Notas de Cristologia

O mistério da encarnação está no fato de Deus se fazer homem. A cristologia mais antiga (Fl 2,6-11) exprime esse mistério a partir da pobreza.

Na Antigüidade via-se na prosperidade o caminho normal do sentido da vida. Se alguém não enriquecia era porque não trabalhava. Toda a história de Israel foi uma pedagogia contra o elã, segundo o qual “o rico é feliz porque trabalhou, o po­bre infeliz porque não trabalhou”.

No decorrer de toda a tradição bíblica, o pobre passou a ser o grande sacramento: aquele que interpela e provoca a mu­dança no relacionamento humano, obrigando a tomar consciên­cia.

O pobre manifesta uma situação de injustiça, é o clamor vivo da justiça. Diante de uma situação de in­justiça, emerge o apelo de transformação. Onde há um pobre a história toma um dinamismo novo em consciência, fazendo com que se ultrapasse o relacionamento opressão-pobreza para se chegar a uma si­tuação onde a ação de Deus se manifesta. De fato, em Is 53, o mundo futuro é apresentado através da figura de um po­bre que restabelece a justiça. Assim, pobreza e justiça equivalem a um binômio divino. Do mesmo modo, o Messias, ao entrar em Jerusalém montado num burrico, exprime o de­sejo de li­bertar os homens dos poderes do mundo.

A figura do pobre passou a ser o sinônimo do humano, a rea­lização da vida na história de acontecimentos que expri­mem o que Deus quer e é. A presença do pobre irrompe como um apelo novo. Daí compreendermos porque o Livro da Sabedoria (cap. 2) propõe a definição do homem como aquele pobre que é justo e, portanto, “imagem de Deus”.

Cristo e a Pobreza: O tema da pobreza e dos pobres adquire sua máxima sig­nificação em Cristo. A Teologia Cristã mais primitiva expressou o mistério da encarnação em termos de pobreza, a partir da categoria do Cristo Servo. Assim, a me­lhor ontologia é a cristologia de Fl 2. É possível, dessa forma, compreender a razão pela qual Jesus de Nazaré se servia da figura do Servo de Iahweh quando queria definir quem ele era. “Ele veio para servir e não ser servido” (Mc 10,45). Jesus de Nazaré é o pobre por excelência. Ele é po­bre por sua vida humana e po­bre porque se esvaziou até a última gota da vida humana. Ele se apresenta, então, como o Revelador do Pai, e do Espírito que assegura a vida do Reino (Mt 11,25-27), como o pobre e humilde de coração. É claro que, se não for bem compreendida, a pobreza de Cristo pode se tornar um ícone colorido que aliena a consciência. Por isso, é preciso saber que o Cristo pobre é o Cristo rejei­tado pelo poder, pelo saber e pelo ter. A hu­manidade do Filho de Deus se manifestou no conflito do seu tempo e aí, Cristo não existiu para si mesmo, mas para revelar o Pai (“Quem me vê, vê o Pai”). É por isso que o pobre é a maneira própria de manifestar o mistério de Cristo como “imagem de Deus”.

A máxima expressão da pobreza de Cristo é o fato mesmo de sua Encarnação (Kénosis) na qual, por obediência ao Pai, sendo de condição divina, chega até o desprendimento total. Ao realizar sua obra de redenção na pobreza e perseguição, “existindo na forma de Deus… anulou a si mesmo, tomando a forma de Servo” (Fl 2,6-7) e por nós “se fez pobre, sendo rico” (2Cor 8,9) e sendo “Santo, inocente, imaculado” (Hb 7,26); veio expiar os pecados do povo (Cf. LG 8). Do princípio ao fim, algo se impõe como uma constante, especialmente significativa na existência terrena de Cristo: a pobreza, assumida voluntariamente (Jesus nasce em um presépio, Lc 2,7; é reconhecido e acolhido por pastores, Lc 2,12, 16-23; é o “filho do carpinteiro”, Mt 13,55-57; trabalha com suas mãos, Mt 13,55; Mc 6,3; não tem onde “reclinar a cabeça”, Lc 9,58; morre despojado de tudo entre os malfeitores, Mt 27,38).

Por isso, a razão mais profunda da vida pobre de Cristo se encontra em sua disposição de total entrega filial ao cumprimento da vontade do Pai. Cristo foi enviado pelo Pai a “evangelizar os pobres e a levantar os oprimidos” (Lc 4,18), “para bus­car e salvar o que estava perdido” (Lc 19,10), vi­veu em pobreza e fundou sua Igreja como testemunho em favor dos pequenos, humildes e pobres (Medellin, Pobreza 3).

A predileção pelos pobres: Para compreender o sentido da predileção de Jesus pelos pobres e para captar até onde deve ser imitado nessa predileção, é necessário fixar-se no papel que é assegurado na história da salvação, a partir da especial capacidade conferida a eles como primeiros destinatários da revelação divina:

“O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para evangelizar os pobres; me enviou a predicar aos cativos a liberdade, aos cegos a recuperação da vista; para pôr em liberdade os oprimidos, para anunciar um ano de graça do Senhor” (Lc 4,18-19).

O amor de Cristo pelos pobres inclui também as crianças, os enfermos, os pecadores, e em particular os humildes: “Bendito sejas, Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocul­taste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11,25).

Devemos insistir no aspecto de sua predileção pelos pobres, porque é um sinal messiânico e, de fato, os pobres cons­tituem a imensa maioria em todo o mundo. Assim, o Cristo se apresenta a todos, sem excluir ninguém, como aquele que, sendo pobre, vivendo em comunhão com os pobres, identificando-se com eles proclama, eloqüentemente, a universalidade da Salvação.

Jesus manifestou a verdadeira origem da eficácia evangelizadora. Expressa também que, ao preferir os humildes, os pequenos, os pobres, está escolhendo o caminho para salvar a todo homem e mulher. A pessoa humana constitui a finalidade de sua missão e, para realizá-la, ele entregou a própria vida num gesto de extrema pobreza, entendida como aniquilamento, doação e despojamento.

A pobreza de Jesus, como comunhão de vida com os pobres e como abertura ao dom total do Pai, impede equipará-lo com a figura de um lutador social. A originalidade e a radicalidade de sua pobreza constituíram, ao longo da história, o sinal mais eminente e o verdadeiro caminho da libertação integral do homem.

Jesus recusa, enérgica e reiteradamente, assumir o poder ou colaborar em algum movimento de luta contra a ordem sócio-política de seu tempo. Jesus não era nem um colaboracio­nista com o poder ro­mano, nem um zelota.

Jesus é, no entanto, um revolucionário no sentido mais pro­fundo dessa palavra. A originalidade de sua doutrina, seus critérios e suas atitudes constituem uma repulsa radi­cal, um juízo severo sobre a ordem social e o sistema de va­lores de seu tempo.

Jesus transmite à humanidade inteira uma doutrina original e criadora, centrada no amor, como força renovadora do homem e da sociedade. Põe as bases de uma nova ordem, entregando sua vida para o nascimento de um homem novo (Ef 4,24), de uma nova criação (Gl 5,15; 2Cor 5,17).

A originalidade da revolução, baseada no amor, proclamada por Cristo, parte da mudança radical e profunda do coração do homem (EN 18), até viver a comunhão fraterna como ex­pressão da comunhão com o Pai.

De fato, a vida e a mensagem de Cristo têm originado a mais profunda revolução na história humana. Essa revolução se tornará realidade entre nós, na medida em que to­dos os cris­tãos e todos os homens de boa vontade se decidam a colocar em prática, com toda autenticidade e até às últimas conseqüências, o que Jesus ensinou com sua Palavra e com seu exemplo. Certamente, o Evangelho não constitui um modelo histórico nem um projeto político-social. A quem o aceita, dá a inspiração e a força para elaborar e levar à prática aqueles projetos que vão respondendo às diversas situações da sociedade.

A Igreja participa da paixão e morte de Cristo, porque a opressão crescente, a fome, a marginalização, a tortura e outras formas de repressão, prolongam cruelmente esse horizonte de violência e morte. Em muitos leigos e leigas, reli­giosos e religiosas, sacerdotes e bispos, tem se cumprido a palavra de Jesus: “Se o grão de trigo não cai na terra e morre, fica só, porém, se morre, dá muito fruto” (Jo 12,24).

O Ressuscitado é nossa Esperança: Porém, Cristo ressuscitou. O povo de Deus, em meio a perseguição, vive com a esperança do triunfo definitivo de Cristo: “A Igreja vai peregri­nando entre as perseguições do mundo e o consolo de Deus, anunciando a cruz do Senhor até que venha (Cf. 1Cor 11,26). Está fortalecida com a virtude do Senhor ressuscitado, para triunfar com paciência e cari­dade de suas aflições e dificuldades, tanto internas como externas, e revelar ao mundo, fielmente, seu mistério ainda que seja entre penumbras, até que se manifeste em tudo o esplendor no final dos tempos” (LG 8).

Jesus infunde nos homens uma nova vida (sua própria vida) convertendo-os em homens novos, realizando com sua morte e ressurreição um mundo novo, uma nova cria­ção (Gl 6,19; 2Cor 5,17). Sua mensagem de pobreza, de paz, de justiça, de fraternidade (Mt 5,1-12, Lc 6,20-26; Mc 8,34; Mt 10,39; 16,24); subverte todo o sistema de valores e oferece, ao mesmo tempo, uma nova forma de atuar, ar­raigada em uma maneira nova de ser, pessoal e social, porque a graça nos faz filhos de Deus e irmãos uns dos outros. Em suma, um mundo novo, uma nova sociedade que começa aqui e agora e culmina no mais além e para sempre.

Toda injustiça, opressão e marginalização são contrárias a Nova Criação (Gl 6,15; 2Cor 5,17). Lesam a dignidade e os direitos humanos, impedindo aos homens, filhos de Deus, viver em justiça e liberdade. Hoje, a Nova Evangelização deverá anunciar este mistério e proclamar os verdadeiros valores do Reino. Pela força da fé e do amor, deverá provocar uma mudança no inte­rior dos homens para que, colaborando com o plano de Deus, construam uma nova sociedade.

Os cristãos, ao lerem a realidade social, econômica e política, e descobrirem situações desumanas de opressão, agravadas pela violência institucionalizada, verão nelas não só um rompimento da fraternidade, se não uma negação de Deus. Ao mesmo tempo, inspirados na mensagem de Jesus, não poderão optar pelos sistemas que geram essas situações in­justas, nem pelas lutas que agudizam mais o enfrentamento entre os homens. Na novidade do amor se encontrará a inspiração e a força para viver o compromisso cristão, de modo que, trabalhando pela superação de toda injustiça, vai-se construindo a fraternidade à qual todos os homens estão con­vocados por esse Deus que é amor. Assim, terá concretude o mandato do Senhor: “Amai-vos uns aos outros, como eu vos tenho amado” (Jo 13,34).

Côn. Dr. José Adriano

Publicado in: Revista de Cultura Teológica nº 5 (out/dez/1993) 133-137; ISSN 0104-0529

Sobre conegoadriano

Doutor em Teologia Moral, professor, Sacerdote
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