Éthos como Arqué da Religião e da Ética

1. Éthos, uma questão antropológica

Existe um éthos cristão ou uma maneira cristã de viver a realidade ou de “ser no mundo?”.

“Éthos”, como sabemos, é o modo de o homem morar no seu ser. Evoca o modo de ser do homem a partir do seu originário, da sua identidade. Christos Yannaras afirma ser a hipostásis, a natureza do ser. Há, pois, segundo esse autor, uma hipostásis cristã, uma natureza ou um modo de ser próprio do cristão no mundo.

O originário e decisivo do éthos não é o racional, mas o inefável, o mistério. Sua substância é o espírito de liberdade, a gratuidade, a inefabilidade. Não é sem razão que a maior obra do humano é o amor. O éthos, pois, é a casa do amor humano!

A novidade do éthos cristão está na pessoa de Jesus Cristo e seu mistério, que ilumina a existência humana deste mundo em suas dimensões de criada e reconciliada, marcada pelo Espírito, integrada na construção da “morada de Deus”. A práxis da caridade, pois, enquanto práxis moral, é a marca indelével do éthos cristão.

O domicílio do éthos é o homem vivo em caminho com os outros. No centro de toda a complexa estrutura de fatos e observações, conceitos e pensamentos, está morando o homem em sua pluralidade. Eis o sentido da alteridade e de toda antropologia subjacente à toda religião e à toda ética.

2. O éthos e o ser humano

O homem é uma verdade existencial ou uma real e concreta existência (hipóstase). Antes de ser uma valoração social e objetiva, ele é SER. A nossa ética ocidental não costuma perguntar pelo dado ontológico, nem perguntar pela verdade e pela realidade da existência humana, o que o homem realmente é, e não somente o que e como ele deve fazer (perguntamos sempre pelo fazer e não pelo ser!).

Isso se torna um álibi para o homem esconder-se de seus problemas existenciais, da tragédia da sua existência biológica mortal, vestindo, pois, uma máscara de comportamento.

3. Éthos e verdade

O éthos humano é sempre identificado com a verdade existencial do homem. O éthos não é uma medida objetiva para avaliar o comportamento, mas é resposta dinâmica da liberdade pessoal à verdade e à autenticidade existencial do homem.

O éthos se refere, portanto, a salvação do homem. A possibilidade do homem salvar-se (em Cristo) demonstra e cumpre integralmente a possibilidade da existência e da vida. A sede da existência humana (a ânsia de viver) é para a salvação e não apenas para redimensionar comportamentos humanos.

É preciso se perguntar pelo homem. O homem não é só indivíduo biológico. É alteridade, única e irrepetível. A alteridade é a expressão da sua estrutura corpórea, da palavra, do pensamento, da sua capacidade criativa do seu amor. Alteridade é a individuação única e original da pessoa diante de outras pessoas, também elas únicas, originais e irrepetíveis.

Na teologia sacramentária, pois, o ponto de partida ético-antropológico é a Revelação (se fala do ântropos como éthos). Aceitar a Revelação é aceitar a verdade do ser, da sua causa fontal.

4. O éthos da comunhão trinitária

Deus não é um ente supremo, indefinido, impessoal, que se atinge apenas pelo intelecto. Deus não é um ser mecânico, primeiro motor imóvel que tudo movimenta (cf. Aristóteles). A Igreja faz a experiência de Deus que se revela dentro da história como existência pessoal, alteridade e liberdade. Deus é pessoa e enquanto tal fala com o homem face a face (Ex 33,11). Alteridade de Deus é notória quando fala a Moisés na sarça ardente: “Eu sou aquele que É” (Ex 3,14). É o Alter por excelência, o Outro totalmente outro!

É o amor (de Deus) que dá sentido ao ser e revela a verdade do éthos. A verdade do éthos é, pois, equivalente à verdade do ser. Deus é um em três pessoas, é comunhão. Esse é o modo pelo qual Deus É e revela o éthos da vida divina. Quando João (1Jo 4,16) diz que “Deus é Amor” não se refere a uma propriedade parcial do comportamento divino, mas ao que Deus é como plenitude de comunhão trinitária pessoal.

O amor se manifesta como categoria ontológica por excelência, a única possibilidade existencial (o Amor é a única possibilidade de Deus ser). Deus, ao dar hipóstase (realidade, existência), constitui o seu ser. Não por acaso Cristo colocou o Amor como mandamento único no centro da Religião.

5. O éthos do homem, ícone de Deus.

Cada homem é uma pessoa única e irrepetível. É uma alteridade essencial. Todos os homens possuem uma natureza ou essência comum (humanidade), mas que existe somente como alteridade pessoal. A humanidade se realiza em cada homem concreto: pessoa humana.

Esse modo de existência que é a alteridade pessoal, constitui a imagem de Deus no homem, (imago Dei) o que torna o homem partícipe do ser. O homem é a imagem de Deus por ser pessoa, isto é, é uma hipóstase ontológica livre das categorias de espaço, tempo ou necessidades naturais. Como imagem ele não está determinado; é um ser livre em sua alteridade.

O homem foi criado para comunicar o modo pessoal da existência, isto é, a vida de Deus. O homem é criatura mortal na qual Deus imprimiu sua imagem, soprou um hálito de vida (Gn 2,7). Assim, a individualidade biológica de cada homem não esgota aquilo que o homem é: realidade de vida eterna.

A realidade do homem (seu SER), pois, tem origem no modo pelo qual Deus dá existência pessoal ao ser. O homem é existência de uma palavra de alteridade pessoal, de um amor livre de toda determinação. Assim, o homem pode, em liberdade, aceitar ou negar o pressuposto ontológico da sua realidade; pode negar a liberdade do amor e da comunhão pessoal; pode dizer NÃO a Deus e auto-excluir-se do ser (eis o conceito de pecado!). É, pois, a verdade da relação pessoal com Deus (positiva ou negativa) que define eticamente o homem.

6. Ética da pessoa e ética do indivíduo

A alteridade pessoal constitui a imagem de Deus no homem. O modo da existência de Deus e o modo da existência do homem são comuns, isto é, o éthos da vida trinitária foi impresso na existência humana (imagem e semelhança).

O éthos manifesta, antes de tudo, o que o homem é enquanto imagem de Deus, ou seja, enquanto pessoa. Manifesta, também, aquilo que o homem se torna através da aventura da liberdade: existência alienada ou existência à “semelhança de Deus”.

7. A ignorância da verdade da pessoa.

Não é possível que a imagem de Deus corresponda à concepção individual do homem, às características objetivas da realidade natural e, portanto, a uma “parte” da natureza individual, pois o homem é comunhão de corpo e alma (Gregório de Nissa, La creazione dell’uomo, 16 (PG 44, 185). A imagem não corresponde só à alma nem só ao corpo, mas à pessoa: o homem como existente real, como ser).

A ignorância da verdade da pessoa na reflexão teológica, inevitavelmente provoca a criação de uma ética exterior e legal. Entendendo-se, por isso mesmo, que o problema moral do homem não é mais o problema essencial (salvação das necessidades naturais), mas um pseudo problema de obrigações objetivas que permanecem existencialmente injustificadas (uma lei sem saída).

Em síntese, o éthos é livre quando é verdadeiro e quando manifesta a verdade ontológica do homem. Essa existência contém em si a imagem e semelhança de Deus, cujo éthos não é a essência ou a natureza de Deus, mas o modo de Deus ser em existência trinitária. Todo outro éthos, diferente desse, só pode ser um éthos de submissão legal, um conformismo que nega a verdade última do homem.

É como pessoa e não como indivíduo que o homem vive na verdade. Pessoa é um ser de comunhão e de amor. Esse éthos-pessoa se realiza em Cristo e na Igreja. De outro modo, segundo o autor, está presente o pecado do egoísmo.

O mundo será julgado por tal éthos. O éthos formal, individual, legal e egoísta, pensa, hoje em dia, estar julgando Deus, a Igreja e os homens de bem. É o éthos da exterioridade e do imediatismo. O éthos do ser (de Deus e do homem), portanto éthos ontológico e amoroso é que julgará, de modo definitivo e único, o homem enquanto homem-pessoa e não apenas os seus atos impregnados de psicologismos e sociologismos.

Côn. Dr. José Adriano

Sobre conegoadriano

Doutor em Teologia Moral, professor, Sacerdote
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