Sacramentos, uma introdução

Introdução

A Constituição Apostólica Sacrossanctum Concilium, em seu número 59, dá uma definição descritiva dos sacramentos, destacando a sua finalidade (santificação), sua dimensão originante de comunhão (edificação do Corpo), sua dimensão celebrativa (culto) e sua condição de sinal pedagógico (instrução). São sinais da fé. De uma fé recebida, alimentada e testemunhada de modo concreto (caridade). Diz textualmente: “Os sacramentos destinam-se à santificação das pessoas, à edificação do Corpo de Cristo e ao culto a ser prestado a Deus. Sendo sinais, destinam-se também à instrução. Não só supõem a fé, mas por palavras e coisas também a alimentam, a fortalecem e a exprimem. Por esta razão são chamados sacramentos da fé. Conferem certamente a graça, mas sua celebração também prepara os fiéis do melhor modo possível para receberem frutuosamente a graça, cultuarem devidamente a Deus e praticarem a caridade”.

Se tomarmos um dicionário antigo (L. Quicherat Dicionário Latino-português, Paris: Guarnier, 1924, p. 1053) teremos a definição etimológica: Sacramento traduz sacramentum. Literalmente significa um juramento ou coisa sagrada (sacrum). afirma que sacramentum é o “depósito que os litigantes colocavam nas mãos do pontífice (Quum poena se sacramenti peterent = quando os pleiteantes se arriscavam a perder o depósito. Non posse sacramentum nostrum justum judicari = que o nosso litígio não podia ser admitido em juízo. Justo sacramento contendere cum aliquo = pôr a alguem um pleito regular. Sacramento adigere = fazer jurar bandeira ou assentar praça. Aetate fessos solvere = dar baixa do serviço militar aos velhos. Dicatata jurant sacramenta diis = repetir a fórmula do juramento aos deuses…)”. A palavra sacramentum surge, portanto, em primeiro lugar de um vocabulário popular-militar-religioso como juramento, contrato, pacto ou caução.

Certamente, hoje nos convém muito mais uma definição/descrição por ressaltar a teologia subjacente à própria definição, por coloca-la no amplo contexto eclesiológico pós-conciliar e, especialmente, pelo grau de engajamento a que o sinal obriga àqueles que, recebendo o sacramento, se tornam sinais vivos para o nosso tempo.

Sacramentos e Tradição

Tantos autores repetem a citação do escritor Plínio, o moço, sobre a existência de um culto cristão chamado de sacramentum com o sentido de juramento sagrado. A insistência se deve ao fato do texto mostrar, com certa clareza, a liturgia eucarística já configurada como um sacramento e suas conseqüências éticas e políticas quanto à nova religião nascente. Trajano, imperador, recebeu de Plínio a seguinte notícia (ano 80 dC): “Reúnem-se em dias fixos, antes do amanhecer, cantam solenemente hinos a Cristo, como a um deus; comprometem-se mutuamente com um sacramento; não para alguma coisa perversa ou má em qualquer sentido, mas para não cometer banditismo, roubo ou adultério, e para cumprirem a palavra dada e devolverem o dinheiro emprestado quando lhes seja exigido pelo credor” (citado por LACERDA P. Os sete sinais do amor, S. Paulo: 1976, p. 43.)

Encontramos, também, nos Padres latinos dos II e III séculos traduziram musthrion com a palavra latina mysterium ou a equivalente sacramentum. Já a mais antiga tradução da Bíblia a havia empregado. Em Tertuliano, por exemplo, sacramentum significa juramento de consagração. Para ele, sacramentum, definido como engajamento, tinha sentido também místico, pois, a Militia Christi possuía um aspecto místico. Afirmava: “Nós fomos chamados ao serviço militar do Deus vivo, desde o momento em que respondemos as palavras do engajamento sagrado”. Assim, sacramentum diz respeito ao grego mystérion com toda a plenitude que a palavra implica (Ad Martyres, 3). No contexto cristão, sacramentum é a versão do termo grego musthrion que evoca o que já foi revelado, mas ainda não totalmente captado. Cipriano, por sua vez, toma o termo sacramentum para designar o Batismo, a Confirmação e a Eucaristia. O Batismo não é só lavacrum carnale mas também baptismi sacramentum (Cf. Firmiliano Ep. 75,13 Ad Ciprianum) porque é um rito de mistério, uma ação santa de iniciação, uma consagração que confere a semelhança da realidade divina e que traz a salvação (Cf. Ad Quirinum praef.).

Assim, Mystérion e Sacramentum não significam que haja um dependência casual entre os mistérios pagãos e os ritos cristãos. Pode-se dizer, porém, que o sacramento é chamado musthrion pelos gregos do século III e sacramentum pelos latinos. Tanto um contexto quanto o outro diz respeito a um rito com valor de consagração e, nesse sentido, é uma imagem plena da realidade da salvação. É através do sacramento que participamos dessa ação salvífica na sua forma mais elevada (Para o aprofundamento dos conceitos de Mystérion e Sacramentum e sua consequente evolução histórico-teológica, recomendo a leitura do artigo de Raphael SCHULTE. Os sacramentos individuais. In: Mysterium Salutis, n. 4 (1977) pp. 53-72).

Dois grandes doutores da Igreja, baluartes da teologia e da doutrina, foram Santo Agostinho (séc. IV) e Santo Tomás de Aquino (séc. XIII). Agostinho chamava “sacramento” a toda realidade criada, à medida que, vivida como indício ou sinal, levasse até o invisível e à manifestação do mistério de Deus. Para ele sacramento é de fato um sinal sagrado (sacrum signum) ou ainda a “palavra visibilizada” – visibile verbum (Sacramentum est sacrae rei signum, Ep. 138, PL 13, 527). Santo Tomás, por sua vez, afirmava serem os sacramentos sinais sagrados necessários à santificação. Esses sinais são sinais pascais, pois têm fundamento na Paixão de Cristo. Os sacramentos, dessa forma, são sinais sensíveis (res sensibilis) das coisas criadas, de Deus, do Reino, requerendo a Palavra para sua eficácia. Daí que o sinal sensível é a matéria e a Palavra é a forma (Summa Theologica, III q.60 a.1). Na esteira de Santo Tomás, o Concílio de Trento definiu o sacramento como a “forma visível da graça invisível dotada com o poder de santificar”. O sinal (forma visível) atualiza a graça de Deus (invisível) pela Palavra. O poder de santificar é a finalidade precípua de todo sacramento. Os sacramentos surgem como sinais em momentos privilegiados de uma realidade multiforme e permanente (DS 1639).

Atrás dessas formas incisivas se esconde toda uma estrutura de pensar, um modo específico de ver a realidade. É um pensar em sinais, símbolos e sacramentos, portanto, é um pensar sacramental.

A Teologia do Sacramento entre nós

Um bom esquema para a tratativa dos sacramentos é aquele fornecido pelos nºs 920 a 923 do documento de Puebla. Puebla parte da constatação de que o homem é um ser sacramental pois se expressa por sinais e símbolos. Esses sinais e esses símbolos são usados tanto por Deus como pelo homem. Eles estabelecem uma mediação: a comunicação entre o divino e o humano, que se faz através e por meio dos sinais sacramentais. Nessa sacramentalidade criacional, toda a criação se torna sacramento de Deus, porque mediação entre Criador e criatura (Cf. Rm 1,19) [DEUS> <SINAIS> HOMEM].

Jesus Cristo é considerado o Sacramento Primordial, enquanto “imagem visível do Deus invisível” (Cl 1,15; Jo 14,9). Cristo ocupa, por isso mesmo, o lugar do sinal-símbolo. Ele é, doravante, o grande sinal que realiza plenamente aquilo que significa e de que é portador: a salvação universal para os homens [PAI > <CRISTO> HOMEM]. “O encontro do homem com Deus invisível opera-se sob as espécies do sacramento primordial que é Cristo, presença salvífica de Deus entre os homens e pela mediação dos sacramentos que são os prolongamentos terrestres do Cristo glorificado” (R. LATOURELLE. Teologia, Ciência da Salvação. S. Paulo: 1971, p. 294).

Para Puebla, enfim, a Igreja é o sacramento de Cristo (Cf. LG 1) porque é seu corpo e sua presença entre os homens. Os sete sacramentos são gestos de Cristo na Igreja, e através da Igreja para toda a humanidade [CRISTO> <IGREJA> HUMANIDADE.

Dos gestos atualizados na e pela Igreja, segundo Puebla, tem proeminência a Eucaristia que é o centro da sacramentalidade da Igreja (Cf. SC 10).

A Criação de Deus, um só Sacramento

A criação não é um caos, desorganizado e sem sentido. As coisas do mundo constituem um sistema de signos que transmitem mensagens. O sentido das realidades terrestres e de todo o universo criado pode ser apreendido pelo homem, ele próprio um ser da criação. “O homem é o único ser capaz de ler e decifrar a mensagem do mundo: no efêmero pode ler o permanente; no temporal o eterno; no mundo, Deus” (L. BOFF. O Sacramento da Vida e a vida dos Sacramentos. S. Paulo: 1979, p. 9).

De fato, todo o real, palpável, visível, se torna sinal de uma outra realidade misteriosa que é revelada, e que funda todas as coisas, isto é, a criação se torna sinal do Criador. Teilhard de Chardin dizia, a esse respeito, que “tudo é sagrado” (In: A Missa sobre o Mundo).

Uma visão sacramental da criação se encontra já no Antigo Testamento. Os salmos, por exemplo, falam do céu, do firmamento e de todas as coisas que cantam a glória de Deus. A análise do Salmo 104 (Poema da Criação), por exemplo, revela a automanifestação de Deus na criação e na história. O salmista usa uma linguagem simbólico-sacramental para falar dos atributos de Deus: “vestido” de esplendor, envolto em luz “como num manto”, estendendo os céus “como tendas”, tomando as nuvens como “carro”, caminhando sobre as “asas do vento”.

Para o Novo Testamento, o universo criado transcende a mera categoria de causalidade e utilidade. O crente vê a criação e a história na perspectiva da manifestação contínua do desígnio amoroso de Deus para com o homem. Não é o homem que estabelece a existência de Deus. A iniciativa de revelar-se é de Deus mesmo. Ele fala através de cada obra sua e dá ao homem o discernimento necessário para que o conheça através dessas mesmas obras, como afirma Paulo: “O que de Deus se pode conhecer é para eles (os pagãos) manifestado, tendo-lho Deus manifestado. Desde a criação do mundo, com efeito, os atributos invisíveis de Deus, tanto seu poder eterno como a sua divindade, tornam-se reconhecíveis com a consideração da mente humana acerca das coisas criadas” (Rm 1, 19-29).

No mesmo sentido o Pe. Bernard Häring comentava: Toda a criação é uma palavra visibilizada, uma revelação dinâmica, uma mensagem, um dom e um apelo dirigido ao homem. O homem pode captar, sentir e viver. No centro de tudo está a presença daquele que fala, que doa e conserva in fieri (numa criação continua) todas as coisas. Quando, na verdade, o homem capta o sentido mais profundo, se estabelece então a comunicação e a intelecção da grandiosidade de Deus” (Morale e sacramenti. Roma: 1976, p. 31.

À luz da Palavra do Pai, pois, a criação, mediante essa Palavra, se torna uma grande realidade sacramental. As primeiras páginas da Bíblia atestam que Deus fala e tudo é criado. O prólogo do Evangelho de João também testemunha que Deus fala e seu Verbo Eterno se torna homem (Jô 1, 1-4).

Assim, pode-se concluir que a criação é sacramento de Deus porque manifesta o próprio Deus. É sacramento porque foi insuflada pelo seu Espírito e santificada pela sua Palavra. Se a criatura (homem) esquece seu criador (Deus) cai na alienação. Toda alienação, frustração, exploração, futilidade e perversão deriva do fato de que o homem não adora e não compreende que Deus está presente em toda a criação, e cada coisa e acontecimento são mensagens que convidam o homem a escutar e responder ao Criador. O homem moderno, por causa de uma estrutura de falsos símbolos e antivalores, tem dificuldade em ver e reconhecer na Criação o Criador.

No centro da criação, o homem é um ser sacramental

L. Boff, em sua Mínima Sacramentaria, reeditada recentemente, nos fornece um esquema prático para entendermos os diversos graus de relacionamento do homem com o mundo criado, num processo progressivo do mítico ao místico, isto é, do simbólico ao sacramental: a) diante do mundo, ao contemplar a natureza e as coisas que o cercam, sente estranheza e temor. É a fase mítica. Aos poucos – com o evoluir da compreensão dos fenômenos – substitui a surpresa pela certeza; b) chega, depois, à domesticação onde consegue dominar as coisas captando-lhes o sentido e utilidade. É o nível da ciência que enquadra os fenômenos dentro de um sistema coerente. É a fase do crescimento, portanto, científico-prática; c) por fim, ele se habitua. As coisas passam a fazer parte da paisagem humana e adquirem significado novo. Tornam-se sinais e símbolos do encontro, do esforço, da conquista e da interioridade humana. Os objetos transfiguram-se em sacramentos. É a fase mística da maturidade. A partir dessa fase, o homem pode fazer de um objeto um símbolo e de uma ação um rito. É na maturidade (fase mística) que o objeto se transfigura em sacramento. O homem, capacitado por critérios de compreensão e maturidade, pode apreender na água batismal a vida nova de Cristo, no pão consagrado o próprio Corpo do Senhor.

Na pastoral, muitas vezes, se pretende que o fiel compreenda e aceite verdades expostas no nível três, quando ele está ainda no um ou no dois. Eis uma tarefa para a pastoral sacramentária: levar o fiel, na vivência comunitária do Evangelho, a perceber o que é verdadeiramente um sacramento e para que serve.

A verdade do Sacramento é ulterior à compreensão do símbolo

As coisas não tem o mesmo sentido para todas as pessoas. O Apóstolo Paulo já percebera isso, notando que alguns vinham a Ceia Eucarística para matar a fome e saciar a sede (1Cor 11,20-22). E nisso Paulo não podia louvar os Coríntios, pois estavam eqüidistantes do verdadeiro sentido do sacramento. De fato, se celebra não para matar a fome física, mas para presencializar a Ceia do Senhor. A ação de comer para matar a fome e a de celebrar a Ceia é a mesma, mas o sentido é diferente. A ação de participar da Ceia é portadora de uma significação simbólica. Essa ação é constitutiva do sacramento. “Sacramento significa essa realidade do mundo humano das vivências profundas, dos valores e do sentido plenificador da vida”, como diz L. Boff na obra citada.

A transparência do Sacramento entre a Transcendência do Criador e a Imanência da criação

L. Boff (o. c.), servindo-se do contributo da filosofia, torna didática a compreensão que já possuíamos da Sagrada Escritura (Ef 4,6) quanto à onipresença de Deus em tudo (também no Sacramento). O autor ressalta as categorias ôntica (imanência), ontológica (transcendência) e o sacramento como elemento mediador, unificador e possibilitador do encontro Deus-homem, chamando-o de transparência. De fato, a relação das coisas criadas, visíveis, imanentes, com o Criador, Deus, transcendência infinita, se descobre numa terceira categoria: a transparência. Pode-se tomar o pão: tem peso, opacidade, consistência. É uma realidade imanente. Na celebração, porém, torna-se o Corpo do Senhor, que é uma realidade transcendente. O pão eucarístico recorda e presentifica por si (imanência), através de si (transparência), algo que está além de si mesmo (transcendência). O pão sacramental é agora diáfano para a realidade do alimento, da fome, do esforço, do suor e da alegria de repartir o pão. Por isso, o sacramento insere dentro de si uma experiência total e plena. O mundo não é dividido só em imanência e transcendência (céu e terra), existe uma categoria que acolhe dentro de si a imanência e a transcendência, que é a transparência.

A transparência quer dizer, portanto, que o transcendente, Deus, se torna presente no imanente (criação), fazendo com que este se torne presente para a realidade daquele. O sacramento é, pois, essa transparência. Participa da realidade de Deus e dos homens. Se o sacramento for tratado apenas como imanência, ele não será um verdadeiro sacramento. Da mesma forma, se for tratado apenas como transcendência. Imanência e transcendência não se excluem mas se tornam uma única e mesma realidade na transparência.

Aos “olhos de Deus”, tudo é sacramento

Para quem possui uma profunda experiência de Deus, Deus lhe parece como mistério absoluto e radical. Anuncia-se em tudo e tudo penetra. Tudo que existe é revelação dele. Para quem vive Deus dessa maneira, o mundo imanente se torna transparente para a realidade divina. Exemplo disso são os místicos. Um Francisco de Assis pode chamar a natureza de irmã, filha do mesmo Pai! A esse respeito dizia Santo Irineu: “Diante de Deus nada é vazio, tudo é dele um sinal” (Adversus Haer. 4,21). Tudo fala de Deus, de sua bondade, de seu mistério. A montanha não é só montanha, está à serviço da grandeza que ela encarna e evoca. O sol é mais do que o sol, ele é sacramento da luz divina que ilumina e aquece a todos (justos e pecadores). O homem não é apenas a mais inteligente das criaturas, é o maior sacramento de Deus, de sua sabedoria, de seu amor e de seu mistério. Jesus de Nazaré é mais do que o homem da Galiléia, é o Cristo, sacramento do Pai para todos os homens. A Igreja é mais do que a sociedade dos batizados, é o sacramento do Cristo ressuscitado presente na história.

Para quem tudo vê a partir de Deus, o mundo todo é um grande sacramento. Cada coisa, cada evento histórico, surge como sacramentos de Deus e de sua divina vontade. Na medida em que o homem se deixa amar por Deus, na mesma medida é premiado com a transcendência divina de todas as coisas. Assim dizia Paulo: “só há um Deus e Pai de tudo, que está acima de tudo (transcendência), por tudo (transparência) e em tudo (transcendência) (Ef 4,6).

Na ordem criacional, portanto, sacramento é tudo quanto visto à partir e à luz de Deus: o mundo, o homem, cada coisa, sinal, símbolo ou transparência do transcendente absoluto: Deus.

Jesus, verdadeiro Sacramento do Pai

Jesus é o sacramento universal da salvação. E, enquanto tal, ele está vivo e presente na história dos homens. Essa história produz sacramentos e anti-sacramentos. Na história recente da humanidade, um Hitler, é um anti-sinal ou um sinal de morte. No entanto, nessa mesma história, muitas vezes, o sentido dos fatos sinalizam a presença daquele que salva. Da mesma forma, muitos são os personagens que encarnam o sentido histórico da libertação, da graça, da bondade, ou da justiça. Os Padres chamavam essas figuras históricas de sacramentos. Por exemplo: Abraão (a fé), Daví (promessas messiânicas), Maria (realização das promessas). Hoje, pode-se incluir, a partir do contexto latino-americano: Oscar Romero, Santo Dias, João Bosco Burnier, Josimo e tantos outros. O martirológio latino-americano é uma realidade (Vide meu trabalho: Testemunho e Martírio na Igreja do Brasil, dimensão teológico-moral. Universidade Lateranense, Accademia Alfonsiana, Roma: 1990).

Jesus de Nazaré, Deus e Homem perfeito

Em Jesus, a história da salvação encontrou sua culminância. Por isso, ele é o sacramento por excelência. Não só sinaliza uma dimensão da salvação na história, mas capitaliza em sí mesmo toda a história e realiza a salvação para todos os homens. Ele é o Senhor da História (o) ku)rioj). Ele chegou por primeiro ao processo de hominização, como diria Teilhard, venceu a morte e irrompeu para dentro do mistério de Deus. Jesus, Deus-Filho, é o sacramento porque tornou-se homem, sinal visível e concreto do Pai.

Jesus, Sacramento Fontal

Jesus é a fonte de todos os sacramentos. Suas palavras, gestos e ações são sacramentos concretizadores do mistério de Deus. Cristo é a origem de todos os sacramentos. É o proto-sacramento, o exegésato, a exegese do Pai, o que explica e dá a conhecer o Pai (Cf. F. TABORDA. Sacramentos, práxis e festa. Petrópolis: 1987, p. 122).

Os Padres falavam de mysteria et sacramenta carnis Christi. De fato, “é dele que nos vem graça sobre graça” (Jo 1,16), “nele estava a vida” (Jo 1,4), “era a própria vida” (Jo 11,25). “Com Jesus de Nazaré apareceu a benignidade e o amor humanitário de Deus nosso Salvador” (Cf. 1Tm 3,2; 2Tm 1,10), ele é “a irrupção epifânica da divindade na diafania da carne visível, palpável” (Cf. Cl 2,9; 1Jo 1,2). É certo que Deus falou através dos sinais visíveis da criação e da história. Em Cristo, Palavra encarnada, ele disse sua palavra definitiva a todos os homens. Cristo é a transparência mediadora da visibilidade de Deus. “Ele é a imagem visível do Deus invisível; é o primogênito de toda criatura, nele tudo foi criado nos céus e sobre a terra, o visível e o invisível, tudo foi criado nele e em vista dele” (Cl 1,15-17).

Pe. Häring dizia, com muita propriedade, que “só podemos colher a finalidade e a mensagem do mundo visível pela Palavra vinda na carne” (o. c.). Uma tal visibilidade encontra maior ênfase na teologia de João: “quem é com o Pai nos é manifesto” (1,2). Cristo mesmo descreve o caráter de sua vinda na carne: “quem me vê, vê o Pai… não crês que eu estou no Pai e o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo, não as digo de mim mesmo, mas o Pai que está em mim, é ele quem faz as obras” (14,9-10).

Assim, o homem e o mundo circunstante não são somente coisas, mas uma mensagem que testemunha a presença criativa de Deus. Tudo tem o seu sitz in leben, o seu modo de ser, no contexto da história da salvação que, por sua vez, culmina na encarnação, morte e ressurreição de Cristo. Ele é a aliança visível na união hipostática de divindade e de humanidade e na solidariedade com todo o gênero humano. Graça de Deus presente e percebível, como diz S. João (1Jo 1,13).

Jesus, o Lógos de Deus é a Palavra Encarnada

Para compreender o sentido pleno religioso da criação e da história, deve-se partir do Cristo, Palavra encarnada. À luz do Cristo-sacramento é que se pode entender o que significa a história, a pessoa humana e a comunidade de pessoas e a inteira criação. Por outro lado, não se pode chegar ao conhecimento pleno e vital de Cristo se não se vê em toda parte a manifestação da presença amorosa de Deus.

A chave da visão sacramental da vida é Cristo encarnado, na sua plena humanidade, como afirma S. João: “Aquele que era desde o princípio, aquele que temos escutado, aquele que temos visto com os nossos olhos, aquele que temos contemplado e as nossas mãos têm tocado, do Verbo da vida – sim, a vida se manifestou e nós vimos e damos testemunho e anunciamos a vós a vida eterna, aquela que estava junto do Pai e nos foi manifestada – aquele que temos visto e ouvido, o anunciamos também a vós, afim de que vós entreis em comunhão conosco. E a nossa comunhão é com o Pai e com o Filho, Jesus Cristo” (Jo 1,1-3).

No conjunto dos sinais do amor de Cristo se incluem os sete sacramentos da Igreja. São momentos privilegiados, não exclusivos, de sua obra redentora. Eles nos ajudam a ver Cristo na sua plena humildade e na sua grandeza, em cada manifestação da sua vontade na nossa existência e na nossa experiência vital. Os sete sacramentos devem ser momentos privilegiados e continuados da redenção e libertação.

Jesus, Sacramento do encontro

Deus marcou encontro com o homem em todas as coisas. Cristo é o lugar do encontro por excelência. Nele Deus está de forma humana e o homem de forma divina. Em Jesus de Nazaré, morto e ressuscitado, Deus e o homem se encontram na mais profunda intimidade. Pelo Homem-Jesus se vai a Deus, pelo Deus-Jesus se chega ao homem. Ele é o caminho e termo final do caminho. É o caminho para o Pai, e o Pai está nEle. Por isso mesmo, de um lado Ele é a expressão palpável do amor de Deus, por outro é a forma definitiva do amor do homem. Cristo é o Emmanuel, o Deus conosco. É o Deus que traz a mensagem salvífica, ao mesmo tempo Ele é o Homem que responde ao Pai, abraçando o gênero humano inteiro

Cristo é o sacramento da aproximação de Deus a todos os homens. Quando Iahweh falou sobre o monte Sinai, Moisés sentiu tanto a sua presença que ousou pedir: “Senhor, mostra-me teu rosto” (Ex 33). Moisés fez uma experiência tremenda da santidade (mysterium tremendum) e da graça de Deus (mysterium fascinosum). Aos israelitas, porém, não era permitido aproximar-se nem mesmo aos pés da montanha. Com Jesus é diferente. Sobre o monte das bem-aventuranças, Jesus, vendo a multidão, sentou-se e seus discípulos se aproximaram dele (Cf. Mt 5,1). “Depois, desceu com eles e parou num lugar onde tinha muitos de seus discípulos e uma multidão vinda de toda a Judéia, de Jerusalém, de Tiro e de Sídon, para ouvi-lo e para serem curados de suas enfermidades… e toda gente procurava tocá-lo porque dele saia uma força que curava a todos” (Lc 6,17-19).

Jesus, Sacramento da união do homem com Deus

Cristo une, indelevelmente, a criatura ao seu criador, o homem a Deus. Conforme a Redemptoris Hominis nº 10, ele também “revela o homem ao próprio homem”. Ele é um com o Pai e com os homens. Cristo, que ressurge da morte, é o sacramento da justiça salvífica, da esperança e da misericórdia de Deus para conosco e nos impulsiona com seu amor para uma conversão plena. Ele é a cabeça de seu Corpo que é a Igreja. É também o primogênito dentre os mortos, a fim de que seja o primeiro em todas as coisas. “… Porque o Pai se compraz de fazer habitar nele a plenitude da sua divindade, por meio dele estabeleceu a paz com o sangue na cruz, e quer reconciliar consigo tudo o que existe sobre a terra e nos céus. E também vós, que uma vez éreis para ele estrangeiros e inimigos, por causa dos vossos pensamentos e das vossas obras más, vos tem agora reconciliado, com o corpo, na própria carne, com sua morte, para tornar-vos santos, imaculados e irrepreensíveis diante de si mesmo” (Cl 1,18-22).

O Apóstolo Paulo incentra a sacramentalidade de Cristo na sua morte e ressurreição, isto é, no mistério pascal. Para todos os homens e para cada época ele é o sinal visível da paz e da reconciliação: “O Pai nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e confirmou a nós o ministério da reconciliação” (2Cor 5,18). Cristo é, portanto, o “sinal eficaz e visível da reconciliação com Deus e da reunificação fraterna num único corpo” (E. SCHILLEBEECKX. Cristo, Sacramento dell’incontro com Dio. Roma: 1970). Ele é também, e acima de tudo, o sacramento da esperança para os pobres e doentes; é o sacramento da justiça para os oprimidos; é o sacramento da misericórdia de Deus para todos os homens. De fato, veio evangelizar os pobres, libertar os cativos, dar vista aos cegos, anunciar o ano da graça do Senhor (Cf. Lc 4, 13-10).

Jesus, Sacramento da Nova Lei e da Nova Aliança

Cristo, o sacerdote-profeta dá cumprimento a antiga Lei, também essa, sinal privilegiado da presença salvífica de Deus. Ele nos faz descobrir o valor das virtudes, dos dons e dos carismas encarnados na estrutura da vida humana. Ele veio para tornar plenamente visível e experimentável a cada homem a vida de Deus, e para convidar todos os homens a serem nele luz do mundo, isto é, sacramento de Deus para a sociedade e para o mundo. Assim, a participação no amor e na Lei de Cristo é, essencialmente, sacramental.

Na sua completa união com o Pai e na sua perfeita solidariedade com a humanidade, Cristo é a Aliança final e decisiva. Os Padres da Igreja, fiéis à Escritura, mostram quanto é cristocêntrica a mensagem da Nova Aliança: “Nós não colocamos nossa esperança nem em Moisés nem na Lei. As coisas agora são diferentes; temos uma Aliança e uma Lei definitivas, mais estável que qualquer outra, e que Deus manda observar à todos aqueles que querem tomar parte na sua herança. Nos foi dado Cristo, como Lei eterna e definitiva e como guia fiel. Fora dele não tem lei, nem preceito, nem mandamento válido. Pelas suas obras e pelos seus milagres que as acompanham, cada um pode reconhecer que ele é a Nova Lei e a Nova Aliança” (Justino, Diálogo com Trifon, 11 PG 6, 497/99. Vide também: Irineu, Adv. Haereses III, c. 16,3 PG 7, 923: “Ele estabeleceu um pacto em Jacó, pôs uma Lei em Israel, ordenando aos nossos pais de torná-la conhecida aos seus filhos”; Clemente de Alexandria, Stromata, 1,7 c.3, PG 9, 421: “Cristo é verdadeiramente a Lei, o mandamento e a Palavra Eterna”; Pastor de Hermas, Similitudines, 83,2: “A grande árvore que cobre a montanha e o vale e toda a terra, é a Lei de Deus que foi dada ao mundo inteiro. Essa Lei, porém, é o Filho de Deus, que é pregado até o confim do mundo”).

Dessa maneira, ninguém mais vive sob a lei, mas está sempre na Lei que é Cristo (Nomoi Kryston). Como a lei veterotestamentária foi proclamada Lei da Aliança, assim a Lei do Novo Testamento recebe significa e valor da Nova Aliança. De modo especial, Cristo mesmo é a Nova Aliança. “Essa aliança é a síntese absoluta e perfeita do vertical e do horizontal. Quem está unido a Cristo e vive nele transcende toda forma de alienação e encontra a síntese perfeita entre fé e vida” (B. HÄRING. Preghiera, integrazione tra fede e vita. Roma: 1974).

Jesus é a Palavra e a Resposta

Os sacramentos da fé exprimem a nossa alegre, humilde e grata acolhida da Palavra de Deus e, ao mesmo tempo, traduzem a resposta dinâmica de uma vida inteira. Cristo, o grande sacramento, como afirma L. Boff, é a síntese divino-humana da Palavra-mensagem e da vida-resposta.

Ele é a aliança definitiva e perfeita, pois é a Palavra na qual o Pai se expressa plenamente da eternidade e na qual, na revelação final, manifesta o seu amor e o seu plano de salvação. No mistério da encarnação, morte e ressurreição, foi dita a palavra definitiva de Deus para os homens. Cristo é, portanto, essa palavra viva e atuante, plenamente visível e compreensível para os pequenos e humildes, uma palavra que convida a uma resposta ativa. Na união sacramental com ele, é que o homem responde ao Pai. O homem responde pela história que constrói, pela vida em Igreja, em cada sacramento. Cristo mesmo é a resposta dada em nome da humanidade redimida, portanto, ele é palavra mas também é resposta.

Somente Cristo, Palavra do Pai, dá à criação o significado de palavra e de apelo e, ao homem, a capacidade de compreender o desígnio de Deus na história humana. “Tudo é reassumido nele para a resposta definitiva do amor adorante e do amor fraterno” (GS 22). Cristo responde desde o seu primeiro ato consciente até a efusão de seu sangue na cruz: “então eu digo: eis-me eu venho, para fazer, ó Deus, a tua vontade” (Hb 10,7). Ele não responde com um sacrifício ritual, mas faz de si mesmo a resposta perfeita oferecendo a própria vida para os irmãos: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46). Tudo isso tem um caráter sacramental, pois é acolhida e resposta em nome da humanidade, para salvar a todos. Cristo dá uma resposta vicária, responde por ele e por todos os homens. A resposta do homem ao Pai, é dada em união ao Cristo e por Cristo: “permanecei em mim e eu em vós. Como o ramo por si mesmo não pode produzir fruto se não estiver unido à videira, assim nem mesmo vós, se não permanecerdes em mim” (Jo 15,14).

A resposta do homem a essa palavra vinda na carne é dada em Igreja. A Igreja é a resposta do amor unificado em Cristo.

Igreja, corpo sacramental de Cristo

A Igreja como sacramento é a noção chave do Concílio Ecumênico Vaticano II. Ela é o Sacramento Universal de Salvação. “O Cristo constituiu seu Corpo que é a Igreja como um sacramento universal de salvação …o Senhor que havia recebido todo o poder no céu e na terra, fundou sua Igreja como Sacramento de Salvação” (AG 5). “Por meio da união com Cristo, a Igreja é como um sacramento ou sinal da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano” (LG1).

Esse conceito de Igreja-sacramento renova a própria imagem da Igreja. Contrapõe-se, de fato, a uma mentalidade que considerava a Igreja ensimesmada, tratada negativamente como sacramentalista.

O Concílio desvelou sua verdadeira face. É uma Igreja que está no mundo como fermento na massa, “não interessada em aumentar seu poder, mas em preparar seus filhos para o Reino” (Juan Luis SEGUNDO. Massas e minorias, p. 48). Uma Igreja que não é tudo mas existe para o bem de todos. Uma Igreja, enfim, de comunhão e participação, conforme reafirmado em Puebla.

A Igreja é, portanto, sinal-sacramento da união de Deus com a humanidade e da humanidade consigo mesma. É sinal e instrumento de salvação. Ela é o Sacramento de Cristo porque contém e manifesta Jesus Cristo, do qual é o próprio corpo (pléroma). Participa e atualiza a presença sacramental de Cristo. Cristo continua nela e através dela a manifestar sua presença no mundo. A Igreja, nesse sentido, é o prolongamento de Cristo e sua face visível. “A Igreja-sacramento se define em relação ao desígnio salvador cujo cumprimento na história ela revela e significa aos homens” (Gustavo GUTIERREZ. Teologia da Libertação. Petrópolis: 1975, p. 260).

Somente à luz de Cristo e através dele a Igreja pode ser sinal eficaz de salvação. Não se pode entender a Igreja sem Cristo. É Cristo quem participa sua sacramentalidade à Igreja. Através da ação da Igreja é Cristo mesmo que vai ao encontro do pobre, do doente, daquele que sofre. É por causa de Cristo que a Igreja condivide com o povo sua mensagem, vivendo plenamente a vida do povo na alegria e na dor. Sua ação libertadora emana do Cristo e é motivada pela fé. É a fé que faz descobrir a presença do Cristo Ressuscitado. Por isso a Igreja foi chamada pelos Santos Padres como Mirabile et ineffabile sacramentum.

Assim, vista sob o prisma sacramental, a Igreja – mais do que uma organização social – é um organismo vivo, mais do que instituição é comunidade de salvação. Se auto define como o Corpo de Cristo (Cf. Cl 1,24). A Igreja se auto-compreende como sacramento de salvação quando tudo nela está ordenado a tornar visível Jesus Cristo, que é o Sacramento Primordial (a liturgia com seus ritos, os elementos materiais, as pessoas, o ministério pastoral, a legislação canônica, a legislação financeira, etc.). Ela tem a obrigação de deixar transparecer em suas estruturas visíveis a mensagem de que é portadora. “Deve ser, em outras palavras, tanto o sinal como o lugar de libertação do homem e da história” (Modesto de OLIVEIRA. Teologia e Ideologia. Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, S. Paulo: 1980, p. 3 (Tese doutoral).

Igreja, Sacramento originante

A realidade histórica e visível da Igreja na sua totalidade é sinal e instrumento de salvação para o mundo. Cristo e, partindo dele, a Igreja recebe o nome de sacramento originário. Ela é o lugar primordial da graça que o Espírito comunica em cada sacramento. Os sete sacramentos, nesse sentido, chegam até o homem por intermédio da Igreja, o grande sacramento. São gestos de Cristo na Igreja e são recebidos em comunhão com ela. Os sacramentos todos vem de Jesus Cristo quanto a sua essência e o seu significado mais profundo. A Igreja, porém, tem a liberdade e a autoridade para celebrar e ministrar os sacramentos. “Ela é assim a matriz e a guardiã desse tesouro que o divino Mestre lhe confiou para o bem dos homens” (CNBB. Diretório dos Sacramentos. S. Paulo: 1982, p. 29). Por isso, para celebrar os sacramentos é indispensável a união com ela. A Igreja é, pois, essa fonte sacramental da qual seu Mestre e Senhor faz brotar os seus gestos salvíficos.

Igreja, Sacramento promotor da Unidade no Espírito

A missão de Cristo é chamar todos à unidade, à glória do único Deus, criador e Pai, no Espírito Santo. Cristo Pastor é o que convoca e serve. Assimilada e configurada a Cristo, a Igreja é nele também sacramento da unidade. Ela é eleita entre o não-povo para se tornar povo-eleito.

Cristo é o sacramento perfeito. Todos os outros sinais são válidos nele e em vista dele. Ele é a síntese perfeita entre o amor de Deus e o amor do próximo. O amor de Deus e do próximo é o cumprimento da Lei (Cf. Rm 13,10). Ele é a síntese entre o amor do Pai e o amor redentor da humanidade, entre justiça e atenção para com todos os homens. De modo análogo, o mesmo vale para a Igreja. Ela se manifesta autenticamente cristã enquanto, na vida e na estrutura, se torna um sinal visível e atraente do amor. Ela deve ser um sacramento que indica o mistério do amor, porque o amor possui o primado. É a força que plasma e vivifica toda a vida cristã.

É o Espírito quem dá unidade à Igreja. Cristo infunde sobre sua Igreja o Espírito Santo como sinal e penhor do seu infinito amor. É pelo Espírito que a Igreja participa, com cada um de seus membros, da resposta vital que Cristo oferece ao Pai como sacrifício por todos os homens. Cristo é, pois, o grande sacramento da presença do Espírito. É o Espírito quem cria a koinonia. É a graça do Espírito que reúne o povo de Deus na unidade (Ef 2,19-22). Pio XII dizia que “se Cristo é a cabeça da Igreja, o Espírito Santo é a alma” (Encíclica Mystici Corporis. ASS 1943, 220). Ele não somente habita, mas é o seu sopro vital. Nesse sentido, tudo o que tem valor na Igreja – ministérios, carismas, funções – só pode ser obra do Espírito Santo. “…na variedade todos dão testemunho da admirável unidade do Corpo de Cristo, pois a mesma diversidade de ministérios e de obras, reconhecem em um só corpo os filhos de Deus, dado que, todas essas coisas são obra de um único e mesmo Espírito” (ibidem; cf. também 1Cor 12,11). O Espírito cria a unidade na multiplicidade, por isso, deve-se reconhecer e aceitar a diversidade como proveniente do mesmo e único Espírito. A koinonia exige de nós, portanto, respeito pelos dons tanto dentro como fora da Igreja. Desta forma, a Igreja pode ser assim definida: comunidade reunida no Espírito que contém e testemunha Cristo ao mundo.

Igreja peregrina, Sacramento da história

A Igreja está em marcha, em construção. Atenta aos sinais dos tempos, ela própria é sinal sacramental para os homens desse nosso tempo. Cristo se inseriu no peregrinar da humanidade fazendo da história dos homens uma história de salvação. A Igreja o faz presente em cada evento.

A Igreja do Verbo Encarnado é uma Igreja peregrina. Já prefigurada por Abraão, pelas doze tribos vagantes no deserto e eleitas como Povo da Aliança. É uma Igreja sempre em viagem. Participa da caminhada dos homens respondendo aos reclamos do tempo presente.

Ela esteve e está presente no mundo de várias formas: nos primeiros séculos não possuía grandes construções e instituições. Estava presente por meio dos cristãos organizados em comunidades vitais. Era fermento na massa como atesta a Epístola a Diogneto: “aquilo que era a alma para o corpo, eram os cristãos para o mundo”. A história da Igreja tem acompanhado, par e passo, a história do mundo. É a mesma história.

Hoje, a Igreja do Concílio Vaticano II se define como o Povo de Deus presente em toda a vida humana, como sal, fermento e luz. É o conceito de Igreja Serva. Hoje, na América Latina, se faz uma opção preferencial pelos pobres (Cf. Puebla), porque, como diz o Diretório dos Sacramentos da Arquidiocese de São Paulo: “o pobre é o sacramento de Deus”. A Igreja sacramento está no coração do pobre, pois, “o Verbo Encarnado, que anulou a si mesmo tomando a forma de escravo, apareceu em aspecto de homem e se humilhou” (Fl 2,7-8).

A sacramentalidade da Igreja depende de cada um de seus membros engajados no esforço de reconciliação, de paz, de liberdade, de não-violência, de fraternidade e de progresso. A Lumem Gentium é clara a esse respeito: “Cada leigo deve ser diante do mundo uma testemunha da ressurreição e da vida do Senhor Jesus e um sinal do Deus vivo. Todos juntos, e cada um por sua vez, deve alimentar o mundo com os frutos espirituais (Cf. Gl 5,22) e nele difundir o Espírito, do qual, são animados aqueles pobres, humildes e pacíficos, que o Senhor no Evangelho proclamou bem aventurados” (LG 38).

Igreja, Sacramento escatológico

Com a vinda e a inserção de Cristo em nossa carne e na nossa história, começou a plenitude dos tempos. Em Mt 1,15, Cristo proclama no mistério pascal, que o tempo favorável é chegado e o Reino de Deus está perto. A encarnação, morte e ressurreição inauguram o Kairós, o tempo de salvação, tempo da Igreja, período intermédio entre a primeira e a segunda vinda de Cristo, entre a sua encarnação e o seu retorno. O Kairós é o tempo da alegre expectativa, mas também tempo de empenho e martírio.

Em tudo o que faz através da Igreja, Cristo continua a ser um sacramento que faz a todos “esperar que se realize a bendita esperança da manifestação da manifestação gloriosa do grande Deus e salvador nosso, Jesus Cristo” (Tt 2,13). “Nesse intervalo a Igreja é o sacramento de Cristo enquanto celebra no reconhecimento a esperança maior de maneira experimentável por todos os homens” (LG 48). É sacramento enquanto usa bem o Kairós, o momento presente. Para que a Igreja, Jerusalém terrestre, possa preparar bem a vida dos homens na Jerusalém celeste, é preciso: desligar-se das atitudes superficiais, do pecado, de todo desejo de prestígio terreno, porque, “os aparentes bens deste mundo passam” (1Cor 7,31). A própria vida cristã tem valor sacramental enquanto testemunha a dimensão escatológica da Igreja e o mistério de Cristo.

No tempo intermédio cada cristão tira toda a energia da tensão existente entre o já e o ainda não (H. KUNG. A Igreja. Lisboa: 1969, p.88). Os sacramentos da Igreja e a Igreja como sacramento devem ser um desafio a lutar constantemente contra o egoísmo e a viver na lei do amor. Uma apresentação da Igreja como sacramento coloca em relevo as virtudes escatológicas da esperança, vigilância, gratidão, pobreza e serenidade, e toda a vida dos fiéis ordenada aquele momento em que “Cristo ser tudo em todos” (1Cor 15,28).

Os sete sacramentos falam da vida do homem e da totalidade da ação de Cristo

A definição do Concílio de Trento de que “Os sacramentos da Nova Lei são sete, nem mais nem menos, a saber: Batismo, Confirmação, Eucaristia, Penitência, Extrema Unção, Ordem e Matrimônio” (Sessão VII, c. 1), já comporta um significado que ultrapassa o mero valor quantitativo dos sacramentos. O sete é um número clausus. É o símbolo da totalidade de uma pluralidade ordenada, ou o símbolo qualitativo da perfeição. É a soma de 4 + 3. Quatro é o símbolo do Cosmos: terra, água, fogo, ar, que são realidades imanentes. Três é o símbolo do absoluto: Pai, Filho, Espírito, realidade transcendente. A soma das realidades imanentes com a realidade transcendente traz como resultado o sacramento, que é uma realidade transparente.

Com Santo Tomás de Aquino (Sum. Th. II Pars, Q. 66, a.1) podemos, também, comparar os sacramentos a momentos importantes da vida humana que L. Boff chama de “eixos existenciais” e F. Taborda chama de kairoi. São momentos onde se manifesta mais a dependência e a relação com Absoluto, ou onde essa relação se torna mais intensa e mais consciente. Essa analogia pode ser percebida em cada um dos sacramentos:

No nascimento a criança é pura gratuidade e é um ser totalmente dependente. No Batismo, que é o novo nascimento, recebe como dom gratuito a vida nova de Cristo. A interdependência se estabelece entre o humano e o divino.

No crescimento, a pessoa livre se decide e se insere na sociedade dos adultos. Na Confirmação, que é o sacramento da maturidade cristã, o jovem assume responsabilidades na comunidade cristã, especialmente a de ser apóstolo e testemunha no mundo.

A vida nascida, crescida e maturada, necessita de alimento sólido. Alimentar-se é depender e participar da vida de outras pessoas. Pela Eucaristia alimenta-se da vida eterna. Comunga da vida de Deus e da vida dos homens.

O amor une vidas e depende da liberdade consciente de dois “sim”. O matrimônio explicita a presença de Deus no amor humano e o assume no amor divino.

Na doença a vida é ameaçada e enfraquecida. Torna-se ainda mais dependente. A Unção dos enfermos expressa o poder salvífico de Deus e estabelece a solidariedade da comunidade.

Na vida humana ocorre, muitas vezes, o pecado: ruptura e divisão com próprio homem, com os outros e com a divindade. A Reconciliação leva a fazer a experiência do perdão e voltar ao seio da comunidade.

O homem é chamado a servir: construir a comunidade humana, tornar a sociedade mais justa, descobrir o sentido da vida, reconciliar as pessoas entre si e com a divindade. Pelo sacramento da Ordem, pessoas são ungidas e consagradas ao serviço de Deus na construção do Reino.

Os sete sacramentos, portanto, não são momentos estanques, mas se entrelaçam. Com o número sete se expressa que a plenitude da salvação se comunica a totalidade da vida humana e se manifesta de forma significativamente palpável nos eixos fontais da existência.

Alguns sacramentos são caracterizantes

Os sacramentos irrepetíveis, Batismo, Confirmação e Ordem, imprimem caráter. Desde Agostinho, a Igreja ensina que o caráter é uma marca indelével que assinala a existência cristã como exigência de pertença a Cristo (S. Agostinho recorre a metáfora do caráter, marca a ferro e fogo feita nos soldados do Imperador, e a aplica na causa do não rebatismo dos hereges. É, portanto, um teologúmenon, para explicar os sacramentos irrepetíveis). Para a Escolástica, o caráter é um sinal impresso na alma. O Concílio de Trento descreve o caráter como um “sinal espiritual e indelével” (DS 1609).

Na verdade, existem acontecimentos que marcam a pessoa, não de maneira visível, mas no mais profundo de si mesmo. Os fatos decisivos são também marcantes para o ser humano. Assim, os sacramentos dão à pessoa uma posição determinada na constituição da Igreja e a marcam para uma função na comunidade. Essa marca é invisível, porque se dá em nível existencial e intersubjetivo. Conforme F. Taborda, é “uma realidade existencial e relacional é tão real como a ação de Deus, a memória do sujeito e a memória da comunidade”. O fato histórico, visível, social de receber os sacramentos caracterizantes é, enquanto fato histórico, irreversível. Mesmo que a pessoa se arrependa, pode voltar atrás, apostatar, mas será sempre a pessoa que recebeu o sacramento em questão, foi marcada, e essa marca é irremovível, porque é um sinal espiritual.

Os sacramentos caracterizantes são constitutivos da Igreja. O caráter sacramental exige, pois, um compromisso pessoal de seguimento a Cristo e um relacionamento visível e permanente com a Igreja, vale dizer, “o caráter sacramental é essencialmente salvífico, diz respeito à salvação ou perdição da pessoa na comunidade. O caráter sacramental exige que se viva o acontecimento que nos marcou” (ibidem).

Não obstante, não se pode ver o caráter como uma marca fatal ou fatalista da qual a pessoa não pode se livrar. Esse sinal espiritual, ou essa marca na alma, é o selo e a garantia da aceitação na fé para o próprio homem. Acolher os sacramentos na fé, é aceitar a aliança com o Deus da vida que sela sua amizade com esse sinal indelével chamado caráter. Os sacramentos irrepetíveis caracterizam a pessoa como filhos de Deus e membros da Igreja.

Jesus é o autor de todos os sacramentos

Se formos procurar o sentido sintático (não semântico) a autoria de Cristo com respeito aos sacramentos, apenas encontraremos a instituição de três sacramentos: Batismo (Mt 28,19); Eucaristia (Mt 26,26); Penitência (Mt 16,18-19). Para esses sacramentos, Cristo estabeleceu uma referência específica e explícita a si mesmo. Eles estão na raiz da própria vida. O Batismo corporifica o nascer novo em Jesus Cristo; a Eucaristia, a alimentação da vida nova em Jesus Cristo, a Penitência, o renascimento da vida ameaçada. Nesse ponto situa-se também a problemática ecumênica a respeito dos sacramentos, pois, segundo os reformadores, “é sacramento somente aquela ação eclesiástica portadora da graça de Cristo que, comprovadamente, foi instituída por Jesus Cristo em pessoa” (AA. VV. O novo livro da fé. Petrópolis: 1976, p. 366). O Concílio de Trento, porém, definiu que “os sacramentos cristãos foram instituídos por Jesus Cristo Nosso Senhor” (DS 1601, c.c. 1804, 2536). Para entender a definição de Trento, não se pode considerar os sacramentos como átomos isolados. Eles são a densificação e a corporificação da “vontade do Pai” (Cf. Ef 1,9), portanto, da economia da Salvação.

Os Santos Padres falavam do único mistério-sacramento que tem o Verbo Eterno como autor. Todos os sacramentos, pois, em última análise, vem do Verbo Eterno, isto é, de Jesus Cristo. A fé cristã descobriu a relação dos sacramentos com o Deus encarnado. Descobriu que a dimensão vertical divina se cruzou com a dimensão horizontal humana, e insere os sacramentos na história de Cristo, de tal forma que Cristo assume uma autoria específica. Pode-se então afirmar, num sentido lato, que Cristo é o autor dos sacramentos enquanto dá eficácia a todos os sacramentos. A partir disso, batizar não significa apenas participar da vida da divindade, mas mergulhar na vida de Jesus Cristo. Celebrar a Eucaristia é comer o Corpo do Senhor. Casar é simbolizar a união de Cristo com a Igreja. Tudo passa, portanto, a ter referência a Jesus Cristo. É ele quem confere eficácia ao rito celebrado. A força salvífica do rito não provém de qualquer qualidade do fiel ou da comunidade, mas de Jesus Cristo presente. Por outro lado, querendo a Igreja como sacramento universal de salvação, ele quis também os sacramentos, pois, os sacramentos são gestos seus na Igreja e, através da Igreja, para o mundo.

Ecumenismo: sacramentos, universalidade à ser conquistada

Os sacramentos cristãos são sinais da Nova Aliança e sinais do Reino. Eles são gerados na Igreja para todos os homens. Assim, o diálogo com as outras Igrejas deve contemplar a realidade sacramental. De fato, para o Guia Ecumênico da CNBB (Doc. 21 de 1979) os sacramentos, principalmente a Eucaristia, constituem o núcleo central da liturgia católica. Na compreensão teológica católica, eles “destinam-se à santificação dos homens, à edificação do Corpo de Cristo e ainda ao culto a ser prestado a Deus. Sendo sinais, destinam-se também à instrução… Conferem certamente a graça, mas a sua celebração também prepara os fiéis do melhor modo possível para receberem frutuosamente a graça, cultuarem devidamente a Deus e praticarem a caridade” (SC 59). Desse modo, a compreensão dos sacramentos é um dos pontos onde mais se percebem as diferenças tradicionais entre as diversas confissões cristãs e as convergências alcançadas pelo diálogo ecumênico.

A praxe ecumênica tem procurado a concordância quanto à matéria e à forma do sacramento e quanto à fé e à intenção de fazer o que a Igreja de Cristo faz. Tome-se, por exemplo, o batismo: pode ser por imersão, infusão ou aspersão e com a fórmula trinitária é, de per si, válido. Deve-se também presumir o contexto de fé da comunidade cristã e o objeto da fé que é o próprio Cristo e ainda, a séria determinação de querer fazer o que fazem os cristãos. Uma confissão não católica que assim proceder, batiza validamente. A Igreja católica só rebatiza alguém se há dúvida sobre o fato ou sobre a validade do batismo já conferido. Diz o Guia Ecumênico que Batizam validamente: Igrejas Orientais Separadas, Véteros Católicos, Anglicana, Luterana, Metodista. Igrejas que acreditam que o Batismo não justifica e por isso não é necessário, mas que, quando feitos, segundo a fórmula própria, podem ser aceitos pela Igreja Católica: Presbiteriana, Batista, Adventista, Congregacionalista, Assembléia de Deus. Igrejas cujo Batismo é duvidosamente válido e, por isso, deve-se rebatizar: Pentecostal unida do Brasil, Mórmons, Igrejas Brasileiras. Com certeza o Batismo é inválido nas Testemunhas de Jeová. Não tem Batismo: Ciência Cristã e Exército da Salvação.

As Igrejas Orientais

As Igrejas Orientais, embora separadas, têm verdadeiros sacramentos, principalmente – em virtude da sucessão apostólica – o Sacerdócio e a Eucaristia. Entre a Igreja Católica e as Igrejas Orientais separadas existe íntima união na fé. Há, portanto, um fundamento eclesiológico e sacramental para que “alguma comunicação nas coisas sagradas com essas igrejas, sem excluir o sacramento da Eucaristia, dadas as oportunas circunstâncias e com aprovação da autoridade eclesiástica não apenas seja permitida, mas algumas vezes até recomendada” (Ad Totam Ecclesiam, 55). Dessa forma, podem ser conferidos aos Orientais os sacramentos da Reconciliação, Eucaristia e Unção dos enfermos. Os católicos também podem receber esses sacramentos dos ministros orientais.

As Igrejas da Reforma

A eclesiologia da Idade Média se nutre principalmente em duas fontes patrísticas: em Cipriano de Cartago, para quem a integração do indivíduo na Igreja institucional, hierárquica, é condição indispensável para a salvação, e em Agostinho, que entende a Igreja como comunhão dos fiéis, ligados na caridade entre si e com Cristo. Estas duas concepções não se contradizem.

A Igreja, segundo Agostinho, é invisível no sentido de abranger vivos e mortos, militantes e triunfantes; mas ela é visível como manifestação da Cidade de Deus na ordem temporal, e nesta qualidade ela tem estrutura institucional, exerce autoridade e é – como também Cipriano admite – um corpus permixtum. Nos séculos posteriores se observava a tendência de acentuar a unidade da Igreja terrena e da celestial, culminando na bula Unam Sanctam (1302), que afirma a total coincidência da Igreja invisível com a instituição sacramental e salvífica na terra. Esta tendência é reforçada na polêmica contra as interpretações místicas e espiritualistas da Idade Média tardia.

Lutero, cujas primeiras reflexões eclesiológicas datam do tempo quando ainda não pretendiam criticar a Igreja Católica, afirma com Agostinho que a Palavra e a fé são muito mais constitutivas para a Igreja do que a administração dos sacramentos ou a hierarquia. Herege é aquele que desobedece à Palavra, não aquele que é excomungado pelas autoridades eclesiásticas. A Igreja verdadeira é a comunhão dos santos, convocados pela Palavra e unidos em fé e amor. Esta comunhão é necessariamente invisível, porque só Deus conhece os corações; mas ela pode se tornar uma experiência real, sobre tudo pelo poder da intercessão, que Lutero estima muito. A pregação pura da Palavra e o uso correto dos sacramentos são indícios infalíveis de que, lá onde acontecem, há Igreja verdadeira. A Igreja é a esfera do regimento espiritual de Deus. Segue-se disso que ali não há outra autoridade senão a Palavra. Os ministros da Igreja não exercem seu cargo para mandar, mas para servir. O uso da força coercitiva corresponde ao regimento temporal, ao Estado que, como Estado cristão, tem também o dever de estabelecer uma ordem externa, na qual a Palavra pode circular livremente.

Calvino, para quem a santificação da vida cristã pesa mais do que o protesto contra o institucionalismo sacramental, não se empenha tanto como Lutero em manter a distância entre Igreja visível e invisível. Observamos uma crescente valorização da primeira nas sucessivas edições da Instituição.

Calvino chegou a dizer que se trata de duas definições da mesma realidade: com respeito à comunhão interna com Cristo a Igreja é invisível, com respeito ao testemunho externo ela é visível. A Igreja visível é o instrumento de Deus para se chegar à verdadeira Igreja, ela é propriamente a “guardiã da verdade” e a “mãe dos fiéis” – expressões estas em que se revela a influência de Cipriano. Muito importante é para Calvino o exercício da disciplina cristã, que consiste na correção do pecador mediante a Palavra, e que em caso de necessidade deve recorrer à ajuda do Estado.

No tocante aos sacramentos existe na Igreja ocidental, desde Agostinho, uma interpretação espiritualista que distingue nitidamente entre o signum, ou ato externo, e a res, ou comunicação da graça divina. Ambos estão vinculados pela palavra que acompanha o sacramento, e que deve ser aceita na fé para tornar o sacramento efetivo. A outra interpretação, que na Idade Média ganhou cada vez mais terreno, entende a graça como uma realidade substancial, da qual os sacramentos são portadores.

Consolidou-se a noção da Eucaristia como um sacrifício oferecido a Deus, assim como a compreensão dos sacramentos como necessários para a salvação e como efetivos ex opere operato, ou seja, independentes da qualidade moral de quem os administra. O número de atos qualificados como sacramentos é variável, mas desde o século XIII se fixa em sete (batismo, crisma, eucaristia, penitência, matrimônio, ordenação sacerdotal e extrema unção). O Concílio de Trento estabiliza toda esta evolução, perpetuando o caráter da Igreja como dispensadora dos sacramentos, e neste sentido, instituição salvífica.

Lutero renova a concepção agostiniana de que o sacramento é “Palavra visível”, eficaz para quem o aceita com fé. Deus atua por meio da Palavra tanto como por meio do sacramento, sendo que este apropria e confirma ao crente o que a Palavra lhe promete. Só valem como sacramentos os que foram textualmente instituídos por Cristo, limitando-se portanto o seu número a dois. A polêmica contra os entusiastas levou Lutero a enfatizar cada vez mais o valor objetivo dos sacramentos.

Na opinião de Zuínglio, o sujeito agente nos sacramentos não é Deus, que confirma a fé do crente, mas o próprio crente, ou melhor: a Igreja, que recorda e representa simbolicamente os benefícios de Cristo, dando assim um testemunho público da sua fé. Calvino adota uma posição intermediária. Para ele Deus é o sujeito agente nos sacramentos, mas a transmissão da graça se dá de maneira puramente espiritual. Os sacramentos são o selo e o penhor da promessa dada na pregação.

Com respeito à Santa Ceia todos os reformadores lhe rejeitam o caráter sacrificial, por considerarem-no como negação do sacrifício único de Cristo. Decorre disso a rejeição do sacerdócio, das missas particulares, da adoração isolada da hóstia. No entanto, há divergência de opinião no tocante à presença de Cristo na Santa Ceia. Lutero acredita na presença real: corpo e sangue de Cristo, que graças à comunicatio idiomatum entre as naturezas divina e humana possuem o dom da ubiqüidade, se ligam misteriosamente com os elementos, porém, sem provocar neles uma mudança física (consubstanciação em vez de transubstanciação).

Calvino rejeita tanto a doutrina luterana da presença real como a interpretação simbólica de Zuínglio. Ele ensina que os fiéis que, ao receber os elementos, elevam o espírito para Cristo no céu, serão saturados com o alimento invisível da sua graça, tão certamente como eles comem e bebem os sinais visíveis da mesma. A doutrina sobre a Santa Ceia é considerada, talvez com pouco fundamento, como uma das principais diferenças entre os reformadores.

Os sacramentos exprimem a unidade da Igreja

Por serem os sacramentos expressão da unidade de uma comunidade de fé, no culto e na vida, estabelece-se que, “onde faltar esse unidade de fé, quanto aos sacramentos, é proibida a participação dos irmãos separados com católicos, sobretudo nos sacramentos da Eucaristia, da Reconciliação e da Unção dos enfermos. De outro lado, como os sacramentos constituem não apenas sinais da unidade como também fontes que proporcionam a graça (Cf. De Oecum, 8), a Igreja pode, com razão suficiente, permitir o acesso dum irmão separado a esses sacramentos. Tal fato se explica por algumas situações limites: perigo de morte, perseguição e prisão, impossibilidade de dirigir-se ao ministro de sua própria confissão. Outros motivos podem ser decididos pelo Ordinário ou pela Conferência Episcopal. “O católico, no entanto, só pode receber esses sacramentos das mãos de um ministro que validamente recebeu o sacramento da ordem” (Orientalium Ecclesiarum, 42-43).

O Símbolo e o Rito

Os sacramentos usam uma linguagem simbólica e se expressam através de símbolos (água, pão, vinho, luz, óleo). “A palavra símbolo era usada no sentido de uma senha. Um anel duplo, por exemplo, ou um caco de barro quebrado em dois. A aproximação das duas partes era sinal de reconhecimento, de unidade e amizade entre aliados” (AA. VV. Os Sacramentos, Coleção Iniciação à Teologia, n. 11. S. Paulo: 1980, p. 25). A primeira função do símbolo é criar um vínculo. O sacramento, como símbolo que é, cria um vínculo entre Deus e os homens. “Esse vínculo se manifesta pelo nosso inserimento na comunidade de culto, a Igreja, onde somos convidados a adorar o Pai em Espírito e em verdade” (B. HÄRING. Livres e Fiéis em Cristo, v. I. S. Paulo: 1979, p. 438).

O sacramento enquanto símbolo não só exprime, mas torna presente o significado. Faz compreensível e concreto o vínculo com Deus em seu núcleo central: Cristo e sua ação amorosa. Por isso, podemos dizer que o sacramento é o significante que contém o significado e o torna presente. É Cristo quem age na Igreja, seu sinal-símbolo mais próprio. “Ele age na Igreja através de homens e de homens pecadores” (AA. VV. Une introduction ala foi catholic. Paris: 1968, p. 328). O sacramento, além de ser sinal-significante (o pão significa o desejo de Jesus em nos alimentar), produzem o que significa. Aquilo que nos é significado nos é dado realmente (O Pão, Corpo de Cristo, nos alimenta …e alimenta para a vida eterna).

O símbolo revela o Mistério

O símbolo revela e desvela a mensagem do transcendente. A apreensão dessa mensagem exige do homem uma identificação com a mensagem ou , pelo menos, um desejo de acolhê-la no mais íntimo de seu ser. É preciso, portanto, que haja acolhida do significado mais profundo que só pode ser visto e apreendido por quem possui discernimento.

Foi assim com Jesus: Ele fez o bem, curou, perdoou os pecados, gerou esperanças, ressuscitou mortos, amou a todos, mas, foi também motivo de escândalo, como preanunciava Simeão: “Esse menino ser motivo de escândalo, de salvação e perdição para muitos em Israel” (Lc 2,34). Para uns ele foi Mestre, justo, santo, libertador, enviado de Deus, salvador do mundo, Messias, Rei, o próprio Deus feito homem; para outros foi beberrão e comilão, freqüentador de círculos suspeitos, subversivo, herege, louco, possesso do demônio e blasfemo (Cf. Mt 11,19; Mc 2,7.16; 3,22; Lc 23,2; Jo 8,48). Os que, diante de Jesus, modificaram sua vida, descobriram nele O “Messias, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,17), apesar dele ser o Filho do carpinteiro. Para esses ele diz: “Felizes os que não se escandalizaram de mim” (Mt 11,16; Lc 7,23). Os que estavam agarrados à tradição, aos interesses sociais, à religião estandartizada; os que esperavam um messias político e não tinham coragem de converter-se, viram nele um elemento perigoso que colocava em perigo a religião e o Estado.

Fé e sacramento

O sacramento exige critério de discernimento e, sobretudo, de adesão e engajamento. Por isso supõe a fé e, ao mesmo tempo, expressa a fé. A fé é uma atitude fundamental, desde dentro, de abertura ao Transcendente. O sacramento será plenamente simbólico quando, nos seus ritos, expressar a intimidade com esse mesmo transcende, ou por outra, o diálogo do homem com Deus no sinal-símbolo. Os gestos, as palavras, os ritos, enquanto expressam a vida de toda a Igreja, alimenta e amplia o âmbito da própria fé (SC 19). Da mesma forma, concretizam a fé de toda a Igreja em cada gesto seu.

O sacramento é ainda simbólico quando rememora, trazendo presente a experiência da graça; comemora, através do rito, a presença perene na vida humana daquele que é o Sacramento Primordial e autor de todos os sacramentos; antecipa o futuro, presentificando a Parusia, a vida eterna, a comunhão com Deus e o convívio dos santos. Toda a liturgia sacramental, nesse sentido, antecipa a gloriosa liturgia celeste.

O Rito

Os sacramentos se atualizam sempre dentro de um rito. Assumo neste trabalho a definição de rito proposta por Raymond Didier: “Rito é um agir social específico, programado, repetitivo e simbólico, mediante o qual se opera a identificação do indivíduo em seu grupo social e na sociedade global” (In: Os sacramentos da fé: a Páscoa em seus sinais. S. Paulo: 1977, p. 26). É um agir social porque v rias pessoas são envolvidas e desempenham papéis diversificados e complementares. É uma atividade coletiva em que cada um tem o seu lugar. Exige, portanto, comunicação entre os participantes. No rito tudo é simbólico: personagens, objetos, fórmulas. É programado e repetitivo pois supõe determinações prévias. Não há rito sem rubricas. Ao celebrarmos um rito sabemos o que vai acontecer porque já o fizemos antes e tornaremos a fazer. Opera a identificação no grupo social já que a pessoa descobre e afirma sua identidade através de um certo número de representações.

O sacramento e o rito

Também o sacramento cristão, analogicamente, é um agir social específico, pois é celebrado numa comunidade com personagens possuidores de papéis diversificados. É bem verdade que o rito sacramental ultrapassa o grupo social restrito e faz referência à comunidade mais ampla que é a Igreja. Pela celebração, enquanto mediação da comunidade local, é a Igreja de todo o mundo e de todos os tempos que se acha presente no rito cristão.

O sacramento supõe uma estrutura interna estável e determinada. Supõe um ritual. Possui uma unidade organizada de elementos diferenciados e não pode ser celebrado por qualquer um nem em qualquer situação. É programado e repetitivo porque é sempre memorial do evento da salvação: “Todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciareis a morte do Senhor até que ele venha” (1Cor 11,26).

Rito, tradição e criatividade

O rito pode facilmente degenerar em ritualismo se preocupar-se apenas com o que está escrito ou prescrito. É preciso criatividade, entendida, porém, de maneira adequada. A criatividade não exclui a tradição, mas esta deve ser a raiz que sustenta o crescimento do que é novidade. Por exemplo, por mais que se possa criar no rito do batismo, o fundamental será sempre a água (por ablução, aspersão ou imersão) como matéria, e as palavras “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”, como forma.

Não há sacramento que não dependa da morte e da ressurreição de Jesus. Eis aqui a verdadeira Tradição. Hoje, falamos como o Cristo falou, fazemos como o Cristo fez. O rito sacramental proclama assim que o evento Jesus domina a história e o tempo e é vivido hoje. Ele leva o cristão a reencontrar sua identidade mais profunda que consiste na participação da própria vida do Ressuscitado e na comunhão com todos os membros de seu Corpo.

A Palavra é a força do sacramento

No rito cristão é a Palavra que faz o Sacramento. Torna eficaz o próprio rito. Essa Palavra não é uma palavra morta, é a Palavra-que-fala. É Jesus Cristo, Palavra de garantia que Deus deu ao homem. É a palavra que transfigura o rito da refeição repartida em comunhão do Corpo e do Sangue de Cristo. Assim, no rito do Batismo, por exemplo, não basta derramar água sobre a cabeça da criança, é preciso dizer: “Eu te batizo, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”, cumprindo o que Jesus mandou. O rito seria vazio se não fosse a Palavra. A Palavra está presente em todas as circunstâncias da vida cristã, mais ainda, nos sete gestos sacramentais. Ela estava presente desde o princípio: Deus falou e fez a luz, a terra, os animais, o homem… Assim também o Cristo fala nos sacramentos. Sua Palavra tem o selo de garantia do Pai.

Jesus opera nos sacramentos

Jesus fala nos sacramentos, sua presença é pura dádiva do Pai. É graça. Desde o princípio a Igreja crê que a graça divina está infalivelmente presente na realização do sacramento desde que ele seja realizado na fé e na intenção de comunhão com a Igreja universal. A presença de Jesus Cristo, graça do Pai, não depende, portanto, da santidade do ministro, nem da santidade de quem vai receber o sacramento. Não depende nem dos méritos humanos, mas agem ex opere operato, isto é, uma vez realizado o rito sacramental, colocados os sagrados símbolos, Jesus Cristo se torna presente. Não em virtude dos ritos por eles mesmos (o que seria magia), mas em virtude da promessa de Deus mesmo. A causa da graça não é o homem, nem os símbolos por ele usados, mas unicamente Deus Pai e Jesus Cristo. Ao homem compete abrir-se à graça pela fé. Eis, portanto, a necessidade da fé para receber o sacramento.

Pode-se entender, pois, o ex opere operato: através de um enunciado negativo quando se diz, então, que a graça sacramental não é causada em virtude de alguma ação ou poder do administrante ou do beneficiado. É causada por Deus. É Cristo quem batiza, quem consagra, quem perdoa… O ministro lhe empresta seu ser. A graça acontece no mundo independente da situação dos homens; através de um enunciado positivo quando se diz que, realizado o rito, temos a garantia de que Deus e Jesus Cristo estão presentes pelo seu Espírito. O agir de Deus tem sempre o caráter de Palavra e mensagem. O opus operato fala do Verbo encarnado que se volta à inteligência e ao coração do homem. Foi nesse sentido que Santo Tomás introduziu seu tratado sobre os sacramentos: “Depois do que se refere ao mistério do Verbo encarnado, é necessário estudar os sacramentos da Igreja, cuja eficácia deriva do mesmo Verbo encarnado” (Sum. Th. III Pars, q. 60). Os sacramentos se constituem, enfim, pela proposta de Deus e pela resposta livre e ativa do homem (Cf. ARQUIDIOCESE DE SÃO PAULO. Diretório dos Sacramentos. S. Paulo: 1982, p. 11).

O homem co-opera nos sacramentos

É Deus quem age nos sacramentos apesar dos homens. Sua graça está presente independente dos homens, no entanto, ele quer contar com os homens. Criou-os livres e respeita sua autonomia. Ao homem cabe abrir-se em atitude de fé e não colocar obstáculo à ação de Deus em sua vida.

O Concílio de Trento afirmava que a graça divina jamais se nega, apesar da recusa humana. Lembrava também a necessidade da conversão e da remoção de todos os obstáculos para que o encontro divino-humano possa acontecer, a fim de realizar-se plenamente o sacramento (DS 1606). Em outras palavras, a graça está sempre presente em cada sacramento, no rito realizado, e é conferida àquele que não lhe opõe obstáculos (non ponentibus obicem).

A pastoral sacramentária, portanto, deve levar as pessoas a uma autêntica conversão, isto é, a acolhem na fé e em consciência a gratuidade do dom de Deus presente em cada sacramento.

Concluindo

Cada um dos sete gestos sacramentais da Igreja exige, pela sua própria índole, um compromisso sagrado. Exige conversão e novas atitudes. Exige ainda comprometimento com a causa da liberdade, da promoção integral do homem e de sua salvação.

Não se recebe um sacramento para obtenção de status, por tradição ou superstição, mas sim para se tornar testemunha do plano original de Deus. A lição vem dos primeiros cristãos: tinham consciência de que eram a alma do mundo, se indispunham com a ordem social vigente, comprometendo-se, por outro lado, com o martírio. Os sacramentos para eles não eram celebrados numa comunidade ritual apenas, mas expressavam toda a vida da comunidade de fé, culto e serviço.

Cristo mesmo, Sacramento Primordial, do qual emana todo sacramento e no qual cada sacramento encontra sua eficácia, inaugura o tempo novo da salvação (kairós), entregando plenamente e concretamente a sua vida para a salvação de todos.

Hoje, os sacramentos devem engajar na comunidade local e, mais ainda, na Igreja Universal, pois, ela é o sinal e instrumento profético e, toda ação sua, é ação libertadora. Assim, a vida eclesial, portanto, sacramental, deve iniciar um processo de libertação pessoal e comunitário-social. Deve levar à liberdade para a qual Cristo nos libertou. Lembrava o Papa Paulo VI que o papel da evangelização é precisamente o de educar de tal modo para a fé, que esta leve cada um dos cristãos a viver os sacramentos como realmente eles são: verdadeiros sacramentos da fé (EM 47).

Quem recebe um sacramento é consagrado, ungido com Cristo para libertar o pobre, o cativo, e instituir o ano da graça do Senhor (Cf. Is 61) e se torna participante da santidade de Deus, configurando-se a Jesus Cristo. Desse modo, a graça conferida nos sacramentos – que salva e redime o homem – é dom do único Pai e do único Redentor, Jesus Cristo, no Espírito Santo.

Côn. Dr. José Adriano

Publicado in: Revista de Cultura Teológica nº 33 (out/dez/2000); ISSN 0104-0529

Sobre conegoadriano

Doutor em Teologia Moral, professor, Sacerdote
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