõe, ao pensar Deus, pensar também o humano, isto é, a teologia não pode prescindir de uma antropologia adequada.

Somos humanos, somos pessoas. Ser humano e ser pessoa evoca o aberto, o caloroso, o relacionamento, a alegria, a completude. Evoca também o frágil, o vulnerável, o limitado.

Os que buscam a Deus na pobreza, na castidade e na obediência, as vezes parecem fechados, distantes, dissimulados, desumanizados. E, no entanto, o homem não encontra sua maturidade senão entre os humanos; impossível ser “eu mesmo” sem os outros. Como isolar-se da multidão dos outros homens que tanto contribuem para o Reino sem privar-se dos valores que constituem a nobreza da raça humana? Como renunciar ao amor conjugal e à procriação, como ignorar a sexualidade, sem se mutilar ou perder todo o sentido da verdadeira relação humana? Como escravizar-se na obediência e mergulhar-se numa vida comum, sem perder toda a liberdade, todo o poder de iniciativa, de inventiva, de criação?

A plenitude do humano parece ser radicalmente oposta aos conselhos evangélicos. Homem e mulheres de fé vivem no século e essa é sua estrada, austera, perigosa, desafiante…

Parece que a nossa vida cristã se situa entre dois mistérios: mistério do nosso ser biológico e social; mistério do Cristo e do homem novo. Entre esses dois mistérios parece não haver concordância… Mas talvez haja uma convergência, pois é o próprio Deus que, num mesmo impulso de amor cria o homem e o salva. Ele está na fonte dessa vida humana que irriga com a vida divina. Não será, então, o Evangelho uma resposta ao desejo de atingirmos a plena maturidade humana? As bem-aventuranças evangélicas não são um caminho de santificação, portanto de mais humanização?

Somos feitos de tal modo que não alcançamos a felicidade a não ser no amor a Deus. O amor a Deus não atenua, mas atiça nossa fome de felicidade. Os conselhos evangélicos, como meios e instrumentos que são, possuem essa capacidade: impelem para a fonte, tiram os obstáculos, fazendo jorrar a água mais pura e com mais força. Eles marcam nosso ser com uma ruptura: morrer para os valores da vida, não porque são maus, mas porque se almeja um bem maior, transcendente, espiritual.

Os conselhos evangélicos não passariam duma cruel mutilação ou dum embuste se não visassem a vida, aquela vida que, na madrugada da Páscoa, jorrou do túmulo de Jesus. A vida de Cristo, torna-se nossa vida com tal abundância que nós nos tornamos os filhos e filhas com sonha o Pai.

Essa maturidade de vida é essencialmente pascal, porque saída duma morte. A vida nova é uma pós-sexta-feira-santa. Em Fl 6,12, São Paulo afirma que o Cristo é o Senhor de Glória, porque é, ao mesmo tempo, o Servo Sofredor. Para assumir a vida nova e vivê-la de acôrdo com os conselhos evangélicos, é preciso, constantemente, consentir numa morte: todos os dias eu estou exposto à morte, diz Paulo (1Cor 15,31). E morrer, nesse caso, significa: libertar as mãos (pobreza) libertar o coração (castidade) e libertar a própria liberdade (obediência).

Assim, bom é possuir os bens da terra e não passar privação. Melhor e deles nos despojarmos para alcançar os bens celestes.

Bom é viver o amor conjugal e gerar novas vidas. Melhor é renunciar pelo amor do Senhor e viver a vida plena. Bom é ser independente e dispor do governo de si mesmo. Melhor é renunciar para que a vontade do Pai se desdobre em plenitude em nosso agir. Porém, se, em tudo isso formos chamados pelo Espírito. Caso contrário é loucura, incompreensível para o mundo e inútil para nós.

POBREZA

A pobreza corresponde à primeira bem-aventurança, a qual está na base de todas as outras e abre o Sermão da Montanha.

Sagrada Escritura: Iahweh é o protetor dos indefesos, dos rebaixados, dos humildes, dos espezinhados. Iahweh é o Deus dos anawim. De outro lado, Ele tem horror ao espírito de riqueza que leva ao orgulho, à injustiça, ao ódio e à idolatria. O povo eleito é um povo de pobres; sua riqueza é o próprio Deus: “uns põem sua força nos carros, outros nos cavalos; nós, porém, nos apoiamos no nome do Senhor” (Sl 20). Da Escritura, deduzimos dois elementos quanto a pobreza: um estado concreto de insegurança e uma relação íntima com Deus. Ainda que impropriamente, podemos dizer que o pobre do mundo é, proporcionalmente, o mais rico de Deus. De fato, quanto mais Israel era forçado ao despojamento pelo exílio e escravidão em terras estrangeiras, mais ansiava por Deus…

Vazio: Quando mais Deus quer habitar em alguém, tanto mais ele cava na pessoa o seu lugar. Faz o “vazio” ou toca no vazio de cada um de nós para preenchê-lo de si mesmo. São Paulo afirma que Jesus se esvaziou, fazendo-se pobre (Fl 2,6-11). É nesse sentido que se deve ler a bem-aventurança da pobreza: Feliz quem é pobre até o fundo da alma, ele tem nas mãos toda a riqueza do Reino de Deus!

Abandono: O seguimento exige abandono. O convite de Deus a Abraão é um convite ao despojamento: Abandona teu país, deixa tua casa… e parte… (Gn 12). Deixar e Partir são as mesmas palavras que Jesus dirige ao Jovem Rico, e que os Apóstolos ouviram e à qual obedeceram. O Jovem Rico não aderiu, os Apóstolos, porém, deixando tudo, o seguiram.

Pobreza religiosa: Não há pobreza sem pobres. Eles são a epifania do amor de Deus. Diz o Cristo: tudo que fizestes a um destes pequeninos é a mim que fizeste. Tornando-se nossa riqueza, o Cristo faz-nos compreender a riqueza dos pobres. Os pobres são enunciados pelo Cristo em companhia dos presos, dos cegos e oprimidos (Lc 4,16), dos enfermos e dos doentes (Mt 11,4-5; Lc 7,22), dos aflitos e dos que têm fome (Mt 5,3-4.6; Lc 6,20,21). O imperativo para aqueles que querem se aproximar de Deus através da pobreza é se aproximar dos pobres, identificando-se com eles, sentindo os mesmos sentimentos: penúrias, desencantos, desesperanças, incertezas. Ter voto de pobreza, numa comunidade de pessoas despojadas, mas não sentindo as necessidades básicas da sobrevivência, pode ser uma virtude ilusória (pobres religiosas que devem manter em funcionamento os palácios da congregação!).

As grandes comunidades religiosas se comparam a um formigueiro: cada membro corre o risco de tornar-se formiga preocupada em carregar para dentro do formigueiro o menor pedaço de palha. Existe em nós algo de formiga, mais ou menos laboriosa, que nada tem para si, podendo até matar-se no trabalho, mas que transfere para o plano coletivo o instinto de entesouramento que recusa a satisfazer no plano singular. A solução é freqüentar com alegria os pobres, isto é, colocar o voto de pobreza a serviço dos verdadeiramente pobres. Sem eles a pobreza religiosa permanece simples abstração. Aprendamos a lição do Apóstolo Paulo: Acolhei o fraco… (Rm 14,1); nós os fracos, devemos carregar as debilidades do fracos e não buscar a nossa própria satisfação (Rm 15,1).

A pobreza e nossa apostolicidade: O Evangelho é a nossa norma suprema. Ele nos mostra a pobreza não somente como libertação pessoal pelo Reino: vai, vende o que tens… segue-me… terás um tesouro no céu, mas também uma libertação para que os outros possam ver o Reino: recebestes de gratuitamente, daí gratuitamente… não procureis nem outro nem prata, nem dinheiro, para vossos cintos, nem alforje para a viagem, nem duas túnicas, nem calçados, nem bastão; pois o operário merece o seu sustento (Mt 10, 9-10), diz o Senhor ao enviar os doze em missão. A pobreza é um dos elementos essenciais do sinal que deve ser o trabalho apostólico. A pobreza evangélica testemunha aquele que não tinha onde repousar a cabeça. É preciso, pois, ser pobre e parecer pobre. Ser sem parecer, seria colocar o candeeiro sob o alqueire, recusar-se a exercer o papel de sinal. É preciso que o mundo veja e creia. Parecer ser, sem ser, seria ainda pior, seria hipocrisia. Assim, é preciso: a) ter transparência quanto aos recursos da comunidade de vida religiosa. Todo acobertar seria pecado contra a pobreza; b) dar provas do desinteresse. Numa economia de lucro, o sinal apostólico a dar com nossa pobreza é o desinteresse, isto é, a não absolutização dos bens relativos; c) num mundo colocado sob o signo do monopólio, o sinal apostólico a darmos como nossa pobreza é o da partilha.

Personagem e personalidade: É preciso, no caso da pobreza, não confundir a personagem com a personalidade. A personagem é a personalidade pervertida pelo espírito de posse. Diz Paulo: Não sou eu que vivo (personagem), é Cristo que vive em mim (personalidade). Nunca são Paulo é mais São Paulo quando depois de desaparecido um certo “eu” dele. Não posso ser plenamente “eu mesmo” a não ser que “para mim viver é Cristo”. A personagem (eu) abre a mão para atirar, a personalidade (Cristo em mim) abre a mão para dar! Ou ainda: o que guardo apodrece e me apodrece, o que dou frutifica e alimenta. Ser pobre, portanto, é possuir a pobreza de Cristo, nossa maior riqueza.

Nossas pobrezas religiosas: Na vida religiosa, o que nos separa de Cristo, é o que temos em demasia. Daí a necessidade de assumirmos certas pobrezas:

Sensibilidade – é a primeira empresa e a última conquista. A pobreza deve atingir as fontes profundas do nosso ser para que a nossa sensibilidade, o nosso eu, seja marcada pela primeira bem-aventurança.

Afetividade – é a pobreza do coração que nos faz abraçar o voto de castidade perfeita. É a atitude de pertença a Deus e de serviço aos irmãos. Não significa esterilidade do coração, mas uma amorosa consagração.

Inteligência – pobreza não é penúria da inteligência. A verdade deve enriquecer nosso espírito. É preciso saber sobre Deus e sobre o homem. É preciso ter uma competência para servir melhor. A ciência sobre Deus não é posse de Deus. A verdade não se possui, mas a ela se serve humildemente.

Vontade – o desejo desenfreado de sobressair-se, de ter status dá considerável trabalho à pobreza. A livre vontade não é autodestrutiva quando inserida na vontade divina, mesmo através de mediações humanas. Obedecer a pobres homens e mulheres, nossos superiores e superioras, eis a pobreza da vontade! “A minha vontade é fazer a vontade do meu Senhor”, dizia Santa Terezinha do Menino Jesus.

Pobreza Apostólica – é a pobreza que coloca a liberdade divina na carne de nossa liberdade humana e empresta aos nossos menores atos a amplidão, o inédito, a eficácia da ação de Deus. Quando os discípulos voltavam da missão, cheios de si pelo êxito alcançado: “não vos alegreis porque os espíritos se vos submetem, mas porque vossos nomes estão inscritos nos céus” (Lc 10,20). O Apóstolo é o grande pobre; não tem aquilo que dá: revela e transmite o dom de Deus. Antes da ação apostólica, deveríamos rezar: Senhor, dai-me o que devo dar. O que devo dar, sois vós mesmo. Dai-vos a mim, ou antes, dai-vos por meio de mim”.

CASTIDADE E VIRGINDADE

A pobreza evangélica nos engaja a fundo na libertação pascal. Para ser entregue à vida nova do Ressuscitado é preciso libertar-se das posses que o incomodam e dar lugar ao Cristo. Já inserido em Cristo pelo Batismo, o consagrado e a consagrada, a convite do mesmo Senhor, assumem meios radicais para a realização de si mesmos e da vontade de Deus.

Dos conselhos evangélicos, o da castidade perfeita é o mais claramente expresso (Mt 14, 10-12). Na história da Igreja, ele por primeiro serviu de modelo ao que deveria tornar-se a vida religiosa.

Para início de conversa é preciso distinguir o que não é castidade perfeita: a secura do coração que, sob o pretexto de amar somente a Deus, não ama ninguém; o coração frígido, tímido, que tem medo de amar e acaba em afeições imaturas; o amor-próprio que se inclina sobre nós mesmos e nos sufoca…

Na Bíblia: a antiga Aliança considerava a virgindade como um mal. A glória de uma mulher é ser mãe, não ser estéril. No entanto, pode-se falar de Jeremias, que se manteve celibatário por motivos religiosos. É um celibato profético que encontra no simbolismo da infidelidade sua justificativa; é o sinal da esterilidade do povo infiel à Aliança; é mensagem de pesar (Jr 16).

No Novo Testamento, o Verbo se fez carne. É virgem, nascido duma virgem. Proclama a misteriosa dignidade daqueles que são eunucos em vista do Reino (Mt 19,12). A virgindade neotestamentária é uma virgindade iluminada por uma luz nova que recebe pleno direito de cidadania na vida cristã. Permanecer virgem em vista do Reino é doravante um bem assumido com normalidade e inserido na lógica do próprio batismo. Na verdade, desde o início do cristianismo existem as virgens consagradas. Em 313 no Edito de Milão, a virgindade substituiu o martírio como testemunho de Cristo.

A virgindade pelo Cristo é essencialmente um mistério, ligado ao próprio mistério do amor de Deus por nós; é, ao mesmo tempo, um sinal, o sinal de que Jesus veio, que o Reino já está presente.

A primeira Aliança foi marcada pelo adultério do Povo Escolhido (Cf. Oséias). Deus ama com um amor inaudito e esse amor é simbolizado pelo casamento. Ainda que o homem rompa com a Aliança, Deus permanece fiel. Na Nova Aliança, Deus envia seu filho (Jo 3,16), seu amor personificado, para realizar novas núpcias, as núpcias do cordeiro! A virgem casta é a noiva guardada pura para o casamento, sem infidelidade ou idolatrias. A virgindade por amor ao Reino atesta a vitória do amor de Deus que em Cristo, o noivo casto, se realiza plenamente.

Tornar-se eunuco por amor ao Reino é afirmar o realismo misterioso do amor de Deus contra os desamores presentes em nossa vida; é ser uma profecia viva, na própria carne, da vida do mundo que há de vir (Mt 22,30); é proclamar que a realidade última já está inserida em nossos corações, embora esses nossos corações sejam fracos e instáveis.

O casamento continua sendo o sinal forte da Aliança de amor entre Deus e a humanidade, entre o Cristo e sua Igreja. Os consagrados, castos, simbolizam, porém, desde o seu batismo, a união, sem mediação, entre Cristo e a Igreja que espera ansiosa pela núpcias do Cordeiro (Ap 19,9; 14,4-5).

Na Igreja: a virgindade consagrada se tornou, desde o início, a imagem viva da Igreja peregrina, isto é, do Reino em desenvolvimento e maturação. Ela não é o único sinal. Há outro sinal, talvez mais eloqüente: a caridade fraterna. Por isso, a castidade deve estar direcionada para a caridade ou tornar-se mais e mais uma forma de caridade. A virgindade afirma a bem-aventurança dos corações puros. Ela proclama a Igreja em seu mistério íntimo de esposa do Cristo e em seu mistério visível de família humana de Deus, cuja alma é a caridade.

Sinal: A natureza da castidade virginal é a de ser sinal. É um sinal cada vez menos compreendido hoje em dia, em nossa sociedade erotizada e, também, na própria Igreja que muitas vezes, a coloca em segundo plano, imaginando ser prioritário tratar antes de outras realidades mais graves, como por exemplo, as realidades sociais. No entanto, na medida em que a castidade é penetrada pelo amor, ela se torna uma importante realidade no coração das demais realidades, isto é, com o coração despojado e totalmente entregue a causa do Reino, nos empenharemos mais e melhor na transformação do mundo. O consagrado ou a consagrada são pessoa de coração indiviso. Servem, lutam, trabalham, porque amam, e amam a Deus em primeiro lugar, por isso servem, lutam e trabalham. Se isso não for suficientemente lógico, podemos ouvir o Cristo que exclama: entenda quem puder! A virgindade como sinal e a exemplo dos outros sinais, não está destinada a dissipar o mistério, mas a nos introduzir mais profundamente nele. Não se pode, pois, compreender a castidade perfeita, senão admitindo o Reino em sua transcendência, o realismo do amor de Deus ao mesmo tempo diferente de nossos realismos humanos e misturados a eles. Exprimir esse amor, no amor casto de Jesus, o divino noivo, é dar um testemunho eclesial autêntico.

Solidão: Solidão não é isolamento. É contemplação e reclama uma comunidade. Todavia, mesmo pertencendo a uma comunidade fraternal, no apostolado mais envolvente e caloroso, mesmo lançado num mundo que nos aperta de todos os lados, o ser votado à castidade perfeita conhece a solidão. A castidade nos faz renunciar a complementação num outro, o par amado do amor conjugal, a continuidade no filho. Castidade, pois, exige pobreza, entrega do próprio ser que se completa e existe em Deus somente. Solitários enquanto não participante ativo da vida sexual afetiva, mas plenamente em comunhão e íntimos de Deus. É nessa intimidade e desde essa intimidade que amamos todos os homens e mulheres do nosso tempo, isto é, com o coração de carne, porém cheio de Deus. Basta olhar para as atitudes de Jesus, em seus encontros humanos, particularmente nos encontros com as mulheres, para perceber o quanto somos inteiramente de Deus.

Vigilância: O Evangelho liga virgindade e vigilância: a virgem pudente mantém sua lâmpada acesa (Mt 25). Não é logo no início que nosso coração encontra seu pleno regime de consagração total a Jesus Cristo. Existe em nós determinismos e impulsos. A vigilância nos diz que virgindade cristã não é soberba nem puritana. Homens e mulheres como seres sexuados no corpo e na alma, consagrados na virgindade devem ser, em primeiro lugar, profundamente humildes. É preciso entender que a virgindade, longe de ser contra a natureza, pode ser, mediante a vocação de Deus, devidamente reconhecida como um acabamento do ser sexuado que jamais deixaremos de ser.

Amor em plenitude: a castidade perfeita consagra a Cristo as nossas potencialidades de amar. Por isso, somos convidados a amar em plenitude, isto é, como Cristo ama. O coração de Cristo é um coração de carne, porém plenificado de Deus. É, ao mesmo tempo, um coração divino, porém tecido de fibras humanas. Não se trata, pois, de amar menos, mas de amar melhor, de integrar, progressivamente, todas as nossas forças humanas sensíveis e afetivas sob a moção direta da caridade (A solidão em Deus é, ao mesmo tempo, comunhão solidária na caridade).

A plenitude é, antes de tudo, presença do Deus Trino, do Deus-comunhão. A virgindade consagrada deve nos aproximar de Deus, abrir-nos ao grande sol do Criador, deixar-nos encher da graça do Salvador e fazer-nos queimar de amor no fogo do Espírito. É uma maneira privilegiada de estar em harmonia com o mistério de Deus, de habitá-lo com alegria, de contemplá-lo com certa luminosidade, “quase face a face”. É o Pai quem purifica nosso mundo interior e nos reconduz, a si, além de nossos gostos ou desgostos. É Jesus Cristo quem nos impele a uma oração sempre mais corajosa, feita de silêncio mais do que de palavras. É o Espírito Santo que fala por nós, palavras eloqüentes de amor, de paz, de compaixão…

Frequentar o Senhor, eis o segredo, o sentido e a essência da vocação do consagrado. No coração consagrado Jesus Cristo é constante, encontrado sem cessar como o companheiro de caminhada, com quem tudo se reparte, até os segredos mais íntimos. Desse modo, estamos longe duma simples atitude física, unicamente negativa, às vezes mais suportada do que querida.

Nossa solidão é povoada pelo Cristo em pessoa, e pelo Cristo que se identifica com o próximo. A pobreza desemboca na riqueza de Deus; a solidão da castidade desemboca na multidão dos seres humanos. A pobreza nos fazia pura capacidade de Deus, a castidade nos faz pura transparência de Deus (O casto é o mais pobre de todos: nem o amor lhe pertence). São “bem-aventurados os corações puros, porque verão a Deus”; “Bem-aventurados os puros porque farão ver a Deus”…

Amor fecundo: Na Nova Aliança, a virgindade é fecunda. Foi assim com a Virgem Maria, mãe de Jesus, primogênito entre muitos irmãos. A virgem consagrada, afirma e realiza a existência num corpo e num coração humanos daquilo que tem de único a nova geração: não se trata de renascer segundo a carne, mas da água e do Espírito (Jo 3,5). O Espírito é que é o princípio fecundante e que realiza uma nova criação. O Religioso e a virgem consagrada, afirmam e realizam a existência duma vida em que não se trata de carne e sangue, mas que faz de nós filhos de Deus e que somente Deus pode comunicar.

A fecundidade do consagrado não se exprime, pois, por uma eficácia visível, mas por fazer circular no corpo eclesial a nova vida do Ressuscitado . Tocamos assim nas fontes do ser novo, no mais profundo do mistério do amor de Deus pelos homens: seu poder misterioso de recriação, freqüentemente oculto, se manifesta como vigorosa presença. É assim com a Virgem Maria: nunca a mulher foi tão mulher como a “bendita entre todas as mulheres”, nunca uma mulher foi tão mãe quanto esta Virgem. A fecundidade de Maria é sinal da Igreja. Toda virgindade vocacionada e consagrada na liberdade é – paradoxalmente – sinal da fecundidade da Igreja.

Amor comunitário: Há uma relação estreita, na vida religiosa, entre castidade perfeita e comunidade. A solidão pessoal (estar em Deus) não implica isolamento dos irmãos. O frente-a-frente com Deus está ligado ao lado-a-lado com os filhos de Deus (com os iguais). O vínculo filial com o Pai que a castidade reforça provoca um reforço do vínculo fraterno. É na vida de comunidade que realizamos o mais íntimo e o mais eclesial, ao mesmo tempo, de nossa vida de filhos de Deus. Pertence ao depósito da mais genuína tradição cristã, a necessidade que temos de pertencer a uma família reunida pelo mesmo chamamento, para viver a dependência total de Cristo. Toda atitude de aceitação, renúncia de si, abertura de coração, perdão, alegria comum… é um “crer no outro” e ajuda viver, na comunidade, a castidade perfeita. Certamente foi o Cristo quem pensou em nós ao associar-nos na mesma causa: a causa do Reino. Jesus garante que “quem perder a sua vida, por causa de Cristo, salvá-la-á”. A comunidade é o lugar onde seremos, sem cessar, chamados a nos perder (no sentido evangélico), para salva-nos. Casa e comida, as pequenas coisas da vida cotidiana, estão na base da vida fraterna.

Cristo usou o vocabulário doméstico e neles revelou os segredos de Deus, as verdades mais decisivas: o grão de mostarda, a pitada de fermento, o sal, a luz da lamparina, a dracma perdida, os moços que brincam e dançam na praça, diante da casa… A vida apostólica também é assim: tudo em comum na mesma Igreja, o mesmo compromisso, o mesmo estilo de vida, os mesmos sonhos, possíveis e realizáveis em Deus… Às vezes os conflitos estão presentes. Só range o que está em contato, só atrita o que está junto…

Uma comunidade possui a mesma profundidade da Igreja, e a Igreja vai até o Espírito Santo, que é a sua alma. Os Apóstolos só enfrentam o mundo depois de fundidos, soldados, em profundidade e tornados um todo espiritual no Cenáculo. Foi preciso que a comunidade dos discípulos se acrisolasse até que o Espírito Santo fosse recebido como um dom comum (O Espírito é o maçarico que nos “solda” ao Cristo… É preciso discernir a qual espírito pertencemos, com qual espírito vivemos: somos do Espírito Santo que nos agrupa e nos mantém reunidos no amor.

É um espírito que nos faz viver num clima de bom humor, viver não no plano do drama, mas do sorriso. O bom humor é uma qualidade comunitária muito importante. É sinal de maturidade.

OBEDIÊNCIA

No conselho evangélico da pobreza, nossas mãos abertas desaprendem a posse, podendo melhor receber e dar, trocar e multiplicar gestos de reciprocidade. No conselho evangélico da castidade perfeita, nossos corações e nossos corpos, lançam diretamente no Cristo todas as forças vivas, podendo melhor viver desse único amor de amizade que vai direto ao Cristo em pessoa, e na pessoa de cada um dos que cruzam o nosso caminho. No conselho evangélico somos entregues ao Senhor, reforçando as mediações existentes: normas, regras, superiores, carismas… A obediência, certamente, nada tem a ver com a anulação da pessoa, com o servilismo, com o formalismo legalista, com o tolhimento da liberdade, com o domínio do homem sobre o homem. Ela deve ter um propósito mais elevado.

A Obediência de Cristo: a palavra “obediência” nos Evangelhos é usada para evocar o poder de Cristo, submetendo a si as forças da natureza e os espíritos (Mc 1,27; 4,1; Mt 8,27, Lc 8,25).

Nos escritos de Paulo, o termo obediência (hypakouein) é empregado como atitude daquele que escuta, acolhe a palavra que vem do mais alto do que ele e a ela se conforma. Teologicamente, fala da atitude de Jesus: “Ele, sendo de natureza divina, não reteve ciosamente a condição que o iguala a Deus. Mas aniquilou-se a si mesmo, tomando a condição de escravo e tornando-se semelhante aos homens. Tendo-se comportado como homem, humilhou-se mais ainda, obediente até a morte, e à morte de cruz” (Fl 2, 6-8).

“O Pai é maior do que eu”, diz Jesus. A encarnação que lhe fez abandonar “a condição que o igualava a Deus” põe Jesus na atitude de escuta humilde que o coloca sob a vontade do Pai. Seu “alimento” é fazer esta vontade que exige dele renúncia, oferta, sacrifício: “Não aquilo que eu quero, mas o que tu queres” (Mt 14,36).

É Cristo quem arranca da desobediência do pecado: “Como pela desobediência dum só homem, todos foram constituídos pecadores, assim pela desobediência dum só, todos serão constituídos justos” (Rm 5,19).

Jesus obedece a Deus como homem, isto é, é através das realidades humanas que Jesus obedece ao Pai. Como Verbo, Deus Filho, é igual, imediatamente unido ao Pai e ao Espírito. Mas como homem, nessa participação real de nossa aventura humana, ele se aproxima do Pai, por mediações humanas: “… o menino crescia e era-lhes submisso” (Lc 2,51).

Jesus não evita a submissão humana: submete-se as leis civis e religiosas. Nasce sob César Augusto, morre sob Poncio Pilatos. Jesus passa pela obediência conjuntural do tempo, mas, ao também a ultrapassa. Para salvar o homem, passa pelos homens e pelas realidade humanas. Como fala o autor da carta aos Hebreus: “Não obstante fosse Filho, aprendeu, pelos sofrimentos suportados, a obediência” (5,8). Não se pode negar que, em Jesus, há um vínculo entre obediência e sofrimento. A obediência de Jesus foi sincera, mas, ao mesmo tempo, dolorosa: deixai passar esse cálice… faça-se a tua vontade e não a minha… O sim obediente de Jesus o conduziu à morte. A morte, no entanto, se tornou vitória, “por isso Deus o exaltou…” (Fl 2,9-11).

A obediência do Cristão: pelo batismo, o cristão participa da vitória da obediência de Deus. O discípulo não é maior do que o Mestre. Cada um de nós somos chamados a fazer nossa a obediência de Cristo. Obedecer, em tudo, a Deus que é Pai, obedecer plenamente ao Cristo, Senhor e guia, Pastor das ovelhas, Caminho, Verdade, Vida… Obedecer, por causa de Cristo, as leis humanas quando elas visam o bem comum, as normas da comunidade quando elas visam o bem eclesial…

Para Paulo, crer é obedecer (Rm 1,1). Na verdade, não estamos mais debaixo da Lei, somos livres (Gl 5, Rm 7), mas a fé nos coloca na posição de Jesus de Nazaré com relação ao seu Pai, posição filial que tínhamos perdido e que nele reencontramos.

A obediência cristã, depende diretamente da fé em Cristo. “Segue-me” diz Jesus. Aquele que coloca seus passos nos passos de Cristo deve contar que encontrará, com Cristo, as mediações, os conflitos, as dificuldades e as alegrias.

Obediência Eclesial: o verdadeiro obediência do Pai é Jesus. Ele é, também, o único mediador. Reúne a Igreja e diz: “Quem vos escuta, a mim escuta”. A função da Igreja, pois, é tornar tangível a presença do Senhor no mundo. Ela recebeu o mandato de apascentar as ovelhas (apascenta minhas ovelhas).

Confiança inaudita do Cristo cuja humanidade transparente não receia solidarizar-se com a humanidade… reparte e confia sua única mediação em mediadores humanos, com suas vontades, suas inteligências, suas sensibilidades de pessoas limitadas e ainda pecadoras. É assim o amor de Deus: não receia introduzir-se na espessura duvidosa da massa humana.

Ai está, também, o paradoxo da obediência cristã: como para Cristo, o essencial para o cristão é obedecer ao Pai por amor e encontrar nessa obediência amorosa a fonte de sua inalterável liberdade, de seu corajoso poder de contestação, em face de tudo o que é menos do que Deus. Sabemos, pela boca de Jesus que “é preciso obedecer antes a Deus que aos homens”. Sabemos, também, que para obedecer a Deus é preciso imitar Jesus na “loucura” que o fez atravessar, e não evitar, vontades humanas.

Obedecer ao Deus vivo, na Igreja, é estar sempre à escuta das múltiplas vozes, sinais e preceitos, com que o Espírito de Cristo baliza nosso caminho e o caminho dos homens. Devemos obedecer para aprender e, uma vez maduros no aprendizado e treinados na vida cristã, devemos obedecer porque amamos conscientemente.

Obediência na comunhão: falar de obediência é falar da autoridade à qual se obedece. No Povo de Deus, autoridade é serviço. A autoridade humana e eclesial é também, a seu modo, obediência. Obedecer aos imperativos do Senhor, ouvindo Deus em cada um e criando laços de justiça e santidade, eis a comunhão entre quem exerce um cargo, quem obedece e o próprio Senhor que, por ser obediente ao Pai, ordena, dá mandamentos, preceitos e conselhos.

Todo superior tem superiores. Todo superior está ligado numa rede de exigências cuja aplicação e atividade deve assegurar; toca a ele vigiar para que a inspiração conserve a precedência sobre a instituição, para que o Espírito fale à Igreja com transparência e liberdade. O superior deve ser e sentir com o Apóstolo Paulo, servo dos servos de Deus.

A obediência do cristão se torna ato de comunhão com Deus que fala na Igreja e pela Igreja: “Quem vos escuta a mim escuta ” (Lc 10,16) e comunhão na Igreja e com a Igreja que faz a vontade de Deus, isto é de obedecer antes a Deus que aos homens” (At 5,29).

Obediência Religiosa: tem-se visto muitas vezes no “vem e segue-me” (Mc 10,21, Mt 19,21, Lc 18,22) que Jesus disse ao homem rico a palavra fundamental que exprime o conselho evangélico da obediência. Acentua-se, também, a obediência dos discípulos: “tendo deixado as redes, o seguiram” (Lc 5,11). Naturalmente esse é um chamado para todo o cristão batizado. Assim, o voto religioso da obediência está na raiz do próprio batismo. É um modo muito especial de viver o próprio batismo. Os conselhos estão no coração do Evangelho como expressão do Espírito que nos guia em pontos-chaves da existência humana, para uma dependência pais estreita com Jesus.

Muitos batizados são chamados a viver de modo próprio e particular uma relação especial com Deus: como consagrados, pobres, castos e obedientes como o Cristo. Essa realidade é vivida, originalmente, numa comunidade humana determinada e segundo um modo próprio, determinado e aceito por quem dela participa.

A vida vivida nesse modo particular pode e deve ter o sabor das bem-aventuranças. É nesse sentido, que a obediência religiosa tem como nos fazer atingir, a largos passos, o eixo do Evangelho, isto é, o autêntico amor de Deus, do próximo e de nós mesmos.

Pedagogia comunitária: A obediência religiosa pode ser uma pedagogia realista. É um aprendizado da vida filial, sob a guia do Espírito Santo, que deve acontecer na Igreja. A Igreja deve proporcionar e assegurar esse aprendizado para todos os que são vocacionados a esse tipo especial de vida. No passado da Igreja como hoje, existem homens e mulheres que, ao impulso do Espírito Santo, procuram os meios de dar luz à sua obediência batismal toda a largueza e amplitude. Querem ir até o absoluto da comunhão com a vontade do Pai, tal como a viveu Jesus Cristo. Assim, a vida religiosa deve ser uma permanente escola de conversão a Jesus Cristo, especialmente na obediência, ensinando-nos a sermos adultos na fé, lúcidos e realistas diante do mundo.

Para sermos ensinados por Deus, é importante deixar-se conduzir aonde não se quer ir. A Igreja, na sua pedagogia, não ensina a obedecer ao superior como a Deus, mas a exprimir e a nutrir na obediência ao irmão que serve (superior) a total confiança filial em Deus. Seria falso ver na obediência religiosa uma simples relação com os superiores ou com uma regra de vida. É essencial que esse conselho evangélico proporcione uma relação de comunhão com os irmãos, em obediência ao Deus que é todo comunhão de pessoas. Trata-se de entender a pedagogia divina segundo a qual o Pai revela sua vontade aos homens através de homens. É, dessa forma, uma relação, não mais de superior para irmãos, mas de irmão para irmão. O superior, qual irmão mais experiente, decide, mas não sem os seus irmãos. Por isso, se pode afirmar: a obediência é essencialmente comunitária! Ser superior, não é elevar-se acima da comunidade, mas mergulhar nela, numa procura sempre mais humilde e mais ardente da perfeição evangélica.

Obediência pascal: A obediência de Cristo é essencialmente pascal: “obediente até a morte e morte de cruz”(Fl 2,8-9). A obediência religiosa tem sua raiz no mistério pascal do Cristo. A obediência de Cristo arranca do mal os filhos de Deus, por isso se apresenta como uma ruptura, como um sacrifício: não se faça a minha vontade, mas a tua… Essa ruptura, que já está no centro da vida batismal, vai, pelo conselho da obediência, dar um vigor renovado: fazer-nos passageiros (os que fazem a passagem) da morte para a vida nova. A vida nova à qual dá acesso a morte da obediência, é a liberdade de Deus em nós. Nossa liberdade, através dessa páscoa, se dilata segundo a dimensão da liberdade de Deus em mim. Não é mais a minha vontade que impera, mas a vontade de Deus: não sou mais eu que vivo… Cristo vive em mim.

Obediência apostólica: Em Cristo a obediência está estritamente ligada à missão. Enviado do Pai, Jesus obedece ao Pai. Sua obediência tem a profundeza mesma desse amor que o “entrega ao mundo”. Cultivando as atitudes evangélicas do perfeito servidor, tal como as viveu Jesus, a obediência religiosa arrasta, espontaneamente, aquele que a professa ao serviço dos outros. Depois que Jesus confiou a sua Igreja, não a um só homem, mas aos Doze, toda empresa apostólica comporta, necessariamente, uma comunidade (ide dois a dois…). A comunidade religiosa tende a operar, entre seus membros, uma convergência no respeito das pessoas, afirma um mesmo objetivo, faz ouvir os mesmos apelos vindos do mundo, suscita o mesmo tipo de resposta, funda uma mesma maneira de viver o encontro humano, forja uma mesma linguagem, sinaliza uma mesma expressão típica do Reino.

A obediência como conselho evangélico é, verdadeiramente, obediência à Igreja e serviço da Igreja. Essa obediência a Deus na Igreja é realizada, de modo próprio e particular, na comunidades de vida consagrada, nas ordens e congregações. Sua carta magna é o Evangelho, do qual as regras e normas de vida são tênue reflexos. A comunidade precisa, para isso, ser um kairói, um evento pascal, sinal eloqüente do Reino de Deus entre os homens.

Obediência e fé: O obediente é, antes de tudo, um crente. Sua obediência se desenvolve inteiramente no interior da fé; por isso é escuta, aceitação, resposta. A virtude da religião seria uma pura e simples alienação, seria pagã e não cristã, se não fosse o alimento e a expressão da fé. A Igreja fala, o superior da minha comunidade fala, e só pode falar em nome do Espírito de Deus que trabalha incansavelmente minha vida, portanto quem fala é para mim um sinal. Nossa obediência será verdadeira na medida em que for do sinal ao sinalizado. Na obediência, a fé traduz o amor: se me amais, guardai meus mandamentos. A obediência dispõe-nos a uma verdadeira páscoa do coração, às exigências desse amor forte como a morte que nos configura com Jesus Cristo.

Liturgia: A obediência faz parte da grande liturgia que celebra a vida totalmente envolvida pela virtude da religião: não obedeço porque o superior me agrada, mas porque celebra a função de sinal que provoca minha fé. Na liturgia são lembrados os obedientes da história: os santos, os mártires e heróis da fé. Na liturgia é representificado, celebrado na própria presença, o Cristo, obediente do Pai e Mestre da nossa vida. Na liturgia celebramos e oferecemos a nossa pobreza, a nossa virgindade e todo o nosso ser na obediência amorosa.

Conclusão

A vida religiosa não deve ser reduzida à pratica material e meticulosa dos três conselhos evangélicos. Por precioso que seja seu valor, eles devem ser entendidos e vividos dentro do carisma que os encerra e os transborda, que nos leva a colocar nossa graça batismal no regime de conversão contínua, de que os conselhos evangélicos formam as nevruras mais profundas.

A vida religiosa possui cidadania na vida cristã. Organiza-lhe o entusiasmo e a fidelidade apoiando-se na profissão dos conselhos evangélicos. É um meio típico, especial, particular, de realizar o batismo e a vida cristã.

Nos “conselhos” ninguém é aconselhado a abandonar o essencialmente humano. Responder os apelos dos conselhos evangélicos e pronunciar os votos de religião, é habitar o humano; é ai que se dá o encontro do homem com Deus em Jesus, o Deus perfeitamente homem.

Somos de carne e osso, ligados à história que burilou nossa mentalidade, nossa sensibilidade, nossa maneira de ser. A monja mais enclausurada leva consigo, no claustro, esse mundo de que é formada. Que é o mundo, senão aquilo que o homem fez da criação, assinalando o que há de melhor ou de pior nele? Assim é a existência humana: impossível para os membros do povo peregrinante, sair dessa condição de itinerância. Nela desempenham papéis diversos, segundo os diversos carismas, mas nenhum desses carismas poderá torná-los estranhos a esse povo em marcha. Todos os carismas, pelo contrário, lhes fazem viver intensamente a realidade comum da caminhada.

A Igreja inteira é o passo a passo de Jesus com o mundo, até o fim da história (eis que eu estou convosco, todos os dias, até o fim dos séculos). Na caravana humana, filho da Igreja é aquele que acerta o passo com todos os seus irmãos, os homens, mas que esforça, ele próprio, por ajudar seus irmãos a fazê-lo também.

“Fugir do mundo” para o religioso, não é, então, deixar esse passo a passo; é colocar-se deliberadamente no mundo, no lugar onde o humano fermenta mais intensamente sob a ação do levedo evangélico, onde a história humana se faz claramente, aos olhos da fé, história santa, em que a Igreja inaugura explicitamente o Reino.

Deve-se “fugir” daquilo que, no mundo, causa o maior apego no homem velho; “fugir”, mas, para colocar-se no mundo, lá onde a corrente de água viva é mais pura e mais intensa; não evasão, mas inserção mais profunda naquilo que é mais precioso na vida humana, o próprio Deus.

Côn. Dr. José Adriano 

Bibliografia:

Congregação para os Institutos de vida consagrada e as sociedades de vida apostólica. A vida fraterna em comunidade. São Paulo: Paulinas, 1994

Jean-Gabriel Ranquet. Conselhos evangélicos e maturidade humana. São Paulo: Paulinas, 1968

Leandro Rossi (org.) Dizionario enciclopedico di teologia morale. Roma: Paoline, 1976

Sobre conegoadriano

Doutor em Teologia Moral, professor, Sacerdote
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