Considerações sobre Metodologia da Pesquisa Científica

I – ELEMENTOS DE UM PROJETO DE DISSERTAÇÃO OU TESE

 Côn. Dr. José Adriano e Grupo de Pesquisa[1]

RESUMO

O estudo em questão é resultado do trabalho acadêmico dos pós-graduandos participantes do curso de Metodologia da Pesquisa Científica em Teologia. Visa a apresentar uma importante faceta da metodologia, como instrumental adequado para o pesquisador, que trilha o itinerário da busca da verdade e a quer apresentar de modo cientificamente objetivo. Refletindo desde as principais características do projeto, sua estrutura e conteúdo e perpassando as graves questões da comunicação e da linguagem, o estudo propõe a atenção, a agudeza e a meticulosidade do pesquisador quanto às normas vigentes emanadas pela ABNT, adaptadas à realidade acadêmica da Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, para a realização e apresentação do Trabalho Científico, capaz de dar um real contributo à ciência teológica.

ABSTRACT

The presented study, however, it is resulted of the academic work of the universities participants in the course of Methodology of the Scientific Research in Theology. It aims at to present an important aspect of the methodology, as adjusted instrumental for the researcher, that treads the itinerary of the search for the truth and he wants to present this in an objective way, using the science. Reflecting about the main characteristics of the project, its structure, content and to pass by the serious questions of the communication and the language, the study intend to pay attention to the perspicity and the meticulosicity of the researcher in agreement to the effective norms emanated by the ABNT, adapted to the academic reality of the Pontifical Faculty of Theology Nossa Senhora da Assunção, for the accomplishment and presentation of one Scientific Work capable of giving a real contribution to the theological science.

A Metodologia da Pesquisa Científica, sendo um instrumental para a busca da verdade, quer, em conseqüência, demonstrar e transmitir por argumentos lógicos, válidos e fidedignos, essa mesma verdade.

A. O PROJETO DE PESQUISA

O Manual de Metodologia da Pesquisa Científica da Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção informa que “O projeto é uma das etapas componentes do processo de elaboração, execução e apresentação da pesquisa. Essa etapa necessita ser planejada com extremo rigor, caso contrário, o investigador, em determinada altura, encontrar-se-á perdido num emaranhado de dados colhidos, sem saber como dispor dos mesmos ou até desconhecendo seu significado e importância. Em uma pesquisa, nada se faz por acaso ou de improviso. Desde a escolha do tema, fixação dos objetivos, determinação da metodologia, coleta de dados, sua análise e interpretação para a elaboração do relatório final, tudo é previsto no projeto de pesquisa. Este, portanto, deve responder às clássicas questões: o quê? Por quê? Para quê? Para quem? Onde? Como? Com que? Quanto? Quando? Quem? …”[2]

A1. CARACTERÍSTICAS GERAIS DO PROJETO

1. Assunto/tema

a) O assunto deverá ter significado especial tanto para a teoria como para a prática.

b) Ser suficientemente limitado ou concentrado para permitir um tratamento adequado.

c) Caracterizar-se mais pela unicidade e delimitação do tema e pela profundidade do tratamento do que por sua extensão, generalidade ou valor didático.

d) Possuir um significado amplo, transcendendo a situação imediata da Academia ou Universidade como fonte de cultura, inserindo-se dentro da realidade.

2. Conteúdo

a) Indicar um apanhado dos campos relacionados e de outros estudos realizados – localização do estudo dentro do campo geral.

b) Evidenciar conhecimento, consideração e justificativa para as proposições fundamentais.

c) Deverá incluir todos os dados que se relacionem ou que tenham influência no problema e excluir o material menos importante.

d) Buscar e apresentar as conclusões que sejam consistentes e sustentadas pela evidência e pela lógica.

e) Tornar explícito o significado do problema, assim como dos resultados alcançados.

f) Incluir o material histórico significativo disponível.

g) Mostrar o conhecimento que o autor possui sobre os estudos prévios conduzidos e incluir bibliografia específica selecionada.

h) Mostrar-se exato e completo ao longo do trabalho.

3. Procedimento

a) Estar ausente de preconceitos, ser profissionalmente desinteressado ou cientificamente imparcial.

b) Indicar e usar os métodos de obtenção de dados que sejam adequados ao problema.

c) Incluir refinamentos de técnicas aplicáveis, desenvolvidas por outros pesquisadores sobre o assunto.

d) Oferecer dados que se refiram a amostras adequadas e representativas.

e) Fundamentar-se numa lógica segura (O pensamento lógico garante a razoabilidade/credibilidade do argumento).

f) Apresentar exatidão e usar métodos estatísticos corretos.

4. Apresentação

a) Indicar uma organização cuidadosa e clara: a estrutura do trabalho deve aparecer com objetividade e clareza.

b) Usar linguagem correta, estilo conciso e precisão de vocabulário (regionalismos, linguagem coloquial e gírias não respondem às exigências do trabalho científico)[3].

c) Evidenciar relação entre as partes em estudo e uma transição harmoniosa entre uma e outra.

d) Apresentar uma boa organização mecânica (quadros, tabelas, referências, apêndices, índices, notas de rodapé) – todas essas características expressas de acordo com as formas propostas pelos manuais especializados.

e) Ser acompanhada da documentação adequada (documentação bibliográfica ou outro tipo de documentação).

f) Apresentar um nível de dificuldade representado pela complexidade da técnica e (ou) pela coerência de pensamento e (ou) pela finalidade ou amplitude de visão.

5. Princípios gerais

a) Sequência lógica e imparcialidade: Na preparação do estudo final, o primeiro cuidado do investigador deve ser o de apresentar os dados coletados e os resultados encontrados, de modo que o leitor seja capaz de seguir a investigação passo a passo. Os capítulos devem ser arranjados em uma seqüência lógica que deverá conter, apenas, o material relacionado diretamente com o problema em estudo. São intoleráveis em um artigo científico evidências irrelevantes, digressões teóricas, argumentos ingênuos, ataque à evidência apresentada ou à opinião expressa por outros investigadores. O autor deve assumir, durante todo o tempo, um ponto de vista imparcial.

b) Estilo literário: Embora se deva ter em mente que a descoberta da verdade é a finalidade da investigação, uma apresentação inteligente dessa verdade deve ser o objetivo do autor. A apresentação inteligente dos resultados de pesquisa pede que todos os resultados sejam colocados num estilo claro e preciso. O mero relato de dados confusos e uma simples apresentação dos resultados prejudicarão a finalidade a ser atingida pela tese. Um investigador tem obrigações para consigo mesmo e para com seus leitores de apresentar as verdades descobertas de maneira que despertem o interesse e prendam a atenção. O cultivo cuidadoso da clareza, precisão e coerência contribuirão bastante para ressaltar o valor do estudo[4].

c) Comunicação entre o autor e o leitor: Dificilmente se atingirá clareza, a menos que cada pensamento expresso tenha sido formulado na mente do autor, antes de escrito. A falta de precisão por parte do autor produzirá efeito semelhante na mente do leitor. É preciso lembrar que o assunto da tese nem sempre será tão familiar ao leitor quanto o é para o autor; além do mais, a mera alusão a materiais anteriores pode confundir mais do que esclarecer o leitor. Mantendo a consideração pelo leitor sempre em mente, o autor deve se esforçar para tornar seu pensamento tão claro que este se torne imediatamente evidente para o leitor[5].

d) Planejamento do Estudo: O Projeto deve conter uma descrição especifica e cuidadosa do planejamento do estudo. Tratando-se de uma tese científica, qualquer leitor do trabalho deverá obter informações suficientes para poder reproduzir o experimento ou a pesquisa se assim o desejar.

e) O cuidado com a Linguagem: A precisão de expressão é essencial para uma apresentação cuidadosa de resultados encontrados pelo pesquisador. Devem-se evitar termos gerais. Uma busca cuidadosa de palavras e expressões exatas que conduzam às idéias do autor eliminará muitas dificuldades que derivam de um emprego descuidado da linguagem.

f) Tratamento: Como uma tese não é um trabalho de natureza pessoal, as formas pessoais – eu, mim, me, meu, nós, nos, nosso, seu – devem ser evitadas. O uso do pronome pessoal pode ser feito quando o autor do estudo está assumindo responsabilidade direta pelas afirmações feitas, ou quando achar necessário fazer uso dele para se tornar mais específico. Também não se usam títulos e graus no texto, nas notas de rodapé ou na bibliografia (por ex: Dr., Prof., Srta., Sra., Sr., etc.).

6. Orientação do Trabalho

Todo trabalho de pesquisa e elaboração de um tema, no nível acadêmico, supõe um orientador. O papel do orientador é o de ser um educador. O orientador deverá ser capaz de estabelecer com seu orientando uma relação educativa, o que pressupõe um trabalho conjunto em que ambas as partes crescem. É necessário que ocorra uma interação dialética em que esteja ausente qualquer forma de opressão ou de submissão.

B. ESTRUTURA DO PROJETO

1. Introdução/justificativa

a) Introdução geral à área para investigação do problema.

b) Introdução à área especifica do problema a ser investigado.

c) Justificativa do estudo: por que é importante ter a resposta a este problema particular.

2. Problematização

a) Suposições do estudo.

b) colocação clara do problema especifico a ser investigado.

c) apresentação das hipóteses a serem investigadas.

d) apresentação resumida de como irá obter a informação para o estudo e como ela se relaciona com as hipóteses formuladas.

e) colocação precisa do tipo de evidência que está procurando.

f) Delimitações: restrições ao estudo, finalidades, área, etc.

g) Definições: definir apenas termos desusados ou singulares. Não definir termos que são comumente compreendidos dentro da área de interesse.

3. Análise da Bibliografia

a) Bibliografia específica selecionada: Deve ser tornado claro um esquema para a análise da bibliografia. A bibliografia analisada deve se relacionar com o problema especifico sob investigação. Um capítulo preenchido com citações não relacionadas não vai ao encontro do intento da revisão bibliográfica. Devem ser atingidas algumas conclusões depois da análise apresentada. Antes de começar a escrever, o autor deve se munir de uma boa enciclopédia, de dicionário de reconhecido valor, de manuais e textos críticos, enfim, de instrumentos básicos, fundamentais.

B1. NORMAS PARA ELABORAÇÃO DE UM PROJETO SEGUNDO O MANUAL DA PONTIFÍCIA FACULDADE DE TEOLOGIA NOSSA SENHORA DA ASSUNÇÃO (Art. VII, 3, a-j)

a) Título: Enuncia com clareza o objeto do estudo e seu enfoque, ou seja, o objeto material e formal da pesquisa[6].O título deve ser preciso, breve e abranger todos os aspectos do assunto a ser tratado, comunicando imediatamente a mensagem que deseja transmitir. Não deve prometer mais do que aquilo que os dados coletados para estudo indicam. Na formulação do título, as palavras e as frases devem seguir a ordem sugerida pelas investigações já realizadas. “Recomenda-se adotar título objetivo, direto; usar substantivos, estando atento às preposições exatas e ao mínimo de artigos. O título do trabalho não é o seu resumo. Devem-se evitar títulos longos, buscando objetividade e contendo apenas as palavras essenciais, sem prejuízo da clareza e entendimento da natureza do trabalho. Não se usam metáforas, ironias ou outros recursos literários em títulos acadêmicos, exceto com absolutas consciência e intencionalidade no procedimento”[7].

b) Justificativas: Esclarecem e delimitam o objeto da pesquisa; apresentam elementos como o contexto do objeto, sua relevância, tanto científica quanto conjuntural, e as motivações para a pesquisa do tema (Cf. o Manual citado na nota nº 1, este é o item do Projeto que responde à pergunta por quê? Ele deve apresentar em que estágio se encontra a teoria respeitante ao tema, informar quais são as atribuições teóricas que a pesquisa pode fazer. A justificativa difere a revisão bibliográfica e, por esse motivo, não apresenta citações de outros autores. Difere, também, da teoria de base, que vai servir de elemento unificador entre o concreto da pesquisa e o conhecimento teórico da ciência na qual se insere).

c) Hipóteses: Enunciam o que se pretende verificar, comprovar ou demonstrar, podendo, para isso, empregar uma hipótese principal e até duas hipóteses secundárias. Uma vez enunciadas as hipóteses, pode-se esclarecer ou explicar a problemática dentro da qual as hipóteses se inserem (Cf. o Manual citado, o ponto básico do tema, individualizado e especificado na formulação do problema, sendo uma dificuldade sentida, compreendida e definida, necessita de uma resposta provável, suposta e provisória, isto é, de uma hipótese. A principal resposta é denominada hipótese principal ou básica, podendo ser complementada por outras, que recebem a denominação de secundárias).

d) Metodologia: Explica e justifica os passos que se darão na pesquisa ou verificação das hipóteses, tipificando o método que será empregado. A descrição do método conclui com a indicação dos principais núcleos da pesquisa que, eventualmente, se tornarão partes ou capítulos da dissertação ou tese (Cf. o Manual citado, é nesse item que o pesquisador deverá anunciar o tipo de pesquisa que empreenderá e as ferramentas que mobilizará para tal. A pergunta chave que deve ser respondida aqui é como será realizada a pesquisa?).

e) Fundamentação Teórica e Bibliografia: Apresenta as eventuais fontes e documentos da pesquisa; autores e obras que subsidiam os diferentes núcleos da pesquisa e/ou seu conjunto. No caso de pluralismo ou divergências científicas de fundamentação, pode-se indicar e justificar previamente as opções por paradigmas ou autores que se tomam na pesquisa.

f) Currículo Acadêmico: Apresenta histórico acadêmico do(a) pesquisador(a). Não há necessidade de descrever conteúdos de disciplinas cursadas. Pode-se acrescentar experiência profissional relevante para a pesquisa projetada.

h) Cronograma: Estabelece, ao menos de modo aproximado, as datas das principais etapas da pesquisa, redação e apresentação da dissertação ou defesa da tese.

i) Índice provisório da Redação: Descreve elementos de suporte necessários na execução da pesquisa, tais como: bibliotecas especializadas, eventuais requisições de documentação, viagens ao exterior, instrumentos específicos; indicam-se as correspondentes fontes de recursos financeiros (este item é dispensado nos casos em que a pesquisa se desenvolve na tramitação acadêmica de praxe).

j) Braço empírico da Pesquisa: Aplica-se aos projetos que incluem um núcleo empírico de pesquisa, ou pesquisa de campo. Descreve as hipóteses e métodos específicos a serem empregados na pesquisa empírica, bem como o instrumento de coleta de dados.

C. TEORIA GERAL DA COMUNICAÇÃO

1. Linguagem: o que deve ser evitado

À ordenação lógica e planificada das idéias, à argumentação sólida e coerente, à precisão do campo em que se enquadra o tema estudado e do ângulo de análise adotado, deve corresponder o emprego de vocabulário e de recursos expressivos que valorizam a ordem lógica do pensamento, a fim de torná-lo nítido e convincente. Para isso, deve-se evitar:

a) recursos de retórica emaranhados de adjetivos que nada esclarecem, bem como as longas digressões intercaladas no corpo do período que podem obscurecer a essência das idéias expostas;

b) argumentação demasiado abstrata, visto que as idéias devem ser concretizadas para o leitor através de exemplos ou ilustrações;

c) períodos excessivamente herméticos pelo acúmulo de subentendidos ou de repetições desnecessárias de conceitos elementares;

d) palavras de sentido obscuro ou múltiplo, a fim de que não haja ambigüidade na redação;

e) complexidade gratuita da linguagem ou do vocabulário; esses recursos são válidos, apenas, quando exigidos pela complexidade do próprio pensamento que se enuncia;

f) frases que se compõem, artificialmente, na ordem indireta; entretanto, o estilo não deve ser linear ou composto apenas de frases simplesmente coordenadas, porém, realçar a expressão lógica do pensamento. Elas devem brotar, espontaneamente, num conjunto que se equilibra entre coordenadas e subordinadas.

2. Linguagem: o que é recomendado:

a) Conhecer e aplicar as regras gramaticais, especialmente cuidando da concordância, pontuação, tempos verbais, etc. Na grafia, jamais abreviar palavras quando podem ser escritas por extenso (o hábito de abreviar sem necessidade pode configurar certa preguiça intelectual).

b) Escrever com estilo, demonstrando conhecimento de vocabulário adequado e de sua aplicação semântica (cada ciência possui vocabulário específico; também, e com redobrada razão, a Teologia).

c) Conhecer o autor que serve de fonte ou referência. A identificação com o pensamento do autor em seu contexto cultural e lingüístico próprios é fundamental para a credibilidade do trabalho. É preciso tratar o autor com respeito para poder compreender, antes de refutar seu pensamento.

d) Conhecer os princípios da teoria da comunicação: emissor-> código-> receptor. Aprender a decifrar o código lingüístico e a elaborar novos códigos para a transmissão da mensagem, sem falsear a verdade.

e) Conhecer a diferença entre linguagem expressiva (coloquial, emotiva, discursiva), linguagem diretiva (conduta humana, propaganda) e linguagem informativa (técnica, científica, transmissora de conhecimento). Falamos com liberdade; ao escrever, porém, observamos regras gramaticais que, no caso da Língua Portuguesa, são bastante exigentes.

C1 – A MECÂNICA DA COMUNICAÇÃO

Uma Dissertação ou Tese é um texto científico-teórico. Exige, por isso mesmo, raciocínio dedutivo o que, por sua vez, exige que se tenha condições prévias de abordagem. Essas condições podem ser fornecidas pela “Teoria Geral da Comunicação”.

Entendemos Comunicação como a “transmissão de uma mensagem entre um emissor e um receptor”.

O Emissor é a “Consciência que transmite a mensagem” (pensa-> elabora o pensamento-> (codifica)-> transmite).

O Receptor é a “Consciência que recebe a mensagem” (lê/apreende-> assimila-> (decodifica)-> compreende-> re-elabora).

A transmissão da mensagem não se dá diretamente. Precisa ser mediada. O meio é o CÓDIGO (sinais, símbolos, linguagem) que cifra a mensagem.

Código é, portanto, o meio intermediário pelo qual duas consciências se comunicam. Assim, o autor-emissor codifica a mensagem depois de a mesma ser pensada e concebida e o leitor-receptor decodifica a mensagem, assimilando, compreendendo e personalizando (tornando sua) a mensagem recebida.

Problema: Nossa questão é: como decodificar satisfatoriamente a mensagem? Sabemos que nem sempre ela chega “pura”, pois há interferências e variantes, interesses culturais, sociais, pessoais, históricos e ideológicos. Hoje, de modo especial, cria-se dependência para vender; aliena-se para dominar… O código é altamente manipulável. O que, de fato, pode garantir uma decodificação correta, ou a mais próxima possível da verdade?

Caminho de solução:

a) Conhecer a língua na qual a mensagem está sendo transmitida.

b) Conhecer o estilo literário, a biografia do autor, sua personalidade, sua cultura…

c) Conhecer o espaço geográfico, o tempo histórico, as condições sócio-culutural-religiosas…

d) Possuir recursos metodológicos para desideologizar a mensagem: conhecimento (epistême), discernimento (hipomonè), crivo crítico (crinein).

II – ESTRUTURA DA MONOGRAFIA: DISSERTAÇÃO OU TESE

1. Esquema: O pesquisador não se põe a caminhar na estrada, aleatoriamente. Ele deve saber, de antemão, o objetivo de sua jornada, conhecer os graus de dificuldade do caminho, os parâmetros norteadores dos passos a serem dados, a luz com a qual iluminará esses mesmos passos… A primeira providência, portanto, é ter o “mapa da estrada”, isto é, o Esquema do Trabalho a ser elaborado. Quem inicia uma pesquisa deve, sistematicamente, debruçar-se sobre o esquema, criticá-lo, confrontá-lo, aprofundá-lo, até sentir que corresponde ao projeto sonhado. FERRUA, Valério, propõe três momentos distintos na construção do esquema[8]:

a) Ambientação geral: Tanto sob o plano histórico quanto sob o teorético, deve oferecer uma visão panorâmica que coloque o pesquisador no argumento específico. Esse é o papel do Primeiro Capítulo ou, pelo menos, da Apresentação ou Introdução. Em qualquer caso, deve conter o enunciado do que se pretende tratar: é o que podemos chamar de Tese.

b) Impostação: Cada área ou tema fará emergir o itinerário próprio, com seus cânones, meios e referências também próprias. Deve-se, no entanto, estar atento ao princípio universal da lógica: progredir sempre do genérico ao específico, do mais conhecido ao menos conhecido, do confuso ao distinto; nunca aceitando como certo ou verdadeiro o que é apenas provável ou hipotético. É o Corpo do Trabalho onde se desenvolve a idéia enunciada. É a Antítese, ou fase de fundamentação lógica do tema: explica, discute e demonstra racionalmente o assunto. Nesse ponto, é preciso enunciar as Partes, os Capítulos, os Títulos das Partes e dos Capítulos com seus subtítulos, itens e sub-itens, escolhendo para isso um sistema numérico ou alfa-numérico.

c) Conclusão: É o “fechamento” do trabalho. Será válida quando for demonstrativa, isto é, quando evidenciar que, o que foi proposto na Introdução, de fato foi demonstrado ou comprovado. Na conclusão nunca entram elementos novos, mas somente aqueles que foram tratados no correr do trabalho. É a Síntese que, pela sua própria natureza, permite uma boa dose de reflexão pessoal.

2. Esquema quanto à Linguagem: toda monografia científica – dissertação ou tese – se classifica como Texto Dissertativo e, para sua elaboração, é necessário aplicar termos referentes à linguagem de alto nível, isto é: vocabulário preciso, construção de orações em sua forma culta, correção gramatical, coesão de idéias e parágrafos, bem como o emprego correto destes. Tudo isso se justifica por ter a monografia como principal objetivo convencer o leitor da veracidade dos conceitos apresentados pelo escritor, ao longo do texto. Eis um modelo[9]:

Reconhecimento da estrutura

1.1 Introdução

1.1.1 Apresentação do tema

1.1.2 Definição, conceituação, explicação, características

1.1.3 Tópico frasal (idéia central)

1.2 Desenvolvimento/argumentação (corpo do texto)

1.2.1 Origens

1.2.2 Causas e conseqüências

1.2.3 Vantagens e desvantagens

1.2.4 Citações ilustrativas

1.2.5 Fontes de informação

1.2.6 Comparações

1.2.7 Outros

1.3 Conclusão

1.3.1 Retomada da Introdução

1.3.2 Síntese do desenvolvimento

1.3.3 Prospectivas

3. Análise das Fontes: O pesquisador, como um arqueólogo, anseia por aproximar-se, o mais possível, do objeto a ser pesquisado. Anseia pela fonte original. Assim, se compreende porque devemos submeter a base documental a uma crítica textual, a fim de garantir a cientificidade de sua natureza: se é um arquétipo ou se é uma cópia. A crítica textual pode ser externa ou histórica, enquanto capta o valor do texto e o reconstrói na forma mais próxima da original possível. Enquanto externa, olha para o autor, para a datação, para o lugar de procedência, para as circunstâncias e peripécias históricas do documento. Pode, também, ser interna ou literária, enquanto – olhando diretamente sobre o texto – oferece ao pesquisador a mensagem autêntica do documento. É a primeira fase da hermenêutica que deve levar com segurança ao conhecimento objetivo. As fontes escritas ou documentais podem ser:

a) Primárias: Originais, próximas das originais ou fidedignas. Exemplo: MIGNE, J. P. Patrologiae Graecae. Paris; MIGNE, J. P. Patrologiae Latinae. Paris. Publicação feita no século XIX e que contém os escritos dos Padres Gregos e Latinos. É uma fonte fidedigna, usada freqüentemente pelo Magistério da Igreja, inclusive pelo Concílio Ecumênico Vaticano II. Um outro exemplo pode ser obtido junto à fonte primeira dos próprios documentos do Magistério Eclesiástico. Trata-se das Acta Apostolicae Sedis que contém os documentos na íntegra, na língua em que foram redigidos, portanto sem tradução. Cita-se, por exemplo: SACROSSANCTUM CONCILIUM OECUMENICUM VATICANUM II. Constituto Dogmática De Divina Revelatione Dei Verbum (18/11/1965) in: AAS LVIII (5/11/1966) 817-836. Podemos citar ainda SANCTI THOMAE AQUINATIS. Summa Theologiae; CELAM. IV Conferência Geral do Episcopado Latino Americano. Nova Evangelização, Promoção humana e Cultura Cristã, e tantas outras. No caso da pesquisa ser de uma Tese de Autor, o autor estudado e suas obras serão, evidentemente, a fonte primária. No caso da Sagrada Escritura, recomenda-se o uso freqüente da Bíblia de Jerusalém, em razão de ter sido traduzida diretamente dos originais por professores especializados e por possuir riqueza de notas exegéticas.

b) Secundárias: Traduções, Comentários, Obras Temáticas, Revistas Especializadas, Jornais (Hemeroteca). Exemplo: Quem, ao estudar Tomás de Aquino, se depara com JOSAPHAT, Carlos. Tomás de Aquino e a Nova Era do Espírito. São Paulo: Loyola, 1998, tem em mãos um comentário, portanto uma fonte secundária. No estudo de Santo Tomás, somente o próprio Santo Tomás e as fontes por ele indicadas serão fontes primárias. Outro exemplo: ao utilizar a Bíblia vertida e/ou adaptada para a linguagem de hoje, o pesquisador terá em mãos um instrumental útil – talvez – para a as atividades pastorais mas, uma Bíblia em linguagem comum, coloquial ou a-científica estará – como é evidente – muito distante da ciência exegética, de uma correta hermenêutica e, portanto, não poderá ser, em nível científico, um texto confiável.

c) Auxiliares ou Instrumentais: Dicionários, Vocabulários, Glossários, Léxicos, Concordâncias, Enciclopédias, Antologias. Exemplo: KITTEL, G. Grande Lessico del Nuovo Testamento. Brescia: 1970 (original alemão, Stuttgart, 1942); LACUEVA, F. Nuevo Testamento interlineal griego-español. Barcelona: 1985. Outro exemplo: Quem se utilizar da Chave Bíblica, Sociedade Bíblica do Brasil: s/l., 2000, não estará utilizando uma fonte primária e nem mesmo secundária, mas apenas um instrumental de localização de termos ou de temas em cada um dos versículos do Antigo e do Novo Testamentos. Esse mesmo recurso está disponível pela mídia eletrônica, como por exemplo, pelo programa Bible Works.

4. Principais partes do Trabalho:

a) Título: Em geral, o Título do trabalho sintetiza o tema que vai ser tratado. No decorrer de sua elaboração, às vezes, percebe-se que o título deve ser mudado ou aprimorado. Assim, é conveniente trabalhar com um título provisório, dando-lhe uma conformação definitiva quando o trabalho estiver pronto. O título surge depois de delimitada a área, bem como o tema. Exemplo: Área=Moral, Tema=Liberdade, Título=Livre arbítrio e manipulação. Para se chegar a um Título próximo do desejável, pode-se aplicar o método dedutivo, isto é, imaginando um Título Genérico Remoto, um Título Genérico Próximo e um Título Específico. Exemplo: Sacramentalidade Eclesiológica (Título Genérico Remoto) -> O Septenário Sacramental (Título Genérico Próximo) -> Batismo, mergulho na vida nova (Título Específico). O Manual de Metodologia da Pesquisa Científica da Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção informa que o Título Geral pode ser chamado de Título Técnico[10].

b) Subtítulo: O subtítulo explica o título, portanto, o Título contém o subtítulo que o explica. Não é um segundo título aposto ao primeiro, nem pode afirmar ou negar um tema ou assunto alheio ao que o título já sugeriu. Exemplo de um título com subtítulo: “As relações judeu-cristãs do primeiro século: contextualização histórica de Jo 9, 12-42”.

c) Partes: Próprias de Tese doutoral, as Partes dividem o Trabalho Monográfico para melhor compreensão do conteúdo. Cada Parte deve conter Introdução, Capítulos, e Conclusão. Cada Parte trata de uma dimensão relevante da temática geral, possuindo, para isso, um Título que a distingue. As partes não se colocam em conflito mas, como é evidente, estão em harmonia com o todo do trabalho, por isso mesmo, concatenadas entre si. Exemplo: Na Tese doutoral, O Teocentrismo no Barroco Brasileiro: uma análise Literária, Bíblica e Teológica do trinômio pecado-perdão-salvação na poesia de Gregório de Mattos e Guerra, a divisão das Partes ficou assim: Parte Primeira: Literatura, Teologia e História; Parte Segunda: O Corpus Poético de Gregório de Mattos e a relação com as Escrituras Vétero e Neotestamentárias; Parte Terceira: O Corpus Poético de Gregório de Matos num enfoque Sacramental: a questão da Escatologia.

d) Capítulos: Os Capítulos são unidades de leitura. É neles que acontecem o desenvolvimento e o progresso do pensamento, por isso, eles devem possuir princípio, meio e fim, isto é, Introdução, Desenvolvimento e Conclusão. Cada Capítulo recebe um título que o distingue dentro das Partes (no caso de Tese doutoral) ou no corpo do trabalho (no caso de dissertação de mestrado) e está ligado um ao outro por um pensamento linear (“fio condutor”) de tal forma que, o capítulo primeiro remete ao segundo e o segundo contempla o primeiro em seu desenvolvimento, e assim sucessivamente. O Manual da Metodologia de Pesquisa Científica da Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção (já citado), lembra que os Capítulos podem possuir Subtítulos, Itens e Sub-itens.

4.1 Equilíbrio entre as partes do Trabalho Científico: Convém, sem prejuízo do conteúdo e para manter a estética, que a monografia científica ofereça ao leitor certo equilíbrio entre suas partes: Introdução, Desenvolvimento, Conclusão. BECKER et alii sugerem a seguinte proporção quantitativa: 10% para a Introdução, 80% para o Desenvolvimento (distribuídos pelos Capítulos) e 10% para a Conclusão. Segundo os mesmos autores, no caso da proporção da Introdução subir para 20%, restaria, então, 60% para o Desenvolvimento e 20% para a Conclusão[11]. Penso, porém, que a conclusão, por ser o fechamento do Trabalho e o local próprio das propostas de solução da problemática discutida – o local próprio das prospectivas – merece ter uma porcentagem maior que a da Introdução. Seria, então, aceitável: 10%, 75% e 15%. (?)

5. Resumo ou abstract: Um trabalho de término de curso ou de mestrado deve ser acompanhado de um resumo curto, no máximo de 300 palavras. A tese de doutoramento, porém, deve ser acompanhada de um resumo de no máximo 500 palavras. Este resumo contém uma proposição da finalidade do estudo, uma indicação das contribuições particulares e especiais ao campo geral de estudos e um sumário dos resultados específicos encontrados ou das conclusões. O resumo não deve ser uma coleção de partes extraídas da tese. Deve ser digitado no mesmo papel em que o trabalho é apresentado, com os mesmos cuidados e possuir no inicio, na primeira folha, o nome do autor e o titulo do trabalho. Uma cópia do resumo deve ser encadernada juntamente com a dissertação ou tese.

NOTAS

[1] Participaram da preparação desse trabalho os seguintes pós-graduandos: Ariel Alberto Zottola, Claudinei Antonio da Silva, Gideon José de Oliveira, João Francisco Moreno Teixeira, José Bartolomeu dos Santos, José Edivaldo Melo, José Henrique do Carmo, Josué Vieira Santos, Leonildo Pirazo de Oliveira, Maria José Junqueira Guimarães, Odair Eustáquio Ribeiro Gomes, Oldeir José Galdino, Rejanete Roselis Grosz, Welen Lopes da Silva e Xiao Shihui .

[2] FABRI DOS ANJOS, Márcio e SOUZA, Ney (org.) Metodologia da Pesquisa Científica. São Paulo: Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção (julho/2004) 7-8 (mecanografado).

[3] Vide item sobre Teoria Geral da Comunicação.

[4] De fato “a redação acadêmica apresenta problemas peculiares, dada sua natureza formal, linguagem necessariamente precisa e absoluto rigor técnico, lingüístico, morfossintático e semântico requeridos”. In: ATHAYDE, Públio. Manual para redação acadêmica. Belo Horizonte: Keimelion, 2002, p. 1 (mecanografado)

[5] Vide nota anterior.

[6] Segundo QUINTANILLA, Miguel Angel. Breve Dicionário Filosófico, Aparecida: Santuário, 1996, p. 218, a distinção entre objeto formal e objeto material foi herdada da Escolástica e significa: o objeto material é o tipo de realidade da qual se ocupa uma ciência (pergunta o que); o objeto formal é o aspecto sob o qual uma determinada ciência considera o objeto material (pergunta sobre o como).

[7] ATHAYDE, Públio. Manual para redação acadêmica. Belo Horizonte: Keimelion, 2002, p. 46 (mecanografado)

[8] Manuale di Medologia: guida pratica allo Studio allá Ricerca allá Tesi di Láurea. Torino: PIEMME, 1991, p. 25

[9] Citado pela Professora Dra. Geni Bertoni Nimtz do Grupo de Pesquisa Teologia e Literatura do Programa de Pós-Graduação da Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, São Paulo (http://geocities.yahoo.com.br/sonhosebuscas/).

[10] Op. cit. p. 33

[11] BECKER, Fernando, FARINA, Sérgio, SCHEID, Urbano. Apresentação de trabalhos escolares. 13a. ed. Porto Alegre: Multilivro, 1993.

Sobre conegoadriano

Doutor em Teologia Moral, professor, Sacerdote
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