Diaconia e Mística do Serviço

ESPIRITUALIDADE, DIACONIA E MÍSTICA DO SERVIÇO

Introdução/definição:

Espiritualidade é “viver segundo o Espírito” (Rm 8,4). É compreender, no dizer do Apóstolo Paulo, que o homem carnal (sarx) e o homem psíquico (psiqué) são superados pelo homem espiritual (pneuma). Essa superação é um processo, um caminho no qual se caminha segundo o Espírito. Na verdade, o homem está sempre a caminho para a consecução de sua plenitude (homo viator, segundo a expressão de Gabriel Marcel).

Em Cristo, somos novas criaturas; vale dizer: homens espirituais. O sentido da vida é dado não pelos impulsos naturais (embora eles estejam presentes), não é dado somente pela razão (embora seja de grande importância), mas é dado pelo Espírito de Deus que habita em nós (viver segundo Deus, identificado com Cristo na força do Espírito).

A espiritualidade, assim, é uma aventura da fé! Não para fugir, mas para encontrar… É a vivência concreta da alegria pascal (nova criatura). Não é uma aventura solitária, individual, mas eclesial/comunitária (freqüentemente, o caminho espiritual é apresentado como uma cultura de valores individuais, orientada para o aperfeiçoamento interior. Nesse sentido, é mais um espiritualismo do que uma espiritualidade).

O caminho:

O livro dos Atos dos Apóstolos designam o cristianismo como “o Caminho” (hodós). O termo “caminho” designa os cristãos (“confesso que, seguindo o Caminho – katà ten hodón – sirvo ao Deus de meus pais, guardando minha fé em tudo o que existe na Lei e está escrito nos Profetas”, At 24,14). É o Caminho da Salvação (At 16,17); Caminho do Senhor (At 18,25); Caminho de Deus (At 18,26).

A espiritualidade é o terreno da liberdade do Espírito (Liberdade dos Filhos de Deus, Rm 8,21). É encontro com Deus que se dá no caminho. Encontro amistoso (já não vos chamo servos, mas amigos, Jo 15,15). Não é encontro casual, mas busca. Deus e o homem se buscam e, nessa busca, a iniciativa é sempre de Deus (Não fostes vós que me escolhestes, fui eu que escolhi a vós… Jo 15,16). A Procura de Deus é o sentido definitivo de toda a espiritualidade.

O caminho é um itinerário de fé, onde se crê para compreender e se compreende para crer (Santo Anselmo, 1033-1109). Daquele que crê, transbordarão rios de água viva (cf. Jo 7,38). Nesse itinerário, experimenta-se e convive-se com o Senhor (Mestre, onde moras? … Venham e vejam! Eles foram e começaram a viver com ele… era a hora décima, Jo 1,35s).

A hora é registrada, a lembrança do encontro permanece e testemunha a presença daquele que foi encontrado. (Será a décima hora para nós, um momento forte, um kairos de nossa existência?). Só caminha nessa estrada quem responde ao chamado do Siga-me (Jo 8,12). Os discípulos seguem em silêncio… silêncio carregado de sentido, porque o seguimento é já adesão de fé e de aceitação de suas conseqüências (cf. Jo 8,39).

Chamamos esse caminho de espiritualidade, pois é um caminhar segundo o Espírito (cf. Rm 8,4). Espírito é sopro de Deus, dinamismo, vida (cf. Rm 8,10). A vida do Espírito é fecunda; seus frutos são: caridade, alegria, paz, longanimidade, afabilidade, bondade, fidelidade, mansidão… (cf. Gl 5,22-23). O múnus próprio do servidor é o caritativo. A caridade, de fato, é o único dom que permanecerá (cf. 1Cor 13). A força do Espírito é o amor para a edificação da Igreja (A manifestação do Espírito é dada a cada um com vistas ao bem comum, 1Cor 12,7). O Espírito/Amor nos faz irmãos (O Espírito, em pessoa, junta-se ao nosso espírito para testificar que somos filhos de Deus (Rm 8,16) e nos permite chamar a Deus de “Pai” (Gl 4,6). Assim, filiação e fraternidade são as duas dimensões de uma vida centrada no Espírito.

É no “caminho”que somos chamados e agraciados pelo dom do Espírito. É no “caminho” que encontramos o Senhor, a ele aderimos e a ele seguimos. Ao segui-lo, o descobrimos na oração, na intimidade da nossa consciência, nos acontecimentos de nossa existência e o reconhecemos e, com ele, comungamos definitivamente no partir o pão (Emaús). É no “caminho” que carregamos a cruz, sofremos, somos perseguidos, damos o testemunho. O caminho não é outro senão o próprio Senhor Jesus, Caminho, Verdade e Vida.

Espiritualidade diaconal (a espiritualidade do servidor de Cristo)

O Livro dos Atos dos Apóstolos (6,3-6) narram a instituição dos Sete Diáconos, homens estimados e cheios do Espírito e de sabedoria … e escolheram Estevão, homem cheio de fé e do Espírito Santo, Felipe, Prócoro, Nicanor, Timon, Pármenas e Nicolau, prosélito de Antioquia. Eles servem à mesa (caridade) e pregam a Palavra (Estevão). Como sacramento, o diaconato é uma realidade que pertence à História da Salvação. O próprio Jesus, chegada a plenitude dos tempos, foi enviado pelo Pai como diácono (servidor) de sua vontade.

Assim como o Cristo, o diácono é um servidor. A identidade do dom do Espírito Santo é sinal da identidade de sua missão. Com o Apóstolo Paulo, podemos afirmar que os ministros da Igreja “são servidores de Cristo e dispensadores” (oikonomoi) dos ministérios de Deus, isto é, estão a serviço da realização histórica do desígnio da salvação. São os “diáconos da Nova Aliança”, colaboradores (synergoi) de Deus (1Cor 3,9), servidores (diakonoi) de Deus (1Ts 3,2) na obra da salvação; existem para realizar a obra de Deus (1Cor 16,10).

O diácono deve ser honrado como a Cristo, diz Santo Inácio de Antioquia. Assim, mais do que participação no serviço de Cristo, o diácono é seu “ícone” (símbolo, imitação, imagem, figura, semelhança, representação, sacramento …) porque o personifica com o serviço da caridade, do altar, dos sacramentos, da pregação e do testemunho. Por isso, o gesto que qualifica ao serviço diaconal imprime “caráter”, é um sacramento. A presença de Cristo em seu ministro é uma presença sacramental (e não jurídica ou moral), portanto é uma “presença real”. Cristo age através dos gestos e palavras de seu ministro que lhe empresta seu ser, seus braços, seus lábios, seu coração … Isso converte o ministro em servidor (diakonos) e servo (doulos) Rm 1,1; 1Cor 4,1.

A espiritualidade do diácono é, pois, a espiritualidade do Cristo servidor: O Filho do Homem não veio para ser servido mas para servir e dar a sua vida em resgate pela multidão dos homens (cf. Mc 9,35; Mt 23,11; Lc 22,26-27). O Concílio Vaticano II utilizou a categoria de “serviço” como uma das chaves interpretativas fundamentais de sua doutrina sobre os ministérios, isto é, os ministérios são definidos pela diaconia/serviço o que implica que o diaconato é o que melhor caracteriza os ministérios, os dons e os carismas na Igreja.

Policarpo de Esmirna diz a respeito dos diáconos: “devem caminhar segundo a verdade do Senhor, que se fez diakonos de todos (cf. Fil 5,2). Diakonein, nos lábios de Jesus, significa antes de tudo servir à mesa: na antiguidade, tarefa de escravos. Por isso “tomou ele a condição de escravo (doulos) – Fl 2,7 – e encarnou em sua pessoa a missão e a sorte do Servo de Iahweh (Is 49,53). O diácono, pois, está a serviço do Senhor que se fez servo de todos. Trata de imitá-lo em seu comportamento e, em virtude da graça da ordenação, o representa, ou seja, atualiza e torna visível na Igreja essa dimensão fundamental do mistério de Cristo: sua diaconia.

Mística do serviço e do testemunho

Dentro do sentido mais amplo da espiritualidade, a mística é a experiência transcendente, ao mesmo tempo pessoal e histórica, do encontro com o Senhor. Cristo é experimentado na alegria do servir com gratuidade, na oração da fé, no testemunho da esperança. Karl Rahner afirma que “o cristão do futuro ou será místico, isto é, pessoa que experimentou algo, ou não será cristão”. Sentir-se “embaixador” de Cristo (2Cor 5,20) e animador de seu corpo que é a Igreja, a fim de purificá-la e aperfeiçoá-la (Ef 4,12) deve ser para o diácono uma profunda experiência de Deus na própria vida.

Cristo-Servo é experimentado e vivido ao “tomar sobre si o pecado e a miséria humana” (cf. Is 53, 3-5); ao inclinar-se afetuoso sobre cada necessidade concreta (cf. Lc 10,33-34); ao imolar-se e “dar a própria vida” (cf. Mt 20,18); ao testemunhar seu amor “até o fim” (cf. Jo 13,1). O diácono/servidor entenderá/viverá sua mística quando puder dizer com o Apóstolo: Não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim! (Gl 2,20).

A pessoa, uma vez ordenada, será sempre um servidor, mais ainda, um Cristo-servidor, seja na comunidade, em sua atuação na sociedade mais ampla, nos encargos pastorais, caritativos e sociais, seja na família, no lazer ou em qualquer outra circunstância. “Consagrado ao serviço”, não é pessoa privada, mas pública. Será sempre visto e reconhecido como o “homem da Igreja”, o homem da caridade, o animador dos irmãos, o conselheiro… aquele que é capaz de testemunhar com alegria e fidelidade a causa que prega, defende e vive.

Não há uma lógica para o místico. Parece impassível diante das crises do mundo, recusa-se a deixar-se neurotizar, sua loucura é outra; contra toda esperança, ainda espera; contra toda lógica, ainda crê… O falar de Deus se transforma em silêncio adorante; a contemplação é seu deleite, o serviço sua ascese…

 Côn. Dr. José Adriano

Sobre conegoadriano

Doutor em Teologia Moral, professor, Sacerdote
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