Eucaristia, o Sacramento do Mistério Pascal

SACRAMENTUM: sinal sagrado e visível das promessas divinas, mediação entre Deus e o homem (já é, para nós, um mistério Deus nos falar através das coisas sensíveis ou das realidades criadas)

MYSTÉRION: Mistério, o que foi revelado (em Cristo), mas ainda não totalmente captado (por nós). “Mistério escondido desde toda a eternidade, revelado em Jesus Cristo e apreendido e vivido por nós no correr da existência e da experiência da vida comunitária”. É Mistério, sabedoria que o Pai quis revelar aos pequenos…

Esse mistério não é outro senão o mistério pascal. Santo Tomás dizia que “os sacramentos nascem do lado aberto de Cristo na cruz”, isto é, de sua morte e de sua ressurreição. Assim, nada em nossa vida cristã, tampouco os sacramentos, podem prescindir do Mistério Pascal. Cada gesto, cada sinal sagrado, manifesta a íntima ligação com o Senhor Ressuscitado que vive em sua Igreja. Sinal e mistério pascal estão intimamente unidos em cada sacramento, por exemplo:

1) Mistério da vida nova que vem da água no Batismo. O Batismo é um mistério, o mistério da vida e da morte: na criação o Espírito pairava sobre as águas, pois ainda não havia vida, Dizem os Santos Padres que o Espírito Fecundou as águas para que daí nascesse a vida; no Dilúvio a morte na água e a salvação de Noé como promessa de vida nova; morte nas águas do mar vermelho para Faraó e Libertação para Moisés e seu Povo; No Jordão, o Espírito que vem, o Pai que fala, a morte do pecado, a vida para o pecador …

2) Mistério da força e da coragem para o testemunho no Crisma. Pentecostes, o Espírito que o Ressuscitado enviou à Igreja. Dador dos sete dons, o Mistério inefável, mestre da verdade, alma da Igreja, consolador…

3) Mistério do amor e da co-criação no matrimônio. As núpcias do Cordeiro, a Jerusalém celeste, preparada qual esposa para seu esposo, a Igreja, sua bem-amada. Imagens carregadas de fecundidade, porque mistéricas.

4) Mistério de ser para o outro no Lava-pés. A ordem como serviço de Deus para o Povo, para a Eucaristia. Serviço sacerdotal: Moisés com o cajado na mão, conduzindo o povo para a liberdade; Serviço crístico (alter Christus): o Cordeiro imolado, sendo a própria libertação, serviço do “fazer” e do “partilhar” o pão que é o Cristo, pão partido para a vida do mundo, pão do céu, pão dos pobres…

5) Mistério da acolhida, do recomeço, da reconciliação no Perdão. O “ressuscitar” do pecador arrependido, convertido e perdoado. O mistério da Lógica de Deus: o Filho que volta, o Pai que recebe e faz festa…

6) Mistério da cura e da vida futura na Unção. Um horizonte de eternidade, diante da efemeridade da vida, vivida, gasta, sofrida, entregue ….por uma outra: eterna e feliz.

7) Mistério do Pão multiplicado e partilhado na Eucaristia. No pão ázimo não está mais simbolizada apenas a “fuga do Egito, a travessia do Mar Vermelho e o sofrimento no deserto”. Consagrado sinal sensível, misterioso, pois contém o que simboliza, o pão agora realiza a própria conquista da Terra Prometida, onde corre “leite e mel”, a “terra sem males”. No pão multiplicado é saciada a fome dos pequenos (fazei vós o mesmo…), no pão partilhado o ressuscitado é reconhecido: “É o Senhor…”![1]

EUCARISTIA[2]: Por que a Eucaristia é Mistério Pascal?

Respondendo com o Catecismo da Igreja Católica (nºs 1322-1405), podemos dizer:

Porque ela contém e é o próprio Cristo, nossa Páscoa (SC 47). Ela, a Eucaristia, se situa entre a morte e a ressurreição de Jesus. É o centro e o núcleo da sacramentalidade da Igreja. Ecclesia, assembléia, reunião dos fiéis em torno do pão manducado e do vinho degustado. É o epicentro da vida eclesial, em torno do qual gravitam os demais sacramentos, os dons, carismas e ministérios, a evangelização, a missão e a pastoral. Tudo converge para a Eucaristia e tudo dela se depreende.

Porque identifica a presença de Cristo entre nós. Os discípulos, e nós, o reconhecemos no gesto de partir o pão (Emaús). Jesus é quem preside a Eucaristia, sua Presença, porém, é velada, invisível, misteriosa… todavia, sentida e assumida na fé e na partilha.

Porque é comunhão, é Banquete Pascal. Os que comem do único pão partido – Cristo – entram em comunhão com Ele e formam um corpo com Ele. Os que comem o pão juntos se tornam cum-panis, companheiros. Assim, acolher na fé o dom da Eucaristia é acolher o próprio Jesus. A comunhão aumenta a nossa união com Cristo: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele” (Jo 6,56). A vida em Cristo tem seu fundamento no Banquete Eucarístico: “Assim como o Pai, que vive, me enviou e eu vivo pelo Pai, também aquele que de mim se alimenta viverá por mim” (Jo 6,57).

Porque é memorial da paixão, morte e ressurreição do Senhor. Ao instituir a Eucaristia, Jesus fez dos apóstolos partícipes de sua páscoa, ordenando que continuassem a fazer até a sua volta. Assim, Jesus o Sacerdote fez a Eucaristia e a Eucaristia fez dos apóstolos sacerdotes da Nova Aliança (“Fazei isto em memória de mim” – 1Cor 11,24-25).

Porque nos fala da abundância do amor de Deus: o milagre da multiplicação dos pães para alimentar as multidões, prefigura a superabundância desse único pão de sua Eucaristia. Também o sinal da água abundantemente transformada em vinho em Caná, anuncia a glorificação de Jesus: anuncia a ceia das bodas no Reino do Pai, onde beberemos o vinho novo do sangue de Cristo.

Porque é história de salvação. De celebração em celebração, anunciando o Mistério Pascal de Jesus “até que ele venha” (1Cor 11,26), o povo de Deus em peregrinação “avança pela porta estreita da cruz” (AG 1).

Porque é sacrifício. “Corpo entregue por nós…”; “sangue por nós derramado” (Cf. Lc 22,19-20). O sacrifício de Cristo e o sacrifício da Eucaristia são um único sacrifício. Esse único sacrifício é também o sacrifício da Igreja, seu corpo: a vida dos fiéis, seu louvor, seu sofrimento, sua oração, seu trabalho, são unidos ao de Cristo e à sua oferenda total, e adquirem valor novo…

Porque a presença de Cristo no Pão e no vinho é uma presença real, total, isto é, totalmente presente com sua natureza humana e sua divindade. Santo Tomás dizia: A presença do verdadeiro corpo de Cristo e do verdadeiro sangue de Cristo neste sacramento “não se pode descobrir pelos sentidos, mas só com a fé, baseada na autoridade de Deus” e, S. Cirilo declarava: “não perguntes se é ou não verdade; aceita com fé as palavras do Senhor, porque ele, que é a verdade, não mente”.

Porque a Eucaristia faz a Igreja[3]. Pela Eucaristia (homens e mulheres eucaristizados) estão intimamente unidos num só corpo que é a Igreja: “Há um único pão, nós, embora muitos, somos um só corpo, visto que todos participamos desse único pão” (1Cor 10,16-17).

Porque a Eucaristia tem uma dimensão social. Ela compromete com os pobres. Para receber na verdade o Corpo e o Sangue de Cristo entregues por nós, devemos reconhecer o Cristo nos mais pobres, seus irmãos (cf. Mt 25,40). São João Crisóstomo assim se expressava: “Degustaste o Sangue do Senhor e não reconheces sequer o teu irmão. Desonras esta própria mesa, não julgando digno de compartilhar do teu alimento aquele que foi julgado digno de participar desta mesa. Deus te libertou de todos os teus pecados e te convidou para esta mesa. E tu, nem mesmo assim, te tornaste mais misericordioso”.

Porque é Penhor da glória futura. A Missa antecipa a liturgia celeste e a glória futura. É promessa de Jesus: “Desde agora não mais beberei deste fruto da videira até aquele dia em que convosco beberei o vinho novo no Reino de meu Pai” (Mt 26,29). Toda vez que a Igreja celebra a Eucaristia lembra-se desta promessa, e seu olhar se volta para “aquele que vem” (Ap 1,4). Em sua oração, suspira por sua vinda: “Vem, Senhor Jesus” (Ap 22,20). Santo Inácio de Antioquia dizia: “partimos um mesmo pão, que é remédio de imortalidade, antídoto não para a morte, mas para a vida eterna em Jesus Cristo”.

EUCARISTIA, A FESTA PASCAL

A VIDA: A Catequese Renovada[4] informa que:

“A Eucaristia é a renovação da Aliança do senhor conosco, seu Povo; perpetua o sacrifício da Cruz, realizando de modo contínuo a obra da Redenção; é sacramento de piedade, sinal de unidade, banquete pascal, em que Cristo nos é dado, força para nossa caminhada, antecipação dos bens futuros. Ela contém todo o bem espiritual da Igreja e a ela se ordenam todos os demais sacramentos e todos os ministérios eclesiais. Por ela deve iniciar-se toda a educação ao espírito comunitário, pois significa e realiza a unidade da Igreja. Por ela a Igreja continuamente vive e cresce, fazendo acontecer sempre mais a Aliança em Cristo com Deus e provocando-nos para o amor-justiça, tanto para a partilha dos bens e dos dons, como para a entrega de nós mesmos, até ao martírio, se preciso for, a exemplo do Mártir Maior, Jesus Cristo.

Por isso, a Eucaristia é o centro e o ponto culminante de toda a vida sacramental, fonte e ápice de toda a vida cristã e de toda a evangelização, raiz e centro da comunidade cristã.

Como fonte, a Eucaristia é dom inesgotável de Deus; como ápice, é a meta proposta de toda a comunidade. Entre o dom e a realização do ideal, há uma caminhada a ser feita pelos cristãos: é o caminho da integração fé-vida, da realização da “comunhão” no dia-a-dia, é a celebração da Liturgia da vida.

Assim a comunidade cristã deve celebrar a Eucaristia principalmente no domingo, como Dia do Senhor[5], celebração da Páscoa semanal, fundamento e núcleo do Ano Litúrgico[6]. Esse dia deve ser guardado como de preceito e celebrado com particular solenidade[7]. Também quando os fiéis se reúnem sem padre, em nossas comunidades, para celebrar o Dia do Senhor, alimentando a sua vida cristã com o Pão da Palavra de Deus, estão unidos à celebração da Eucaristia na Paróquia. Cresce essa união e participação real através da atuação dos Diáconos Permanentes e dos ministros não ordenados, autorizados a conservar e distribuir a Sagrada Comunhão às pessoas devidamente preparadas”.

A FESTA: Teologia da Celebração Litúrgica dos Sacramentos

O termo celebração possui um significado muito rico.[8]. Significa: “reunir pessoas em um lugar para realizar um ato de festa, freqüentar e solenizar um evento glorioso”. Celebrar é realizar algo em modo festivo.

Festa é sempre expressão de vida e de liberdade, de expansão de si e de plenitude, absolutamente gratuito[9]. A festa faz experimentar o lado exuberante da vida (fartura de comida e bebida, amizade, sorriso, alegria…).

A Criação, por exemplo, é o modelo originário da festa: ato gratuito, celebrativo e feliz por excelência (Depois da festa da Criação, embriagado pela beleza das criaturas, Deus descansou no 7º dia …”). A festa testemunha que a vida merece ser vivida na sua bondade e na sociabilidade. É um “sim” à vida pessoal, à vida da comunidade, à vida do mundo…

A festa é expressão máxima de comunhão – de “ser com” – na alegria (o homo faber se torna homo ludus). O “coração da festa” é a celebração: momento culminante e altamente expressivo do significado da festa (ao mesmo tempo memória e promessa).

Os sacramentos são celebrações festivas

A fé cristã é profundamente caracterizada pelo sentido da festa e da celebração. O domingo, por exemplo, dia do Senhor[10], é festa-celebração que sucede ao sãbbãth hebraico como o “oitavo dia” (Jo 20,26). Dia de festa máxima que recapitula em si a história da salvação e antecipa a promessa do “dia escatológico” (Ap 1,10), quanto, então, a festa não terá fim.

O motivo da festa sacramental é a ressurreição de Cristo, a “gloria Dei”, o kebôd JHWH (Jo 1,14), a epifania da glória de Deus e evento de transfiguração do homem à imagem do Unigênito de Deus.

O esplendor do Cristo Ressuscitado se manifesta, em plena verdade, na Eucaristia (e nos demais sacramentos). Daí brota o caráter festivo da existência cristã. A festa não nasce de uma euforia passageira, mas da consciência de que Cristo ressuscitado dá o seu Espírito para que todos participem de sua vitória. É um evento essencialmente pascal e a Eucaristia é a atualização de tal evento, no rito e na vida.

A festa sacramental cristã, embora celebre um fato de morte (e morte de cruz), esse fato é festivamente superado pela Ressurreição. A fé cristã se expressa como beleza, adoração, alegria. Se expressa, sobretudo, como consciência estética diante do mundo e da gratuidade da redenção de Deus na história.

A Igreja é a “Casa da Festa”

O gesto sacramental, para ser ato da Igreja, deve ser feito na forma estabelecida e querida pela comunidade da Igreja[11]. Seria impossível celebrar um ato eclesial se o rito mudasse continuamente; se as palavras, os gestos e os símbolos não fossem expressivos de uma “memória”.

Em nível eclesial o simbolismo dos sacramentos corresponde aos significados com os quais a ação de Deus foi expressa ao longo da história de Israel e, especialmente, no evento central de Cristo: a páscoa da ressurreição que, aliás, faz da Igreja um sistema específico de símbolos e sinais.

Em nível universal o simbolismo dos sacramentos corresponde aos grandes arquétipos simbólicos presentes nas religiões e nos diversos grupos sociais (Ex. de arquétipo: o pão como alimento universal)[12]

Em nível cultural o simbolismo sacramental é chamado à encarnar-se nos povos e grupos com tudo o que implica de “inculturação” e “aculturação” (seria incorreto impor a um povo a cor branca como sinal de festa, se para esse mesmo povo, o branco é sinal de luto e dor[13].

Trata-se, pois, de harmonizar as exigências do simbolismo universal e do simbolismo eclesial com o simbolismo cultural, pois todos os homens, de todos os tempos e lugares, são chamados à participação da festa da salvação.

Estrutura trinitária da festa sacramental

O conteúdo mesmo da celebração sacramental é o “mystérion” como evento trinitário de salvação em favor do homem: o mistério do Pai, o eterno amante; o mistério do Filho, o eterno amado; o mistério do Espírito, eterno amor do Pai e do Filho.

A origem e o “coração” de cada ato eclesial de celebração é este “mystérion” trinitário, pois a Igreja se faz assembléia celebrante como “povo reunido na unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (LG 1).

Cristo é o celebrante, o Pai é a fonte da celebração, o Espírito a força vital que plasma a Igreja e a torna capaz de atuar o “mystérion” no tempo (cf. São João Crisóstomo).

Vida Humana como Vida Eucarística:

A Eucaristia representa o fundamento e a norma de uma nova existência no Espírito; dos primeiros passos aos mais altos níveis da vida mística.

A vida humana entra a pleno título na celebração eucarística: do nascimento, à doença e à morte, da alegria à dor, da liberdade ao amor e ao serviço. O simbolismo sacramental entra no tecido do homem, o assume e o transfigura[14].

Em Jo 10,10, Jesus afirma que veio para que todos tenham vida e a tenham em abundância. De qual vida fala Jesus? Evidentemente da vida que está na origem de toda a vida possível: a vida do Espírito que ele doa à humanidade. Essa vida, porém, não deve ser entendida em termos espiritualísticos, desencarnados, de uma salvação apenas ultra terrena.

É uma vida que entra na vida do homem e a transfigura em todas as dimensões e níveis: estende-se ao ser humano uno e completo para fazer dele um homem novo, chamado a viver como “nova criatura” no Espírito.

Jesus se apresenta como “a vida” que dá vida ao mundo (Jo 3,16; 6,52-58; 7,37-39). Essa vida deve ser entendida como a ontologia trinitária que em Jesus se faz dom ao homem, tornando-o “partícipe da natureza divina” (2Pd 1,4; 1Jo 1,1-4).

A Eucaristia se coloca como “ato privilegiado” dessa vida nova, destinada ao homem concreto, atingindo-o na sua existência real, com suas interrogações, sua condição de pecado, suas expectativas e seus sonhos, para leva-lo à salvação oferecida e doada por Cristo.

Celebrar a Eucaristia é aceitar de se transformar sempre mais aquilo que se celebra, pois a dimensão vital dos sacramentos é inseparável da dimensão eclesial, e vice-versa.

Celebração sacramental e práxis cristã

A celebração da Eucaristia é uma celebração de fé vivida em comunidade e que chama/vocaciona outros para essa mesma fé.

É, também, uma evangelização em ato. Essa evangelização se realiza internamente no agir simbólico próprio do sacramento, na sua forma e em seu desenvolvimento ritual… o conjunto da ação celebrativa, com toda a densidade de mistério que desvela, constitui, pois, um ato de catequese mistagógica (daí a necessidade de um sério catecumenato dos sacramentos).

A celebração eucarística é um “testemunho de fé”: por meio da celebração e das pessoas que vivem intensamente o sacramento recebido, a Palavra é anunciada como missão, o testemunho é dado, a caridade é praticada. O testemunho cristão é a repercussão da “história salutis” na existência dos batizados e a tomada de consciência do papel que devem desempenhar no mundo.

Não é possível, da mesma forma, separar o sacramento do imperativo evangélico do amor. Não se pode dizer que reconhecemos o rosto de Cristo na eucaristia, se não o reconhecemos ao amar o outro. Não se pode partir o pão eucarístico se não se condivide o pão cotidiano com quem tem fome.

A questão é de não separar o encontro sacramental com Cristo com sua presença na Palavra e na história e com o contexto existencial da mensagem evangélica. Se Cristo é o sacramento fundamental da salvação, o encontro com Ele é autêntico somente se não for isolado da sua Palavra e da sua presença nos outros, com a escolha preferencial pelos mais pobres, excluídos, oprimidos, …

Assim, a festa cristã não é uma euforia passageira; ela é animada por homens e mulheres plenamente lúcidos dos problemas do mundo e capazes de assumir responsabilidades… homens e mulheres que se aproximam (através dos sacramentos) da fonte da graça do Cristo Pascal e se deixam julgar pela Palavra exigente de Deus, para que a festa seja verdadeira e seja festa para todos[15].

ESPIRITUALIDADE EUCARÍSTICA: Fica conosco Senhor (“Mane nobiscum Domine”)

a) A Eucaristia é Mistério de Luz (“Eu estou convosco todos os dias” Mt 28,20)

«Fica conosco, Senhor, pois a noite vai caindo» (cf. Lc 24,29).

Foi este o convite que os dois discípulos de Emaús, na tarde do próprio dia da ressurreição, dirigiram ao Viajante que se lhes tinha juntado no caminho. Carregados de tristes pensamentos, não imaginavam que aquele desconhecido fosse precisamente o seu Mestre, já ressuscitado.

Sentiam «arder» o seu íntimo (cf. Lc 24,32), quando Ele lhes falava, «explicando» as Escrituras. A luz da Palavra ia dissipando a dureza do seu coração e «abria-lhes os olhos» (cf. Lc 24, 31).

Por entre as sombras do dia que findava e a escuridão que pairava na alma, aquele Viajante era um raio de luz que fazia despertar a esperança e abria os seus ânimos ao desejo da luz plena. «Fica conosco» — suplicaram. E Ele aceitou.

Pouco depois o rosto de Jesus teria desaparecido, mas o Mestre «permaneceria» sob o véu do «pão partido», à vista do qual se abriram os olhos deles.

Esse é o primeiro aspecto do mistério eucarístico: á mistério de luz! Jesus designou-Se a Si mesmo como «luz do mundo» (Jo 8,12), e esta sua propriedade aparece bem evidenciada em momentos da sua vida como a Transfiguração e a Ressurreição, onde refulge claramente a sua glória divina. Diversamente, na Eucaristia a glória de Cristo está velada. O sacramento eucarístico é o «mysterium fidei» por excelência.

Em Emaús, o próprio Cristo intervém para mostrar, «começando por Moisés e seguindo por todos os profetas», como «todas as Escrituras» conduzem ao mistério da sua pessoa (cf. Lc 24,27). As suas palavras fazem «arder» os corações dos discípulos, tiram-nos da obscuridade da tristeza e do desânimo, suscitam neles o desejo de permanecer com Ele: «Fica conosco, Senhor» (cf. Lc 24,29).

b) A Eucaristia é fonte de Comunhão (“Permanecei em mim e eu permanecerei em vós” Jo 15,4)

«Reconheceram-nO ao partir do pão» (Lc 24,35).

A Eucaristia nasceu, na noite de Quinta-feira Santa, no contexto da ceia pascal. Traz, por isso mesmo, o sentido da comensalidade: «Tomai, comei… Tomou, em seguida, um cálice e… entregou-lho dizendo: Bebei dele todos…» (Mt 26,26.27). Este aspecto exprime bem a relação de comunhão que Deus quer estabelecer conosco e que nós mesmos devemos fazer crescer uns com os outros.

«Eu estou convosco todos os dias» (Mt 28,20).

Todas estas dimensões da Eucaristia se encontram num aspecto que, mais do que qualquer outro, põe à prova a nossa fé: é o mistério da presença «real».

Com toda a tradição da Igreja, acreditamos que, sob as espécies eucarísticas, está realmente presente Jesus. Torna-se substancialmente presente Cristo completo na realidade do seu corpo e do seu sangue. Por isso a fé pede-nos para estarmos diante da Eucaristia com a consciência de que estamos na presença do próprio Cristo.

Colocar a Eucaristia no Centro da Vida: De modo particular torna-se necessário cultivar, tanto na celebração da Missa como no culto eucarístico fora dela, uma consciência viva da presença real de Cristo, tendo o cuidado de testemunhá-la com o tom da voz, os gestos, os movimentos, o comportamento no seu todo. A tal respeito, o relevo que deve ser dado aos momentos de silêncio quer na celebração quer na adoração eucarística. Numa palavra, é necessário que todo o modo de tratar a Eucaristia por parte dos ministros e dos fiéis seja caracterizado por um respeito extremo.

A presença de Jesus no sacrário deve constituir como que um pólo de atração para um número cada vez maior de pessoas enamoradas d’Ele, capazes de permanecerem longamente a ouvir a sua voz e, de certo modo, a sentir o palpitar do seu coração: «Saboreai e vede como é bom o Senhor!» (Sal 34/33, 9).

«Permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós» (Jo 15,4).

Ao pedido dos discípulos de Emaús para que ficasse «com» eles, Jesus responde com um dom muito maior: através do sacramento da Eucaristia encontrou o modo de permanecer «dentro» deles.

Receber a Eucaristia é entrar em comunhão profunda com Jesus. «Permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós» (Jo 15,4). Esta relação de íntima e recíproca «permanência» permite-nos antecipar de algum modo o céu na terra.

Um só pão, um só corpo, mas esta intimidade especial, que se realiza na «comunhão» eucarística, não pode ser adequadamente compreendida nem plenamente vivida fora da comunhão eclesial.

A Igreja é o corpo de Cristo: caminha-se «com Cristo» na medida em que se está em relação «com o seu corpo». Cristo providencia a geração e fomento desta unidade com a efusão do Espírito Santo. E Ele mesmo não cessa de promovê-la através da sua presença eucarística. Com efeito, é precisamente o único Pão eucarístico que nos torna um só corpo.

Afirma-o o apóstolo Paulo: «Uma vez que há um só pão, nós, embora sendo muitos, formamos um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão» (1Cor 10,17). No mistério eucarístico, Jesus edifica a Igreja como comunhão, segundo o modelo supremo evocado na oração sacerdotal: «Para que todos sejam um só; como Tu, ó Pai, estás em Mim e Eu em ti, que também eles estejam em Nós, para que o mundo creia que Tu Me enviaste» (Jo 17,21).

«Um só coração e uma só alma» (At 4,32)

Em cada Missa, somos chamados a confrontar-nos com o ideal de comunhão que o livro dos Atos dos Apóstolos esboça como modelo para a Igreja de sempre. É a Igreja congregada ao redor dos Apóstolos, convocada pela Palavra de Deus, capaz de uma partilha que inclui não só os bens espirituais, mas igualmente os bens materiais (cf. At 2,42-47; 4,32-35).

c) A Eucaristia e Missão (“Partiram imediatamente” Lc 24,33)

«Partiram imediatamente» (Lc 24,33).

Os dois discípulos de Emaús, depois de terem reconhecido o Senhor, «partiram imediatamente» (Lc 24,33) para comunicar o que tinham visto e ouvido.

Quando se faz uma verdadeira experiência do Ressuscitado, alimentando-se do seu corpo e do seu sangue, não se pode reservar para si mesmo a alegria sentida. O encontro com Cristo, continuamente aprofundado na intimidade eucarística, suscita na Igreja e em cada cristão a urgência de testemunhar e evangelizar.

«Sempre que comerdes este pão e beberdes este cálice, anunciais a morte do Senhor até que Ele venha» (1Cor 11,26).

O Apóstolo coloca em estreita inter-relação o banquete e o anúncio: entrar em comunhão com Cristo no memorial da Páscoa significa ao mesmo tempo experimentar o dever de fazer-se missionário do acontecimento que esse rito atualiza. A despedida no final de cada Missa constitui um mandato, que impele o cristão para a pregação do Evangelho e a animação cristã da sociedade.

Missão ao serviço dos últimos:

A Eucaristia celebrada na comunidade impulsiona para um compromisso real na edificação duma sociedade mais eqüitativa e fraterna.

Na Eucaristia, o nosso Deus manifestou a forma extrema do amor, invertendo todos os critérios de domínio que muitas vezes regem as relações humanas e afirmando de modo radical o critério do serviço: «Se alguém quiser ser o primeiro, há de ser o último de todos e o servo de todos» (Mc 9,35).

Não é por acaso que, no Evangelho de João, se encontra, não a narração da instituição eucarística, mas a do «lava-pés» (cf. Jo 13,1-20): inclinando-Se a lavar os pés dos seus discípulos, Jesus explica de forma ineqüivocável o sentido da Eucaristia.

S. Paulo, por sua vez, reafirma vigorosamente que não é lícita uma celebração eucarística onde não resplandeça a caridade testemunhada pela partilha concreta com os mais pobres (cf. 1Cor 11,17-22.27-34).

NOTAS

[1] Vide a esse respeito a Carta Apostólica Mane Nobiscum Domine do Papa João Paulo II, de 07/10/2004.

[2] A celebração da Eucaristia é o centro e o cume da vida do cristão, onde se renova cotidianamente o mistério da comunhão com Deus em Cristo e se adquire força para a caminhada rumo à páscoa definitiva. É necessário, pois, conhecer e vivenciar as diversas dimensões da Eucaristia: sacrifício, memorial, sacramento de piedade, sinal de unidade, vinculo de caridade, banquete pascal (SC 7). É preciso descobrir, espe­cialmente, a dimensão eclesial da Eucaristia e sua significação como sinal de esperança para a vida cristã. Deve-se amar a Eucaristia como realidade que contém todo o bem espiritual da Igreja e de onde emana toda a sua força (SC 10). A maturidade espiritual encontra o seu centro na eucarística. Ela alimenta, renova a vida, une mais indelevelmente a pessoa com Cristo. A pessoa é tanto mais humanamente madura quanto mais eucaristizada ou cristificada. A Eucaristia integra, dá equilíbrio, personaliza, identificando a pessoa com o próprio Cristo, Sumo Sacerdote.

[3] Vide a respeito Carta Encíclica Ecclesia De Eucharistia do Papa João Paulo II, de 17/4/2003

[4] Cathechese Tradendae, 226-229

[5] Vide, por exemplo: Papa João Paulo II. Carta Apostólica Dominicae Cenae de 24 de fevereiro de 1980.

[6] Cf. SC 106

[7] Cf. Cân. 1246 e 1247

[8] Veja: Instituto generalis missalis romani do Papa Paulo VI

[9] Cf. J. Moltmann. Sul gioco. Milano: 1971

[10] Vide: Papa João Paulo II. Carta Apostólica Dies Domini de 31 de maio de 1998

[11] Vide Instrução Redemptionis Sacramentum de 25/3/2004.

[12] O Arquétipo remete ao Arcanum, ao fundamento primeiro, à origem de tudo, a Deus…

[13] vide a respeito SC 37

[14] Pode ser visto em termos de: Temporalidade: A celebração eucarística é realizada como memória no tempo da Igreja. É recordação do passado, presença e anuncio do futuro. Através do sacramento, a temporalidade do homem é inserida no contexto do “já” e do “ainda não” da salvação. Enquanto inserido no tempo, o ato sacramental põe o crente diante da opção fundamental da fé cristã. Ele é chamado a decidir-se e, dessa decisão, depende o seu “hoje” e o seu futuro definitivo. Corporeidade: o gesto sacramental, na sua forma simbólica, é um ato essencialmente corpóreo. A corporeidade entra na celebração sacramental seja na forma expressiva litúrgica prevista pelo rito, seja no simbolismo do corpo com respeito à pessoa, à sua espiritualidade, inteligência, vontade e afetividade. Sociabilidade: a celebração sacramental é evento radicalmente social e socializante; é uma experiência de comunhão/comunidade. A assembléia cristã reunida é uma “metáfora em ato” do projeto de comunhão querido por Deus.

[15] Cf. R. Schultz. La tua festa non abbia fine. Brescia: 1971

Côn. Dr. José Adriano

Retiro realizado para a Catequese da Região Santana em 29 de maio de 2005

Sobre conegoadriano

Doutor em Teologia Moral, professor, Sacerdote
Esse post foi publicado em Eucaristia, Sacramentos. Bookmark o link permanente.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s